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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Insônia e Saudades

                                


Consigo pegar no sono quando o dia está para amanhecer. Ouço os sons da noite, os caminhões que chegam para trabalhar, as pessoas que passam na rua a caminho do trabalho, o motoboy que joga o jornal, a cachorrada que late, a passarinhada a cantar...
Lá pelas cinco horas da manhã consigo adormecer e me levanto à oito. Às vezes durmo e acordo, cochilo, desperto e sigo nesse vai e vem insone e infame.
Tenho tido sonhos intensos e visitas boas nessas poucas horas de sono.
Hoje sonhei com minha prima Sônia, que já faleceu há dezoito anos, e ela conversava comigo animadamente.
Chovia, terra molhada e objetos espalhados pelo grande quintal. Uma enxada largada, uma cuscuzeira suja de tinta branca e outros objetos espalhados numa grande bagunça.
Papai tinha feito a bagunça e eu ficava brava e começava a arrumar tudo. Fiquei brava porque papai usara a cuscuzeira para misturar a tinta; papai fazia isso mesmo e deixava mamãe doida. Papai ia pintar a casa e mais se pintava do que às paredes. Era engraçado. Era uma bagunça danada, tinta por todos os lados, mamãe reclamando e nós correndo pra lá e pra cá para atender aos pedidos de café e cigarro de papai. Isso sem falar no colorido berrante que ficava a casa. Acho que papai era um desconhecido e moderno artista avant garde para sua época e hoje em dia seria um destacado artista plástico ou pichador fashion.
Eu pegava a enxada, carpia, juntava o lixo e tentava colocar fogo, mas estava tudo úmido por causa da chuva.
Depois saía dali e andava com meu irmão Fubá pelas ruas do bairro e notava que nossos pés estavam sujos de lama. Entrávamos em uma casa bem simples e observei uma gaveta cheia de sabonetes. De uma pequena escada desce uma pessoa que pega dois copos e despeja um líquido escuro e nos oferece; não sei se era café ou Coca Cola.
Eu me sentia envergonhada por estar com os pés descalços e sujo de lama.
Depois outra pessoa vinha e me dizia algumas coisas que nunca lembro na hora, só depois de alguns dias.
Sei lá, preciso dormir direito pois isso está afetando minha saúde e me deixando mais cansada ainda.
Gosto das visitas e adoro sentir o abraço e o bem querer de papai, mamãe e do meu povo antigo.
Saudades arretadas de grandes, Nossa Senhora.
É isso.


                                        

                                                                     


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Uniforme

                                  


Assisto agora ao SPTV que mostra reportagem sobre uniforme escolar.
Crianças indo para a escola com roupa comum ou com uniforme velhos do ano anterior.
Já falei aqui e repito: somos seis filhos e nunca recebemos uniforme ou material escolar de governo bonzinho e paternalista; mamãe sempre trabalhou  para comprar pelo menos o básico que garantisse nossa vida escolar.
Usamos muito uniforme e roupa usada que foram doados por vizinhos ou patroas de mamãe.
Mãevelha lavava, costurava, consertava, passava e íamos para a escola com nosso uniforme reciclado. O material escolar era comprado só pela metade, se na lista pedisse cem folhas de papel sulfite, iriam cinquenta e assim por diante. Os livros didáticos também eram comprados e tínhamos prazo para trazer o dinheiro para a professora que os compraria direto da editora e assim conseguiria um preço melhor.
E ela avisava: "Quem não trouxe o dinheiro do livro deve trazer até tal dia, pois teremos prova no dia tal".
Alguns coleguinhas mais legais emprestavam e nos deixavam copiar, mas sempre tinha aqueles fominhas que não emprestavam nada, regulavam tudo e ainda diziam: "Minha mãe não deixa eu emprestar".
Hoje vejo reportagens e mais reportagens sobre reclamações de mães cujos filhos não receberam uniforme nem material escolar. Uma mãe fez cara de vítima e disse que teve que tirar do bolso trinta reais para comprar um par de tênis para o filho. Tadinha! Deve ter tirado do dinheiro que seria para comprar a tinta e a química para alisar e aloirar suas madeixas.
Outra reclamação recorrente é sobre a falta de creches ou a distância até elas. Mães com crianças no colo e a típica cara de vítima e reclamando, claro. Uma delas disse que teve de deixar o emprego para cuidar da filha porque não havia vaga na creche e ela não tinha com quem deixar a criança; não tinha também condições de pagar cento e cinquenta reais para uma escolinha particular. É, mas o cabelinho estava esticadinho e loirinho, combinando totalmente com a realidade nórdica de nosso país tropical.
Se é para reclamar, bancar a vítima e esperar pelo governo bonzinho e paternalista, então não tenha filhos! Vá aos postos de saúde e lá terão disponíveis camisinhas, DIU, pílulas e outros métodos contraceptivos.
Mas dá um trabalho... Talvez queiram que o governo mande entregar em casa os contraceptivos também.
Eu sempre achei que quem criava os filhos eram os pais e não os avós ou o governo!


                                   

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

R&R

                                             


Era uma fábrica de tintas.
O cheiro de tinta e de produtos químicos era fortíssimo, podíamos senti-lo do outro lado da rua.
Minha avó Mãevelha e eu íamos buscar água na R&R. Outros moradores do bairro também.
Eu ficava do outro lado da calçada enquanto Mãevelha entrava pelo portão da fábrica e voltava com baldes e outros recipientes cheios de água. O motivo de eu ficar do outro lado da calçada era devido ao forte cheiro químico que vinha da fábrica e o guarda não me deixava entrar por eu ser criança e o cheiro poderia me fazer mal.
E fazia mesmo. Chegava em casa com a água e podia sentir o cheiro das tintas por muitas horas; mesmo tomando banho o cheiro estava lá. Às vezes dava dor de cabeça e Mãevelha fazia chá com casca de laranja e limão e passava Vick Vaporub no meu rosto. 
Aliviava.
Muitas vezes íamos buscar água e tínhamos que esperar o sinal do guarda para podermos encher nossos vasilhames. É que o gerente não permitia essa distribuição gratuita do precioso líquido e o guarda fingia que obedecia suas ordens. Nós ficávamos dando voltas pela ruas próximas e Mãevelha deixava alguém vigiando e esperando pelo sinal do guarda; ouvíamos um assobio ou víamos um acenar de mãos e pronto, lá íamos em busca de nossa água.
Analisando bem minha história e a de minha família posso deduzir que perpetramos vários atos criminosos: mamãe, papai e Mãevelha "roubaram" chuchu, água, leite... Mas tudo em nome da sobrevivência.
Os anos se passaram...
Mãevelha partiu, o serviço de fornecimento de água foi regularizado, outras empresas se fixaram no bairro e a R&R fechou suas portas.
Quando eu fazia minhas caminhadas pelo bairro sempre passava em frente à R&R, fosse qual fosse minha rota. Eu andava pra caramba e tinha meus points favoritos: a igreja Santa Rita, a R&R, a escola Romão Gomes e uma casa azul onde mora um velhinho que lembra muito meu avô Paipreto.
Hoje eu não consigo andar tanto e por tanto tempo; minha mobilidade é reduzida devido aos parafusos em minha coluna e à artrose em meu joelho direito. 
A Acromegalia me roubou muita coisa.
Mas eu estou viva e celebro isso. Agradeço a Deus e ao Povo lá de Cima por estar viva.
Hoje fui ao supermercado do bairro e na volta passo em frente ao que foi a R&R. Hoje estão erigidos prédios de apartamentos que abrigarão famílias que não terão problemas com o fornecimento de água e nem com cheiro de tinta.