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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Senhorinha Portuguesa

                              


Uma senhora de forte sotaque português tem ido à escola toda semana e pede para ver a neta.
A voz trêmula, o olhos marejados e suplicantes e a expressão de quem sofre com a dúvida de poder ou não ver a neta.
Pedi que chamassem a moça e foi bonito ver avó e neta se abraçando fortemente. Adoro abraços fortes e sinceros.
A senhorinha portuguesa agradece muito e pergunta se pode voltar mais tarde; vai trazer algo para a neta.
Pede desculpas por incomodar e agradece muito por nossa gentileza.
Pensei comigo: As pessoas complicam a vida delas, das outras pessoas, os relacionamentos, tudo nessa vida curta de tantos problemas longos, mas depois ficam lamentando quando perdem essas mesmas pessoas a quem tanto atormentaram e maltrataram.
Não adianta depois se lamentar e dizer Ah se eu pudesse voltar no tempo eu faria tudo diferente; Eu mudaria tudo, não faria o que fiz...
O mundo é complicado, a vida é curta e a gente é besta.
É isso.


                                            


                                        

terça-feira, 20 de maio de 2014

Universo

                                



Dores, como sempre.
Em maior ou menor intensidade, mas sempre dores.
Osteoartrite na coluna, joelhos, pés, ombros, punhos, mãos. Se tem junta (articulações), tem dor. 
Acromegalia.
Meus punhos estão doloridos e sinto pontadas de dor nos dedos das mãos.
A coluna dói e sinto uma pontada "elétrica"; é como se fosse um choque junto com dor. Estranho, mas dói e incomoda.
Daria um doce para ter e ver a cura da Acromegalia e de todos os males, sejam eles do corpo e da alma.
Acho que já falei sobre isso aqui, mas, segundo os místicos, quando desejamos muito algo o Universo conspira a nosso favor. Então, querido Universo, comece a conspirar a meu favor! Obrigada.
Acabei de fazer mingau de amaranto e trouxe-me lembranças de minha avó Mãevelha com seus mingaus docinhos feitos com de leite de coco com farinha de mandioca; ficava tão bom. 
Mãevelha fazia tudo bonitinho e separadinho para mim e meu avô Paipreto; era tudo tão simples, mas para mim era um banquete dos deuses.
Fiz meu café forte também e comi (tomei?) o mingau com Clara Blue. Bellatrix adora mamão papaya e meu negão lindo adora ovo frito e presunto. Compro uns cem gramas só para ele.
Alice afofou seu cobertor favorito mas deitou-se ao meu lado, bem encostadinha em mim. Sente-se mais aquecida, creio eu.
Vou fazer uma das coisas que mais gosto: arrumar alguns dos livros derrubados por Aldebarã, meu fofinho, peludinho e bonitinho da mamãe.
As dores amenizaram, só estou entrevada, como se arrastasse bolas e correntes de ferro presas à minhas pernas.
Mas tudo vai ficar bem. Acredito.
"Não será Deus impussivi", diria papai.
É isso.



                                   
Aldebarã, minha estrela maior

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Reler

                                     



Amo ler. 
É público e notório.
E descobri que me faz bem reler os textos que escrevi falando sobre minha curta infância em Pernambuco, o chamego dos meus avôs José e Paipreto, minhas descobertas, encantamentos, sonhos, imaginação e todas essas coisas boas e puras que só as crianças têm.
Releio e me vejo caminhando por entre pés de feijão e segurando a mão de mamãe. 
Caminhando, vestida em minha adorada jardineira, segurando a mão do meu avô Paipreto.
Tenho uma coisa por mãos...
O vestido de bailarina...
O lambedor de tia Anália, a farofa salgada de ovo de tia Nifa e Bisavó Gina, os tomates com açúcar de mamãe, o mel de engenho, o café com bolacha "cremi cráqui" do meu Paipreto, o bolo de araruta com cajuína do meu avô José, os torrões de café da minha avó Mãevelha...
Essas lembranças e memórias me fazem bem e são um acalanto para minha alma inquieta.
Mais uma noite de insônia, meu Deus.
Mas também... Durma-se com um calor desse!
É isso.


