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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Abraço

                                

Sonhei com papai.
Eu caminhava pelas mesmas ruas por onde caminhei em outros sonhos e papai me entregara um pedaço de pão.
Era um dia agradável, ensolarado e bonito. Encontrei algumas colegas da faculdade e passei por uma agitada rua de comércio.
Caminhava, caminhava e caminhava...
Um carro azul vinha no sentido contrário e era dirigido por minha irmã Rosi que levava papai ao médico.
Rosi descia do carro e pedia para eu pegar o volante; papai estava ofegante, fraquinho, cansado, magro. Observava a pele clarinha, enrugada, flácida, cheia de pintas nos braços de papai.
Eu pedia para ele se acalmar, eu o levaria ao médico e ele ficaria bem. Tudo ficaria bem.
Papai colocava o corpo para fora e me abraçava. Um forte abraço. Abraço de aconchego, acalanto.
Acordei com o barulho intenso dos caminhões que passam rapidamente e balançam as casas da vizinhança.
Não acordei triste nem chorando, como sempre, acordei bem.
Acredito que papai me "devia" esse abraço e após dá-lo, prosseguiu em seu caminho de evolução e aprendizado.
Papai seguiu seu caminho e segui o meu.
Continuei caminhando e acordei no nosso mundo "real" de obrigações, responsabilidades, culpas, dor, mágoas, alegrias, esperanças, reparações e a certeza de que dias melhores virão.
Deus, receba bem papai e cuide bem de sua saúde. Papai estava tão fraquinho...
Papai ficará bem.
Nós todos ficaremos bem.
Amém.

                                   

                              
                             

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Açaí

                                      

Estou me sentindo muito mal, hoje.
Fisicamente, emocionalmente e outros "mentes".
Devaneios tolos a me torturar...
Fui à Vila Maria e passo pela Avenida Guilherme Cotching, a principal via do bairro, e vejo ipês, outras árvores que desconheço os nomes e um pé de jaca pequeno e carregado. Lindo!
As jacas ainda estão em formação, estão pequenas e verdinhas.
Havia ido ao consultório médico na Rua Tuiuti e estacionei na Praça Silvio Romero, algumas pessoas falam "Silva Romero", caminho lentamente e paro para descansar e observar um árvore grande que está na beira da calçada; é uma jaqueira!
Uma jaca grandona, madura lá meio da árvore, lá no alto... Ah, se eu pudesse!
Ainda é possível ver jaqueiras, mangueiras, bananeiras, goiabeiras pelas cimentadas ruas de São Paulo. Ainda bem.
Fui ao Carrefour da Vila Maria/Vila Guilherme e de lá volto para casa, paro no farol da Praça Santo Eduardo com a Avenida Guilherme Cotching para seguir pela Rua Curuçá; decido parar em uma frutaria famosa da região. 
Caço uma vaga. Em São Paulo é assim: caça-se uma vaga. Achei na esquina com a Rua Eli.
Ou seria com a Rua Dias da Silva? 
Não lembro.
Bom...
Entrei na frutaria que tem o mesmo nome da praça: Santo Eduardo.
Entrei, sentei-me na cadeira de plástico e aguardei ser atendida. As mocinhas uniformizadas se entreolhavam e tiravam no par ou ímpar para ver quem me atenderia. Sou acromegálica, não mordo!
Uma delas me traz o cardápio e o coloca sobre a mesa também de plástico. Observo os preços: sucos, lanches, bebidas, salgados... Tudo caro demais! Um copo de suco custa oito reais, um beirute custa trinta e dois reais.
Já que cobram tão caro deveriam investir em melhor treinamento e atendimento de seus funcionários e trocar aquelas frágeis e horrendas cadeiras e mesas plásticas!
Pedi uma tigela com açaí e granola, pedi a grande, mas não conseguir terminar tudo. Zóião.
Pedi para colocar em uma embalagem e a mocinha disse: "É cobrado dois e cinquenta pela embalagem, tudo bem?"
"Tá, né?"
Perguntei se além da granola viria outro acompanhamento e a resposta foi: "Tem banana, frutas vermelhas, leite condensado, leite em pó... É só acrescentar mais dois e cinquenta, tudo bem?"
"Só a granola está bom, com dois e cinquenta eu compro uma dúzia de banana!".
Fui ao caixa para pagar a conta e encontro uma colega da faculdade, perguntei se estava na área da Educação e ela disse que não compensa, não vale a pena; é muito trabalho e cobrança por um salário baixo. Ela ganha mais trabalhando com o pai na pequena empresa da família.
E assim caminha a Humanidade mal educada de nosso país. País que não investe em Educação, em salários dignos para os professores, em boas escolas, em uma boa estrutura. Melhor assim, pois povo sabido é ameça ao governo. Povo abestado é mais fácil para manipular e vota fácil fácil em candidatos palhaços, em mulheres frutíferas e por aí vai.
É o Brasil sil sil
Tudo bem, tudo bem, tudo bem...
Não está tudo bem porcaria nenhuma!
Voltei para casa e a gataiada sabe que cheguei e correm todos para detrás da porta; miam, correm, esbarram uns nos outros e todos correm para o local onde estão os potes de comida e água. Coloco mais ração e troco a água, faço carinho, converso e separo eventuais trocas de tapas e patas entre Aurora e Morena Rosa e Ébano Nêgo Lindo e Léo Caramelo. Família grande tem desses problemas.
Coloquei mais comida para Betanilson ( o peixinho beta) e deixei seu aquário mais aconchegante, coloquei uma pedra e uma plantinha natural, não gosto de nada artificial. Betanilson se aconchega entre a pedra e a planta e ali ele descansa. Percebi que estava muito vazio e o peixinho precisava de um cantinho, de um aconchego.
E quem não precisa?
É isso.

