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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Forte

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Minha bisavó, a galega, pequena e bocuda Maria Higinia Salles, Dona Gina, dizia: "Engulo um boi com as pontas (chifres) e não me entalo, já um mosquito me entala".
Sempre lembro e menciono as frases fortes dessa mulher pequena, porém fortíssima em seu caráter e determinação. Tinha que ser mesmo muito forte para encarar uma sociedade racista e machista para fugir com um escravo negro recém liberto pela Lei Áurea.
Eram lindos, Dona Gina e o Seu Francisco.
Lembrei deles porque ainda estou entalada com essa história toda da humilhação vivida no Banco do Brasil.
Reclamei, fiz todo o procedimento de praxe e hoje recebo um e-mail pedindo desculpas, mas indiretamente me culpando pelo ocorrido. É como se eu fosse culpada por ter necessidades especiais, pela péssima educação do guardinha e pela má vontade e preguiça dos gerentes que não tiveram a dignidade de abrir a porta lateral para eu passar.
Ainda estou chateada com isso tudo.
Bom...
Amanhã será outro dia e será melhor.
É isso.



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sábado, 13 de junho de 2015

Passarinhos

                                Resultado de imagem para potes revirados pelos ventos

O dia ontem não foi fácil e a noite também não.
Abusei do leite, o que não devia, e me dei mal. Tenho certas manias e hábitos alimentares e quase sempre as consequências não são boas.
Raramente tomo leite, não gosto, mas gosto de cuscuz nordestino com leite; vai entender...
Fiz cuscuz, fervi o leite e me deliciei. E como se não bastasse, inventei de bater manga com leite e foi aí que o "bicho" pegou.
Tudo bem até a hora de deitar. Fui para a cama cedo, a programação da TV estava muito chata e pegajosamente romântica; não, não é pra mim.
Li um pouco e depois o sono chegou. Acordei com uma tosse seca e depois vômito. Levantei e tive que trocar pijama e os lençóis da cama; trabalhão de madrugada.
Fiquei naquele dorme e acorda e com o sono entrecortado por sonhos que continuavam quando eu voltava a dormir. Muito doido.
Pessoas, situações, tantas coisas...
Passarinhos coloridos que vinham ao meu jardim para beijar as flores; eram tão bonitinhos. Mas acordo e lembro que meu viçoso e frondoso jardim não existe mais; sobraram algumas poucas plantinhas raquíticas que lutam para sobreviver. 
Eu vou ficar boa e meu jardim vai voltar a ser florido e frondoso, ah vai!
Levantei, cuidei dos gatos, fiz café. Espero a água chegar para eu botar as roupas na máquina.
Estômago ainda irritado, "cheio", incomodado. Vou fazer um chá.
Sábado de céu azul, ventos mornos e bagunceiros. Será que anunciam chuva ou só vieram fazer bagunça mesmo? Vieram ajudar os gatos na bagunça?
Sempre lembro da minha bisavó e de sua "briga" com os elementos da Mãe Natureza. Os ventos levavam as roupas do varal e as deixavam espalhadas pelo mato. Os ventos empurravam a porta da casa e derrubavam potes e panelas tão cuidadosamente areados por ela.
Era uma bagunça só e bisavó reclamava, brigava e bisavô Francisco balançava a cabeça e sorria: "Oxe, Maria, e tu tá falando sozinha, é?".
"Tô não, Francisco. Tu não tá vendo as artes que esses ventos estão fazendo?"
Acho que herdei da minha bisavó, avó e mãe o gosto pelas plantas, pela Mãe Natureza, por falar com os ventos, por ver e entender o que os práticos e normais não conseguem ver.
Acho que somos uma geração de malucas beleza, graças a Deus.
É isso.



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domingo, 14 de setembro de 2014

Perdendo

                                 


