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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Trabalho

                                             


Levantei-me cedo e começo a arrumar a casa, principalmente a área dos gatos. Acredito que pessoas que tenham animais em suas residências devem primeiramente amá-los e respeitá-los e depois mantê-los limpos e alimentados.
O local onde a bicharada usa como sanitário deve ser mantida sempre limpa; isso é bom para saúde do bicho quanto para a de seu dono.
É isso.
Bom...
Arrumava o quintal, colocava roupas na máquina... Lembrei-me da época em que mamãe trabalhava como faxineira nas empresas e como diarista nas casas de família.
Achava interessante falar casas de família, pois dava a impressão de serem casas grandes, bonitas, com sala com TV e estante cheia de livros, piso e azulejo.
Era assim que imaginava a casa dos meus sonhos, bem ao contrário da nossa casinha simples de quintal de terra, piso vermelhão e banheiro do lado de fora!
Eu também gostava das casas mais simples do bairro; casas com muros baixos, janelas abertas sem grades, roupas penduradas no varal secando ao vento e com muitas plantas nos jardins. Eu achava tudo aquilo muito lindo.
Mas eu achava chique mesmo eram as casas da parte rica do bairro e saía a tocar as campainhas e oferecer meus serviços de faxineira diarista. Eu tinha meus doze ou treze anos e achava bonito o trabalho de mamãe; queria ser igual à ela.
Mas nenhuma dona de casa quis meus serviços, eu era muito novinha e não tinha experiência, segundo elas. 
Mal elas sabiam que desde que botei os pés no meu Santo São Paulo que trabalho; cuidando de irmão pequeno, fazendo mamadeira pra um, lavando roupa e passando roupa pra fora (no bom sentido), indo à reunião de pais e mestres (deveria ser reunião de irmãs e mestres), levando irmãos ao posto de saúde para vacinas, pesos, medidas e leite em pó, indo à Vila Maria e à Penha para pagar as prestações feitas nas Casas Bahia e ir ao Banco do  Brasil para mandar dinheiro para os familiares dos nordestinos que a Sum Paulo chegavam em busca de uma vida melhor.
Uma vez mamãe me levou ao seu trabalho, em uma fábrica de lâmpadas, e eu ajudei a colocar as lampadinhas coloridas nos terminais dos fios e depois vê-las acesas a piscar. Era um espetáculo de luz e cor. Lindo!
É isso.


                                                

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Papai e os livros

                                            


Papai não havia estudado e era analfabeto quando conheceu mamãe.
Mamãe ensinou a papai as primeiras letras para ele poder "assinar o nome". Usar o polegar como assinatura era meio triste.
Papai aprende a unir as sílabas, formar algumas palavras; embora invertas as letras na maioria das vezes. Mas o importante é saber "ler uma carta, escrever outra e assinar o próprio nome", como ele sempre dizia.
Mamãe foi professora municipal de pequenas cidades do interior de Pernambuco. Era muito inteligente e hábil com as palavras. Mamãe comprava fiado e ainda pedia troco. Papai era muito bom com cálculos e números.
Ao chegarmos a São Paulo papai já trabalhava numa metalúrgica e mamãe vai trabalhar como faxineira em empresas e como diarista em casas de família. Mamãe sempre trazia para nós algum livro, revista, jornal ou até mesmo uma simples página arrancada de alguma revista; ela dizia que poderia ser útil para os filhos na escola.
Naqueles tempos era comum vendedores de livros passarem de casa em casa oferecendo coleções que seriam úteis na escola e para a vida toda.
Mamãe comprou uma pequena coleção com seis livros. Eu adorei. "Devorei" os livros em menos de uma semana. Queria mais. Mamãe prometera comprar mais livros assim que terminasse de pagar aquela primeira coleção.
Tudo isso sem papai saber. Ele dizia: "Pra quê gastar dinheiro com isso? Melhor comprar um quilo de carne. Pra quê tanto de livro? Oxe!"
Mamãe argumentava, dizia que era para nossa educação, para sermos alguém na vida e não termos que passar pelas dificuldades que eles passaram.
Papai vinha com seu típico sermão: "Isso é dinheiro jogado fora. Esses meninos crescem, vão se casar e nem vão lembrar que livro existe. E não carece tanto de conhecimento assim, basta escrever uma carta e ler outra que está bom demais. O importante é saber assinar o nome".
E o sermão prosseguia por horas e horas.
Graças a Deus que mamãe nunca ouvia as barbaridades de papai e continuou comprando livros por muito tempo. Mas tínhamos desenvolvido um tática para que papai não soubesse, não desconfiasse e nem visse que havíamos comprado mais livros: guardávamos debaixo da cama e aos poucos colocávamos na pequena estante de nossa sala.
Papai chegava do trabalho e olhava a estante à procura de provas "livrísticas"; se tivesse um livro novo ali...Nossa Senhora. Haja sermão.
Mamãe tentava despistar: "Oxe Dedé, e tu tá variando das ideia, é? Tu não tá vendo que esse livros já estavam aí faz é tempo.Tu tá doido pra arrumar confusão com essas crianças".
Ano passado papai partiu de encontro a mamãe e tivemos que sair da casa onde morávamos. Era muito grande para nós sem papai nem mamãe. 
Trouxe muitos e muitos dos meus livros para a nova residência, mas doei alguns muitos para a Casa André Luiz. Me cortou o coração me desfazer daqueles tão preciosos livros, mas me acalanta saber que serão úteis para outras pessoas que também amam os livros como eu.