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terça-feira, 24 de abril de 2012

Sobrevivência

                                                


Euclides da Cunha, em seu livro "Os Sertões", disse: "O sertanejo é antes de tudo um forte".
Somos sertanejos, somos fortes. Viemos lá do Sertão pernambucano para vida melhor tentar em Sum Paulo. "Meu Santo São Paulo, como dizia mamãe".
Já passamos por muitos e bons bocados e isso prova nossa força, nossa sobrevivência: seca, fome, trancados em casa enquanto papai e mamãe trabalhavam, vigiados e guardados por um cachorro, trabalho, responsabilidades e... Produtos Químicos!
Explico.
Era comum a venda de produtos de limpeza por senhores que paravam sua perua na rua e ofereciam água sanitária (cândida), amaciante de roupas, detergente, desinfetante, cera, sabão etc... Hoje ainda existe esse tipo de comércio, mas está mais restrito a bairros distantes.
Há uma infinidade grande de produtos de limpeza vendidos em supermercados e que prometem limpeza, brilho, maciez num piscar de olhos. É.
Fomos expostos à toda sorte de produtos químicos disponíveis na época, fossem em forma de inseticida para matar piolhos e muriçocas, fossem em forma de produtos de limpeza.
Era inseticida, era cera que deixava nossas mãos vermelhas por uma semana, removedor que era usado antes de encerar o chão e que nos deixava tontos com o cheiro forte, sabonetes que nos davam coceira... E para completar a toxicidade química, papai e mamãe fumavam que nem duas Caiporas!
Mamãe ensopava nossos cabelos com inseticida e íamos para a escola muito doidões (acho que era por isso que mesmo com a vida dura que tínhamos, sempre tiramos notas boas).
Sexta-feira era dia de limpeza e lá íamos nós nos expor ao fortíssimo cheiro do removedor e depois manchar nossas mãos com cera em pasta; cera líquida ainda era pouco conhecida e era mais cara.
Lavar roupas com sabão em pó e cândida e ficar com as mãos secas e descascando.
Latas com soda cáustica para desentupir os ralos e fossas.
Álcool para limpeza de vidros e a fórmica dos móveis.
Lustra móveis para os de madeira.
E querosene também.
Sobrevivemos a tudo isso e acho que foi por esse motivo que não nos viciamos em bebida, cigarro e drogas ilícitas (só as lícitas: café, chocolate e cerveja).
Fomos expostos a tantos cheiros fortes e a tanta química que fomos naturalmente imunizados contra qualquer vício desse tipo. 
Ainda bem.
Sobrevivemos.


                                     

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sangue de Boi

                                                 




É uma marca de vinho.
Todo Natal papai ganhava uma cesta de Natal (sic) e um garrafão de cinco litros do vinho Sangue de Boi. Gostava da palha entrelaçada que envolvia o garrafão e que depois foi substituída por plástico.
O vinho era seco, forte e amargo e nós misturávamos açúcar, água e gelo e fazíamos um suco de Sangue de Boi. Era uma delícia! Dormíamos suavemente mesmo com o calorão de fim de ano e o zum zum das muriçocas nos nossos ouvidos.
Na cesta de Natal vinha também uma sidra a que chamávamos de "champanhe"; a garrafa da sidra tinha uma suculenta maçã estampada no rótulo e tinha os tipos rosé e branco. Adorávamos as duas!
Havia também na cesta natalina outras guloseimas que só víamos no final do ano: castanhas, doces, panetone, frutas secas...
Rosi e Rogério comiam o panetone mas tiravam as frutas cristalizadas. Justamente o que dá graça ao panetone.
Nos deliciávamos com as guloseimas e bebidas natalinas mas nosso favoritíssimo era o vinho Sangue de Boi.
Lendo esse texto alguém pode pensar que éramos alcoólatras mirins, mas achávamos normal entornar um "suco de vinho" e uma sidra geladinha, que para nós era suco de maçã gaseificado.
Falava com minha irmã Rosi sobre essa nossa época natalina e ela disse que não sabe como não nos tornamos viciados, junkies, malucos ou algo do gênero. Lembramos dos nossos cabelos ensopados com inseticidas que deixavam os piolhos agoniados, e nós também!
Papai e mamãe fumavam e eram duas Caiporas que consumiam mais de dois maços de cigarro por dia e nem por isso nenhum de nós adquiriu o horrendo hábito de fumar.
Inseticida, cigarro, sidra e vinho Sangue de Boi...
Passamos por tudo isso e continuamos normais (!)
Como disse Einstein: "Tudo é relativo".
PS: Falo sobre "causos" da minha família e não faço apologia a nenhum tipo de vício que prejudique a saúde de quem quer que seja.


