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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Repórter Esso e A Voz do Brasil

                                  

O rádio era nosso meio de comunicação com o mundo. Notícias e música.
A televisão ainda não estava tão em voga e só pessoas abastadas podiam ter o eletrodoméstico.
Anoitecia e o rádio era ligado, ia começar o Repórter Esso trazendo as principais notícias do Brasil e do mundo.
Os candeeiros e lampiões de gás eram acesos, o tema de abertura, a voz do locutor e um zunido característico.
Eu associava o início da noite com o rádio e o Repórter Esso.
Acabava o noticiário e o rádio era desligado para não gastar muito "elemento" (pilha).
A Voz Do Brasil iniciava (ainda inicia, creio eu), às sete da noite e o locutor iniciava o programa dizendo: "Em Brasília, dezenove horas".
E quando uma pessoa era fofoqueira e ia à nossa casa para comentar as mais recentes informações sobre a vida alheia, mamãe dizia: "Lá vem o Repórter Esso com A Voz do Brasil".
Se uma pessoa fosse chamada de Repórter Esso, sem ela saber, claro, logo sabíamos que se tratava de uma fofoqueira.
Era engraçado.
É isso.


                                          

                                        

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Pilha

                                     

Minha avó Mãevelha adorava seu inseparável rádio de pilha e quando chegava a hora de trocar as pilhas, as quais chamava de elemento, pedia para algum dos "primos" que moravam em nossa casa fazer o serviço.
Mãevelha não confiava em nossa capacidade e habilidade manual para trocar umas simples pilhas, ela achava que o rádio não funcionaria.
Dizíamos que bastava colocar as pilhas nos pólos certos, negativo e positivo, e pronto, o rádio funcionaria e ela poderia ouvir os programas do Zé Betio, Eli Correa, Barros de Alencar e outros.
Mas não adiantava, Mãevelha não confiava em nós e ficava o dia inteirinho sem ligar seu amado rádio esperando até a hora em que os "primos" voltassem do trabalho. Era muita teimosia e "inguinórança".
Mas nos vingávamos dela roubando suas bolachas para serem devoradas com café ou chá quentinhos. Quem manda duvidar de nóis?
Mamãe ainda tentava convencer Mãevelha: "Mamãe, deixe de teimosia, esses meninos vivem na escola e foram nascidos ou criados em São Paulo e sabem de muitas coisas". 
Nosso pais e nossa avó achavam que o fato se sermos nascidos ou vindos bem cedo para São Paulo nos fazia mais espertos. Sei não, há controvérsia.
Os ditos "primos" chegavam e Mãevelha pedia: "Meu filho, bote os elementos no meu ráido, tu bota?"
Papai, mamãe e Mãevelha falavam um português diferente do que aprendíamos na escola e só quando comecei a estudar é que percebi a diferença e fiquei em dúvida sobre quem falava certo ou errado. Eles falavam "táuba, ráido, Káita, sangre, vinargue...".
Já falei sobre isso aqui e parte disso se deve à variação linguística e a outra ao fato de sermos pobres e falarmos como pobres mesmo.
Bom...
Os elementos/pilhas eram trocados e o bendito rádio era ligado e Mãevelha ficava feliz até o nova troca dos elementos.
É isso.

                               

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Professor

                                       