                                      

terça-feira, 24 de julho de 2012

Endereços & Bairrismo

                                                 


Já disseram que brasileiro adora tudo o que é de fora, tudo o que é estrangeiro, fashion, in, da hora, última moda etc e tal.
Conheço gente que paga dez vezes mais o valor de um produto que poderia ser comprado por preços populares em lojas mais simples, mas essas pessoas fogem ao simples e ao popular, elas querem ser importantes e adoram ostentar.
E parece que essa moda se adéqua também aos nomes de ruas, avenidas e afins.
Têm muitos endereços aqui em São Paulo que só Jesus. São endereços complicados de falar, pronunciar, dizer, ler, escrever... São nomes de ruas cheios de letras dobradas, cheias de Y, W, K, cheias de frescura.
Imagina a dificuldade que as pessoas mais simples têm para pronunciar esses nomes!
Já falei aqui que perguntei ao motorista do ônibus se ele passaria pela Avenida Roland Garros (Rolan Garrô), ele pensou um pouco e disse: "Pela 'rolândigárro' passa".
Lembro do professor Oswaldo de Língua Portuguesa, aquele que lia textos, poemas e poesias nas aulas. Eu estava na sexta série, tinha doze anos e já ouvia críticas dos professores em relação à adoração ao estrangeirismo exacerbado corrente em nosso país varonil.
Imagino se eles vissem como está tudo hoje. Vixe!
Claro, entendo que muitos nomes de ruas são para homenagear pessoas importantes de uma determinada época, mas pergunto: "Por que não homenageiam personagens de nossa cultura e literatura? Por que fazem tanta questão de homenagear estrangeiros? É mais chique?".
Na boa e com todo o respeito a todos os que fazem parte de nossa História, afinal o Brasil é um país multicultural, graças a Deus. Mas o que dizer de ruas com nomes impronunciáveis como: Yervant Kissajikian, Ioshifumi Utiyama, Ushikichi Kamiya, Marrey Jr., Melvin Jones e por aí vai.
Mais uma pergunta: "Será que nossos adorados estrangeiros também nomeiam suas ruas em homenagem a ilustres brazucas?". Já pensou em ruas chamadas " Anhaia Mello, Araritaguaba, Transguarulhense, Guirá-Acangatara..." lá nos cafundó de algum outro país? Será que conseguiriam pronunciar esses belos nomes tupi-guarani?
Repito: Com todo o respeito a todos e com certo bairrismo assumido, mas o Brasil tem uma cultura tão rica, tão bela e tão vasta que não precisa ser "baba ovo de ninguém".
E por que não ruas como nomes de nossa rica literatura? Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado... E até mesmo representantes da literatura estrangeira que gosto tanto: Kafka, Oscar Wilde, Eça de Queirós, Faulkner, Mark Twain... (seria até mais chique por serem estrangeiros).
Não me levem a mal.
É isso.
                                                       

