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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Aniversário de Mamãe

                                 


Hoje é aniversário de mamãe.
Mamãe nasceu em 15 de novembro de 1945 e partiu em 05 de maio de 2001. São onze anos sem mamãe.
Mamãe orgulhava-se de ter nascido em um feriado, ainda mais em uma data onde comemora-se a Proclamação da República pelo Marechal Deodoro da Fonseca em 15 de novembro de 1889.
Mamãe era uma nordestina com cara de portuguesa, tanto que, quando ia à feira de sábado, a senhora portuguesa que vendia batatas dizia: "Quantos quilos hoje, patrícia?". E mamãe sempre dizia que era nordestina e a portuguesa dizia que não, que mamãe era portuguesa com certeza.
Bom, nossos sobrenomes não negam, Soares e Gomes da Silva. São sobrenomes dos nosso avôs; nossas avós tinham sobrenomes italianos e espanhóis, mas ao se casarem com os gajos, ragazzos e guapos apaixonados, acabaram por assumir o novo sobrenome. É tanta gente que se botar todo mundo jundo vai ter que reservar o estádio do Corinthians só para isso.
Como já falei aqui, na família tem galego, moreno, branquelo azedo de cabelo preto, morenos de pele cor de índio com cabelos lisos, negões e gente de toda qualidade, graças a Deus. O mundo é diverso e se fosse de uma cor só, que graça teria?
Mamãe orgulhava-se de sua nordestinidade e não tinha vergonha de falar sobre os tempos difíceis pelos quais passamos; a fome, a seca, a miséria que ainda hoje assola meu amado Sertão.
Tantos milhões pagos a jogadores de futebol, a cantores de musiquinhas de letra fácil e pegajosa, a abestados trancados em uma casa ou fazenda e ninguém se preocupa em usar alguns desses milhões para ajudar o Nordeste, principalmente o Sertão.
Será que se fosse em outra região do país a ajuda viria?
Será que é preconceito contra um povo que é antes de tudo um forte?
Será que se tivéssemos outro fenótipo seríamos tratados de forma diferente?
O Nordeste só é lembrado pelas belas praias e pelo turismo sexual, mas passou da orla marítima, ninguém quer nem saber o que tem lá.
Triste isso para um país que sonha em ser uma potência.
Mas eu falava sobre o aniversário de mamãe...
Mamãe completaria hoje 67 anos, partiu aos 55 em maio de 2011.
Muito nova, com tanta gana de viver, com tantos planos, com tantos sonhos.
Mamãe gostava de rosas vermelhas, adorava a cor vermelha.
O que poderia dar de presente a mamãe?
Pedir a Deus que ela fique em um bom lugar, que tenha paz, que o peso sobre seus ombros corcunda seja aliviado e, no meu egoísmo terreno, que mamãe possa vir sempre me visitar, me colocar em seu colo e me acalentar.
Amém.


                                    

sábado, 14 de abril de 2012

Funeral

                                           


Depois de morarmos por algum tempo em um barraquinho de madeira, nos mudamos para uma casa com três cômodos grandes, banheiro decente e quintal.
No quintal de cimento havia um pequeno quadrado de terra onde tinha uma bananeira, uma majestosa mangueira, pequenas plantas e cravos.
Mãevelha gostava muito de plantas e mantinha seus vasos com cravos e cravinas.
Mamãe adorava rosas vermelhas.
Um dia estou ajudando Mãevelha a regar as plantas quando escuto um miado; era uma gata e estava com um barrigão enorme, estava prestes a parir. A gata já sentia dores, miava forte e tinha um pedido de ajuda no olhar.
Fiz uma cama para a gata debaixo da bananeira e ali ela deu cria. Foram seis gatinhos.
Dei à gata o nome de Kojaka.
Passadas algumas semanas Kojaka adoeceu e se recusava a comer, tomar água e amamentar os filhotinhos.
Kojaka morreu num dia de sábado, dia de feira.
Fiquei muito triste e os gatinhos, órfãos.
Apesar da tristeza, reuni coragem e fui cuidar do funeral de Kojaka.
Havia um terreno baldio ao lado de nossa casa e com a ajuda de meus irmãos, abri a cova e enterrei o corpo da defunta felina. 
Voltei para casa, peguei alguns cravos e cravinas de Mãevelha e algumas rosas vermelhas que mamãe tinha comprado na feira e coloquei o buquê improvisado em cima do túmulo de Kojaka. Entregamos a alma da pobre felina a Deus e seguimos como nossas vidas. A vida continua.
Fomos brincar.
Passadas algumas horas mamãe me chama, estava danada de braba. Ela e Mãevelha sentiram falta de suas queridas flores.
Tentei explicar que mamãe poderia comprar mais rosas na feira do sábado seguinte e outros cravos desabrochariam. 
Deus e os santos sabiam que as flores foram usadas por um motivo nobre: o funeral de Kojaka. 
Que Deus a tenha.