Mamãe ligava a TV e ia para o tanque lavar roupas.
Terminava a programação do rádio e mamãe iria assistir aos telejornais da tarde; mamãe mais ouvia a TV do que assistia.
Acaba o Jornal Hoje e eu colocava na TV Cultura, tinha um programa educativo com aulas pré vestibulares. Os alunos/pessoas mandavam perguntas e os professores esclareciam suas dúvidas.
Tinha um professor de História ou Geografia, não lembro bem, que era engraçadinho; ele dizia: "Opção A de Ailóviu". Era engraçado.
Tinha um professor de Biologia que cantava musiquinhas para melhor expressar seus conhecimentos: "O músculo relaxa, contrai...Contrai, relaxa..."
Tinha uma professora de Língua Portuguesa que lembrava muito a cantora Nara Leão, o cabelo lisinho, os dentes enormes e a voz delicada.
Mas tinha um professor bonitão de inglês que mamãe adorava; nos dias que tinha aula dele nós chamávamos mamãe: "Manhê, vai começar a aula do professor bonitão". Ela deixava suas roupas de lado, sentava-se no sofá e assistia à aula de inglês do professor bonitão. 
Perguntávamos a ela o que foi que o professor havia ensinado e ela respondia: "Oxe, sei não. Eu gosto é de ver esse homem bonito. Eita homem bonito, minha Nossa Senhora!".
Ríamos desse gosto de mamãe por professores bonitões.
Ainda hoje gosto de assistir ao Telecurso que passa tanta na Globo como na TV Cultura. Adoro. Acordo cedo e ligo a TV e assisto ao Telecurso, depois ao Globo Rural e SPTV.
Adoro.
É isso.

                                     

sábado, 28 de julho de 2012

Sem lenço nem documento, Cálice, Na linha do horizonte

                                               


Chegamos a São Paulo e ficamos pouco mais de um mês na casa do nosso tio Manoel Gomes, irmão de mamãe.
O tio morava no Jardim Popular ou Vila Ré, dizia que os dois bairros eram próximos e a correspondência chegava do mesmo jeito. São bairros da minha querida ZL (zona leste) e próximos ao meu querido bairro da Penha.
Mamãe ficava em casa ajudando a esposa do tio e Mãevelha cuidava de nós, que na época éramos apenas três: eu, Naldão e Rogério. Papai trabalhava e só voltava à noite.
A casa do tio Manoel Gomes era ampla, bonita, azul, com muros baixos, jardim florido e um piso de caquinhos cor de telha. Não sei o nome desse piso, mas era muito usado antigamente e lembrava um mosaico. No quintal dos fundos tinha uma faixa de terra com algumas bananeiras, muito legal.
Havia chovido e  logo em seguida abrira um sol quente e bonito. Acho lindo quando chove e depois vem o sol seguido por arco-iris. A luminosidade, o cheiro de terra molhada...
As minhas primas sempre ligavam o rádio enquanto ajudavam a mãe com os afazeres domésticos. E no rádio tocava: "Caminhando contra o vento, sem lenço nem documento..."
Eu ouvia, analisava e tentava entender aquela canção. Quem cantava? Como alguém pode sair sem documento? E se a polícia parar a pessoa? Ela pensa em casamento e ele toma uma Coca Cola! E eu seguia elucubrando...
Dali a pouco a música termina e inicia outra com uma voz grave e monótona que canta: "Pai, afasta de mim esse cálice... De vinho tinto de sangue". Era Chico Buarque. Eu gosto mais do Chico como compositor a cantor.
"O que é cálice? É o mesmo cálice sagrado que o padre fala nas missas? Mais elucubrações.
Anos depois vim entender que o "cálice" da música era na verdade um "cale-se"; vivíamos em plena ditadura militar e muitos artistas tiveram que deixar o Brasil: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque de Hollanda e outros.
Tempos de música boa.
Hoje, até os comerciais foram contaminados com esse lixo atual a que chamam de música!
Bom...
O volume do rádio é abaixado e escuto a voz de uma de minhas primas: "Manhê, o moleque da Marlene fez xixi no quintal!".
Correm a mãe as meninas com balde cheio de água com sabão e água sanitária; esfregam o chão e depois passam um pano com o desinfetante Pinho Sol.
Mamãe não gostou de ter o filho chamado de "moleque" e achou um exagero toda aquela limpeza neurótica; para ela, era apenas a urina de uma criança e ele não tinha nenhuma doença contagiosa.
Aos poucos mamãe e nós fomos nos habituando aos choques culturais e aprendendo hábitos e comportamentos novos para nós. Fomos nos civilizando gradativamente.
Quintal limpo, bronca dada, conselhos também: "Se quiser fazer xixi é só falar que a gente te leva ao banheiro. Lavar as mãos sempre que usar o banheiro. Não fazer xixi em qualquer lugar, só no banheiro..."
Rádio ligado e tocando a boa e velha MPB e agora tocava uma música que eu achava linda, melódica e melancólica: "Eu vou pro ar, no azul mais lindo eu vou morar..." de uma banda chamada Azymuth (nós dizíamos "Azambuja").
Nos mudamos depois para nossa primeira casa, um barraquinho simples de madeira, e o rádio sempre junto.
O rádio e a música fazem parte da nossa História.
É isso.
                
