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terça-feira, 31 de março de 2015

Refletir

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Sonhos bons e tristes.
Ouço música antes de dormir, às vezes. Espero os vizinhos tagarelas calarem a boca e enquanto isso ouço música com fone de ouvido, claro.
O bom e velho Rock 'n' Roll e a boa, velha e atualmente judiada MPB.
Enquanto a música tocava eu viajava nos meus pensamentos e alguns deles me deixaram alegres; outros tristes.
Dou risada sozinha quando lembro das nossa história, da nossa vida, agruras, problemas, coisas boas e outras nem tanto.
Lembrei de algumas pérolas do meu irmão caçula: "Café tem muita cafetina. Não como carne de porco, só pernil".
Lembrei do malfadado exame de próstata de papai: "Sou pernambucano, palmeirense e macho e ninguém vai enfiar o dedo..."
Lembrei das descobertas da minha sobrinha, que hoje, aos poucos, perde a inocência: "Sabe o quê eu descobri? Que faço aniversário no dia que eu nasci! Olha, meu coração está batendo!".
Lembrando e rindo sozinha com essas peripécias da família maluquetes que tenho.
Comecei a pensar na Teoria do Caos e a analisar, comparar e refletir sobre o tema e situações da vida. A Teoria do Caos é meio a Viúva Porcina na novela Roque Santeiro: a que foi sem nunca ter sido.
É o que estava escrito nas estrelas, destinado por Deus, determinado pelo Destino etc...
Se estava, por que não se concretizou, não aconteceu, não foi? Por quê?
Então essa Teoria do Caos é mais atuante, ativa e poderosa que o Destino ou até mesmo Deus? Será?
Sonhos bons, bonitos e muito tristes. Beleza com tristeza, combina?
Tenho sentido muita sede, fome e vontade de urinar durante a madrugada. Mesmo tendo jantado sempre acordo lá pelas quatro da manhã sentido tudo junto: fome, sede e vontade de ir ao banheiro.
Estou cansada, frustrada, revoltada, com certa raiva e certa tristeza.
Vai passar.
É isso.



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terça-feira, 24 de março de 2015