                                           



                                          



                                              

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cães, Gatos e Plantas

                               


Os vizinhos da frente tinham duas cachorrinhas já bem idosas e ambas vieram a falecer. Que Deus as tenha. 
E por que não?
Tempos depois encontraram uma cachorrinha grávida na rua ela era vítima de violência de gente ruim; levaram a canina para casa.
Nasceram quatro cachorrinhos lindos e fofos; dois foram doados e outros dois ficaram com a mãe que está no cio de novo! 
Acredito que a alimentação desses lindos caninos deva ser deficiente, explico.
Todos os dias a mãe e os filhotes vêm ao meu portão e latem. Abro a porta e vejo aquelas fofuras abanando o rabo e latindo para mim.
Dou-lhes água e comida e agora sou reconhecida por eles. Quando saio e volto para casa sou recepcionada por eles, que já reconhecem meu possante.
E quando bate aquela fominha, lá vêm eles ao meu portão de novo. Lindos.
Sou uma gateira assumida e só não pego os cachorrinhos pra mim porque já tenho muitos gatos, pouco espaço em casa e pago aluguel.
Já fui, como era de se esperar, criticada por isso mas o curioso é que essas pessoas que me criticam por amar e proteger os animais não ajudam nem bicho nem gente e, tenho quase certeza, nem molham as plantas de casa! Se é que tenham plantas!
E por falar em plantas...
Ouvi hoje de novo que o mato está grande. Me arretei, de novo, e disse que minhas plantas são e estão lindas e mato é... Melhor deixar pra lá.
Bom...
Vou agora cuidar das plantas. Minha avó Mãevelha dizia que é bom podar, transplantar, plantar e cuidar das plantas quando chove. Dizia ela que as plantas sofrem menos com as mudanças e que a chuva deixa tudo mais calmo, mais fresco e mais bonito.
Mas antes vou alimentar a gataiada e os cachorrinhos.
É isso.


                                       



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sabor e Saudade

                                     



Segunda-feira lenta. 
Dia morno e nublado.
Alguns raios de sol passam por entre as nuvens mais desavisadas.
Segunda-feira lenta, tudo é devagar e a gente se pega a divagar.
Passei na lojinha no meu irmão e vi minha sobrinha Rafaela. Tão linda, tão falante, tão graciosa. Perguntei se ela havia almoçado e ela disse que comeu tudinho.
Encontrei outras pessoas; conhecidos, parentes e até alunos.
Perguntaram se eu ainda faço aquelas "coisas boas" de comer e eu respondi que sim. Lembraram que mamãe estava sempre na cozinha preparando algo e nós a ajudávamos ao passo que também aprendíamos.
Era tão bom.
Às vezes preparo minhas guloseimas e adoro fazer isso. Cozinhar é um dos meus hobbies e passa tempo favoritos. Gosto de experimentar, testar, inventar...
Fiz esses dias um bolo de coco cremoso que mais parece pudim. Fica a camada de coco ralado na base do bolo e na parte de cima fica cremoso igual a pudim.
Ontem deu vontade de comer algo doce e fiz mousse de chocolate.
Mas eu gosto mesmo é do sabor de abacaxi com leite condensado. Lembra mamãe, lembra final de ano, as compras de Natal, os sonhos, as esperanças...
O pudim de Natal, ou "pudinho", como dizia papai, é um clássico e sempre teve presença garantida em todas as reuniões familiares de fim de ano e em outras ocasiões.
Trabalhei com uma moça que reclamava do pudim de leite da avó dela. Em todas as reuniões e eventos familiares lá estava o bendito do pudim. Rimos, mas eu disse a ela que agora ela reclama, mas quando a avó dela não estiver mais aqui e a saudade apertar, ela vai lamentar e vai sentir falta da avó e do pudim.
E estou com vontade de comer abacaxi com leite condensado, com vontade de fazer pudins, sorvetes, pavês...
Preciso comprar novas formas de bolo, as minhas estão todas velhinhas, tortas e amassadas.
Muitas são do tempo de papai e mamãe ainda.
É chegada a época das festas, dos preparos, das guloseimas, da saudade.
Às vezes acho que as coisas têm gosto, têm sabor e a saudade tem gosto de abacaxi com leite condensado, de tomate com açúcar, de farofa de ovo, de bolo de araruta, de mel de engenho com farinha de mandioca, de bolacha "cremi cráqui" com café no xicrão do meu avó Paipreto.
É tanta saudade.
É isso.






