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terça-feira, 11 de março de 2014

Meio do Mês

                                   


Dor de cabeça que perdura há algum tempo.
Dor de cabeça forte que me incomoda bastante desde sábado passado e atingiu o ápice essa madrugada.
Hipertensão.
Super, hiper, power, plus, mega hipertensão.
As dosagens dos remédios anti-hipertensivos foram dobradas e mesmo assim essa infame insiste em subir e me prejudicar.
É a doença de base: Acromegalia.
É a base dos meus problemas nada básicos de saúde.
Que coisa chata!
Bom...
O pagamento "sai" amanhã, no quinto dia útil do mês e que é quase meio do mês! Sacanagem!
Contas já vencidas, pagar o aluguel... 
Tudo por conta do Carnaval e de contar como feriado a segunda e a quarta-feira de cinzas.
O pobre espera o mês todinho pelo pagamento e vai ao banco todo animado, mas ao constatar que não tem dinheiro nenhum na conta, o pobre vira no Jiraya!
Preciso comprar minhas frutas, legumes e verduras, além de pão, café e mais ração para essa gataiada faminta.
O meu sonho de consumo, entre outros, é o de ir ao Atacadão e comprar caixas fechadas de leite condensado, creme de leite, coco ralado, chocolate em pó e em barra e todas essas guloseimas que são transformadas em delícias calóricas e engordativas pela alquimia na cozinha.
Queria ter uma cozinha enorme e bem equipada também.
Quem sabe um dia?
É isso.


                                        

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Graças a Deus

                                             


Final de mês, dia do pagamento que demorava a chegar, as coisas acabando, mamãe coçando a cabeça e dizendo: "Está acabando tudo, graças a Deus".
Dia do pagamento, dinheiro, supermercado, compras, cozinha abastecida, graças a Deus.
Mamãe abre as embalagens, se concentra, reza, agradece por aquele alimento, pede que nossa mesa seja farta, graças a Deus.
Algumas pessoas estranhavam esse hábito de mamãe de agradecer a Deus pelas coisas que acabavam, pelas dificuldades, por tudo.
Uma vez mamãe abriu a embalagem do pó de café, despejou o conteúdo no pote e riscou o fósforo e tocou fogo no pacote vazio. Conversava, mamãe falava pelos cotovelos, preparava o café, acendia um cigarro e não percebe o plástico quente a pingar. 
Alguém teve a brilhante ideia de dizer a mamãe que queimar embalagens vazias de alimentos traziam sorte. Tá.
Mamãe seguiu o conselho mas se esqueceu de queimar a bendita embalagem em um lugar seguro e longe dos seus próprios pés!
Um pingo cai sobre seu pé e forma uma bolha com uma queimadura que demorou semanas para cicatrizar. 
Demos uma bronca em mamãe: "A senhora parece piolho, vai pela cabeça dos outros! Nunca vi isso de queimar as coisas pra dar sorte. Oxe! Cada coisa que o povo inventa! E o pior é que a senhora acredita".
Mamãe parou com o ritual piromaníaco, seu pé melhorou e ela continuou agradecendo pela tempestade e pela bonança. Graças a Deus.


                                               


                                               
                              
                                           

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Idosos

                                               


