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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Esmalte e Calça Comprida

                                        


Mamãe sempre foi uma mulher moderna e avançada para sua época.
Mamãe era o "homem" da casa, tanto da casa de Paipreto quanto da nossa casa.
Mamãe tomava as decisões, agia, decidia e papai só reclamava, arrumava desculpas, via defeito em tudo.
Mamãe era solteira e trabalhava na escola municipal de Poços, Cumaru.
Mamãe era vaidosa e adorava pintar as unhas de vermelho, fazer sobrancelha e manter os cabelos curtos; gostava também de usar calças compridas e isso tudo em uma época em que moças e senhoras de boa família tinham cabelo compridos, unhas curtas e sem esmalte e usavam saias ou vestidos do joelho pra baixo.
Mulheres muito modernas para a época eram tidas como prostitutas e chamadas de "rapariga".
Mamãe já estava casada e tinha três filhos, eu e meus irmãos Naldão e Rogério, e um dia voltou para casa vestindo calças compridas e com as unhas pintadas de vermelho; Paipreto não gostou nenhum um pouco.
Mamãe tentou argumentar, disse que não era "rapariga" e sim uma mãe de família e o que faz a pessoa é sua atitude e não a roupa que usa, mas meu avô disse que essas "mudernage" era coisa de "mulher dama" e "quenga" e a filha dele fora muito bem criada e tinha um pai cabra macho com sangue no olho!
Mãevelha tentava ajudar mamãe e dizia: "O João, e o que é que tem demais, meu véio? Não tem precisão de tu botar tanto bistaque, tu não sabe que Marlene gostar de andar ajeitada, homi? Oxe!"
Mamãe conseguiu convencer Paipreto que não tinha problema nenhum em ser vaidosa e ela continuou com seus cabelos curtos, a sobrancelha feita e as unhas sempre pintadas de vermelho.
Vermelho era a cor favorita de mamãe.


                                         

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Esmalte

Esmaltes Avon, os preferidos de Beatriz
                                             
Fui à casa da minha irmã Rosi e lá chegando encontro Beatriz que não fora à escola.
Perguntei porque ela faltara e ela disse que não estava se sentindo bem e que fica muito cansada quando tem aula de balé. 
Beatriz brincava com sua boneca Xuxa, que mais parece a atriz americana Glenn Close, e a vestia com roupas e sapatos que usou quando era pequena. Eu provoco: "Esse vestido era seu, Bibi?"
"Era sim"
"Você usou quando era criança?"
"Mas eu sou criança!"
Vejo uma caixa de bombons em cima de mesa e peço um e a resposta é: "Acabou tudo, tia Rejane"
"Não tem nenhunzinho, Bibi?"
"Não. Eu vou colocar a caixa no lixo reciclável".
Rosi separa o lixo reciclável e o lixo orgânico para a coleta.
Beatriz me pergunta se eu quero pintar as unhas e eu digo que sim; ela vai ao seu quarto buscar seus esmaltes e pergunta que cor eu quero: roxo.
Eu pergunto se todos aqueles esmaltes são dela e ela diz: "São sim, comprei da Avon".
Rosi sobe para nos ver e pergunta a Beatriz: "O que essa caixa de bombom está fazendo aqui no lixo reciclável?"
Beatriz dá um sorriso sacaninha e Rosi percebe porque ela colocou a caixa lá.
Terminada a pintura das unhas, Beatriz passa um esmalte secante, que para secar mais rápido e depois pinta cada unha com uma cor diferente. Está na moda.
Ah bom.
Pergunto se posso beijar-lhe os cabelos galegos avermelhados e ela faz charme e diz que não e que vai me ofender: "Sua palmeirense!"
"Isso é uma ofensa grave, Beatriz! Vou falar pra sua mãe!"
Beatriz ri gostosamente e volto para casa com as unhas coloridas.