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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Lulu Santos


                                   

Terminei o ensino fundamental (antigo ginásio) e fui matriculada em outra escola para fazer o ensino médio (colegial), às vezes ia de ônibus e outras vezes ia e vinha a pés mesmo. Naquele tempo a caminhada era agradável e não tinha o excesso de veículos e poluição que temos hoje.
Quando vinha de ônibus, parava em uma lojinha que ficava na praça Nippon enquanto aguardava a condução. Eu ia com uma colega minha que também adorava olhar as coisas vendidas no pequeno estabelecimento comercial. Nós dizíamos que juntaríamos dinheiro e voltaríamos à lojinha para comprar algo, não importava o quê, mas compraríamos algo.
Essa minha colega se chamava Angela e tinha uma história triste: Os pais eram alcoólatras e ela e o irmão foram criados pelos tios.
A tia adorava o sobrinho mas ignorava e desdenhava a sobrinha.
O tio era neutro.
Eu adorava o cabelo lisinho de Angela, bem diferente dos meus cachos rebeldes.
Certa vez saímos bem mais cedo da escola e decidimos caminhar pelo bairro. Passamos pela lojinha da Praça Nippon e seguimos pela Avenida das Cerejeiras; paramos em outra praça enorme perto do clube Thomas Mazzoni e nos sentamos na grama para conversar. Falamos sobre nossas famílias, nossos medos, sonhos, tristezas e alegrias. Falamos sobre como nos magoava o tratamento preferencial dado a algumas pessoas da família enquanto nós éramos tratadas apenas como mais alguém da casa. É muito @!#% isso.
Enquanto conversávamos ouvíamos Lulu Santos cantando "Tempos Modernos", a música vinha de alguma das casas próximas e marcou esse dia. Era uma bela tarde de sol.
Sempre que ouço essa música de Lulu Santos lembro de minha colega de história e semblante tristes e da bela tarde de sol.
Permita Deus que ela esteja bem e que tenha tido forças para se manter de pé. Amém.

                                               

terça-feira, 24 de julho de 2012

Endereços & Bairrismo

                                                 


Já disseram que brasileiro adora tudo o que é de fora, tudo o que é estrangeiro, fashion, in, da hora, última moda etc e tal.
Conheço gente que paga dez vezes mais o valor de um produto que poderia ser comprado por preços populares em lojas mais simples, mas essas pessoas fogem ao simples e ao popular, elas querem ser importantes e adoram ostentar.
E parece que essa moda se adéqua também aos nomes de ruas, avenidas e afins.
Têm muitos endereços aqui em São Paulo que só Jesus. São endereços complicados de falar, pronunciar, dizer, ler, escrever... São nomes de ruas cheios de letras dobradas, cheias de Y, W, K, cheias de frescura.
Imagina a dificuldade que as pessoas mais simples têm para pronunciar esses nomes!
Já falei aqui que perguntei ao motorista do ônibus se ele passaria pela Avenida Roland Garros (Rolan Garrô), ele pensou um pouco e disse: "Pela 'rolândigárro' passa".
Lembro do professor Oswaldo de Língua Portuguesa, aquele que lia textos, poemas e poesias nas aulas. Eu estava na sexta série, tinha doze anos e já ouvia críticas dos professores em relação à adoração ao estrangeirismo exacerbado corrente em nosso país varonil.
Imagino se eles vissem como está tudo hoje. Vixe!
Claro, entendo que muitos nomes de ruas são para homenagear pessoas importantes de uma determinada época, mas pergunto: "Por que não homenageiam personagens de nossa cultura e literatura? Por que fazem tanta questão de homenagear estrangeiros? É mais chique?".
Na boa e com todo o respeito a todos os que fazem parte de nossa História, afinal o Brasil é um país multicultural, graças a Deus. Mas o que dizer de ruas com nomes impronunciáveis como: Yervant Kissajikian, Ioshifumi Utiyama, Ushikichi Kamiya, Marrey Jr., Melvin Jones e por aí vai.
Mais uma pergunta: "Será que nossos adorados estrangeiros também nomeiam suas ruas em homenagem a ilustres brazucas?". Já pensou em ruas chamadas " Anhaia Mello, Araritaguaba, Transguarulhense, Guirá-Acangatara..." lá nos cafundó de algum outro país? Será que conseguiriam pronunciar esses belos nomes tupi-guarani?
Repito: Com todo o respeito a todos e com certo bairrismo assumido, mas o Brasil tem uma cultura tão rica, tão bela e tão vasta que não precisa ser "baba ovo de ninguém".
E por que não ruas como nomes de nossa rica literatura? Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado... E até mesmo representantes da literatura estrangeira que gosto tanto: Kafka, Oscar Wilde, Eça de Queirós, Faulkner, Mark Twain... (seria até mais chique por serem estrangeiros).
Não me levem a mal.
É isso.
                                                       

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pista

                                           