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Ruas de São Paulo

São Paulo
                                             
Papai saía muito cedo para ir ao trabalho. Saía de madrugada e caminhava pelas ruas escuras do bairro de muitas chácaras até o ponto de ônibus.
Papai se despedia de mamãe e Mãevelha, que já estavam de pé preparando o café para quando nós acordássemos.
Lá pelas seis e meia mamãe saía para o trabalho que ficava perto de nossa casa.
Papai nos olhava enquanto dormíamos e fazia seus pedidos a Deus e a Padim Ciço do Juazeiro; pedia que ambos protegessem sua família, sua casa e o acompanhasse até o trabalho e o trouxesse de volta são e salvo para casa. Amém.
Papai sempre trazia um pacote de bolacha ou pão sovado. 
Papai falava sobre as ruas do bairro onde trabalhava e eu adorava ouvir e viajar na imaginação: Rua Taquari, igual ao nome da fazenda onde nasci; Rua dos Trilhos, e eu imaginava trens indo e vindo; Rua da Moóca, e eu me perguntava que nome era esse, Baixada do Glicério e eu me perguntava: "Por que baixada? E o que é Glicério?", Largo da Concórdia, Rangel Pestana, Rua do Gasômetro, Santa Cecília, Brás, Parque Dom Pedro, Vila Maria, Penha...
Eu dizia para mim mesma que um dia iria conhecer todas as ruas de São Paulo, principalmente as que papai tanto falava.
De todos bairros e ruas, gosto do charmoso e bucólico bairro da Penha, foi para lá que fomos quando nesse Santo São Paulo chegamos. Passamos pela longa Avenida Amador Bueno da Veiga, passamos pela Rua Itinguçu até chegarmos à casa do tio Manoel Gomes. O tio dizia que morava na Vila Ré, mas suas filhas diziam que era Jardim Popular. O que importa é que ambos ficam na região da Penha.
Quem sabe um dia eu não volte a morar na Penha?
Tomara meu Deus, tomara.


                                           

sábado, 3 de março de 2012

Ruas de Recife, Alceu Valença, Marcas...

