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sábado, 18 de maio de 2013

Éramos

                                 


Mamãe tem estado muito presente recentemente. Devem ser as preocupações com os filhos que sempre a preocuparam tanto.
Não estamos tão bem; uns de saúde, outros devido a problemas financeiros, outros com problemas que envolvem tudo isso e algo mais.
Sonho muito com mamãe e, como era de se esperar, ela está sempre trabalhando, sempre ocupada, sempre envolvida com algo.
Estávamos em uma casa simples, antiga, limpa e precisando de algumas reformas. Janelas meio quebradas, portas e gavetas tortas e precisando de novos puxadores e maçanetas, guarda roupas e cômodas velhinhos e muito usados. Tudo muito simples, mas muito limpinho.
Eu chegava de algum lugar e encontrava mamãe arrumando as roupas; mamãe adorava cuidar das roupas. 
Roupas branquinhas, muito bem lavadas e passadas por mamãe. Mas no meio da roupa branca eu encontrava meus dois aventais, um rosa e um azul, e dizia para mamãe que eles estavam sujos de pó de giz e não deveriam estar juntos com a roupa branca. Pensei comigo: "Acho que mamãe se confundiu".
Vou até a sala e tento abrir uma janela, mas metade dela está meio caída e tenho receio de abri-la, quebrar o vidro e papai vir com as broncas e sermões dele.
Começa a cair uns pingos de chuva e decido tirar uns travesseiros e almofadas que estavam no quintal para tomar sol. Penso comigo que papai não teria tempo de cuidar dos travesseiros e almofadas e ficará feliz por eu ter lembrado de fazê-lo.
Estamos eu e mamãe e depois chegam papai e meus irmãos, um a um. Foi uma sensação tão boa, meu Deus.
Estávamos todos na mesma casa, ao lado de papai e mamãe. Éramos apenas filhos de papai e mamãe. Éramos todos livres de problemas, de doenças, de achaques e dores físicas e emocionais. Apenas éramos.
Éramos livres. Não tinha o peso da vida e do tempo a nos pesar e a machucar os ombros.
Éramos uma família e chegávamos à casa simples um a um. Era um reencontro tão bonito, tão cheio de amor, paz, união, alegria.
Éramos apenas filhos de papai e mamãe.
Não tínhamos doenças, problemas, mágoas, dores, revoltas... nada disso. Éramos livres de tudo o que nos prende e nos faz sofrer nesse mundo "véio" de meu Deus. Apenas éramos.
Havia tanta leveza, tanto bem querer, tanto dengo, lundu, amor...
Tanta paz e serenidade.
Éramos apenas os seis filhos de papai e mamãe.



                                           


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Avental

                                 


Usávamos uniforme escolar: calça ou saia azuis, camisa ou camiseta brancas, sapatos pretos ou tênis azuis e meias brancas.
Estava na oitava série e mamãe já havia feito minha matrícula em outra escola para o colegial, o atual ensino médio.
A escola onde concluíra o primário e o ginásio, atuais ensino fundamental I e II, era municipal e o ensino médio só tinha nas escolas estaduais.
Início das aulas no ensino médio na nova escola e os alunos não usam uniforme, usam avental.
Mais prático, pois podíamos ir com qualquer roupa de casa e era só vestir o avental. 
Eu ficava observando as roupas e calçados das novas colegas da nova escola e me imaginava vestida nessas mesmas roupas tão bonitas e tão fashion. Mas as meninas tinham corpão, pernões, peitões, bundões, e eu era uma Maria Moleque compridona, magricela e sem atrativos físicos nenhum. Ninguém estava nem está interessado em beleza interior, a não ser que seja arquiteto ou decorador.
O avental servia para cobrir minha magreza e disfarçar minha falta de atributos físicos.
Mas o avental me fazia sentir inteligente, esperta, intelectual, séria e estudiosa; e eu era.
Mamãe lavava meu avental, o colocava para quarar e o deixava tão branquinho como coco; depois ela passava e fica impecável. 
Eu saía para a escola e mamãe me fazia as mesmas boas e velhas recomendações de sempre: "Vá com Deus e Nossa Senhora da Guia. Quando sair da escola venha direto pra casa. Não pare no meio do caminho..."
Eu voltava para casa vestida em meu avental branco como coco e me sentido muito adulta, madura e responsável; e eu era.
É isso.