Saí do prédio da perícia e fui ao prédio da Farmácia Alto custo.
Vou para a fila especial e o segurança me diz: "Essa fila é especial!"
"Eu sei. Eu tenho direito de estar aqui".
O segurança e as pessoas em volta me olham meio incrédulos e procuram em mim sinais de alguma deficiência física. Não encontram tão aparente.
O segurança me encara e eu digo: "Tenho parafusos e em minha coluna e um tumor no cérebro. Tá bom pro senhor? Posso ficar na fila?"
Uma senhora que estava na minha frente cedeu-me o lugar e eu a agradeci. Conversamos e ela falava sobre ter trocado o carro pela moto para encarar o caótico e quase sempre engarrafado trânsito de São Paulo. Eu invejei sua coragem, pois nem de bicicleta eu sei andar (talvez com rodinha, quem sabe?).
Mostro meus laudos, exames e documentos para Renovação e sigo para a outra sala com senha na mão para pegar meu remédio alto custo: Sandostatin - LAR.
A sala estava lotada e a demora foi grande; havia caído o sistema. Vixe!
Uma senhora idosa entra falando alto, gesticulando e reclamando do atendimento e da falta de boa vontade dos funcionários. Foi chamado o gerente e outras pessoas responsáveis pelo local, mas a idosa não parava de falar. 
Ela cismou que o pessoal da Farmácia Alto Custo estava com seus exames e laudos médicos e se negavam a lhe dar o remédio.
A farmacêutica veio falar com a idosa e disse que ela deveria retornar ao seu médico e fazer novos exames para então voltar à farmácia e assim pegar seu remédio.
Mas a idosa não arredava pé e dizia: "Eu sou velha, mas não sou louca não!".
Um senhor que estava sentado ao meu lado comentou comigo: "Gente idosa assim não deveria sair sozinha; alguém deveria acompanhá-los".
Concordei.
Todo mês vou à Farmácia Alto Custo e vejo a mesma cena: idosos atrapalhados com documentos, laudos e papelada para retirar seus remédios. Os olhos fracos que não enxergam direito o local da assinatura no papel, as mãos trêmulas que mal conseguem segurar a caneta, os ouvidos quase moucos que não ouvem direito o que as pessoas falam.
Mas o mesmo não acontece quando os idosos vão aos bancos nos dias de pagamento da aposentadoria e outros benefícios. Os idosos estão quase sempre acompanhados de filhos/as e netos/as aguardando ansiosamente para abocanhar o dinheirinho do parente idoso. Vi uma moça apressando a pobre mãe para sacar logo o dinheiro porque ela queria sair logo dali para ir ao cabeleireiro e depois e encontrar fulano. No mínimo ia fazer mais um filho para deixar para a mãe cuidar e viver de Bolsa Família,  Enxoval da Mãe Paulistana, Kit uniforme, Kit material escolar...
É fácil ter filho assim, basta parir e largar para a mãe e o governo cuidarem.
Reclamam que o governo não entregou isso, não entregou aquilo, que não tem vaga nas escolas e creches, que não podem pagar por escolas e creches particulares, blá blá blá... mas estão com cabelinhos esticadinhos e loirinhos e isso custa muito dinheirinho! Dinheiro da aposentadoria dos idosos que trabalharam a vida toda e em vez de descansar, vão cuidar dos filhos dos filhos.
Acho que já falei sobre isso aqui, mas fico indignada quando vejo tanta moleza, tanta cara de pau, tanta gente robusta e saudável explorando seus idosos. 
E com cabelinho lisinhos e loiríssimos!
É isso.


                                            
                                                 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Dia de Pagamento

                                       


Antes o pagamento dos funcionários das empresas era efetuado em duas etapas: o pagamento no dia 10 de cada mês e o vale no dia 25.
Nesses dias a nossa felicidade era imensa; mamãe sempre passava no supermercado e nos trazia iogurte.
Para nós, iogurte, certas frutas, carne e outros tipos de alimento eram um luxo só permitido nos dias de pagamento e nas festas de fim de ano.
Algumas vezes, porém, não podíamos desfrutar desses luxos, mesmo nos mágicos dias 10 e 25.
Num domingo chuvoso mamãe manda meu irmão Rogério ir ao bar comprar cigarros. Meu irmão demora e mamãe me mandar ir atrás dele. No caminho de volta para casa passamos em frente a uma bela casa; casa de "gente de bem", como dizia papai para se referir a residências de pessoas que não precisavam esperar pelos dias 10 e 25 de cada mês.
Na calçada dessa casa havia um pote de iogurte. Deveria ter caído de alguma sacola com compras, imaginamos eu e Rogério.
Nesse ínterim mamãe preocupa-se com nossa demora e decidi ir ao nosso encontro.
Mamãe vê Rogério e eu admirando o pote de iogurte e decidindo se estaria bom para ser tomado ou não.
Mamãe nos diz para não pegarmos o iogurte, que algum animal poderia ter lambido o pote; poderíamos ficar doentes.
Havia uma tristeza no olhar de mamãe. Havia carinho também. Havia um levantar de olhos aos céus e um rogar a Deus por dias melhores.
Um desses dias chegou.
Era dia de pagamento.
Vamos esperar mamãe no portão, que chega toda sorridente e feliz com um pacote nas mãos.
Era iogurte.