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domingo, 21 de abril de 2013

Varais

                                            



"Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia..."

Tirei o dia para lavar roupas, aliás, desde ontem que lavo toalhas, lençóis  edredons, cobertores...
Choveu todo o fim da semana passada e como trabalho, só posso me entregar às prazerosas atividades domésticas aos fins de semana.
Lembro de mamãe, que tinha muito cuidado e capricho para com as roupas.
Papai implicava e dizia que ela ficava o dia todinho no tanque e mamãe retrucava dizendo que ela gosta de fazer as coisas bem feitas.
Já consertei varais velhos e puídos, cortei, emendei e pendurei as roupas.
Os gatos puxam os cobertores e lençóis do varal e deitam-se em cima, tenho que lavá-los novamente.
Não posso pendurá-los no varal e sair, os lençóis, claro; preciso ficar de olho, essa minha gataiada é terrível.
É isso.


                                 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Antigamente

                                               

Estava parada na Radial Leste aguardando o farol abrir. Parei em frente à uma loja que vende azulejos antigos, as chamadas "Museu do Azulejo".
São azulejos de cores e desenhos fortes e marcantes, azulejos azuis ao estilo português; lindos.
Mamãe trabalhava em casas de família e às vezes eu ia vê-la e me encantava com a beleza das casas ricas, com os pisos, azulejos, jardins, portões altos, carros na garagem; tudo muito bonito, bem ao contrário de nossa casinha pequena escondida lá nos fundos do enorme quintal de terra, banheiro do lado de fora e sem pia, chuveiro frio, tanque áspero de cimento e muita roupa para lavar.
Às vezes o chuveiro funcionava, mas se fosse usado por muito tempo acabava pifando de novo. Era muita gente para tomar banho e o velho chuveiro ficava sobrecarregado.
Papai implicava quando tomávamos banho quente e para disfarçar, trocávamos a estação de "inverno" (quente) para "verão"(frio) e abríamos o chuveiro para deixar sair toda a água quente que ficava armazenada, assim papai não desconfiaria e pensaria que havíamos tomado banho frio.
Durante o inverno o chuveiro pifava bem antes e o jeito era esquentar a água no fogão; haja gás. Os botijões duravam menos nas estações frias.
Bom...
Hoje os chuveiros funcionam e não precisamos mais trocar a estação.
Hoje máquina de lavar é acessível e não é mais artigo de luxo.
Hoje carros também são acessíveis e congestionam ruas, vias e Marginais.
Hoje os azulejos coloridos, fortes e marcantes deram lugar a coisas mais clean.
Sei lá... Estou meio nostálgica hoje.
Estou cansada.

                                         

terça-feira, 26 de junho de 2012

Frio

                                          


Faz muito frio aqui em São Paulo e na região sul do país.
Hoje o sol até que deu o ar de sua graça dourada, mas ontem o dia estava cinzento e com muita neblina.
Estava lembrando de uma tarde fria, cinzenta e chuvosa quando me preparava para ir à escola e do portão vi mamãe vindo lá no fim da rua acompanhada de uma prima nossa. Fiquei tão feliz!
"A senhora não vai trabalhar hoje de tarde, mãe?"
"Não filha, a patroa disse que hoje eu não precisava ir"
Mamãe trabalhava das seis da manhã às duas da tarde em um firma e depois ia para as casas de família e trabalhava o resto do dia.
"Então posso faltar na escola hoje, mãe?"
"Mas você não vai perder as lições, filha?"
"Depois eu copio de alguém".
Não era sempre que tínhamos mamãe em casa todos os dias, era só nos corridos finais de semana e era aquela correria para irmos à feira, ao supermercado, lavar roupas, limpar a casa... Mamãe estava sempre ocupada e estressada e vivia nos pedindo café e cigarro enquanto encarava o velho tanque áspero de cimento com aquela montanha de roupa para ser lavada.
Era tanta roupa, meu Deus, mas quando íamos para a escola usávamos o uniforme que não "emparava" o frio, como diziam mamãe e Mãevelha.  Era um tecido muito fininho e gelado e esfregávamos as mãos para gerar algum calor. As unhas e os lábios ficavam roxos de frio, era como se tivéssemos usado batom ou esmalte roxos.
Lembro que eu tinha uma cacharréu (eu falava caixa régua) de três cores que me lembrava um sorvete napolitano: branco, rosa e marrom. Era fininha e não aquecia muito e eu puxava as pontas das mangas para cobrir meus magros e longos braços. 
Uma vez a patroa de mamãe deu várias peças de roupas e calçados e na época estava na moda aquelas horrendas sandálias plataforma. Aquilo pode ser usado como arma!
Bom, entre as roupas havia um blazer a que chamávamos de paletó e era forrado e bem quentinho. Não tive dúvidas, vesti o blazer e calcei as sandálias plataforma e fui para a escola. A molecada me zuou, claro: "Aonde você vai com esse tamancão? Você veio pra escola com o paletó do seu pai?!"
Não vou colocar aqui o que eu respondi para a molecada.
No outro dia fui para a escola com meu Conga surradinho e com minha cacharréu napolitana; deixei o paletó e a sandália plataforma para doações.