                                              
                                             


                                               







segunda-feira, 2 de julho de 2012

Motivo, Sapatos, Arrumação

                                         


Arrumava a casa. 
Limpa daqui, lava ali, tira pó, esfrega chão...
Arrumava o guarda roupa e encontro dois pares de sapatos que um dia usei; os guardei de lembrança.
Sapatos lindos. 
Adoro sapatos. E que mulher não gosta?
Sapatos de salto alto, sem salto, mas elegantes. Nada desses tijolos presos à tiras a que dão o nome de plataforma, coisa mais horrenda.
Acho que fiquei com trauma a partir do dia em que fui para a escola calçada nas sandálias plataforma e vestindo um paletó doado por uma patroa de mamãe; a molecada falava: "Deixou seu pai sem paletó? Legal seu cavalo de aço". 
As sandálias faziam um "poc poc" danado em contato com o piso de madeira da nossa sala de aula. E justo naquele dia fui chamada à lousa! Tentei disfarçar, mas não teve jeito, e lá fui eu vestida no paletó e calçada nas sandálias plataforma e o "poc poc" ecoou pela sala. Vixe!. Fui motivo de gozação por um bom tempo. Isso que dá se meter a ser fashion!
Cavalo de aço eram sapatos com saltos grossos e altos, tipo plataforma, muito usados e fashion nos anos 70. Era a moda das calças com cintura muito alta, modelo "santropeito ou tomara que se enforque" e bocas de sino. Jesus!
Acho que é por esse motivo, ou motivos, que criei certa intolerância a sapatos/sandálias plataforma.
Arrumava, gosto de arrumar. Parece que arrumamos não apenas a casa, o guarda roupa, mas arrumamos a nós mesmos... por dentro.
Olhei velhas fotografias. Vi pessoas que já se foram. Pessoas que estão em outros lugares distantes, tanto geograficamente quanto emocionalmente, espiritualmente e outros "mentes".
Saudades, certa melancolia, certa revolta, lágrimas certas.
Papelada velha, amarelada pelo tempo. Rasguei, joguei fora. A gataiada corria atrás das bolas de papel; corriam, pulavam, traziam na boca, brincavam...
Eu sorria, falava com eles e jogava mais bolas de papel. Ficamos assim por alguns momentos e ouvíamos a boa e velha MPB do rádio do vizinho, que compartilhava com o restante da vizinhança seu bom gosto musical e a potência sonora de seu aparelho de som.
Muito boa, por sinal.
Mas eu falava sobre sapatos...
Guardei dois pares de sapatos que um dia serviram quando meus pés eram normais, pés grandes, mas normais. Hoje são suas bolotas gorduchas, largas, inchadas, grandes e de fazer inveja ao Incrível Hulk.
Fui à uma loja que vende calçados de numeração grande; provei alguns pares e ficaram horríveis. O problema dos meus pés não é o comprimento, mas sim a largura e a altura. Os pés transbordam para fora dos sapatos, parecem bolo quando cresce demais e transborda para fora da forma. Não é nada confortável. Mas o vendedor insistia dizendo "Ai, ficou lindo!". Para vender fazem qualquer negócio, até mentem!
Fiquei triste, só um pouco.
Eu adoro sapatos e quando vou às lojas de calçados é só para acompanhar alguém que vai comprar, porque para mim não dá. Acho lindos os calçados vendidos pela Avon, mas...
Enfio meus pezões acromegálicos em tênis pretos masculinos número 43, mas é chato. No inverno e em dias de chuva ainda passa, mas não dá para usar tênis com tudo, não combina.
O jeito vai ser mandar fazer, mas só me falta um pequeno detalhe: dinheiro.
Mas isso é só um detalhe.