Analogia

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Fui ao consultório do cirurgião de coluna e fui de táxi, se sabe.
Geralmente o taxista me espera, mas hoje ele estava com muitas corridas agendadas e disse: "Não vou poder esperar a senhora terminar a consulta hoje porque também vou levar a outra 'véinha' ao médico. Tudo bem?"
Sim. Mas... Outra "véinha", pensei comigo. Acho que ele quis dizer outra cliente e que, por acaso, é uma velhinha.
Bom...
Levei radiografias e o exame de eletroneuromiografia para o médico e o diagnóstico foi: coluna doente e cirurgia. Tirar parafusos, colocar alguns mais para cima e consertar o restante da coluna que ainda está sem parafuso.
"Você tem um coluna doente".
Fiz a cirurgia de artrodese em 2009 e fiquei bem por uns três anos. Comecei a sentir dores e os velhos sintomas de antes por volta de 2012, mas fui levando com remédios e alguma fisioterapia. Segundo semestre de 2014 e tudo começou a piorar ainda mais: dores mais fortes, entrevamento, pernas fracas e outros problemas.
Tudo começou a piorar após a Copa do Mundo; dever ser trauma do 7x1 da Alemanha em nós, disse minha irmã Rosi. Eu andava com bengala, mas agora uso o andador; a bengala não dá mais apoio.
Voltava para casa com outro taxista e ele perguntou se eu queria ir pela Radial Leste ou a Marginal Tietê: "Onde estiver menos pior". Em São Paulo é assim, trânsito difícil.
O taxista fez perguntas e disse que a esposa também é professora e falamos sobre vários assuntos. O simpático condutor disse que Deus coloca obstáculos em nossas vidas para ver como reagimos: encaramos, fugimos, cruzamos os braços, choramos e nos fazemos de vítimas, enveredamos por caminhos errados... Depende de cada um, da força espiritual, do caráter e da fé de cada um.
Deus deve gostar de mim e deve gostar mais ainda de me dar batalhas para lutar. Mais uma. Ele deve gostar de guerreiros e guerreiras arretadas. Deve ser isso.
Fiz uma analogia: O Inferno é exatamente o oposto daquilo que gostamos de ser/ter/fazer. Veja bem: Lúcifer, o belíssimo anjo cujo nome significa "aquele que carrega a luz", foi expulso dos Céus e condenado a viver nas trevas, oposto da luz. Certo?
Um ser belíssimo que carregava a luz é condenado a viver na escuridão; entenderam a analogia e o paradoxo? Isso é Inferno: o oposto, o contrário.
Cada um com sua fé e eu fiz apenas uma analogia que combina bem com o momento e a situação que vivo e tenho vivido nesses anos que passaram.
Eu adorava caminhar todos os dias aos fins de tarde; hoje não posso mais.
Eu adorava dirigir sem destino, "pegar a estrada" e parar quando desse vontade; hoje não dirijo mais. Por enquanto.
Eu adorava lecionar, adorava meus alunos, minha escola, mas hoje estou afastada por conta de uma coluna doente.
São os opostos, os contrários. Tudo o que fazia e gostava de fazer antes já não posso mais fazer hoje. Isso é Inferno.
Mas esses opostos são temporários e eu vou voltar a andar com pernas fortes, mesmo com a coluna cheia de parafusos, mais parafusos.  Mesmo que trave a porta giratória do banco e tenha que responder à singela questão do segurança: "A senhora está carregando algum metal?"
Titânio é metal, né?
Voltei para casa cansada e dei uma cochilada no sofá. Levantei depois e fiz café, tomei com bolacha "cremi cráqui" (cream cracker).
Eu molhava as bolachas no "xicrão" de café de meu avô João Gomes, meu querido Paipreto; era tão bom.
Tenho em mim e carrego essas memórias e lembranças de uma infância curtíssima, mas tão intensa. Tanto amor, tanta proteção, tanto bem querer.
São bálsamos que aliviam as feridas d'alma. 
Às vezes dá vontade de chorar, de se revoltar com toda essa situação. Por que eu? 
Volto-me para as boas memórias: café com bolacha "cremi cráqui" é uma delas. Bolo de araruta com cajuína, farofa de ovo, tomate com açúcar...
É isso.



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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mil

                             



Cheguei um pouco mais cedo à escola e já havia uma pequena fila de mães e pais esperando para assinar a matrícula dos filhos para 2015.
Alguns vão logo cedo para depois irem ao trabalho e outros aproveitam o horário de almoço.
É um assina aqui, um procura ficha de aluno ali, olha no sistema... E por aí vai.
Fiquei até suada com a trabalheira toda.
Às oito horas chegou a outra professora mais calma e ela me ajudou bastante; agradeci-lhe pela ajuda. A professora que fala pelos cotovelos não veio, graças a Deus.
O horário para fazer a matrícula é das sete e meia até o meio dia e vinte e depois das quatro da tarde às oito da noite. Faltam funcionários e meu horário de professora é das sete até o meio dia e vinte, mas sempre fico até chegar alguém do período da tarde.
Meio dia e sumiu todo mundo, como sempre. Continuei atendendo aos pais e lá vem a Tássia, tá se achando, dizer que já terminou o horário para assinar as matrículas e que os pais viessem mais tarde.
Discordei e disse que respeito esses pais e mães, pois muitos vêm do trabalho na correria só para assinar esse bendito papel e precisam voltar às suas atividades. Não é à toa que têm dezenas de reclamações desse povo mal educado e mal amado. Na boa.
Lembrei de mamãe, que pedia para sair por alguns minutos para ir à escola assinar nossa matrícula. Ela fazia hora de almoço mais curta ou ficava até mais tarde para compensar.
Engraçado que a Tássia não oferece ajuda, mas lembrar dos nobres regulamentos inúteis ela lembra. Vai encher a paciência de outro!
Fiz, faço e farei a matrícula dos filhos de todo e qualquer pai ou mãe que vier e seja isso durante o horário em que eu estiver na secretaria. E que ninguém venha botar bistaque no que estou fazendo.
Quer ver me arretar é botar defeito no que estou fazendo. Arre égua!
Muito cacique para pouco índio e ainda se preocupam com regrinhas tão tacanhas e tolas quando na verdade deveriam se preocupar em botar ordem na bagunça, folga e cara de pau que tomam conta da escola.
Fiquei com dó de um senhorzinho já idoso que viera fazer a matrícula e a moça disse que não podia mais não porque já passara do horário. Perguntei quando foi isso e ele disse que foi ontem, na hora do almoço. 
Eu saí ao meio dia porque não me sentia bem e deixei na secretaria pessoas que poderiam fazer o serviço, mas preferem dizer que não tem sistema, não encontram a ficha do aluno, que já passou do horário...
Ouvi muito isso dos pais e mães que foram à escola hoje.
O povo da secretaria não procura outras opções para facilitar a vida dos pais, simplesmente seguem aquilo que está estabelecido e pronto. É ou não é, simples assim.
Eu penso de maneira diferente e tento me colocar no lugar desses pais e mães e muitos tios, tias e avós que cuidam dos filhos, sobrinhos e netos.
Custa colaborar? Custa ser humano?
Mas gostam de ser tacanhos, me parece.
Muitas mães foram hoje cedo muito preocupadas e agoniadas com o fato de "terem perdido" a data para matricular os filhos porque "a moça" disse que era só hoje, que não podia fazer naquela horário, só mais tarde...
Não se preocupem, vamos fazer agora a matrícula do seu filho. Qual é a sala dele? Pronto.
Muitos pais e mães saem aliviados e agradecem tanto. Me entregam para Deus e agradeço e desejo-lhes o mesmo bem que me desejam.
Tenho mil e um defeitos e mil e duas qualidades e não consigo ser má, amarga e mesquinha como muita gente por aí.
Acho que é por isso que não quero me afastar do trabalho. Gosto de ser útil e tratar a todos com respeito.
Não posso consertar o mundo, mas o bem que faço a algumas pessoas me faz sentir melhor ainda.
Amanhã tem mais e eu vou trabalhar, nem tão firme e nem tão forte fisicamente, mas muito firme e muito forte de caráter e respeito, graças a Deus.
É isso.