                                     

                                      



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Carão Acromegálico

                          


Sonhei com minha avó Mãevelha, mãe de mamãe.
Mãevelha era trazida por uma parenta nossa, uma jovem senhora hipocondríaca e neurótica.
Nossa parenta não dizia nada mas minha avó reclamava de algumas coisas e dizia que estava tudo errado. Ela tirava uns parafusos de sua sacola e os jogava sobre a cama e dizia: "Isso presta não. Carece de trocar".
Continuo indo ao consultório do ortopedista e continuo com as dores.
Hoje pela manhã sonhei com Mãevelha de novo e a encontrei sozinha em um quarto.
Ela estava sentada na cama e queria ligar a TV mas os controles estavam todos longes dela. Peguei o controle certo e reclamei, perguntei porque havia tantos controles se só um era necessário. Reclamei porque deixaram minha avó sozinha. Dei o controle para ela e me despedi. 
Iríamos em grupo a algum evento, mas quando saio do quarto de minha avó e chego ao quintal, todo mundo já havia saído. Fiquei chateada e me senti traída, pois tudo estava combinado e todos sairíamos juntos para o bendito evento.
Via os carros cheios de gente saindo e ainda tentei correr atrás para tentar sinalizar e fazê-los voltar. Todos seguiram em frente e eu fiquei só. 
Às vezes nos sentimos sós, meio largados, ignorados, esquecidos.
Às vezes nos sentimos desimportantes, desnecessários, não bem vindos, como se atrapalhássemos algo ou se fizéssemos as pessoas sentirem vergonha de nós.
Sei lá.
Procuro não fugir, não me esconder das pessoas que tanto me olham e me julgam por minha aparência acromegálica; como se isso fosse culpa minha.
Mas não é fácil e sinto como se não pertencesse àquele grupo de pessoas, lugar ou situação. Pessoas bonitas ou não, mas com rostos "normais", sem acromegalia.
Às vezes penso que é isso, que sou evitada, ignorada, esquecida devido ao meu carão acromegálico. Deve ser desagradável para os "normais" ficar diante de uma pessoa assim como eu quando podem ter o prazer de desfrutar da companhia de pessoas com seus rostos bonitos e agradáveis, ou pelo menos normais.
Posso estar errada, mas meus sentimentos, cismas e desconfianças raramente me enganaram ou enganam.
Não sou antissocial, como dizem que sou, simplesmente por querer, o carão acromegálico já diz tudo.
Lembro da música "Creep", da banda inglesa Radiohead, que define bastante o que sinto:

"But I´m a creep. I´m a weirdo
What the hell am I doing here?
I don´t belong here..."

"Eu sou uma aberração. Eu sou um esquisito.
Que diabos estou fazendo aqui?
Eu não pertenço a esse lugar"



                                    


terça-feira, 15 de maio de 2012

Composição

                                           


