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terça-feira, 15 de maio de 2012

Composição

                                           


No meu tempo de escola chamávamos de composição uma produção de texto mais curta e de redação a produção de texto mais longa, com mais de vinte linhas.
Estava na segunda-série e a professora leu para a sala a história de Chapeuzinho Vermelho, depois pediu para usarmos folha pautada e escrever um resumo sobre a história lida.
Deveríamos escrever a composição em dez ou quinze linhas e depois entregar para correção. 
Eu tinha tido uma semana difícil; chegava da escola e queria brincar, mas Mãevelha não deixava e dizia que eu deveria ajudar em casa e cuidar da menina nova, que era minha irmã Rosi, na época. Eu tinha oito anos.
Fiz mamadeira para minha irmã, a fiz dormir e corri para a bela casa da vizinha, estava louca para brincar de professora com a lousa e giz que ela tinha ganho da mãe. Estamos distraídas e dali a pouco vem meu irmão Rogério me chamar; vou para casa e vejo Mãevelha com uma das mão para trás, escondia o chinelão de borracha de papai. 
Apanhei e fiquei com marcas pelos braços e pernas; apanhei por ter desobedecido e saído escondido para brincar.
No dia seguinte vou para a escola toda dolorida e magoada; preciso fazer a composição e escrevo o seguinte: "A menina morava com a avó. A avó mandou a menina buscar lenha para por na fogueira. A menina parou no caminha para brincar com o lobo mau. A avó foi buscar a menina e deu-lhe umas boas lapadas (surra). A menina ficou com raiva e chorou".
Entrego a composição e dali a pouco escuto a professora chamar meu nome, segurar a minha composição e dizer para toda a sala ouvir: "Mas que porcaria é essa, Maria Rejane?! Eu disse para fazer a composição sobre a história que eu li. Volta ao seu lugar e faz de novo!".
Os coleguinhas riam de mim e me chamavam de burra; detesto essa palavra em seu sentido pejorativo.
Refaço a composição, entrego para a professora e ela me manda refazer mais uma vez!
Tento segurar o choro, peço à coleguinha para me mostrar a sua composição e me baseio nela para escrever a minha: A menina morava com a avó na floresta. Havia um lobo mau que se escondia na floresta. O caçador matou o lobo mau e salvou a avó e a menina do lobo mau.
Naquela época não havia todo esse aparato de apoio e proteção à criança e ao adolescente. Não havia politicamente correto.
Se fosse hoje, seria outra história.
Mas se não fosse assim, talvez a história fosse diferente e meus pilares te sustentação não seriam tão rígidos e tão sólidos.
É isso.


                                           


                                           

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Rodo

                                                                      

Muita gente junta uma hora dá problema.
Família grande então...
Eu sempre tive arranca rabo com meu irmão Rogério e Renata tinha arranca rabo com Fubá, Rosi e Naldão eram da paz. Mas nem sempre.
Certa vez Naldão me deixou doida de raiva e corri atrás dele para dar-lhe umas boas porradas, mas minha força física é inversamente proporcional ao meu tamanho físico.
Naldão correu em direção ao portão e lá ficou ao lado de mamãe achando que eu havia esquecido o entrevero entre nós. Vou até o banheiro, pego o rodo e jogo em Naldão!
O rodo de madeira velha, podre e úmida quebra-se no meio ao acertar as costas gordas e largas de meu irmão.
Mais doido de raiva e susto do que com dor, Naldão vem atrás de mim virado no Jiraya e eu corro e me tranco no banheiro e ouço: "Cadê ela? Eu vou matar essa menina!".
Abri a porta do banheiro e provoco: "Obrigada pelo menina, Naldão".
Naldão fica vermelho que nem um pimentão e foi preciso a intervenção de mamãe para dar fim a esse momento tão fraternal.
Mamãe não gostou nada de ver o rodo quebrado.