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quinta-feira, 6 de março de 2014

Papel Laminado

                                   


Vi uma folha de papel laminado sobre a mesa e viajei no tempo e no espaço.
O simples fato de ver algo desencadeia lembranças e memórias de uma infância curta, intensa e nem sempre feliz.
Eu adorava as aulas de Artes com a professora Dona Maria Eugênia, uma senhora elegantíssima e que usava o cabelo curto e alto. A molecada a chamava, escondido,claro, de Black Testão.
Hoje os alunos chamam os professores de nomes bem mais feios e ofensivos e isso sem se preocupar com respeito, em ir para a diretoria e/ou ter os pais chamados para conversar.
Adorava ir à pequena papelaria do bairro para comprar material escolar, principalmente material para as aulas de Artes: papel laminado a que também chamávamos de papel alumínio, papel crepom, cartolina, cola, guache, tinta para tecido, vidro etc...
Na época natalina íamos para a escola munidos de folhas coloridas de papel laminado: azul, verde, vermelho, amarelo, branco, rosa...
Fazíamos a bota do Papai Noel, sempre na cor vermelha, e colávamos algodão para fazer a barra. 
Fazíamos sinos de Natal e colávamos bolinhas coloridas; ficava tudo tão lindo.
Voltava para casa orgulhosa do meu trabalho artístico e colava nas paredes as decorações feitas por mim.
Eu adorava pintar vidro, tecido, gesso...
Adorava costurar à mão e sabia fazer alguns pontinhos básicos de crochê.
Às vezes penso e voltar a fazer alguma dessas coisas; não tenho muito talento e criatividade, mas são atividades que fazem um bem enorme á mente e alma da gente.
É isso.


                                    

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Aula de Música

                                


Tivemos aula de música da primeira até a quarta série do Ensino Fundamental I, o antigo primário. Descíamos para a sala de música, nos sentávamos em círculo e cantávamos as músicas trazidas pela professora.
Era tão bom.
Cantava e ao mesmo tempo ficava preocupada com a vida e a segurança dos dez indiozinhos que tentavam atravessar o rio no pequeno bote e o terrível jacaré a se aproximar. Que medo!
Tentava aprimorar e coordenar minha habilidade motora fina ao jogar as pedrinhas e cantar escravos de Jó jogavam caxangá, (ou cachangá?).
Ficava entristecida com o coração partido da pessoa que recebera o anel do amado: o anel que tu me deste era de vidro e se quebrou, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou...
E tinha as músicas que hoje soam politicamente incorretas, pois têm cunho racista e fazem apologia à violência: Samba Lelê está doente; está com a cabeça quebrada; Samba Lelê precisava é de umas boas lambadas...
Violência, preconceito e racismo.
Plantei uma cenourinha no meu quintal, nasceu uma neguinha de avental; dança neguinha, não sei dançar, pega o chicote que ela dança já.
Havia também música que fazia apologia à violência contra animais: Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu...
Por que tanta maldade para com um bicho inocente? Lei de proteção aos animais; Decreto Federal 24.645/34
Gostava da briga de casal entre o cravo e a rosa: O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo saiu ferido e a rosa despedaçada...
Crime passional, violência contra a mulher; Lei Maria da Penha.
Ficava triste com a solidão do anjo que morava no bosque: Nessa rua, nessa rua tem um bosque, que se chama, que se chama solidão, dentro dele, dentro dele mora um anjo, que roubou, que roubou meu coração...
Às vezes, muitas vezes, o amor é tão impossível, tão doloroso...
A punição para o soldado que não marchasse direito: Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito, vai preso pro quartel...
Fui para a quinta série e esperei pelas aulas de música. Quando desceríamos para a sala de música, nos sentaríamos em círculo e cantaríamos? Talvez nas próximas semanas, pois as aulas apenas começaram... 
Eu me fazia as perguntas e as respondia, mas as aulas começaram, vieram as provas, as férias de meio de ano e nada de aula de música. Percebi que não teríamos mais aula de música. Que pena!
Mas teríamos aula de educação artística, ou aula de artes, como dizíamos, e era bem interessante. Eu adorava pintar e fiz pintura em tecido, gesso e vidro. Era bem legal.
Mas eu queria cantar.
É isso.


                              


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pintura

                                           


Toda época natalina papai ficava em férias coletivas e só retornava ao trabalho no ano seguinte. Papai sempre foi inquieto e gostava de procurar pelo em ovo. Sempre inventava o que fazer, alguma coisa para arrumar, consertar; mas geralmente ele mais estragava do que arrumava.
Era hábito tradicional a pintura das paredes da casa para as comemorações de fim de ano. Papai e mamãe diziam que era época de renovação e era importante pintar a casa com cores novas para receber os bons fluídos do ano vindouro.
Mas o problema era o gosto e o dom artístico de papai ao escolher as cores que pintariam nossa casa. Aquilo parecia o samba do afrodescendente com problemas mentais (samba do crioulo doido).
Papai pintava cada cômodo da casa com uma cor diferente. Fica tudo muito colorido e chamativo e nós detestávamos quando alguém fazia comentários bobos sobre a pintura extravagante de nosso lar doce lar.
Papai pintava o quarto de azul, a sala de amarelo, o banheiro de branco e o lado de fora da casa com um rosa chocante. A cozinha era um episódio à parte. Jesus.
A parede era dividida em duas cores e dois tipos de tinta: tinta comum e tinta óleo.
A parte de baixo foi pintada com um verde bem escuro e oleoso e a parte de cima com um amarelo canário. Parecia coisa da Copa do Mundo..."Brasil, Brasil, salve a seleção".
Algumas pessoas educadas diziam que ficou legal, bonitinho, diferente. Outras mais engraçadinhas perguntavam se papai já estava se preparando para a Copa do Mundo. Não disse?!
Nossa casa era a mais colorida da rua e quiçá do bairro.