                                            

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Lembranças Musicais: Guilherme Arantes

                                      


Ouvi muito rádio quando criança.
Paipreto, Mãevelha, mamãe e papai sempre com seus fiéis radinhos de pilha a tocar boa música brasileira e algumas estrangeiras também.
Ouvíamos muito Zé Ramalho, Fagner, Elis Regina, Caymmi, Chico Buarque, Caetano, Gil, Bethania, Djavan, Alceu Valença, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Alcione, Beth Carvalho, Luiz Melodia...
Ouvíamos também Roberto Carlos, quando fazia música romântica bonita de dor de corno, antes de ficar brega-neurótico. Na boa.
Gostava e ainda gosto de Guilherme Arantes e adorava ouvir Êxtase, Meu mundo e nada mais, Um dia um adeus, Cheia de charme. 
Eu gostava da melodia meio estranha, melancólica e espacial (sic) da música Êxtase. Tinha-se a impressão que a música vinha de longe, muito longe; de alguma galáxia distante e à medida que se aproximava da Terra ia aumentando, crescendo. Mamãe lavando roupas no tanque e Mãevelha estendendo no varal, o rádio tocando Êxtase, eu olhando para o céu e imaginando a viagem austral da música.
Depois de mais velha vim a entender a letra e gostei ainda mais; dessa e das outras músicas de Guilherme Arantes.
É isso.
PS: Acho que há vida fora da Terra e os ETs tentaram alguma forma de contato, mas desistiram após desconfiarem que todos os terráqueos são meio maluquetes, ou tentaram encontrar algum terráqueo normal. Difícil.


Aurora Austral
                                          

terça-feira, 8 de maio de 2012

Zóião

                                              


Fomos convidados para um churrasco.
O anfitrião morava em um quintal com duas casas; a sua ficava na frente e nos fundos morava um casal de velhinhos ranzinza.
O casa dos idosos era isolada por uma simpática cerca de madeira e o banheiro deles ficava do lado de fora, supostamente protegido pelo portãozinho e pela cerca.
Depois de muito refrigerante, sucos e outros líquidos, sentimos vontade de usar o banheiro, mas a fila era enorme.
Mamãe percebeu que o banheiro do velhinho rabugento ficava do lado de fora e sem cerimônia nenhuma, ela abre o portãozinho e usa o banheiro do idoso invocadinho.
O velhinho ao ouvir o barulho de vozes, passos e descarga em seu pequeno quintal, abre a porta e nos escorraça: "Quem deu permissão a vocês para usar meu banheiro? Por que não voltam pra festa de vocês e não usam o banheiro de lá?"
Nos desculpamos e deixamos seu quintal.
Ficamos à espreita; esperamos o velhinho fechar a porta e apagar as luzes para logo em seguida invadirmos o seu quintal. O seu banheiro, mais precisamente.
Mas o idoso nos olhava pelo buraco da fechadura, nos surpreendeu no seu quintal e nos expulsou novamente. Agora ele tranca o portão com cadeado, não dá para invadir mais o seu quintal.
Nesse ínterim, mamãe com o olho maior que a barriga entope-se de churrasco mal passado; a carne e a linguiça nem esquentavam direito na brasa e mamãe já atacava.
Alguns minutos depois mamãe começa a se sentir mal e tem ânsia de vômito; vai ao banheiro do anfitrião mas este está ocupado.
Mamãe tenha entrar no quintal do velhinho mas está trancado com cadeado. Ela chama e pede para usar seu banheiro, mas ele nega. E agora?
Há dois tanques de lavar roupas um ao lado do outro no quintal da casa do anfitrião e mamãe pergunta ao rapaz: "Meu filho, de quem é esse tanque aqui?"
"Esse é meu, Dona Marlene"
"E esse outro?"
"É do velhinho da casa dos fundos. Por quê?"
"Por nada não, meu filho; eu só queria lavar as mãos"
Mentira!
Mamãe debruça-se sobre o tanque do velhinho ranzinza e vomita todo o churrasco mal passado e as bebidas que havia tomado durante o churrasco. Eca!
"Tudo bem, Dona Marlene?"
"Tudo bem, meu filho. Acho que foi a linguiça que me ofendeu (fez mal)"
"Dona Marlene, posso falar uma coisa?"
"Pode sim, meu filho"
"Com todo o respeito, mas o que lhe fez mal foi o zóiao da senhora"
Caímos todos na gargalhada.
Uma parenta nossa que nos acompanhava nessa aventura gastronômica observa tudo quietinha para depois perguntar a mamãe: "Oh Marlene, e tu fosse vomitar bem no tanque do véio chato, foi? Oxe, tu tá doida, é?"
"Eu pedi a ele pra usar o banheiro e ele não deixou..."


                                                 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cacos de telha

                                           


Fui com minha irmã Rosi ao supermercado. Fizemos uma pequena compra e entre os itens, minha irmã pega uma esponja natural para lavar os pés.
Eu gosto mais de pedra pomes.
Enquanto andávamos pelos corredores do supermercado, lembrávamos de papai e de seu lava pés. Nossos pés que eram lavados, não os de papai.
Esclareço.
Brincávamos na rua, corríamos, suávamos e voltávamos imundos para casa.
Fubá dizia que não precisava tomar banho porque estava limpo. Certo.
Papai nos chamava e fazíamos fila para termos nossos pés lavados no tanque de lavar roupas e, advinha por quem? Papai.
Nosso querido e amado pai. 
Papai nos colocava dentro do tanque, que naquela época era de cimento, grandão e pesadão. Os tanques de hoje são muito pequeninos e frágeis, não nos aguentaria dentro.
Bom...
O tanque já estava cheio com água e sabão e ao lado tinha aquelas duras e ásperas escovas de lavar roupas e cacos de telha.
Papai primeiro tirava o grosso da sujeira, mergulhava nossos pés na água ensaboada e esfregava primeiramente com a escova e arrematava com os cacos de telha. Esfregava tanto que a pele de nossos pés ficava transparente e podíamos ver as veias. Mais um pouco e poderia ocorrer uma hemorragia. Juro por Deus.
Papai era muito exagerado.
Um a um. Todos os seis filhos. Todo mundo com os pés limpos.
Papai.