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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Músicas de Mamãe

Olha só a beleza e elegância dos rapazes. Jesus Maria José!
                                 

Mamãe gostava de música e o rádio de pilha estava sempre ligado.
Aliás, o rádio faz parte da nossa história.
Mamãe gostava de "Primeiros Erros" do Kiko Zambianchi, "Romaria", na bela voz de Elis Regina, de música sertaneja de raiz que falava sobre as coisas do Sertão e não esse lixo que temos hoje e é chamado de "sertanejo universitário".
Se sertanejo é universitário, o Rock é PhD; desculpa aí.
Bom...
Achávamos engraçado mamãe pronunciar os nomes de uma famosa dupla sertaneja, "Milionário e José Rico"; ela dizia "Zé Anrique". Mas o pior mesmo era ela dizer que eles eram bonitos e nossa amiga Cleusa concordar. Jesus!
Certa vez, um dos "primos" que morava lá em casa trouxe um presente de aniversário para mamãe, um disco (LP) de um cantor deficiente físico cuja voz era, digamos, meio difícil de ouvir. O cantor era esganiçado, cantava fino, uma tristeza, mas mesmo assim o artista ganhou vários prêmios durante sua carreira.
O nome do cantor era Barrerito (*1942 +1998), que Deus o tenha. O título do LP era "Barrerito, o cantor das andorinhas...Onde estão meus passos". 
Mamãe colocava o LP para tocar, aumentava o volume, cantava junto e fazia suas tarefas pela casa. 
Nossa Senhora!
Nós aguentávamos por alguns instantes e dizíamos: "Pelo amor de Deus, mãe, desliga isso! Cantor ruim da bixiga!".
Mamãe dava de ombros e dizia: "Oxe, meninos, e vocês não escutam as músicas de vocês? Por que não posso escutar as minhas? Deixem de ser bestas!"
Os meninos iam jogar bola com a molecada da vizinhança e eu com minhas irmãs ficávamos sentadas na calçada a olhar o jogo e contar quantos carros entravam e saiam do motel que ficava no fim da rua.
Contávamos os minutos para que todo o LP tocasse e corríamos para casa para impedir mamãe de tocar o LP de novo: "Não, mãe, de novo não! Pelo amor de Deus!".
O dito "primo" que dera o presente de grego para mamãe chega e fomos falar com ele: "Dá próxima vez que você for comprar um presente para mamãe, compra outra coisa, disco não. Tá? Você não poderia ter dado presente pior, pelo amor de Deus. Se você chegar de novo com outro disco, a gente quebra na sua cabeça! Falô?"
Num outro dia percebemos que mamãe tinha a intenção de ouvir o LP e numa estratégia rápida e inteligente, um de nós correu e escondeu o disco. Ufa!
Mamãe procurou, procurou..."Oxe, mas cadê o disco de Barrerito que estava aqui? Inda gorinha mesmo eu o vi... Vocês viram não, esses meninos, meu disco?"
"Não, mãe".
E mamãe procurava seu disco favorito entre os LP´s do Lobão, Legião Urbana, Lulu Santos, RPM, Barão Vermelho,Titãs e outros.
Mãevelha, que não era mineirinha mas trabalhava em silêncio, tudo observa e diz: "Oh, Marlene, eu vi teus meninos correndo com um disco na mão dizendo que iam esconder, será que não era o teu não, minha filha?"
Mamãe ficava doida e tome Barrerito nos nossos ouvidos.
É isso.

                              


domingo, 17 de junho de 2012

Dias Melhores Virão

                                         


Aguardava.
Tomava um café expresso forte e quente, do jeito que eu gosto, enquanto aguardava. No alto falante perto de mim tocavam insuportáveis músicas de balada: "tum tum, pow, pow, putz, putz..." É a mesma melodia monótona, chata e repetitiva e que faz doer a cabeça.
Comentei com a pessoa que me atendia: "Realmente, esse tipo de música vem bem a calhar para o momento, local e razão". Mais alguns minutos e começou a tocar músicas dos anos 80 e 90, muito melhor.
Depois tocaram músicas dos anos 60, Bossa Nova, MPB e finalizaram com Heavy Metal, tudo a ver!
A espera foi grande e por isso pude ouvir as variedade musicais e reclamar e criticar, claro.
Tocou "Primeiros Erros" de Kiko Zambianchi e "Lanterna dos Afogados" dos Paralamas.
Mamãe gostava de "Primeiros Erros". Saudades.
"Lanterna dos Afogados" me lembra mamãe em um momento de muita dor, desespero, revolta e tristeza. Era o sábado, cinco de maio e recebo o telefonema de minha irmã Rosi dizendo que mamãe havia morrido. Ligo para a agência de turismo para comprar uma passagem para São Paulo e enquanto aguardo, sou colocada na espera e na rádio toca "Lanterna dos Afogados". Ouvi a música quase inteira e desde esse dia, sempre que a ouço, lembro-me de mamãe e daquele cinco de maio de 2001.
Fui tomada por fortes emoções e as lágrimas foram mais fortes e teimosas que eu; pude sentir a presença de mamãe perto de mim.
Meu Deus, que possa eu um dia chorar de alegria.
Possa mamãe descansar em paz, de verdade.
Que dias melhores venham.
Estão a caminho, mamãe trouxe alguns deles com ela hoje.
Amém.