Morávamos em Gravatá, Pernambuco, e nossa casa ficava próxima à rodovia, mas nós dizíamos pista.
Corríamos para fora para vermos os carros e os ônibus passarem; era um novidade e uma festa para nós.
Quando passavam ônibus na pista, meu Paipreto dizia: "Eita que aquele ôinbus vai é pra Sum Paulo".
Fim de tarde bonito, céu azul, nuvens brancas e fofas como algodão, chão de terra vermelha.
Brincávamos de "Gata pintada, quem foi que te pintou, foi a véia catingueira e por aqui ela passou..."
Ouvimos um estrondo e vamos ver o que é; toda a vizinhança sai de suas casas para saber a causa daquele barulho assustador. Caminhamos até a pista e lá vemos um carro vermelho de passeio com uma moça ao volante e um senhor branco, gorducho e careca no banco do carona. Vidros estilhaçados por todo o carro e pelo corpo e rosto dos passageiros. Sangue também.
Um dos curiosos presentes na cena diz: "Foi um desastre".
Hoje dizemos acidente automobilístico/de trânsito, antes era desastre.
Mãevelha me tira dali e me manda de volta para casa; aquilo não era coisa para criança ver.
Olho de novo para as pessoas dentro do carro, deveriam ser pai e filha.
Alguém diz que estão mortos e que a polícia está a caminho.
A moça está debruçada sobre o volante e o senhor está com o corpo jogado para trás e encostado no banco, ele tem vidro e sangue por todo o rosto e corpo, ele sorri para mim.
Tento dizer às pessoas ali em volta que aquele homem não está morto, ele sorriu para mim, é preciso ajudá-lo.
Mãevelha e as pessoas em volta dizem que criança fala cada coisa!




                                           




                                     

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ônibus

                                       


A seca mais uma vez assolava o Nordeste.
Saímos da Fazenda Taquari e nos mudamos para Gravatá, que ficava mais perto de Recife e da ajuda de tio José.
Mamãe escreve para seu irmão Manoel, que morava em São Paulo, e ele sugere que nos mudemos para lá também.
Não dava para todos nós irmos, então foi decidido que papai iria na frente e depois que estivesse trabalhando mandaria o dinheiro de nossas passagens.
Além do mais, Paipreto estava velhinho e doente e não aguentaria a longa viagem de três dias.
Papai compra a passagem, arruma a mala muito simples e feita de papelão grosso e nela coloca algumas poucas peças de roupas eu um par de alpercatas (sandálias de couro).
Mamãe prepara uma sacolinha com comida para papai comer durante a longa viagem.
Em uma lata de leite vazia, mamãe coloca farinha de mandioca e uns pedaços de galinha frita. Era tudo o que tinha.
Papai parte. Choramos.
Papai vai em busca de dias melhores para a família.
Mamãe lança seu poderoso olhar aos céus e pede a Deus que acompanhe papai na viagem.
O ônibus segue viagem e entra no estado da Bahia; é noite e chove muito.
Estradas escorregadias; o ônibus derrapa, capota e cai numa ribanceira.
Papai dormia e acorda com barulho e o movimento do ônibus capotando.
A lata com farinha e galinha frita estava no compartimento superior de bagagens e cai na cabeça de papai, que sangra.
Papai fica atordoado, não sabe o que fazer  e tenta entender aquela comoção toda: gente chorando, gritando, luzes e sirenes de ambulâncias, carros da polícia e bombeiros.
Todos os passageiros são atendidos e aqueles que não se machucaram gravemente seguem viagem em outro ônibus.
Papai chega a São Paulo são e salvo.
Deus tinha ouvido o pedido de mamãe.


                                                        

domingo, 6 de novembro de 2011

Vale Transporte

Mudamos para uma casa pequena e levamos junto as plantas de mamãe e nossos adorados gatos; mais adorados por nós e nem tanto por papai.
Papai um dia cisma com os felinos e incumbe a Fubá a árdua tarefa de dar um fim aos coitados. Papai só tinha as brilhantes ideias, mas quem as executava éramos nós. Sempre sobrava...
Era noite e já falei sobre a coragem de Fubá (ou a falta desta) quando o assunto são tarefas a serem realizadas no escuro.
Fubá pega os gatinhos e diz a papai que vai levá-los para um lugar longe. Papai acredita.
Dali a alguns minutos Fubá volta e diz todo orgulhoso que os gatinhos já eram.
Já?!
Assistíamos a novela das oito, que hoje é das 9, quase 10 ,quando escutamos uns miados.
Papai vai lá fora ver o que é e volta indignado e pergunta ao meu inocente e corajoso irmão:
"Mas você não ficou de dar um fim a esses gatos, Fubá? Onde você deixou eles?".
"No ponto de ônibus", responde.
Papai ficou danado e nós para aliviar e ao mesmo tempo sacanear nosso irmão, falamos:
"Mas é claro que os gatos voltaram! Você não deu vale transporte para eles? Como eles iam pagar a passagem do ônibus?!".