Rua da Aurora - Recife
                                               


Como foi dito anteriormente, papai trabalhou no cais de Recife e sempre falava sobre o trabalho e a cidade.
Papai falava os nomes das ruas de Recife e os caminhos que percorria para chegar ao trabalho.
Eu sempre ouvia interessada e ficava curiosa; queria conhecer mais sobre essas ruas.
Há uma canção de Alceu Valença que lembra muito o que papai dizia, é a "Pelas ruas que andei"... Rua do Sol, da boa hora, da Aurora...
Outra canção de Alceu Valença que gosto muito e que me traz nostalgia e uma certa melancolia é "La Belle de Jour". Eu ouvi essa música enquanto caminhava pela Praia de Piedade em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife. Era um dia quente, céu azul, mar de esmeralda e eu acompanhada de minha solidão e meus pensamentos.
Tanta saudade. Saudade arretada de grande!
Eu gosto da maioria das canções de Alceu Valença e a muitas delas tiveram participação em alguns momentos de minha vida.
Gosto também de "Anunciação". Sempre que ouço essa música vejo uma menina montada num cavalo; sendo trazida por ele. A menina brincando com as roupas estendidas no varal. Essa menina seria a filha que quis tanto ter, mas não tive: Mariana.
Falei esses dias com minha tia Antônia de Buíque e ela perguntou quando eu vou lá e eu disse que não sei. A questão nem é tanto a viagem em si, eu adoraria voltar ao meu Pernambuco, a questão é o preconceito mais forte que sofreria devido à minha aparência acromegálica.
Posso falar de cátedra e não me chamem de preconceituosa, pois não sou! Sofro preconceito todo santo dia!
É que nordestinos, sou uma, não medem palavras, falam o pensam sem pensar no que vão falar. É natural deles e creio que a maioria fale sem maldade, mas essa naturalidade incomoda e machuca.
Como já escrevi aqui, já ouvi dezenas de vezes críticas negativas ao meu cabelo, ao "crime" de ter pele clara e "cabelo de negro", à minha falta de beleza física etc etc etc...
Não estou generalizando e muitos podem dizer que não é bem assim, que isso, que aquilo, mas as marcas continuam em mim. 
Outras vezes penso em enfrentar o preconceito em outras terras, situações, locais etc, já sou PhD nisso, mas por mais marcada que eu seja e esteja, toda nova cicatriz dói.
Sei lá.


                                         



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Direções

                                                                                


O Brasil é um país continental, imenso, gigante pela própria natureza.
E como é de se esperar, é um país de ampla diversidade cultural, social e linguística.
Cada Estado tem seu sotaque, seu jeito próprio de ser.
E cada povo tem seu jeito próprio de dar direções, informar o melhor caminho para se chegar a um destino/endereço.
Estava com meus sobrinhos no carro e procurávamos uma rua aqui em São Paulo; parei em frente à uma oficina mecânica e perguntei como chegar na rua tal. A resposta foi: "A senhora pega aquele prêmera ali, ó. Tá vendo?".
"Mas qual primeira, moço?
"Aquela prê-me-ra ali!".
Estamos em Gravatá, Pernambuco e nos perdemos. Pensamos que conhecíamos a cidade, mas como diz o tio Francisco do Paraná: "A cidade diferençô muito".
Estávamos eu, papai, minha irmã Renata e meus sobrinhos Demétrius e Marcos Paulo.
Mamãe fora na frente com tia Nifa e Lia, a nossa anfitriã. Eu, papai, Renata e os meninos decidimos ficar mais um pouco a andar pela cidade e olhar as lojas de artesanato.
Começa a escurecer e não encontramos o caminho de volta. Papai, pra variar, se estressa.
Paramos um moço que vinha numa bicicleta e perguntamos se ele sabia onde ficava a rua tal. O moço era na verdade uma pessoa muito delicada; coloca uma das mãos na cintura, olha para os lados e diz: "Não sei".
Andamos mais um pouco e avistamos um guarda em um clube da cidade. Fizemos a mesma pergunta, já desesperados com o avançar da hora e da escuridão da noite.
O guarda simpático nos oferece café, recusamos. 
O guarda bebe o café, aguardamos (im)pacientemente.
O guarda diz: "Vocês estão vendo aquela rua ali adiante?"
"Sim".
"Pois é. Ela vira para a direita e para a esquerda. Certo?"
"Certo".
"Apois então...Vocês não virem nem a direita e nem à esquerda; sigam em frente que a rua que vocês procuram é aquela ali depois dessa".
Minha irmã Rosi viaja ao Paraná com meu cunhado Pepê, minha irmã Renata e mamãe. Não conhece bem a cidade e decide parar e perguntar. Um simpático senhor informa em pouquíssimas palavras como chegar ao endereço procurado: "O senhor segue aquele uma".
"Aquela uma o quê?"
"Aquela uma rua ali. É só seguir aquela uma que vocês chegam no destino"
"Obrigado".