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sábado, 31 de janeiro de 2015

Caixa de Papelão

                                  


Três noites seguidas com o mesmo sonho/pesadelo: moleques aterrorizando a rua, a casa, geral.
Lembrei dos meliantes "de menor" do meu sonho e do que disseram: "Você está com medo?... Vou chegar entre as nove e as onze horas".
No dia seguinte vou à perícia médica e passo mal, era quase dez horas.
Passei mal e coisa e tal...
Madrugada de ontem, sexta-feira, para hoje, sábado. Duas horas da manhã e o Funk rolando. Não adianta chamar a polícia, alegam que o baile Funk é cultura e nada pode-se fazer. Tá.
Mas a cultura dos funkeiros tiram nosso sono, literalmente. Está certo isso?
E se eu tocar meu Rock 'n' Roll às duas da manhã? É cultura? E se os vizinhos chamarem a polícia, eu posso alegar que estava expressando minha cultura?!
Funk rolando, funkeiros e periguetes andando pela rua, falando alto, rindo... Carros e motos acelerando e freando bruscamente... Muita cultura!
Ouço vozes sorridentes no meu portão e depois dois toques na campainha: ai meu Jesus Cristinho.
As vozes vão embora e ouço um miado desesperado. Essa cambada jogou um gato na garagem?!
Levantei, olhei pela portinhola e vi orelhinhas levantadas, desconfiadas e assustadas. Um filhote siamês, muito pequenininho, estava com fome, medo e frio. O chamei e ele entrou meio desconfiado.
Fiz uma caminha para ele, ainda não sei se é macho ou fêmea, mas o bichano não quis. Foi até o quarto e miou desesperadamente: O que é isso? Pra que esse escândalo todo?!
Tem comida, água e uma cama quentinha, o que mais você quer?
Muito pequenino e muito frágil, sentia falta da mãe.
Peguei uma caixa de papelão, gatos adoram caixas de papelão, coloquei uma toalha velha e felpuda e o bichano aquietou. Queria algo à sua volta, algo que o envolvesse e o fizesse sentir protegido e aquecido.
Nós, bicho gente, também gostamos e queremos isso.
Vou colocar um aviso no meu portão para jogarem dinheiro e um pacote de ração junto com os gatos que jogam aqui.
Sempre ouço as mesmíssimas e velhíssimas desculpas: "Não posso ficar com ele. Não tem espaço lá em casa. Não tenho condições..." E por aí vai.
Ainda vai demorar um tempo enorme para que as pessoas aprendam a respeitar os animais.
Bom...
Dormi pouco e mal. Pretendia lavar roupa, mas vou deixar para amanhã.
Meu cunhado e minha sobrinha Beatriz fizeram uma visita relâmpago e ela trouxe pirulitos para mim; tão linda.
Estou cansada e vou me deitar e aproveitar o silêncio do dia. Mais tarde tem fluxo. Ou seria cultura?
É isso.


                                    

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Café Coado e Café Turco

                            

Trouxemos de Pernambuco o velho hábito de tomar café sem ser coado. Fervia-se a água e colocava-se sobre o pó de café e aguardava assentar.
Quando o pó ia para o fundo da panela, tínhamos o café e o colocávamos no bule, adoçávamos e servíamos. Quase sempre ficava um pouco do pó e tínhamos  que tomar cuidado para não engasgar.
Esse nosso hábito perdurou por muitos anos.
Certo dia, uma colega de trabalho de mamãe vai à nossa casa e lhe é oferecido o tradicional cafezinho; a moça toma o primeiro gole e se engasga e pergunta depois a mamãe se ela não coa o café. Não.
Mamãe diz que sempre tomamos café assim e a moça diz que é Café Turco.
"Café Turco? O que é isso? Nós sempre fizemos o café assim"
Depois do episódio do engasgo, mamãe passou a coar o café e não ouve mais vítimas de seu Café Turco.
É isso.




                              

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Para onde vou?

                             

Mais uma visita de mamãe, graças a Deus.
Mamãe me abraçou de um jeito tão doce, forte, intenso, protetor...
Foi como se aquele abraço da minha pequena e titânica mãe me envolvesse completamente, me protegesse totalmente, me amasse incondicionalmente... e foi.
Ando meio aperreada, avexada, agoniada, preocupada. Para onde vou com seis gatos e dois peixes? E minhas adoradas plantas? 
Mas como bem me lembrou minha amiga Cleusa: "Lembra do que sua mãe dizia? 'Já comi toucinho com mais cabelo'".
É só mais uma fase que será passada, vencida... Se Deus quiser.
Liberdade, liberdade abre as asas sobre mim.
Amém.

