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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mil

                             



Cheguei um pouco mais cedo à escola e já havia uma pequena fila de mães e pais esperando para assinar a matrícula dos filhos para 2015.
Alguns vão logo cedo para depois irem ao trabalho e outros aproveitam o horário de almoço.
É um assina aqui, um procura ficha de aluno ali, olha no sistema... E por aí vai.
Fiquei até suada com a trabalheira toda.
Às oito horas chegou a outra professora mais calma e ela me ajudou bastante; agradeci-lhe pela ajuda. A professora que fala pelos cotovelos não veio, graças a Deus.
O horário para fazer a matrícula é das sete e meia até o meio dia e vinte e depois das quatro da tarde às oito da noite. Faltam funcionários e meu horário de professora é das sete até o meio dia e vinte, mas sempre fico até chegar alguém do período da tarde.
Meio dia e sumiu todo mundo, como sempre. Continuei atendendo aos pais e lá vem a Tássia, tá se achando, dizer que já terminou o horário para assinar as matrículas e que os pais viessem mais tarde.
Discordei e disse que respeito esses pais e mães, pois muitos vêm do trabalho na correria só para assinar esse bendito papel e precisam voltar às suas atividades. Não é à toa que têm dezenas de reclamações desse povo mal educado e mal amado. Na boa.
Lembrei de mamãe, que pedia para sair por alguns minutos para ir à escola assinar nossa matrícula. Ela fazia hora de almoço mais curta ou ficava até mais tarde para compensar.
Engraçado que a Tássia não oferece ajuda, mas lembrar dos nobres regulamentos inúteis ela lembra. Vai encher a paciência de outro!
Fiz, faço e farei a matrícula dos filhos de todo e qualquer pai ou mãe que vier e seja isso durante o horário em que eu estiver na secretaria. E que ninguém venha botar bistaque no que estou fazendo.
Quer ver me arretar é botar defeito no que estou fazendo. Arre égua!
Muito cacique para pouco índio e ainda se preocupam com regrinhas tão tacanhas e tolas quando na verdade deveriam se preocupar em botar ordem na bagunça, folga e cara de pau que tomam conta da escola.
Fiquei com dó de um senhorzinho já idoso que viera fazer a matrícula e a moça disse que não podia mais não porque já passara do horário. Perguntei quando foi isso e ele disse que foi ontem, na hora do almoço. 
Eu saí ao meio dia porque não me sentia bem e deixei na secretaria pessoas que poderiam fazer o serviço, mas preferem dizer que não tem sistema, não encontram a ficha do aluno, que já passou do horário...
Ouvi muito isso dos pais e mães que foram à escola hoje.
O povo da secretaria não procura outras opções para facilitar a vida dos pais, simplesmente seguem aquilo que está estabelecido e pronto. É ou não é, simples assim.
Eu penso de maneira diferente e tento me colocar no lugar desses pais e mães e muitos tios, tias e avós que cuidam dos filhos, sobrinhos e netos.
Custa colaborar? Custa ser humano?
Mas gostam de ser tacanhos, me parece.
Muitas mães foram hoje cedo muito preocupadas e agoniadas com o fato de "terem perdido" a data para matricular os filhos porque "a moça" disse que era só hoje, que não podia fazer naquela horário, só mais tarde...
Não se preocupem, vamos fazer agora a matrícula do seu filho. Qual é a sala dele? Pronto.
Muitos pais e mães saem aliviados e agradecem tanto. Me entregam para Deus e agradeço e desejo-lhes o mesmo bem que me desejam.
Tenho mil e um defeitos e mil e duas qualidades e não consigo ser má, amarga e mesquinha como muita gente por aí.
Acho que é por isso que não quero me afastar do trabalho. Gosto de ser útil e tratar a todos com respeito.
Não posso consertar o mundo, mas o bem que faço a algumas pessoas me faz sentir melhor ainda.
Amanhã tem mais e eu vou trabalhar, nem tão firme e nem tão forte fisicamente, mas muito firme e muito forte de caráter e respeito, graças a Deus.
É isso.



Um elefante incomoda muita gente...
Gente ignorante incomoda, incomoda muito maaaais...
                                 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

José

                                    


Um senhor magro, de óculos, ralos cabelos brancos, roupas e jeito simples e segurando uma sacolinha plástica se aproxima do guichê: "Bom dia, gostaria de fazer a matrícula do meu filho".
Abre a sacolinha plástica e retira os documentos necessários. 
Confiro a documentação e entrego-lhe a ficha para que possa assinar; ele ajeita os óculos, segura a caneta e concentra-se por um momento no pequeno espaço destinado à assinatura.
A mão trêmula desenha lentamente as letras que compõem seu nome: José.
Fez me lembrar de papai.
É mais um José como papai. É mais um nordestino como papai. 
O jeito simples, o modo de ajeitar os óculos, os documentos levados em uma sacolinha plástica... Tudo me lembrou papai.
Deu uma saudade! Doeu uma dor boa, dessas que doem sem machucar, sabe?
Documentos entregues, assinatura feita, matrícula concluída: Está tudo certinho, o senhor pode ir.
Meu menino já pode vim pra escola hoje mesmo?
Pode sim.
O Senhor José agradeceu e partiu e eu fiquei com os olhos marejados de saudades, de lembranças, de memórias.
A gente é besta demais da conta, né não?
É isso.