                                            



quinta-feira, 14 de junho de 2012

Xodó

                                             


"Que falta eu sinto de um bem
que falta me faz um xodó
mas como eu não tenho ninguém
eu levo a vida assim tão só..."


Meu Paipreto cantarolava essa música que tocava no inseparável rádio de pilha; era uma composição de Dominguinhos e Anastácia cantada por Gilberto Gil.
Mãvelha lavando roupas no quintal, meu Paipreto sentado no alpendre da casa ao mesmo tempo cantarolando e observando nossas artes, mamãe trabalhando e papai em "Sum Paulo".
Curiosamente, naquela época, homens que tocassem violão e/ou usassem camisas coloridas eram tidos como vagabundos, preguiçosos, malandros.
Tio Nelson gostava de cantar, tocar violão e usar camisas coloridas, tinha uma bela voz também. Mas Paipreto achava que isso não estava certo, não combinava com um homem adulto e pai de família como era o tio e além do mais, não pegaria bem para ele ter um filho malandro e ficar falado pela cidade.
Se Paipreto visse os jovens de hoje com cabelos espetados, calças justas, coloridas e o cofrinho de fora... Vixe! 
Eram outros tempos aqueles.
Tio Nelson cantava uma música de Caymmi que sua mãe, a tia Anália, adorava:


"Eu vou pra Maracangalha eu vou
eu vou de liforme branco eu vou
eu vou de chapéu de palha eu vou
eu vou convidar Anália eu vou
se Anália não quiser ir eu vou só
eu vou só sem Anália 
mas eu vou"


Mamãe gostava de uma música do cantor Evaldo Braga que hoje é tema do comercial do carro Renault Duster e era assim:


"Sorria meu bem, 
sorria,
você hoje chora
por alguém que nunca te amou..."


E o rádio e a boa música popular brasileira sempre presentes em nossas vidas. Era uma época simples em que não existiam Internet, Redes Sociais, e-mails, Ipod, celulares e toda essa parafernália cibernética que faz com que as pessoas tenham um milhão de amigos virtuais e vivam numa solidão real.
É isso.

                                    


                                      
                                    


                                          


                                       





quinta-feira, 31 de maio de 2012

Escrever

                                     


Acho que sou melhor com palavras escritas do que com palavras ditas.
Ter que se explicar, tentar fazer o outro entender o que se quis dizer, geralmente surgem mal entendidos.
Sempre adorei ler, escrever, conhecer, saber, descobrir...
Queria muito contar para alguém meu novo aprendizado, minha nova descoberta, minha opinião.
Quando estava na escola prestava atenção a cada detalhe da aula e não via a hora de voltar para casa e contar tudo à mamãe. Mas ela estava sempre muito ocupada com aquela eterna montanha de roupa para lavar, os ouvidos ligados ao rádio e a mente a viajar por algum lugar de paz, conforto, felicidade.
Cresci e continuei faminta por conhecimento, é como se meu cérebro fosse dependente e entrasse em crise ao sentir-se vazio.
Aos quatorze anos já conhecia Kafka, Nietzsche, Goethe, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Oscar Wilde, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado de Assis, Rachel de Queiroz e tantas outras mente brilhantes da literatura brasileira e mundial.
Era nos livros que eu fugia do meu mundo de dor, críticas, culpa...
Lia escondido, era muito criticada por perder tempo com livros em vez de cuidar da casa e dos irmãos menores.
Como dizia mamãe: "Mateo que pariu, Mateo que balance", mas não era bem assim. Mamãe paria, e eu balançava.
Bom...
Sempre fui de poucos porém bons amigos. Não sou afeita à amizades excessivamente grudentas. Me chamam de anti-social, mas não sou, apenas gosto do meu espaço e detesto exageros.
Às vezes sinto uma vontade tremenda de falar sobre um livro que acabei de ler, um filme ou programa que vi, qualquer coisa... 
Tenho receio de passar a imagem errada, de ser julgada arrogante, metida, mas não sou.
Sou mal interpretada, sempre fui.
Escrever é melhor.
Clarice Lispector disse: "Eu não escrevo aquilo que quero, eu escrevo aquilo que sou".
Cazuza disse: "Escrevo para não falar sozinho".
Faço dessas minhas palavras.
É isso.