Um elefante incomoda muita gente...
Gente ignorante incomoda, incomoda muito maaaais...
                                 

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Inverno ou Verão

                                



Cinza, frio, inverno.
Gosto dos dias ensolarados, e sem muito calor, mas confesso que tenho certa predileção por dias frios, cinzas, chuvosos, melancólicos...
A maior parte de minhas lembranças, emoções, sensações, memórias têm relação com dias nem tão bonitos assim.
Tudo começou com nossa chegada a São Paulo; era frio, era cinza, chovia...
Sou cinza, chuvosa, melancólica algumas vezes.
Lembranças e saudades de lugares por onde passei e vivi. Uma saudade dolorida, até. 
Se não fosse o fato de mamãe ter morrido tão repentinamente. Se não fosse essa minha doença besta. Se não fossem algumas coisas, tantas coisas...
A vida é feita de escolhas e às vezes a gente faz umas escolhas meio erradas.
Vontade de ver o mar. Adoro o mar em dias cinzentos, frios e chuvosos; fica mais bonito.
Queria caminhar pela beira da praia e molhar os pés nas águas do mar e não me importa se está frio ou calor, se é inverno ou verão.
Vou preparar algo para comer, tenho fome agora. Tomei café e comi bolacha na escola e a senhorinha da cozinha trouxe um suco de frutas com leite, não gostei.
Pensei que era apenas o suco de frutas, mas li a embalagem e vi que tinha leite. Dei uma golada e joguei o restante fora.
Loretta aconchegou-se no meu colo e está cada dia mais bonita, saudável e sapeca. O pelo cinzento cresce, os olhos azuis redondos e expressivos, a carinha linda.
Acho que estou precisando de cafeína.
É isso.



                                   

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Reler

                                     



Amo ler. 
É público e notório.
E descobri que me faz bem reler os textos que escrevi falando sobre minha curta infância em Pernambuco, o chamego dos meus avôs José e Paipreto, minhas descobertas, encantamentos, sonhos, imaginação e todas essas coisas boas e puras que só as crianças têm.
Releio e me vejo caminhando por entre pés de feijão e segurando a mão de mamãe. 
Caminhando, vestida em minha adorada jardineira, segurando a mão do meu avô Paipreto.
Tenho uma coisa por mãos...
O vestido de bailarina...
O lambedor de tia Anália, a farofa salgada de ovo de tia Nifa e Bisavó Gina, os tomates com açúcar de mamãe, o mel de engenho, o café com bolacha "cremi cráqui" do meu Paipreto, o bolo de araruta com cajuína do meu avô José, os torrões de café da minha avó Mãevelha...
Essas lembranças e memórias me fazem bem e são um acalanto para minha alma inquieta.
Mais uma noite de insônia, meu Deus.
Mas também... Durma-se com um calor desse!
É isso.


