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sábado, 5 de novembro de 2011

Desnatado

Mamãe era única e o seu Português original a fazia mais única ainda.
Mamãe trocava nomes, confundia pessoas e até se enrolava com os nomes dos próprios filhos.
Ela misturava Rejane + Renata e ficava "Reginata". Rogério + Ronaldo e ficava "Rogenaldo".
Só mamãe mesmo. Ela era capaz de criar neologismos em segundos; bastava se atrapalhar um pouco com os nomes e pronto: surgiam novas palavras.
Em determinada ocasião, mamãe conversava na calçada com algumas vizinhas e falavam sobre leite e alimentos infantis. Dos seis filhos de mamãe os que deram mais trabalho para alimentar foram eu e Naldão, meu irmão de saúde perfeita.
A conversa ia longe quando mamãe apontou para meu irmão com excesso de perfeição na saúde e disse:
"Meu filho era muito fraquinho. Ele era muito desnatado".
Meu querido irmão era desnutrido e desidratado.









terça-feira, 25 de outubro de 2011

Terra nos pés

Era assim que mamãe falava quando estava diante de um problema sem solução aparente.
Mamãe coçava a cabeça, levantava seu poderoso olhar aos céus e dizia suas frases que eu não entendia o significado até então. Para mim eram só palavras e mais palavras da minha mãe faladeira, falante, tagarela.
Mamãe dizia, entre outras: 
"O futuro a Deus Pertence"
"Não cai uma folha de mato sem que Deus não queira". Frase essa também muito usada por meu Paipreto, o pai de mamãe.
"É o sangue que mata o corpo".
"Um dia depois do outro e uma noite no meio".
"Amanhã é outro dia".
"Procuro terra nos pés e não encontro".
É assim que me sinto hoje.







terça-feira, 11 de outubro de 2011

Semântica

Segundo o dicionário Houaiss, semântica é o ramo da linguística que estuda a evolução e as alterações sofridas pelo significado das palavras no tempo e no espaço.
Bom...
Mas a jovem população brasileira não sabe o que é semântica, sintaxe, interpretação de texto, leitura & escrita. E nem educação também!
Estou no supermercado e me dirijo ao caixa preferencial: idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo e pessoas com deficiência física. Na falta dessas pessoas, o caixa é livre para qualquer outra pessoa. Pois o nome já diz "preferencial". Devemos dar a preferência a quem tem o direito estabelecido por lei.
Me aproximo com o carrinho e a moça do caixa aponta para a placa e diz: "Senhora, esse caixa é preferencial".
"Exatamente", digo eu.
E ela fica me olhando com cara de ponto de interrogação.
Explico-lhe: "O nome ja diz: preferencial. Quer dizer que têm preferência as pessoas mencionadas na placa e na falta dessas pessoas, o caixa é livre para qualquer um".
"A senhora não está entendendo".
"Você que não está entendendo, minha cara. é uma questão de semântica. Simples".
Tá...
Estou em uma loja no Shopping Center e forneço meus dados à mocinha que vai estar pegando meus dados para estar pedindo o cartão da loja para eu estar ganhando descontos. Beleza.
Dou nome, endereço, telefone e todas as informações necessárias. Ela pergunta a profissão e eu digo que sou professora em escola pública. A simpática mocinha escreve "publica".
Eu digo: "Faltou o acento gráfico na palavra".
"Quê?!"
"É público com acento; é substantivo e é proparoxítona. Se fosse publico sem acento seria verbo."
"Quê???????????????????!!!!"
"Deixa pra lá, pelo amor de Deus".
Como dizia meu amado avô João Gomes, o meu Paipreto: "A inguinórança astravanca o pogresso".
Pobre Língua Portuguesa. Tão inculta e bela. Tão abusada, deturpada...
Sou da época que "sinistro" e "irado" significavam estranho e furioso, respectivamente. "Bombar" significava se dar mal em algo, hoje tem sentido oposto.
É...o que estão fazendo com a Língua Portuguesa é sinistro e irado. Estão bombardeando a pobre língua e descaracterizando-a. E esse movimento sórdido está bombando!