Mostrando postagens com marcador tempero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tempero. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Carne moída com batata e arroz

                                                  




Mamãe sabia cozinhar como ninguém. Seus temperos eram divinos.
Ninguém sabia temperar uma carne como mamãe.
Adorava quando mamãe cozinhava pedaços grandes de carne e depois fritava ou assava, a carne ficava tão macia que desfiava.
Gostava também quando mamãe preparava carne moída com batata e arroz. Eu brincava dizendo que parecia comida de cachorro de rico.
Eu chegava do trabalho e mamãe dizia: "Filha, tem aquela carninha moída com batata e arroz que você gosta".
"A senhora fez comida de cachorro de rico, mãe?"
"Menina danada! Olha o respeito! Comida é sagrada e tem muita gente que não tem o que comer".
"Eu sei mãe, só estava provocando a senhora"
"Mas tu não jeito mesmo, né Rejane?"
E eu me deliciava comendo carne moída com batata e arroz preparados por mamãe.




                                          

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sal Grosso, Palha de Alho & Mandingas do Bem

                                              


Mamãe tinha seus rituais para afastar energia negativa, inveja e "inganja" (o zóiao do povo, na sua linguagem peculiar).
O bom do Brasil é isso: essa mistura cultural, social, linguística e religiosa. Graças a Deus.
Mamãe queimava palha de alho com açúcar e pó de café e andava pela casa com essa mandinga a espalhar um fumacê que espantava mesmo era as muriçocas.
Mamãe nos dizia para colocar um dente de alho e uma pedra de sal grosso no bolso da calça quando fôssemos procurar emprego ou resolver alguma coisa importante.
Quando alguma visita desagradável ia embora, mamãe jogava um punhado de sal grosso pelas costas da dita cuja isso sem contar que nós também éramos adeptos praticantes da macumbaria, como diz Fubá. Colocávamos a vassoura pra cima e atrás da porta na tentativa de fazer a visita ir embora logo. 
Uma vez uma vizinha curiosa perguntou porque a vassoura estava ali e daquele jeito e nós dissemos que era para secar mais rápido.
Mamãe comprava na feira tranças de cebola e alho e usava como amuleto na casa. Ninguém podia pegar um cebola ou um alho para fazer tempero, ela comprava separado. 
E como todo pobre mandingueiro que se preze, tinha na entrada de nossa casa vasos com plantas como Comigo ninguém pode, Espada de São Jorge, Guiné, Babosa e outras.
Se dependesse de mamãe, de sua fé e de suas mandingas, nenhum mal chegaria à nossa porta.
Amém.
E estou zapeando pela Internet e vejo o anúncio de uma correntinha com um pingente cheio de sal grosso; era para afastar a má sorte, segundo o anúncio. 
É cada coisa que inventam para ganhar dinheiro!
Acho que vou patentear as mandingas de mamãe e fazer bijuterias com casca de alho, pó de café, plantas...


                                          
                                            

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Tabuada

                                            


Aprendia as quatro operações básicas da Matemática: adição, divisão, subtração e multiplicação.
Eu ia bem em quase todas, mas travava na divisão e até hoje tenho dificuldade com divisão, principalmente com mais de dois números na chave. Divisão por unidade vá lá, mas por dezena, centena...vixe!
A professora avisara que teríamos chamada oral na próxima semana e todos deveríamos estudar a tabuada.
Fui à feira com papai e mamãe e compramos a Tabuada na barraca que vendia temperos, consertava panela de pressão e vendia até maria mole!
Era um livretinho impresso em papel muito simples, mas que foi muito importante para meu aprendizado.
Na capa do livretinho vinha escrito "Ensino Prático Para Aprender Aritmética" e eu estranhei aquilo: "Será que aritmética e matemática são a mesma coisa? E se não for? E agora? "
Abri minha tabuada e estudava enquanto andava pela feira com papai e mamãe. Chegamos em casa e pedi para papai cantar a tabuada para mim; ele perguntava quanto era tanto multiplicado por tanto e eu falava o valor. Achei as tabuadas do 2, do 5 e do 10 as mais fáceis e as do 6, 7, 8 e 9 a mais difíceis.
Chegou o dia da chamada oral e eu me saí bem.