                                           



                                          



                                              

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bonina

                                



Dorzinha chata de ouvido que foi intensificada pelo alto volume do aparelho de ressonância magnética.
Usei os tais protetores auriculares, mas mesmo assim o barulho feito pela emissão dos raios era muito forte e alto.
Sempre tive/tenho essas dores chatas de ouvido até que, algumas vezes, elas evoluem para uma longa e dolorosa otite.
E está bem frio, o que piora um pouco.
Achava engraçado ver mamãe toda encolhida, puxando a blusa para cobrir as orelhas e reclamando: "Que frio do máduscachorro é esse?! Congela as zureia da gente!".
Eu lembro desses causos e histórias e dou risada sozinha. Foi e é o melhor jeito que encontrei para aliviar um pouco a melancolia, a solidão e outros sentimentos.
Mas eu falava sobre a ressonância magnética...
Já falei aqui sobre o curioso padrão sonar desse exame e em alguns momentos até parece essas músicas de balada. Varia de acordo com a frequência e dá para ouvir um "bang, bang, pow, pow, pow..."
Bom...
Esfriou ainda mais hoje e caiu uma chuva fina. Tirei o carro da garagem e fui dar uma volta meio sem destino. 
Marginal Tietê congestionada, céu cinza, muito frio, chuva fina e... flores.
Muitas flores e plantas bonitas e em oferta, pena que eu estava sem dinheiro.
Meu jardim está lindíssimo também e as chuvas trouxeram uma nova roupagem e um novo frescor para elas. Estão lindas.
Têm Marias-sem-vergonha, flor de maio e umas flores bonitas cujos nomes desconheço. Têm umas florzinhas em tom róseo e em outras variações de cor que mamãe chamava de "bonina"; muito bonitinhas.
Voltei para casa e ouço latidos; era a cachorrinha do vizinho que adora comer ração de gato. Dos meus gatos, diga-se de passagem.
Coloquei um quantia generosa e a simpática canina devorou tudinho em minutos.
Senti fome e saudades. Fome de comida e de atenção, aconchego, lundu, um colinho mesmo.
Preparei uma daquelas comidas que alimentam o corpo e a alma. Aquelas comidas que lembram infância, carinho e cuidados.
Eu faço isso. Gosto de fazer isso.
Trazem de volta momentos e lembranças boas, aliviam a saudade e me fazem bem.
Cozinhei arroz branco, dei folga ao arroz integral, fritei dois ovos e cobri tudo com farofa. 
Lembrei da salgada e deliciosa farofa de bisavó Gina e tia Nifa.
Depois quis algo doce e queria comer tomates com açúcar. Mamãe cortava os tomates em pedacinhos, tirava as sementes e os cobria com açúcar.
Mas estou sem tomates e o jeito foi comer umas bolachinhas de goma.
E assim foi o dia. Entre saudades, solidão, chuva, frio, comidinhas da infância e flores.
É isso.


                                        

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Batalhas

                                