                                                        

sábado, 17 de março de 2012

Espíritos da Mata

Caipora ou Curupira
                                              
A noite chega. O causticante sol do Nordeste dorme agora.
Papai e Madrinha Quixaba vão ao açude pescar.
Vão pescar guaru, um peixinho pequenino.
Papai e Madrinha Quixaba levam palha, fumo de corda e mingau de água e farinha; sem sal, sem alho e sem pimenta.
Papai pega o fumo de corda e faz um cigarro de palha; acende o cigarro e o coloca sobre um toco de árvore.
Madrinha Quixaba deixa o mingau perto do cigarro de palha.
Depois de deixar as oferendas no toco de árvore, pedem licença e embrenham-se na mata.
Vão ao açude pescar.
São oferendas para Comadre Florzinha, ou "Comadre Fulôzinha", como dizem os caboclos do Sertão.
São oferendas para Caipora, o guardião da mata.
Comadre Florzinha e Caipora são espíritos de índios, são espíritos donos das matas e protegem os animais.
Sem a devida permissão, Caipora e Comadre Florzinha fazem o caçador e o pescador se perderem.
Caipora e Comadre Florzinha convocam os animais e os outros espíritos da mata para assustar os caçadores e pescadores que não pedem licença e que não respeitam a Natureza.
Caipora e Comadre Florzinha fazem os peixes dos rios e açudes fugirem das redes dos pescadores; fazem a caça ficar invisível aos olhos dos caçadores.
Convocam os ventos uivantes que assustam e desnorteiam.
Convocam os animais e os espíritos da mata para lembrarem ao homem que a Terra não lhe pertence, ele é apenas parte dela.
Somos apenas parte de um Todo.


                                               

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Curioso

                                             


Na nossa linguagem pernambucana, curioso/a é a pessoa que entende de tudo um pouco; que é capaz de trocar desde uma lâmpada a um botijão de gás.
Mamãe vivia elogiando os maridos, filhos, genros e o restante da ala masculina da vizinhança por serem curiosos.
Papai era uma negação. Meus irmãos nem se fala.
Para fazer qualquer conserto, por menor que fosse, papai montava um esquema tático digno de filme de ação. Pelo amor de Deus!
Papai resolvia que naquele dia iria consertar o que estivesse para ser consertado e nós já sabíamos que aquilo não daria certo. E isso deixava papai mais doido ainda com a gente.
Papai dizia: "Hoje vou consertar aquela torneira do tanque que está pingando; é só colocar uma borrachinha nova".
"Vixe", dizíamos nós.
E para variar, lá vinha sermão.
Papai fechava o registro da água para trocar a borrachinha da torneira, mas tudo que conseguia fazer era uma bagunça danada. Papai deixava restos de borrachinha para um lado, panos molhados para outro, ferramentas e tudo o que estivesse perto e servisse de suporte técnico.
O serviço ficar imprestável, uma caca mesmo. Era preciso chamar um vizinho curioso para consertar os dois estragos: o que já estava ali e o que papai tinha feito.
Papai não gostava que duvidássemos de sua habilidade manual e consertadora (mais para destruidora) das coisas e gostava menos ainda quando mamãe nos mandava chamar o marido, genro ou filho de alguma vizinha.
Papai dizia: "Voceizi não me dão valor. Só sabem me omilhar, me créticar e abater minha moral. De hoje em diante não vou arrumar mais nada nessa casa!".
"Graças a Deus", pensávamos nós.
Papai também tinha seu ritual que seguia fielmente toda vez que se metia a arrumar alguma coisa; papai sempre pedia café e cigarro.
"Corre lá meninos, teu pai quer café e cigarro".
Papai sempre agoniado e apressado não tinha paciência para esperar passar o café e dizia que podia ser café velho mesmo. O cigarro tinha que ir aceso. Papai e mamãe fumavam que nem duas Caiporas e o curioso é que nenhum de nós seis filhos adquiriu esse horrendo hábito. Ainda bem.
Dia desses tentei subir na escada para trocar uma lâmpada queimada. Lembrei-me de papai. Depois troquei o botijão de gás. Lembrei-me de papai.
Fiz tudo isso sozinha e quase sem problemas. E sem café nem cigarro.
Papai.