                                              
                                                

sábado, 14 de abril de 2012

Colorau

                                              


Colorau é um pó vermelho de origem vegetal e é usado como tempero.
O colorau deixa a comida com uma cor bonita e atraente.
Havia acabado o tempero e mamãe manda Naldão comprar, mas ele volta de mãos vazias e diz que o homem do bar disse que não tinha colorau. Mamãe achou aquela história meio estranha e volta ao bar com Naldão, lá chegando vê vários pacotinhos de colorau pendurados  na prateleira do lugar.
Mamãe arreta-se e pergunta ao dono do bar: "Meu filho acabou de sair daqui e disse que não tinha colorau".
"Mas senhora, ele pediu um coisa estranha e como ninguém entendeu o que ele dizia, então falamos que não tinha".
"E o que foi que ele pediu?"
"Ele pediu cororau"
Naldão tinha a língua presa e falou um colorau meio americanizado: "courourau"


                                                

terça-feira, 10 de abril de 2012

Fígado

                                       


Não gosto de fígado, apesar de suas vitaminas, sais minerais, benefícios à saúde etc e tal.
Tenho nojo daquela coisa molenga e desmanchante.
Mas o fígado me faz rir, é mais um causo da minha família maluquetes.
Mamãe havia viajado a Pernambuco e ficamos em casa com papai, Mãevelha e o resto da família.
Eu e uma parenta que morava conosco sempre preparávamos o almoço e a janta mas papai sempre se metia em tudo, inclusive na cozinha.
Papai sai do trabalho, vai direto ao açougue e volta com um pacote nas mãos: era fígado.
Papai decide cozinhar. Nossa Senhora!
Papai quase desmonta a cozinha para encontrar panelas e outros utensílios domésticos que serão usados em sua arte culinária. Arte mesmo. Papai xinga, reclama que não encontra as coisas, que não sabe como achamos as panelas, os temperos... 
Mãevelha observa a tudo caladinha e fazendo seu crochê com os gatos aos seus pés.
Depois de muito sermão e muita reclamação o chef Dedé diz que a janta está pronta e a primeira vítima é Mãevelha, que sempre jantava cedo.
Papai coloca o cuscuz em um prato e o fígado cozido em molho em outro; Mãevelha olha para aquele caldo estranho, faz uma cara de nojo (juro por Deus que posso ver a expressão de minha avó ao olhar para o fígado ensopado) e diz a papai: "Quero isso não".
Papai se enfeza e tome sermão: "Oxe! E não quer por que, Bastião? Tu tá com o bucho cheio e fica botando bistaqui na comida! E o que é que tem demais a minha comida? Cozinhei o figo (fígado) com todos os temperos, tudo direitinho nos conformes.Tá tudo limpinho e bem feitinho, deixe de luxo, visse?" Papai chamava Mãevelha de Bastião.
Mãevelha olha mais uma vez para o prato e diz: "Oxe. Quero não. Deus me defenda! O cabra tem que mergulhar pra encontrar um taquinho (pedaço) de figo (fígado). Quero isso não. Vôte!"
Papai ficou ainda mais furioso quando o resto de nós se uniu a Mãevelha e ninguém quis comer o fígado preparado por ele em uma vã tentativa de ser chef de cozinha.
Como cozinheiro, papai era um bom metalúrgico.


                                          

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Temperos e Feijão

                                        


Mamãe cozinhava como ninguém e suas carnes muito bem temperadas eram maravilhosas.
Mas ela gostava que eu temperasse o feijão; dizia que com meu tempero ficava mais gostoso.
Eu fritava a cebola e uns minutos depois adicionava o alho. Se colocar os dois juntos, o alho queimará e deixará um gosto amargo.
Após fritar alho e cebola, eu adicionava pimenta do reino, cominho, cebolinha verde e coentro. Tem gente que prefere salsinha, pois não gosta do sabor e do cheiro do coentro. Eu adorava sentir esses cheiros todos. Hoje não consigo mais.
Feijão temperado e pronto para comer. Papai pede para mamãe fazer um "molhinho de feijão". É simples e delicioso.
Caldo do feijão, cebolinha verde e coentro picados. Se quiser pode adicionar cebola, alho e tomate também picados.
O molhinho de feijão acompanhava nossos bolinhos de feijão tão deliciosamente e perfeitamente feitos por mamãe. Ela sabia o ponto exato da mistura da farinha de mandioca com o feijão. Pegávamos os bolinhos de feijão e molhávamos no molinho de feijão. Mais gostoso ainda era passar o bolinho na frigideira "suja" com o óleo da fritura da carne. Delicia!
Não deixávamos mamãe comer; ela nem bem acabava de fazer um bolinho de feijão e logo um de nós pedia mais um. Éramos seis bocas gulosas loucos por bolinhos de feijão com molho de feijão de mamãe.