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domingo, 2 de setembro de 2012

Mundiça

                                            

Papai, claro, queria as coisas durassem o máximo possível e ficava muito brabo quando mamãe dizia: "As coisas estão acabando, meu velho, tem que fazer as compras".
Se mamãe falasse que acabou o sabão para lavar roupas ou se a mistura ia ser ovo... Vixe!
Fazíamos as compras e íamos à feira com mamãe e sobre a mesa colocávamos a fruteira carregada com laranjas e bananas, isso no sábado, na terça-feira já não tinha mais nada e papai ficava doido e dava-lhe sermão: "Mas será Deus impussivi?! Já acabou as fruitas que tu comprasse no sábado?! Que povo acanalhado! Amundiçado!"
Mamãe tentava explicar o que papai não queria ver nem entender; a família era grande, os filhos estavam em fase de crescimento e é normal ter um grande apetite, que os "primos" também comiam as frutas....
Os "primos" entre aspas eram rapazes solteiros ou homens casados e pais de família que vinham para São Paulo em busca de trabalho. Esses homens eram conhecidos de algum parente nosso que ficara lá em Pernambuco; bastava dizer que o pai conheceu o avô, da mãe, da tia, da sobrinha, de alguém que conheceu nossos avôs e pronto, era "primo"!
Dizíamos "primos" porque soava menos estranho e evitaria perguntas capciosas, pois era estranho colocar dentro de casa desconhecidos recém chegados de outro lugar que diziam ser parente ou conhecido de algum parente ou conhecido de nossos pais ou avós.
Bom, mas essa fase já passou, graças a Deus.
Eu achava engraçado papai falar "mundiça" e "acanalhado" e tempos depois fui descobrir que "mundiça" significava "imundice" e "acanalhado" significava alguém muito guloso, sem educação, zóião mesmo.
Eu estava em sala de aula e tentava fazer a chamada de quarenta e cinco doces e barulhentos alunos quando um deles diz: "Cala a boca, mundiça! Deixa a professora falar!"
Eu parei para rir e eles adoraram, claro.
É isso.

                                                   

                                      

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sobrevivência

                                                


Euclides da Cunha, em seu livro "Os Sertões", disse: "O sertanejo é antes de tudo um forte".
Somos sertanejos, somos fortes. Viemos lá do Sertão pernambucano para vida melhor tentar em Sum Paulo. "Meu Santo São Paulo, como dizia mamãe".
Já passamos por muitos e bons bocados e isso prova nossa força, nossa sobrevivência: seca, fome, trancados em casa enquanto papai e mamãe trabalhavam, vigiados e guardados por um cachorro, trabalho, responsabilidades e... Produtos Químicos!
Explico.
Era comum a venda de produtos de limpeza por senhores que paravam sua perua na rua e ofereciam água sanitária (cândida), amaciante de roupas, detergente, desinfetante, cera, sabão etc... Hoje ainda existe esse tipo de comércio, mas está mais restrito a bairros distantes.
Há uma infinidade grande de produtos de limpeza vendidos em supermercados e que prometem limpeza, brilho, maciez num piscar de olhos. É.
Fomos expostos à toda sorte de produtos químicos disponíveis na época, fossem em forma de inseticida para matar piolhos e muriçocas, fossem em forma de produtos de limpeza.
Era inseticida, era cera que deixava nossas mãos vermelhas por uma semana, removedor que era usado antes de encerar o chão e que nos deixava tontos com o cheiro forte, sabonetes que nos davam coceira... E para completar a toxicidade química, papai e mamãe fumavam que nem duas Caiporas!
Mamãe ensopava nossos cabelos com inseticida e íamos para a escola muito doidões (acho que era por isso que mesmo com a vida dura que tínhamos, sempre tiramos notas boas).
Sexta-feira era dia de limpeza e lá íamos nós nos expor ao fortíssimo cheiro do removedor e depois manchar nossas mãos com cera em pasta; cera líquida ainda era pouco conhecida e era mais cara.
Lavar roupas com sabão em pó e cândida e ficar com as mãos secas e descascando.
Latas com soda cáustica para desentupir os ralos e fossas.
Álcool para limpeza de vidros e a fórmica dos móveis.
Lustra móveis para os de madeira.
E querosene também.
Sobrevivemos a tudo isso e acho que foi por esse motivo que não nos viciamos em bebida, cigarro e drogas ilícitas (só as lícitas: café, chocolate e cerveja).
Fomos expostos a tantos cheiros fortes e a tanta química que fomos naturalmente imunizados contra qualquer vício desse tipo. 
Ainda bem.
Sobrevivemos.


                                     

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cacos de telha

                                           


Fui com minha irmã Rosi ao supermercado. Fizemos uma pequena compra e entre os itens, minha irmã pega uma esponja natural para lavar os pés.
Eu gosto mais de pedra pomes.
Enquanto andávamos pelos corredores do supermercado, lembrávamos de papai e de seu lava pés. Nossos pés que eram lavados, não os de papai.
Esclareço.
Brincávamos na rua, corríamos, suávamos e voltávamos imundos para casa.
Fubá dizia que não precisava tomar banho porque estava limpo. Certo.
Papai nos chamava e fazíamos fila para termos nossos pés lavados no tanque de lavar roupas e, advinha por quem? Papai.
Nosso querido e amado pai. 
Papai nos colocava dentro do tanque, que naquela época era de cimento, grandão e pesadão. Os tanques de hoje são muito pequeninos e frágeis, não nos aguentaria dentro.
Bom...
O tanque já estava cheio com água e sabão e ao lado tinha aquelas duras e ásperas escovas de lavar roupas e cacos de telha.
Papai primeiro tirava o grosso da sujeira, mergulhava nossos pés na água ensaboada e esfregava primeiramente com a escova e arrematava com os cacos de telha. Esfregava tanto que a pele de nossos pés ficava transparente e podíamos ver as veias. Mais um pouco e poderia ocorrer uma hemorragia. Juro por Deus.
Papai era muito exagerado.
Um a um. Todos os seis filhos. Todo mundo com os pés limpos.
Papai.