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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Desfazer

                            Resultado de imagem para bomboniere de vidro vermelha


Demorei, mas hoje desembestei a escrever.
Estava folheando livros, vendo fotografias e lembrando...
É bom escrever, adoro ler e escrever. 
Escrever é libertador, é aliviante, é bom.
Cristaleira, bomboniere...
Tempos difíceis, seca inclemente, fome...
A casa era bonita, simples, mas arrumadinha. Lembro da sala, com a cristaleira de madeira escura e vidros desenhados com motivos oníricos. A grande mesa de madeira robusta complementava o conjunto e o toque final ficava por conta da bomboniere de vidro vermelho sobre a toalha delicadamente bordada por minha tia Antonia; mamãe adorava a cor vermelha.
Às vezes minha avó Mãevelha colocava ali o doce de mamão ou abóbora, ficava mais bonito para oferecer às visitas. 
Mamãe era professora e sempre recebíamos em casa a visita de outros professores e dos temidos "coronéis".
Mas a Seca veio forte e ainda mais cruel dessa vez e mamãe precisou vender o que tinha de valor para que pudéssemos sobreviver.
A cristaleira, a mesa robusta, as cadeiras e, por último, a bomboniere de vidro vermelho.
Lembro da expressão no rosto de mamãe, da tristeza em ter que se desfazer das coisas que tanto gostava e que conseguira comprar com tanto custo.
Mas a fome já batia à nossa porta e se desfazer era preciso.
Nos desfazíamos aos poucos de nossas coisas e de nós mesmos, um pouco acada dia.
É isso.



                                  




                                      

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Satisfeito

                                         


Paipreto recebia visitas de fazendeiros e auto proclamados coronéis.
Recebia também a visita de gente comum moradora da região e dos pretendentes à mão -e a todo o resto - das filhas solteiras.
Ao contrário da humildade e timidez das pessoas mais simples, o traço mais marcante dos auto proclamados coronéis era a arrogância: "Como vai vosmecê e a família, seu coroné?"
"Do jeito que você tá vendo! E que interesse você tem em saber de minha família?"
Uma tarde o coronel estava conversando com Paipreto quando chega outra visita, às vezes era um desafeto, e para cutucar a onça com vara curta, Mãevelha perguntava: "Seu Coroné, o sinhô vai esperar por seu José pra modi ir simbora?"
"Oxente! Esperar por quê? Não vim com ele e nem nasci agarrado com ele! Vôte!"
Paipreto e Mãevelha ofereciam almoço ou alguma refeição, de acordo com a hora da visita: "O sinhô quer mais um bocadinho dessa carne?"
"Quero não. Eu tô sastifeito. Se eu quiser mais eu mesmo pego!".
Quando o arrogante coronel finalmente ia embora, Mãevelha comentava com Paipreto: "Vôte, que homi mais inguinórante!"
As visitas continuaram sempre frequentes com meu Paipreto sendo um bom escutador de causos e histórias e minha Mãvelha uma boa e educada anfitriã.




                                              

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Diplomacia

                                                    
Paipreto era muito conhecido na região onde morava.
Era conhecido por sua força, garra, determinação e muita "inguinórança" também.
Todos nós herdamos uma ou outra característica de nosso avô.
Paipreto era "cabra macho de sangue no olho", como dizia mamãe.
A casa de meu avô era frequentada por todo tipo de gente, desde o mais humilde sertanejo até poderosos coronéis e inimigos políticos.
Mamãe voltava da escola para casa e sempre encontrava alguém que acabara de visitar meu avô; ela admirava-se de encontrar pelo caminho pessoas que não se davam bem mas que tinham em comum a amizade com meu Paipreto.
Mamãe achava interessante a disparidade e a variedade do círculo de amigos do meu avô, ele conseguia manter paz entre os inimigos e dizia:
"Minha filha, eu sou amigo de toda nação: do gato, do cachorro e do ladrão".


                                       

terça-feira, 3 de abril de 2012

Coronéis


                                         

                                              












Era muito comum no Nordeste os grandes donos de fazenda serem chamados de coronéis. Não eram coronéis de verdade, a maioria comprava a patente.
O título de coronel parecia dar mais força e autoridade aos grandes fazendeiros e donos de terras. Esses coronéis tinham forte poder e influência política; manipulavam, usavam de coerção, tocavam o terror mesmo. 
Muitos coronéis mandavam matar os inimigos políticos e o incauto eleitor que ousasse votar no candidato da oposição em época de eleições.
Esses coronéis faziam promessas ao povo e davam metade do prometido antes das eleições e a outra metade depois das eleições. Por exemplo: se prometiam um par de "oprecatas" (sandálias de couro), davam apenas um pé do calçado e outro seria dado quando terminada a eleição e quando verificado se o eleitor havia mesmo votado no dito cujo coronel.
Tinha-se muito temor e respeito por essas figuras poderosas e assustadoras e ninguém ousaria  desafiar ou desrespeitar um coronel. Quando encontrava-se, mesmo que por acaso, com o distinto coronel era mandatório perguntar como ele estava, a família e a saúde dele e de todos os que o cercam. Era muita bajulação. Mas era melhor garantir uma certa paz, vai que o coronel se enfeza.
Havia mais temor que respeito, pois ninguém queria contrariar um coronel porque sabiam que seria morte na certa! Sabiam que mesmo havendo assassinatos não haveria investigação policial e ninguém seria preso, o coronel era quem mandava e desmandava.
Mas havia coronéis que eram até que "legais" usando um termo atual.
Papai e mamãe trabalharam para dois deles: o Manoel Bandeira e o Chico Heráclio que era chamado por todos de "Chico Eráqui".
Esses caudilhos "do bem" deram empregos a papai e a mamãe em suas fazendas e papai cuidava do gado e da criação e mamãe lecionava para as crianças e adultos da região.
Ter coronéis como patrões, amigos ou padrinhos dos filhos era motivo de grande orgulho e dava até uma certa segurança. 
Papai e mamãe sempre falavam sobre Manuel Bandeira e Chico Heráclio, os coronéis "do bem".


Coronel Chico Heráclio e Coronel Manuel Bandeira