No meu tempo de escola chamávamos de composição uma produção de texto mais curta e de redação a produção de texto mais longa, com mais de vinte linhas.
Estava na segunda-série e a professora leu para a sala a história de Chapeuzinho Vermelho, depois pediu para usarmos folha pautada e escrever um resumo sobre a história lida.
Deveríamos escrever a composição em dez ou quinze linhas e depois entregar para correção. 
Eu tinha tido uma semana difícil; chegava da escola e queria brincar, mas Mãevelha não deixava e dizia que eu deveria ajudar em casa e cuidar da menina nova, que era minha irmã Rosi, na época. Eu tinha oito anos.
Fiz mamadeira para minha irmã, a fiz dormir e corri para a bela casa da vizinha, estava louca para brincar de professora com a lousa e giz que ela tinha ganho da mãe. Estamos distraídas e dali a pouco vem meu irmão Rogério me chamar; vou para casa e vejo Mãevelha com uma das mão para trás, escondia o chinelão de borracha de papai. 
Apanhei e fiquei com marcas pelos braços e pernas; apanhei por ter desobedecido e saído escondido para brincar.
No dia seguinte vou para a escola toda dolorida e magoada; preciso fazer a composição e escrevo o seguinte: "A menina morava com a avó. A avó mandou a menina buscar lenha para por na fogueira. A menina parou no caminha para brincar com o lobo mau. A avó foi buscar a menina e deu-lhe umas boas lapadas (surra). A menina ficou com raiva e chorou".
Entrego a composição e dali a pouco escuto a professora chamar meu nome, segurar a minha composição e dizer para toda a sala ouvir: "Mas que porcaria é essa, Maria Rejane?! Eu disse para fazer a composição sobre a história que eu li. Volta ao seu lugar e faz de novo!".
Os coleguinhas riam de mim e me chamavam de burra; detesto essa palavra em seu sentido pejorativo.
Refaço a composição, entrego para a professora e ela me manda refazer mais uma vez!
Tento segurar o choro, peço à coleguinha para me mostrar a sua composição e me baseio nela para escrever a minha: A menina morava com a avó na floresta. Havia um lobo mau que se escondia na floresta. O caçador matou o lobo mau e salvou a avó e a menina do lobo mau.
Naquela época não havia todo esse aparato de apoio e proteção à criança e ao adolescente. Não havia politicamente correto.
Se fosse hoje, seria outra história.
Mas se não fosse assim, talvez a história fosse diferente e meus pilares te sustentação não seriam tão rígidos e tão sólidos.
É isso.


                                           


                                           

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Johnny (A despedida de Mãevelha)




Johnny era um gato preto e branco que fazia parte da tríade felina companheira de Mãevelha. Havia Micchele (leia-se Miquele, por favor) e Andretti.