                                

domingo, 27 de maio de 2012

Itália

Paróquia de Casa Luce
                                              
Papai tinha orgulho de dizer que era nordestino neto de "intaliano", além de pernambucano, palmeirense e macho! Exatamente nessa ordem.
São Paulo é a cidade mais italiana fora da Itália e a partir do mês de maio podemos apreciar a cultura, a música, a alegria e principalmente a culinária italiana nas festas típicas de Casa Luce, San Genaro, San Vito, Achiropita e quermesses de bairro.
Muito macarrão, vinho quente, quentão, bolos, doces, jogos e muita alegria.
São festas juninas que trazem o melhor do sertão com o melhor da Itália e esquentam as frias noites do outono/inverno paulistano.
Ontem fomos eu, minha irmã Rosi, meu cunhado Pepê e minha sobrinha Beatriz à Festa de Casa Luce (Casa de Luz) no bairro do Brás, um bairro tipicamente italiano mas que recebeu e recebe migrantes e imigrantes de outras paragens: italianos, nordestinos, coreanos, bolivianos...
São Paulo está sempre de braços abertos a receber gente dos quatro cantos do mundo.
Passeamos pela Rua Caetano Pinto, entramos na Paróquia de Casa Luce e depois fomos degustar uma bela macarronada da mamma ao som de belas canções italianas.
São canções conhecidas por nós, pois ouvíamos no rádio que ficava sempre ligado quando mamãe ficava em casa. Adorávamos quando mamãe saía mais cedo do trabalho ou quando não ia trabalhar. Ela trabalhava em casa, e muito, mas estávamos em sua companhia, para nossa alegria.
Músicas como "Torneró, Io que amo solo te, Dio come ti amo, Roberta, Champagne" eram tocadas no rádio e cantávamos num italiano improvisado. Algumas músicas também foram temas de novelas e é muito bom ouvir de novo boas canções.
Fotografei a capela, o cantor de bela voz e Beatriz se deliciando com o macarrão.
Rosi perguntou se ela queria mais alguma coisa e ela disse: "Não, mãe. Eu vou si matar com esse spaghetti aqui".
E enquanto definíamos o cardápio, eu pergunto à Beatriz se ela queria macarrão e ela disse: "Macarrão não, eu quero spaghetti".
É isso.


Beatriz degustando o macarrão da mamma
                                      

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sabão em pó, LSD, Música...

                                         


Era o ano de 1974.
Mamãe e Mãevelha lavavam roupas e o rádio de pilha sempre ligado. 
Tocava uma música dos Beatles "Lucy in the Sky with Diamonds" (Lúcia no céu com diamantes). As iniciais da música faziam referência à droga LSD (ácido lisérgico), uma droga sintética descoberta pelo químico suíço Albert Hofmann. A droga provoca viagens, alterações sensoriais, delírios e alucinações.
O livro Moksha de Aldous Huxley faz referência ao uso de drogas psicodélicas para permitir viagens, abertura da mente e o desenvolvimento das potencialidades humanas. 
Com todo respeito a quem faz uso de drogas, mas eu prefiro viajar nas páginas de um livro.
Bom...
Acabava de tocar a música e o locutor traduzia o título: Lúcia no céu com diamantes e eu imaginava minha prima Lúcia no céu olhando para os diamantes em suas mãos.
Minha prima Lúcia é dois anos mais velha que eu.
Mamãe e Mãevelha lavando as roupas com o sabão em pó Viva 74
O comercial mostrava uma mulher com cabelo liso cortado em cuia que marcava um X com fita crepe em uma camiseta; depois ela removia a fita e ficava o X marcado na camiseta que seria facilmente lavado/removido pelo sabão em pó.
Eu achava isso tudo muito bacana e queria que mamãe comprasse fita crepe para fazermos a experiência do sabão em pó: "Oxe, tome tento menina! E tu acha que eu vou bem deixar de comprar sabão pra lavar as roupas pra gastar com besteira! Oxe!".
Eu seguia ouvindo as músicas do rádio, imaginando minha prima Lúcia no céu com diamantes e sonhando com o dia em que faria a experiência do X.
É isso.