Algum tempo atrás escrevi sobre meu cemitério particular. Volto a falar dele e volto a cavar suas terras para "enterrar" mais "falecidos".
É tanta arrogância, empáfia, nariz empinado e falta de educação mesmo... é gente tão "julgosa", como dizia mamãe.
Gente que julga e se julga. Gente que se acha melhor que o outro, que se acha mais rica, bonita, importante e mais certa que o outro.
Falei ontem sobre o falecimento da senhora tacanha e morbidamente apegada ao dinheiro; ela não levou nada daqui!
As pessoas se esquecem disso e seguem se achando a última bolacha do pacote, mas a última bolacha está quase sempre quebrada!
A vida continua e seguimos em frente e se não somos importantes e não fazemos falta para essas pessoas, para que e por que insistir?
Entrega nas mãos Deus e siga sua vida, diria mamãe.
É o que tenho feito ultimamente e muito! Depois eu que sou a antissocial, amarga, que não procuro a família, que estou assim porque não procuro Deus, que isso que aquilo. Melhor ouvir que ser surdo? Sei não...
Não sou antissocial, apenas gosto de ficar no meu canto e detesto exageros.
Não sou amarga, sou doce até demais, minha glicemia disparou essa semana, mas está tudo bem agora.
Tenho minha Fé, que é muito forte, e não preciso berrar aos ouvidos divinos, Deus não é surdo! Também não preciso, supostamente, falar em línguas que mais parecem itens de um cardápio de restaurante árabe: esfiha, kibe, tabule...
Não julgo vãs as outras fés, crenças e religiões como se a minha Fé fosse a mais certa e não acho certo quando fazem o mesmo para com minha Fé e a dos outros.
Eu fico na minha. Não sou de bate boca, de barraco e essas coisas, só me irrito quando quero ficar quieta no meu canto e lá vêm esses malditos cabos eleitorais me encher a paciência no aconchego do meu lar!
Mas é difícil, se não impossível, fazer essas pessoas entender que eu tenho o direito a ter minhas próprias escolhas, sejam elas políticas, religiosas etc... Que eu não vou mudar para satisfazer a vontade de ninguém e, assim como eu procuro respeitar as opções dos outros, que eles também respeitem as minhas!
Se eu estou assim, com a saúde não muito boa, é por conta de uma série de problemas: diabetes, hipertensão, osteoartrite sistêmica, Acromegalia... 
A solução é simples: fico na minha, "enterro" mais alguns no meu cemitério particular, não me fazem bem ou falta. Tentei, mas não deu, infelizmente.
Sigo com minha vida, sigo com minha importância desimportante, sigo com minha Fé, sigo em frente.
Não vou bajular, paparicar ou puxar o saco de ninguém só para ser aceita, o que eu duvido, e como dizia bisavó Maria Higinia, dona Gina: "Quem se abaixa demais, o rabo aparece! Quem faz de cachorro gente, fica com o rabo no dente! Engulo um boi com as pontas (chifres) e não me entalo, já um mosquito me entala!'. 
Sábia bisavó!
Tenho me entalado tanto!
A gente fica chateada e até triste, mas esses sentimentos são normais em dias de enterro.
É isso.



                                              



                                       




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ventos

                                       

No livro de Língua Portuguesa da quarta série havia um texto sobre os ventos.
O título do texto era "Vento Minuano" e me encantou a história e as ilustrações. Era um cavalo correndo em meio aos ventos e a imagem era muito bonita.
Era um desenho simples, apenas rabiscado em lápis cor caramelo.
Era linda a crina do cavalo esvoaçando sob os caprichos do Vento Minuano.
Era linda a liberdade expressada pelos ventos e pelo cavalo.
Têm certas coisas, certas imagens, certos momentos que nos marcam para sempre e o texto sobre o Vento Minuano foi um deles.
Os ventos anunciam as chuvas, a mudança de tempo.
Os ventos brincam com as folhas das plantas.
Os ventos trazem lembranças.
Os ventos bagunceiros que deixavam bisavó braba e a falar com eles como se fossem crianças arteiras. Bisavô Francisco perguntava: "Oxe, Gina, tu tá falando sozinha, é?". E ela respondia: "Tô não, Francisco. São esses ventos que fazem tanta arte que só tu vendo, visse?Ave Maria!". E bisavó prosseguia falando com os ventos e tentando arrumar a bagunça que eles deixavam pelo caminho. Eram ventos brincalhões.
Os ventos levavam as roupas do varal para longe, os ventos derrubavam as plantas, os ventos levantavam poeira, os ventos batiam as portas e janelas, os ventos anunciavam a tão esperada chuva no meu Sertão.
Adoro os ventos.

                                             

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Johnny (A despedida de Mãevelha)




Johnny era um gato preto e branco que fazia parte da tríade felina companheira de Mãevelha. Havia Micchele (leia-se Miquele, por favor) e Andretti.