Tomo chá de gengibre com limão todas as noites antes de me deitar, mas mesmo assim está difícil dormir.
Deito e o chá acalma e lentamente vou me transportando para lugares bons, tranquilos e bonitos.
Viajo para meu Sertão ,para a doce época em que segurava a mão de mamãe enquanto caminhávamos por entre os pés de feijão.
Enquanto caminhava pelas ruas de Gravatá vestida em minha adorada jardineira e uma mão na mão do meu amado avô Paipreto e a outra no bolso da minha roupa favorita.
Para os braços fortes de meu avô José, que sempre chegava na hora certa para me defender das chineladas de mamãe e de minha avó Mãevelha. 
Eu aprontava muitas artes e sempre perto dos animais da fazenda e era aí que eu deixava mamãe e minha avó doidas.
Acho que meu avô José deveria ter um radar, uma câmera escondida ou algo assim, pois ele sempre sabia quando eu estaria em perigo e chegava montado em seu belo cavalo a tempo de me envolver em seu braços fortes e morenos.
É uma das mais doces e belas lembranças que tenho do meu avô José; ele montado em seu cavalo bonito.
Mas dali a pouco as dores vêm me despertar. Maldita, horrenda, estúpida Acromegalia!
Acordo, joelhos doendo, coluna doendo. 
Escuto os barulhos da madrugada e lá pelas cinco ou seis da manhã o sono chega, mas é bem na hora de levantar.
Parece que minhas "férias" acabaram e agora a Acromegalia me ataca com tudo.
Mas eu já venci outras batalhas mais difíceis e vencerei essa também.
É isso.




                                        

domingo, 16 de junho de 2013

Ciclo

                                


Detesto domingos e adoro ficar só; juntei os dois e tive uma tranquila tarde de domingo.
Fez uma tarde bonita; ensolarada e fria. Arrumei as plantas, plantei milho para os gatos, coloquei roupas na máquina, sentei-me na cadeira com Rosinha no colo. Observei o comportamento dos gatos: Aurora perseguindo Boreal, Cássio querendo pegar os pássaros que pousam no paredão da empresa vizinha, Ébano Nêgo lindo querendo pegar Léo Caramelo, os dois não se entendem de jeito nenhum.
Foi uma tarde pacífica e silenciosa, os vizinhos barulhentos foram visitar alguém, graças a Deus. 
Foi uma tarde sem música ruim, sem gritaria, sem exageros vocais, sem barulho.
Apenas a tarde, o sol, o frio, a solidão e o silêncio. Paz.
Até os malditos moleques que tanto atazanam a vida da gente resolveram tirar o dia de folga. Louvado seja Deus Nosso Senhor Jesus Cristo!
Gosto de ficar só e em silêncio, detesto barulho. 
Mas amanhã tudo recomeça: caminhões, música ruim dos vizinhos, molecada na rua. Afe!
Retorno ao médico amanhã para tomar injeções, meu joelho direito, meu pé esquerdo e a coluna doem que só. As dores de cabeça também voltaram e me incomodam há duas semanas.
É assim, sempre assim. Fico boa um tempo, fico ruim outro tempo. É o ciclo da vida, das visitas aos médicos, hospitais, laboratórios...
E por falar em ciclo, plantei milho para os gatos para evitar que comam o matinho sujo e poluído que cresce nas calçadas. Os veterinários e o povo que gosta de gatos dizem que é mais seguro e saudável o bichano comer a plantinha do milho, que é mais limpa e fácil de plantar.
Joguei alguns caroços de milho e em alguns dias teremos um pequeno milharal.
Aliás, é uma das mais doces e fortes lembranças que tenho, caminhar pelo milharal com meu amado avô Paipreto.
Eu gosto das coisas simples
É isso.



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Dor de cabeça, Hipertensão e Saudades.







Há algumas semanas tenho dor de cabeça. 
Fui aos médicos. Mais remédios e mais exames, mas as dores de cabeça persistem.
Fico angustiada, chateada e até mesmo muito triste.
Sou humana, demasiado humana. Olha Nietzsche de novo na área!
A parte boa dessa tristeza é que ela traz saudades e lembranças e uma vontade imensa de escrever, de falar...
Falo e escrevo aqui. Alivia a saudade, a tristeza e até as dores.
Escrevi duas postagens seguidas falando do meu avô e da minha avó. Podem parecer repetidas, mas não são. 
São lembranças boas de uma época que eu não tinha e nem sabia o que era dor de cabeça, hipertensão, saudades e a infame da Acromegalia.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cheiro, Sabores & Lembranças

