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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Parabéns

Entre os muitos nordestinos que vinham passar uma temporada em nossa casa até arrumarem o próprio canto, havia um rapaz de pernas finas, bucho grande, pele e cabelos escuros e olhos puxados. A forma física desse simpático rapaz lembrava muito a do desenho animado Bob Esponja Calça Quadrada.
Esse interessante rapaz trabalhava em uma transportadora com outros colegas nordestinos que já estavam em São Paulo há mais tempo.
Um certo dia, quando chegam ao trabalho, recebem a triste notícia de que o dono da transportadora havia falecido.  Não há expediente e os funcionários vão ao velório para prestar as últimas homenagens ao distinto patrão.
Entre os familiares presentes está a filha do falecido, uma moça jovem e bonita que chora desconsoladamente.
O distinto rapaz mostra-se comovido com a situação e querendo ser cavalheiro, aproxima-se da moça para dar-lhe os pêsames: "Sinto muito pela morte de seu pai...Meus parabéns".
Papai ao saber do causo, disse: "Nesse caso é parabéns mesmo, pois a moça vai ficar rica com a herança deixada pelo pai, né não?".


                                             

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Fábrica & Firma

                                             


Quando chegamos a São Paulo mamãe conseguiu um emprego numa fábrica.
Eu andava pelas ruas do bairro com mamãe e observava tudo à minha volta. Tudo era novo para mim. 
Observava as chácaras, a igreja Santa Rita em construção, as ruas de terra, os terrenos baldios com cavalos, cabras e jumentos pastando, as casas simples da parte baixa do bairro e as fábricas. 
Eu estranhava o tamanho e a cor dos prédios das fábricas; eram todos grandes, feiosos e cinzentos. E todos seguiam a mesma planta, o mesmo desenho. Eu achava que todas as fábricas eram iguais.
Passei hoje por algumas ruas do meu bairro e reparei em alguns prédios que me lembraram as fábricas e firmas antigas. 
Mamãe andava comigo e dizia: "Nessa firma trabalha sua prima Ivete. É uma fábrica de papelão. Naquela firma trabalha seu pai. É uma fábrica de ferro (metalúrgica)".
E me habituei às palavras firma e fábrica para designar o local de trabalho de alguém.
Estranhei quando o irmão de papai, o tio Manoel Soares, chegou a São Paulo e foi trabalhar numa transportadora.
Mas transportadoras são firmas? São fábricas do quê?
Eu via as pessoas caminhando pelas ruas para irem ao trabalho e me entristecia um pouco vê-las passar pelos portões das firmas e ficarem um tempão lá dentro. Sairão quando? Só de noite? É muito tempo trancado lá dentro e longe da família. Pensava eu.
Eu pensava que essas pessoas não eram humanas, não tinham sentimentos. Já tinham se transformado em robôs trabalhadores, só isso. 
Eu pensava cada coisa...





                                    

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Moradia do Senhor

Morávamos nessa casa pequenina com quintal grande. Éramos vizinhos da transportadora gaúcha. Nela trabalhavam vários conhecidos nossos que tinham vindo de Pernambuco para tentar a sorte em São Paulo.
Um desses conhecidos, de nome Abel, era chamado carinhosamente por seus colegas de trabalho de Satanás. Os motivos são óbvios. 
Abel era um moço alto, magro, pele morena avermelhada e volumosos cabelos estilo Black Power. Era realmente o cão chupando manga. Com todo o respeito.
Um belo dia mamãe está estendendo roupas no varal quando ouve alguém chamar; era um dos rapazes da transportadora. Ele pergunta: "Tia, o Satanás tá aí?"
"Quem, meu filho?"
"O Satanás, tia".
"Deus me livre e guarde! Aqui não mora ninguém assim não, meu filho. Aqui mora os poderes de Jesus".
O rapaz ri do mal entendido e explica: "Esquenta não, tia. Satanás é aquele moço que começou a trabalhar a pouco tempo com a gente".
"Ah, sim, meu filho. Ave Maria. Que susto você me deu. É o Abel".