                                               

Lembranças Musicais: Guilherme Arantes

                                      


Ouvi muito rádio quando criança.
Paipreto, Mãevelha, mamãe e papai sempre com seus fiéis radinhos de pilha a tocar boa música brasileira e algumas estrangeiras também.
Ouvíamos muito Zé Ramalho, Fagner, Elis Regina, Caymmi, Chico Buarque, Caetano, Gil, Bethania, Djavan, Alceu Valença, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Alcione, Beth Carvalho, Luiz Melodia...
Ouvíamos também Roberto Carlos, quando fazia música romântica bonita de dor de corno, antes de ficar brega-neurótico. Na boa.
Gostava e ainda gosto de Guilherme Arantes e adorava ouvir Êxtase, Meu mundo e nada mais, Um dia um adeus, Cheia de charme. 
Eu gostava da melodia meio estranha, melancólica e espacial (sic) da música Êxtase. Tinha-se a impressão que a música vinha de longe, muito longe; de alguma galáxia distante e à medida que se aproximava da Terra ia aumentando, crescendo. Mamãe lavando roupas no tanque e Mãevelha estendendo no varal, o rádio tocando Êxtase, eu olhando para o céu e imaginando a viagem austral da música.
Depois de mais velha vim a entender a letra e gostei ainda mais; dessa e das outras músicas de Guilherme Arantes.
É isso.
PS: Acho que há vida fora da Terra e os ETs tentaram alguma forma de contato, mas desistiram após desconfiarem que todos os terráqueos são meio maluquetes, ou tentaram encontrar algum terráqueo normal. Difícil.


Aurora Austral
                                          

terça-feira, 1 de maio de 2012

Rádio

                                         