Minha avó passava a maior parte do tempo sentada; tinha dificuldade de locomoção.
Os gatos gostavam de ficar aos seus pés enquanto ela costurava, fazia crochê e principalmente fazia suas refeições. 
Papai não gostava de ver os gatos perto de Mãevelha e ainda mais quando ela "acidentalmente" deixava cair um pouco da comida, principalmente carne. 
Os gatos adoravam e serviam também como "gato espiatório" para levar a culpa pelo cheiro dos gases exalados por minha avó.
Mãevelha levantava uma parte do corpo, sacudia seu vestido florido - ela adorava vestidos estampados de flores miúdas - e deixava escapar os gases que estiveram presos e fermentando ali por algumas horas.
Após a liberação espontânea de gás Mãevelha voltava ao seu crochê normalmente e com a aparência mais aliviada. Mas o detalhe curioso é que não tinha nenhum gato perto dela.
Papai, sempre papai, passa perto da minha avó e diz:
"Mais que fedô do má dos cachorro é esse? Meu Padim Ciço do Juazeiro! O cabra de fez isso tá morto, só falta enterrar!".
Mãevelha concorda com papai e nos chama: "Vem cá menino,tire esses gatos daqui e bote pra fora... eles tão danados pra peidar".
Mas não tinha nenhum gato por perto!
Mudamos de casa e os gatos foram juntos, para alegria de Mãevelha.
Minha avó era diabética, teimosa, gulosa e adorava doces. Esses defeitos entre outros já vêm de fábrica. 
Mãevelha começa a ficar doentinha, não queria comer, tem febre e o seu dedinho do pé ficou escuro e necrosou. Mamãe estava em Pernambuco mas voltou ao saber da mãe adoentada.
Mamãe leva Mãevelha ao hospital e chegando lá constatou-se que a necrose já atingira a altura do joelho da minha avó e os médicos decidiram amputar a perna dela. Conversam com mamãe que autoriza o procedimento.
Mas antes o médico precisa examinar minha avó mais detalhadamente e ela só permite se mamãe estiver junto. Mãevelha era muito pudica e dizia que não ficava bem uma senhora viúva como ela ficar sozinha com um homem. Onde já se viu?
Mãevelha tinha 84 anos e era viúva a mais de 30 anos!
Mas mamãe fica com ela enquanto o médico a examina. O doutor pede para ela abrir um pouco o vestido para pode auscultar o seu coração; ela desabotoa só um botão e segura os demais com as mãos. O médico ri. Depois ele levanta o vestido dela para ver a perna necrosada; Mãevelha puxa o vestido para baixo. 
"Mas que doutô mais incherido!"
Mãevelha é levada para o quarto e aguarda a cirurgia. Mamãe volta para casa para pegar algumas coisas para levar para ela quando voltar.
Vão buscar Mãevelha no quarto para a cirurgia.
Mãevelha dorme.
Mãevelha dormiu e foi ao encontro de Paipreto.
A família é avisada e o caixão com Mãevelha é colocado na sala para o velório. Hoje as pessoas são veladas no cemitério mesmo. 
Muita gente vem ver, se despedir da minha avó, a Dona Maria que gostava de rir com os causos dos outros, que gostava dos docinhos escondidos que os netos traziam quando voltavam da escola.
Os gatos perceberam que Mãevelha tinha voltado para casa. Eles iam para o quarto dela, subiam na cama e voltavam para a sala. Fizeram esse caminho várias vezes e vendo que ela não voltaria mais a sentar naquela cama para deixar a comida cair sem querer e depois culpá-los pela emissão de gases tóxicos, decidem ficar debaixo do caixão.
Eles rodeavam o caixão e miavam, chamando por minha avó. Os gatos não entendiam porque ela estava ali e não na cama com eles a seus pés. Eles miavam como que para chamá-la de volta ou para que alguém explicasse porque ela estava ali.
Johnny, o mais apegado a ela, vai e volta ao quarto mais uma vez e querendo entender o que realmente está acontecendo, pula em cima do caixão e senta-se sobre minha avó.
Muitas pessoas de boa moral e bons costumes (Deus tá vendo) indignaram-se com a atitude dos gatos e soltaram exclamações de susto, surpresa e até de nojo.
Me arretei com aquela frescura toda e aquele falso moralismo e disse:
"Os gatos estão aqui porque sentem de verdade; eles não fingem como muita gente".
Claro que levei broncas de papai e mamãe, mas como dizia minha bisavó Maria Higinia, a mãe de Mãevelha: "Engulo um boi com as pontas e não me entalo, já um mosquito me entala".
Sou filha, neta e bisneta de mulheres fortes, bravas, corajosas.
Sou corajosa. Enfrento preconceito, ignorância e incompreensão por causa de uma doença que eu estou ainda aprendendo a entender a até a aceitar.
Bisavó Gina, Mãevelha, mamãe...eu.
Sou mameluco
Sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco
Sou Leão do Norte.