                         

                          

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Pão

                                         


Sonhei com papai essa noite e acordei chorando.
É um desespero tão grande, meu Deus.
Eu quero ficar com eles e não quero que partam, mas ainda não é o momento.
Sempre acordo chorando quando sonho com mamãe, meu Paipreto, minha Mãevelha e meu povo antigo. Hoje foi papai.
Eu estava no bairro da Lapa aqui em São Paulo e caminhava por uma rua cheia de gente que andava pra lá pra cá. Sigo em frente e olho para trás; vejo uma cabeça branca ao longe e que se aproxima: é papai! Papai sorria, conversava alegremente com algumas pessoas e segura uma baguete (antes chamávamos de bengala) em suas mãos. Papai parte o pão ao meio e me dá uma metade e fica com a outra. Papai vai embora. Eu grito, eu chamo, eu choro, mas papai não me ouve, não volta, não olha para trás.
Acordei chorando.
A dor da separação é imensa, brutal, desesperadora.
Mas quando eu me refaço do sonho eu entendo que não posso ficar com papai, mamãe, meu Paipreto, minha Mãevelha. 
Eu entendo que eles também não podem se demorar muito por aqui; a visita é rápida, mas é tão boa meu Deus.
São momentos e minutos que parecem uma eternidade de tão boa; um aconchego, um amor, um bem querer tão grandes.
Uma eternidade rápida. Uma rapidez eterna.
Que papai tenha paz, saúde, alegria. Que papai possa sorrir de verdade, que todo aquele peso que papai carregava em seus ombros seja aliviado e que ele possa caminhar tranquilamente e sorrir.
Que assim seja, meu Deus.
Amém.


                                            

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Satisfeito

                                         


Paipreto recebia visitas de fazendeiros e auto proclamados coronéis.
Recebia também a visita de gente comum moradora da região e dos pretendentes à mão -e a todo o resto - das filhas solteiras.
Ao contrário da humildade e timidez das pessoas mais simples, o traço mais marcante dos auto proclamados coronéis era a arrogância: "Como vai vosmecê e a família, seu coroné?"
"Do jeito que você tá vendo! E que interesse você tem em saber de minha família?"
Uma tarde o coronel estava conversando com Paipreto quando chega outra visita, às vezes era um desafeto, e para cutucar a onça com vara curta, Mãevelha perguntava: "Seu Coroné, o sinhô vai esperar por seu José pra modi ir simbora?"
"Oxente! Esperar por quê? Não vim com ele e nem nasci agarrado com ele! Vôte!"
Paipreto e Mãevelha ofereciam almoço ou alguma refeição, de acordo com a hora da visita: "O sinhô quer mais um bocadinho dessa carne?"
"Quero não. Eu tô sastifeito. Se eu quiser mais eu mesmo pego!".
Quando o arrogante coronel finalmente ia embora, Mãevelha comentava com Paipreto: "Vôte, que homi mais inguinórante!"
As visitas continuaram sempre frequentes com meu Paipreto sendo um bom escutador de causos e histórias e minha Mãvelha uma boa e educada anfitriã.




                                              

sábado, 28 de abril de 2012

Pombos de Gesso

Todos os domingos Paipreto e Mãevelha vinham nos visitar na Fazenda Taquari, onde eu e meus irmãos nascemos.
Quando não podiam nos visitar, mandavam nosso primo João vir me buscar a cavalo.
Mamãe tinha uns pombinhos de gesso na parede do seu quarto e eu sempre cobicei aquelas interessantes figuras; queria pegá-las, tocá-las e depois quebrá-las.
Fiz isso uma vez com mamãe, que me deu um dos pombinhos achando que eu só queria brincar, mas eu quebrei e levei umas boas palmadas.
Paipreto chega para a visita e me encontra chorando; pergunta o que aconteceu e mamãe conta o ocorrido.
Paipreto me pega no colo, me leva até o quarto de mamãe, aponta para os pombinhos de gesso e me pergunta qual deles eu quero.
Quero todos!
Paipreto me dá os pombinhos e eu deixo cair alguns, quebrando-os. Mamãe não gostou nada dessa brincadeira e reclama dizendo a Paipreto que ele lhe tirava a autoridade de mãe.
"Mas bater na minha neta por causa dessas porcarias? Não senhora! Vou até a feira e lhe compro mais desses pombos bestas de gesso. Oxe!"
Saudades dos braços protetores de Paipreto.