Ouvíamos muito rádio. 
Somos da época da TV preto e branco e com poucos canais; não tinha redes sociais, TV a cabo, Internet, telefones celulares e toda essa parafernália digital e cibernética que temos hoje.
Papai ouvia o futebol pelo rádio de pilha e era estranho ouvir o locutor narrar tão rapidamente o jogo. 
Aliás, pilha (para nós era elemento) era item obrigatório na nossa lista de compras.
Mãevelha ligava o rádio de madrugada e sempre sintonizava no programa do Zé Betio. Era divertido ouvir o programa com música sertaneja da boa, e não isso que temos hoje em dia: rapazes com calças mais justas do que Deus, outros com cabelos arrepiados, outros esganiçados e que acham que cantar é gritar e os denominados sertanejo universitário. 
Zé Betio fazia um programa barulhento e engraçado e eu achava que aqueles sons todos eram reais. Tinha sons de animais de fazenda, de um garotinho falando com o locutor, de uma mulher tentando acordar o marido preguiçoso e muitos outros.
Zé Betio falava as horas e dizia que era hora de levantar, hora de ir para o trabalho e ainda aconselhava as suas ouvintes donas de casa: "Joga água nele, dona Maria".
Tocava uma música assim: "Quem é que não chora por alguém?" e ele respondia: "É o Zé Betio"... "Quem é que não chora uma lágrima sentida?"... "É o Zé Betio".
E o programa prosseguia com o locutor falando as horas, tocando música sertaneja da boa e conversando com personagens engraçadas que me faziam viajar na imaginação. Era galo cantando, balido de bodes, um garotinho perguntando as horas e dizendo: "Tá na hora da janta", a mulher tentando convencer o marido preguiçoso a se levantar: "Acorda homi, tem que trabaiá pra comprá as coisa". 
Era muito legal.
Lembro um dia que Zé Betio não foi à Radio para fazer seu programa e ficamos sabendo que seu irmão Arlindo Betio fora sequestrado e assassinado.
Foi um assunto que chocou a todos os ouvintes do radialista.
Depois do programa do Zé Bétio entrava Eli Correa, aquele do "Oiiiiiiiiiiii gente!" e falava a hora em cima da música. Era impossível ouvir a música inteira.
Acabava Eli Correa e entrava Altieres Barbiero com o programa "A Volta do Sucesso". Eu achava Altieres Barbiero mais elegante que o barulhento Zé Betio e o emocionalmente exagerado Eli Correa.
Depois era a vez de Barros de Alencar que tinha no seu programa o ajudante Fubá, que acabou emprestando o apelido ao nosso irmão caçula, e tinha a sessão fofoca onde o fofoqueiro profissional Nelson Rubens dava as últimas notícias sobre os famosos da época.
Meu, na boa, acho que o Nelson Rubens deve estar com uns cem anos! Eu era criança e o cara já fofocava na rádio!
Barros de Alencar também cantava e gravou umas músicas bem bregas sobre dor de corno mesmo! Era muita cornice romântica!
As músicas que mais tocavam nessas rádios eram músicas do Amado Batista, Paulo Sérgio, Sérgio Reis, MPB e música sertaneja de raiz: Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Milionário e José Rico e por aí vai.
Mamãe e a Cleusa achavam Milionário e José Rico muito lindos!(só Jesus).
Lembro da cantora Tetê Espíndola que vencera o "Festival dos Festivais" da Rede Globo em 1985 com a canção "Escrito nas estrelas"; mas quando tocada na rádio, a música era "cortada" durante o trecho que dizia " meu tesão". 
A palavra era considerada ofensiva na época.
E hoje somos obrigados a ouvir cada coisa...
Bom...
Havia um radialista, o Paulo Barbosa, que vinha logo depois do Altieres Barbiero. Eu não gostava muito dele porque ele sempre começava o programa assim: "Bom dia, vó gostosa, vô gostoso..." Todo mundo era gostoso para ele. Eu hein!
Eram programas da Rádio AM, a FM ainda não estava tão em voga.
Papai comprou um rádio moderno que funcionava tanto com pilha como com eletricidade e tinha as opções de AM e FM. 
Mas papai não gostava que ouvíssemos FM porque segundo ele, gastava mais pilha e estragava o rádio! Não sei de onde ele tirou isso, mas era mais uma de suas muitas "inguinóranças".
Nós aproveitávamos quando ele ia trabalhar e ligávamos o rádio na FM e ouvíamos nossas rádios favoritas: Rádio Cidade e Transamérica. Quando se aproximava a hora de papai voltar para casa, mudávamos o rádio para AM e o guardávamos direitinho, papai nem desconfiava, até que um bendito dia nós esquecemos de mudar para AM e ele liga o rádio e...Vixe! Tome sermão.
O rádio marcou nossas vidas e marcou uma época que só tocava música boa, mesmo as bregas de dor de corno, bem diferente do que temos hoje: sertanojo universitário, funk fazendo apologia às drogas e tratando a mulher como mero objeto sexual, cantorezinhos de uma música só, filhos e filhas de duplas sertanejas que pensam que cantam, e por aí vai.
Mas temos rádios boas: Nova FM que só toca música brasileira, Alpha FM que toca velharias que nos fazem perceber que estamos ficando velhos e a Kiss FM, que toca o bom e velho Rock n´Roll.
É isso.