Minha avó passava a maior parte do tempo sentada; tinha dificuldade de locomoção.
Os gatos gostavam de ficar aos seus pés enquanto ela costurava, fazia crochê e principalmente fazia suas refeições. 
Papai não gostava de ver os gatos perto de Mãevelha e ainda mais quando ela "acidentalmente" deixava cair um pouco da comida, principalmente carne. 
Os gatos adoravam e serviam também como "gato espiatório" para levar a culpa pelo cheiro dos gases exalados por minha avó.
Mãevelha levantava uma parte do corpo, sacudia seu vestido florido - ela adorava vestidos estampados de flores miúdas - e deixava escapar os gases que estiveram presos e fermentando ali por algumas horas.
Após a liberação espontânea de gás Mãevelha voltava ao seu crochê normalmente e com a aparência mais aliviada. Mas o detalhe curioso é que não tinha nenhum gato perto dela.
Papai, sempre papai, passa perto da minha avó e diz:
"Mais que fedô do má dos cachorro é esse? Meu Padim Ciço do Juazeiro! O cabra de fez isso tá morto, só falta enterrar!".
Mãevelha concorda com papai e nos chama: "Vem cá menino,tire esses gatos daqui e bote pra fora... eles tão danados pra peidar".
Mas não tinha nenhum gato por perto!
Mudamos de casa e os gatos foram juntos, para alegria de Mãevelha.
Minha avó era diabética, teimosa, gulosa e adorava doces. Esses defeitos entre outros já vêm de fábrica. 
Mãevelha começa a ficar doentinha, não queria comer, tem febre e o seu dedinho do pé ficou escuro e necrosou. Mamãe estava em Pernambuco mas voltou ao saber da mãe adoentada.
Mamãe leva Mãevelha ao hospital e chegando lá constatou-se que a necrose já atingira a altura do joelho da minha avó e os médicos decidiram amputar a perna dela. Conversam com mamãe que autoriza o procedimento.
Mas antes o médico precisa examinar minha avó mais detalhadamente e ela só permite se mamãe estiver junto. Mãevelha era muito pudica e dizia que não ficava bem uma senhora viúva como ela ficar sozinha com um homem. Onde já se viu?
Mãevelha tinha 84 anos e era viúva a mais de 30 anos!
Mas mamãe fica com ela enquanto o médico a examina. O doutor pede para ela abrir um pouco o vestido para pode auscultar o seu coração; ela desabotoa só um botão e segura os demais com as mãos. O médico ri. Depois ele levanta o vestido dela para ver a perna necrosada; Mãevelha puxa o vestido para baixo. 
"Mas que doutô mais incherido!"
Mãevelha é levada para o quarto e aguarda a cirurgia. Mamãe volta para casa para pegar algumas coisas para levar para ela quando voltar.
Vão buscar Mãevelha no quarto para a cirurgia.
Mãevelha dorme.
Mãevelha dormiu e foi ao encontro de Paipreto.
A família é avisada e o caixão com Mãevelha é colocado na sala para o velório. Hoje as pessoas são veladas no cemitério mesmo. 
Muita gente vem ver, se despedir da minha avó, a Dona Maria que gostava de rir com os causos dos outros, que gostava dos docinhos escondidos que os netos traziam quando voltavam da escola.
Os gatos perceberam que Mãevelha tinha voltado para casa. Eles iam para o quarto dela, subiam na cama e voltavam para a sala. Fizeram esse caminho várias vezes e vendo que ela não voltaria mais a sentar naquela cama para deixar a comida cair sem querer e depois culpá-los pela emissão de gases tóxicos, decidem ficar debaixo do caixão.
Eles rodeavam o caixão e miavam, chamando por minha avó. Os gatos não entendiam porque ela estava ali e não na cama com eles a seus pés. Eles miavam como que para chamá-la de volta ou para que alguém explicasse porque ela estava ali.
Johnny, o mais apegado a ela, vai e volta ao quarto mais uma vez e querendo entender o que realmente está acontecendo, pula em cima do caixão e senta-se sobre minha avó.
Muitas pessoas de boa moral e bons costumes (Deus tá vendo) indignaram-se com a atitude dos gatos e soltaram exclamações de susto, surpresa e até de nojo.
Me arretei com aquela frescura toda e aquele falso moralismo e disse:
"Os gatos estão aqui porque sentem de verdade; eles não fingem como muita gente".
Claro que levei broncas de papai e mamãe, mas como dizia minha bisavó Maria Higinia, a mãe de Mãevelha: "Engulo um boi com as pontas e não me entalo, já um mosquito me entala".
Sou filha, neta e bisneta de mulheres fortes, bravas, corajosas.
Sou corajosa. Enfrento preconceito, ignorância e incompreensão por causa de uma doença que eu estou ainda aprendendo a entender a até a aceitar.
Bisavó Gina, Mãevelha, mamãe...eu.
Sou mameluco
Sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco
Sou Leão do Norte.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cream Cracker/ Cremi Cráqui

Ou bolacha de água e sal. Nunca soube a diferença.
Mas não dizíamos "cream cracker"; é muito complicado enrolar a língua para pronunciar a palavra, então a adaptamos para a pronúncia do português brasileiro e ficou "cremi cráqui!.
Mãevelha preparava um forte e cheiroso café, punha a mesa e chamava meu avô:
"João, chega meu velho. O café tá mesa e tem as bolachas cremi cráqui que tu tanto gosta".
Paipreto sentava-se à mesa, despejava o forte e cheiroso café no xicrão e comia as bolachas "cremi cráqui".
Paipreto me chamava: "Chega aqui minha filha, vem comer uma bolacha com teu avô".
Mãevelha protestava: "A menina tá brincando no terreiro, João. Se tu chama, ela não vai te deixar comer sossegado. Tu sabe que ela não come, só faz arte. E tu parece que gosta de ver essa danada fazer arte, não é, João?".
Paipreto me chamava outra vez. Eu entrava correndo em casa e ia direto para os braços do meu avô. Sentava-me em seu colo e já tinha uma xícara de café e um prato com bolacha "cremi cráqui" para mim.
Mas eu queria  a bolacha e o café do xicrão de Paipreto.
Mãevelha mais uma vez protestava: "Eu não te disse João, que essa moleca só quer fazer arte e não vai deixar tu comer sossegado? Mas eita homi ateimoso, meu Padim Ciço do Juazeiro!".
Paipreto não dava atenção aos protestos de Mãevelha e me deixava beber seu café e comer suas bolachas.
Eu molhava as bolachas no café e comia. Paipreto depois tomava aquele café com pedaços de bolacha flutuando.
Não havia nem café nem cremi craqui mais gostosos como os de Paipreto.





terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mariana

Mariana era a mãe de papai.
Avó Mariana era uma mulher alta, forte e de pés grandes. 
Por ser muito alta, avó Mariana calçava números grandes. Era difícil encontrar calçados femininos acima dos números 37 ou 38. A solução encontrada por minha avó era usar os calçados de avô José, que era um homem alto. Ele sempre comprava dois pares de alpercatas (sandálias de couro), um para ele e outro para avó Mariana.
Nossa tia Nifa, irmã de avó José, nos contava que quando avô José e avó Mariana ficaram noivos e marcaram a data do casamento, a primeira providência da noiva foi a de encomendar os sapatos brancos, pois nem mesmo na capital Recife se achava calçados femininos de número grande nas lojas comuns.
Hoje em dia é mais fácil encontrar sapatos grandes, mas o problema é que os fabricantes se preocupam apenas com o comprimentos dos calçados e dos pés e não com sua largura. Tenho pés grandes por causa da Acromegalia, mas o problema não é tanto o comprimento dos meus pés e sim a largura.
Avó Mariana era acromegálica e por isso os pés grandes e a morte tão cedo.
Avó Mariana tinha apenas 36 anos quando partiu e segundo os relatos das pessoas que conviveram com ela, a causa de sua morte foi pneumonia. É estranho imaginar uma doença respiratória fazer vítimas em regiões quentes como Pernambuco. Atribuímos a doença a regiões mais frias como São Paulo.
Mas lembro-me agora que meu Paipreto (pai de mamãe) tinha alergia respiratória e tio José de Recife também tem.
Mas...A Acromegalia não contenta-se apenas em ficar alojada tranquilamente num tumor na hipófise (cérebro), essa doença afeta vários orgãos do corpo. As principais, segundo médicos, são doenças cérebrovasculares, cardiovasculares, doenças renais, diabetes, hipertensão, dores articulares, problemas de visão e por aí vai.
A Acromegalia cerca o corpo por todos os lados e varia de pessoa para pessoa.
Posso imaginar o sofrimento de Avó Mariana; as dores para sustentar um corpanzil de mais de 1.80m e numa época em que a altura das mulheres não passava muito de 1.60m. A falta de diagnóstico e de remédios. Numa época remota e num lugar remoto os remédios encontrados eram chás, garrafadas feitas com ervas, cascas de árvore e cachaça, benzeduras, promessas e esperança.
Mesmo nos modernos dias atuais ainda não foi encontrada a cura para a Acromegalia. São cirurgias, radiocirurgias, remédios etc, tudo usado para o alívio dos sintomas da doença, mas a cura que eu queria tanto...
Penso em avó Mariana com carinho, ternura, orgulho, admiração. Dó não.
Minha avó foi uma mulher forte, tanto fisicamente como em seu cárater sério, honesto e trabalhador. Ajudava meu avô na fazenda; ajudava com a criação e a plantação. Carregava peso que muito cabra macho franzino não conseguia carregar.
Sempre gostei de ouvir falar de minha avó e sempre carreguei comigo a promessa de que se um dia tivesse uma filha a ela seria dado o nome Mariana.
Mas me parece que a Acromegalia já me roubou mais uma Mariana.
Não tem problema. Não tenho minha Mariana, mas tenho Maria Julia, Beatriz, Maitê, Michelle, Giovanna e Rafaela, que acabou de chegar a esse mundo.
Bisnetas de avó Mariana.

Beatriz e Maitê