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domingo, 2 de junho de 2013

Torneira

                            


Meus gatos não são estilistas mas estão sempre inventando moda. Explico.
Todos os dias limpo o quintal deles, troco areia sanitária, lavo os potes de ração e água e coloco tudo novo e fresquinho.
Algumas vezes faço isso mais de uma vez por dia, principalmente nos dias quentes de verão.
Mas a moda agora é beber água diretamente da torneira. Haja paciência.
Aurora, minha linda, inteligentíssima e terrível Aurora percebe quando vou ao banheiro ou à área de serviço. Sobe na pia do banheiro ou no tanque de lavar roupas, arregala os enormes olhos verdes, mia, olha para mim e para a torneira e "diz": "Estou com sede".
Incrível como ela percebe quando vou ao banheiro, mesmo ela estando na garagem e eu lá nos fundos da casa. Aurora é muito inteligente.
Ébano Nêgo Lindo é mais elegante e paciente, além de lindo, claro. Ele espera, se aproxima, sobe no tanque ou na pia do banheiro, me olha com seus olhos de caramelho e eu abro a torneira para ele. O problema é que às vezes estou ocupada e os deixo se deliciando com a água fresca e corrente e quando me lembro da torneira aberta...
Dizem que o único felino que gosta de água é o tigre, mas meus gatos têm fixação pelo precioso líquido. Não gostam de tomar banho, claro, mas adoram olhar a água correr da torneira e ficam olhando a correnteza que se forma quando a máquina solta a água no ralo.
Eu gostava de olhar a correnteza que se formava pelas chuvas que caiam no chão vermelho do meu Sertão. Eu segurando as mãos de mamãe e parando para observar a correnteza. Achava aquilo tão bonito.
Mamãe dizia: "Vamos filha, seu Paipreto está esperando".
Adorava caminhar segurando as mãos de mamãe por entre os pés de feijão.
As mãos de mamãe, as águas, mamãe... Significam tanto para mim.
É isso.


                                


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Água de Coco

                                             


Minha sobrinha Beatriz adora água de coco.
Beatriz nunca tomou mamadeira e não gosta de leite. 
Beatriz toma muita água de coco, sucos e iogurte líquidos; aqueles de garrafinha. Ela gosta do sabor graviola. Eu também. Tem gosto de Nordeste.
Beatriz está em minha casa e o filho da vizinha vem brincar com ela. Preparo um lanchinho para eles e por estar muito calor, ofereço água de coco geladinha.
O garotinho olha para a caixinha e pergunta: "O que é isso?"
"Água de coco".
"Eu só bebo água da torneira".


                                         

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Curioso

                                             


Na nossa linguagem pernambucana, curioso/a é a pessoa que entende de tudo um pouco; que é capaz de trocar desde uma lâmpada a um botijão de gás.
Mamãe vivia elogiando os maridos, filhos, genros e o restante da ala masculina da vizinhança por serem curiosos.
Papai era uma negação. Meus irmãos nem se fala.
Para fazer qualquer conserto, por menor que fosse, papai montava um esquema tático digno de filme de ação. Pelo amor de Deus!
Papai resolvia que naquele dia iria consertar o que estivesse para ser consertado e nós já sabíamos que aquilo não daria certo. E isso deixava papai mais doido ainda com a gente.
Papai dizia: "Hoje vou consertar aquela torneira do tanque que está pingando; é só colocar uma borrachinha nova".
"Vixe", dizíamos nós.
E para variar, lá vinha sermão.
Papai fechava o registro da água para trocar a borrachinha da torneira, mas tudo que conseguia fazer era uma bagunça danada. Papai deixava restos de borrachinha para um lado, panos molhados para outro, ferramentas e tudo o que estivesse perto e servisse de suporte técnico.
O serviço ficar imprestável, uma caca mesmo. Era preciso chamar um vizinho curioso para consertar os dois estragos: o que já estava ali e o que papai tinha feito.
Papai não gostava que duvidássemos de sua habilidade manual e consertadora (mais para destruidora) das coisas e gostava menos ainda quando mamãe nos mandava chamar o marido, genro ou filho de alguma vizinha.
Papai dizia: "Voceizi não me dão valor. Só sabem me omilhar, me créticar e abater minha moral. De hoje em diante não vou arrumar mais nada nessa casa!".
"Graças a Deus", pensávamos nós.
Papai também tinha seu ritual que seguia fielmente toda vez que se metia a arrumar alguma coisa; papai sempre pedia café e cigarro.
"Corre lá meninos, teu pai quer café e cigarro".
Papai sempre agoniado e apressado não tinha paciência para esperar passar o café e dizia que podia ser café velho mesmo. O cigarro tinha que ir aceso. Papai e mamãe fumavam que nem duas Caiporas e o curioso é que nenhum de nós seis filhos adquiriu esse horrendo hábito. Ainda bem.
Dia desses tentei subir na escada para trocar uma lâmpada queimada. Lembrei-me de papai. Depois troquei o botijão de gás. Lembrei-me de papai.
Fiz tudo isso sozinha e quase sem problemas. E sem café nem cigarro.
Papai.