                                          
                                      

domingo, 1 de abril de 2012

Eli Correa

" Ooooooooooooooooooiiiiiiii gente!"
Era assim que começava o programa de rádio de Eli Correa, um radialista com bela e dramática voz. O programa de Eli Correa também era um tanto quanto dramático, pois tinha uma parte dedicado à histórias dos ouvintes, era o "Que saudade de você", onde o radialista lia e interpretava teatralmente as cartas dos ouvintes. Era um exagero dramático danado. Eli Correa merecia um Oscar de interpretação!
Mãevelha ligava o rádio de manhã bem cedo "pra dar a hora" e evitar de chegarmos atrasados no trabalho ou na escola.
Não havia perigo de "perder a hora" ouvindo Eli Correa, pois ele falava a hora de minuto em minuto; interrompia a música para falar a hora, minuto e segundos. Até irritava, pois queríamos ouvir a música sem interrupções.
As aulas do meu irmão Fubá começavam às sete horas da manhã e às seis horas, a casa estava toda de pé; menos Fubá.
Mãevelha aumentava o volume do rádio e Eli Correa repetia: "Oooooooooooooooiiiiii gente!  São seis horas e 30 minutos da manhã, hora de levantar, hora de ir para o trabalho, hora de ir para a escola".
Curiosamente, Fubá sempre amanhecia "doente" e tudo nele doía, as unhas, os cabelos...
Mamãe fica preocupada, media a temperatura, o achava febril e dizia que não mandaria o "bichinho" doente para escola. Tadinho.
E Fubá, muito esperto, ficava de ouvidos atentos esperando Eli Correa falar as horas: "Oooooiiiiii gente! São sete horas da manhã em São Paulo".
Fubá sabia que os portões da escola fechavam às sete horas e que após esse horário ninguém mais poderia entrar, salvo exceções explicadas pelos pais.
"Oooooooooooooooi gente! São sete horas e dez minutos em São Paulo".
Pronto.
Fubá levanta sentindo-se bem melhor, a febre havia passado e a saúde retornado com força total. 
Fubá toma o café da manhã, assiste a seus desenhos favoritos e depois vai à rua procurar os coleguinhas para mais um dia de arte e Mãevelha continua com seu rádio ligado no programa do Eli Correa.


                                       

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fantasma

Já contei aqui "causos" do meu irmão Fubá. 
São todos "venéricos" (verídicos), apesar de parecerem piada.
A minha família é grande e por isso mesmo é propensa a causos, proezas, fatos verídicos ou venéricos.
Agora é vez de um causo com meu irmão Naldão, aquele de saúde perfeita e português também. "Si ferrei".




                                                    


Fantasma.


Morávamos em uma casa grande de muitos cômodos.
Naldão encontrava-se sozinho naquela imensidão e solidão do lar.
Muito corajoso, assustava-se com todo e qualquer pequeno ruído.
Resolve ir de cômodo em cômodo para descobrir a origem de tais ruídos.
Num móvel da cozinha havia um rádio relógio que quando programado ligava automaticamente. Nós o programávamos para nos acordar de manhã cedo para não perdermos a hora do trabalho.
Algumas vezes, porém, o rádio cismava de ligar sozinho e isso era considerado atividade paranormal para o meu corajoso irmão.
Naldão sai da cozinha e vai em direção à sala quando escuta uma voz atrás dele. Era o rádio que tinha ligado sozinho. Mas meu irmão pensou que um fantasma havia ligado o aparelho.
Naldão para, olha para o rádio e na sua mais pura atuação de uma personagem de Shakespeare, diz: "Se você é um fantasma, faça-me voar!".
O rádio continua ligado. O fantasma não atende ao pedido de Naldão.
Logo em seguida chegam papai, mamãe e Rogério. Naldão relata o acontecido e Rogério sempre cínico diz: "Naldão, me perdoe. Mas para o fantasma te fazer voar só se for de guindaste. Com esse peso, meu filho, não tem fantasma que aguente!".


Fantasma Bibi