                                             

sábado, 14 de abril de 2012

Nomes Próprios

                                                  


Sempre gostamos de animais, eu principalmente.
Gostamos também de dar nomes criativos ao bichos, eu principalmente.
Somos bastante criativos nesse quesito, eu principalmente.
Procuramos evitar os clássicos: "Lulu, Totó, Chaninho, Mimi, Fifi..."
Já tivemos gatos com os nomes Johnny, Andretti, Michele (leia-se Miquele), Julia Roberts,  João, Kojaka, Joana, Philippo, Benedito, Gino...
Já tivemos cachorros com os nomes Willbour, Florêncio, Spartacus, Maria Leopoldina, Clotilde, Raposo, Oliver, Ferrugem...
Tínhamos um cachorro, e quem escolheu o nome para ele foi meu irmão Rogério.
E o nome escolhido foi Willbour.
Mas acontece que mamãe tinha uma conhecida cujo filho caçula chamava-se Willber. Note-se a pequena semelhança entre o nome do canino com o nome do menino.
Um dia essa conhecida de mamãe aparece de repente para uma visita e Willbour estava deitado tranquilamente no batente da porta, impedindo a passagem de quem quer que fosse.
Mamãe vai ao portão receber a visita e ambas caminham juntas em direção à porta da sala e Willbour continua deitado e sem demonstrar nenhuma vontade de se mexer.
Mamãe grita com o cão: "Sai, Will...". Mamãe lembra que o filho da visita tem um nome semelhante e tinha receio de ofende-la.
Mamãe fica nervosa: "O menino, tire esse cachorro daqui!". 
A visita finalmente vai embora, graças a Deus, e mamãe nos dá um sermão de fazer inveja a papai: "Onde já se viu colocar o nome no cachorro de Willbour?! Eu tive que me segurar para não chamar o infame do cachorro pelo nome dele; pois vocês não sabem que o nome do filho da visita é Willber? Vocês não têm jeito não!"
Esperamos mamãe terminar o sermão para podermos esclarecer alguns fatos: 
Primeiro: O nome do cachorro é Willbour, com "our" no final e o nome do filho da mulher é Willber, com "er" no final. É diferente, mãe!
"Muito!"
Segundo: Foi Rogério quem escolheu esse nome estrambótico para o cachorro.
Terceiro: Não temos culpa se somos criativos. Oxe!


                                            

sexta-feira, 16 de março de 2012

Batata frita e suco de uva

Beatriz com suas batatas fritas e suco de uva
                                            


É a combinação favorita de meus sobrinhos.
Sempre tenho em casa batata e suco de uva, sempre.
Minha irmã Rosi foi visitar nosso irmão Fubá e nossa prima Terezinha no hospital e deixou minha sobrinha Beatriz comigo por algumas horas.
Beatriz pediu o de sempre: batata frita e suco de uva. Depois de se deliciar com seu cardápio favorito brincou com os gatos, pegou um livro e pediu para eu ler para ela. 
Beatriz anda pela casa, organiza do jeito dela os bibelôs e enfeites que eu tenho, procura livros na estante, tenho uma seção só de livros infantis, e me pede alguns emprestados.
Mas além de livros, Beatriz descobriu meu cofre de porquinha rosa e pegou uma nota de dois reais. Perguntou quanto valia e disse: "Eu nunca vi uma nota de dois reais. Posso pegar pra mim?"
"Pode sim".
Beatriz está habituada à moedas e ainda não sabe que papel e moedas podem ter o mesmo valor.
Pepê e Rosi vieram buscá-la e ela mostrou a nota de dinheiro; a mãe perguntou: "De quem é esse dinheiro, Beatriz?"
"É da tia Rejane"
"E sua tia deu pra você?"
"Não. Eu peguei".
"E sua tia deixou?"
"Deixou sim".
"Você e sua tia não têm jeito mesmo".
Beatriz voltará em breve para mais batata frita e suco de uva... E para mais livros e leitura também.
Beatriz e um de seus livros favoritos