Acordei com o som da chuva. Fui até o quintal e apreciei a chuva caindo e molhando as plantas; as gotículas que ficam nas folhas parecem pedrinhas de brilhante.
Observava esse espetáculo da Mãe Natureza acompanhada de meus gatos que me olhavam como se eu fosse maluca. Enquanto observava e apreciava a chuva lembrei-me de alguns causos  e episódios da minha vida antes da Acromegalia.
Eu adorava sentir cheiros, cheirar...Adorava o cheiro de café fresquinho sendo coado; o cheiro do alho e cebola fritos para temperar o feijão. Mamãe gostava quando eu preparava o feijão, dizia que com o meu tempero ficava mais gostoso. Mamãe era ótima cozinheira e para cada tipo de carne ela preparava um tempero diferente para poder combinar com o gosto mais forte ou mais suave do peixe, frango, carne de porco e de vaca. Aliás, dizemos carne de vaca aqui em São Paulo mas em Pernambuco dizemos carne de boi.
Eu acrescentava pimenta do reino e cominho ao alho e cebola fritos. O cheiro era maravilhoso. Às vezes eu abria os potes de café e de temperos só para sentir o cheiro bom e trazer de volta as memórias boas, tristes e engraçadas que marcaram minha infância e juventude. Hoje não tenho mais olfato, perdi a capacidade olfativa após as cirurgias. No começo foi difícil sentir o sabor dos alimentos, mas agora já estou habituada e a minha memória olfativa continua forte.
...
Cheiros, sabores e lembranças.
Minha avó Mãevelha na beira do fogão de lenha preparando os torrões de café que depois seriam socados do pilão. Como ela dizia, o café seria pisado até virar pó. Em Pernambuco temos outro modo de falar. É a marca de oralidade que cada região tem.
Eu prestava atenção em cada detalhe do trabalho da minha avó e ela me recompensava com torrões de café que eu devorava em segundos e pedia mais; mas ela dizia que não poderia me dar mais porque muito café ofende (mais uma marca de oralidade pernambucana).
O cheiro e o sabor do lambedor de tia Anália. Lambedor é um cozido de ervas, folhas, cascas de árvore e açúcar cristal. Depois de cozido tem-se um líquido espesso, esverdeado, doce, gosmento, cheiroso, e até gostoso. O lambedor era usado para tratar vários males que afligiam nossa frágil saúde no nosso forte, seco e belo sertão pernambucano. Além de curar os males, nos dava sustança. Eu observava tia Anália preparar o lambedor e ela colocava um pouco numa caneca e me dava. Eu adorava aquilo.
Já para os adultos era mais recomendada a garrafada. Servia para tudo; de problemas respiratórios a problemas renais, de dores nas juntas e dores de cabeça. Era um santo remédio. A garrafada era feita também com ervas, folhas e cascas de árvore. Colocava-se tudo isso numa garrafa e completava com cachaça de boa qualidade, a Pitú, muito conhecida nossa. Tampava-se bem e enterrada a garrafa por sete dias. Após esse período, desenterrava a garrafa e a garrafada estava pronta para o consumo.
O cheiro da garrafada era fortíssimo e me perguntava como é que a gente grande conseguia beber aquele líquido estranho.
O cheiro do cuscuz, o cheiro do leite fresco, do leite de coco que Mãevelha fazia: raspava o coco, punha um pouco de sal e água quente. Deixava descansar alguns minutos e depois espremia e coava. Na falta do leite de cabra minha avó fazia leite de coco pra mim.
O cheiro dos pães doces que o vendedor trazia numa cesta presa ao bagageiro da bicicleta.
Além do cheiro dos alimentos eu gostava do cheiro das pessoas, das coisas, da terra...
Adorava o cheiro de chuva, a tão bem vinda chuva naquele meu sertão pernambucano.
O cheiro de óleo Johnson nos cabelo de Mãevelha. Ela sempre passava o óleo nos cabelos recém lavados.
O cheiro dos cabelos de mamãe. Cheiro forte, assim como mamãe.
O cheiro do cigarro de palha feito com fumo de corda por papai.
O cheiro do bolo de araruta de meu avô José.
O cheiro leite condensado com abacaxi no pudinho de Natal que papai tanto gostava. Papai também gostava de sôvête  de mio verde (sorvete de milho verde).
São tantas memórias, tantos cheiros, tantas lembranças boas...São tantas emoções.
E as coisas antigas tinham um cheiro especial, melhor, diferente. Os sabores também eram mais intensos. O sabor e o cheiro das mangas maduras e doces, as melancias que depois se transformavam em bonecos esculpidos pelas habilidosas mãos de meu avô Paipreto.
Tem muita história...