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sexta-feira, 27 de março de 2015

Raiva

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Ando meio triste e revoltada. Uma raiva somada à frustração.
É revoltante e dá uma raiva danada a gente querer fazer as coisas e ter limitações. Frustrante.
Demorou um tempão para arrastar do saco de lixo do quintal dos fundos até a calçada. Conto os quadrados do piso e sinto um alívio à medida que os números vão diminuindo: está cada vez mais perto o fim dessa agonia.
Ontem preparava minha janta e me arretei. Tudo é difícil, custoso, trabalhoso e doloroso. 
Encaixar o andador perto da pia. Afastar o andador quando precisar abrir a geladeira. Puxar uma cadeira e sentar quando precisar olhar o bolo que assa no forno. Ter que sentar para descascar frutas e legumes; ficar muito tempo de pé deixa as pernas fracas e trêmulas.
Estender a roupa no varal é outro sacrifício, pelo amor de Deus!
Isso tudo me causa uma revolta e gera uma raiva dolorosa.
Não, não sou uma pessoa amarga. Não desejo o mal a quase ninguém e, se puder ajudar eu ajudo, mas nunca prejudicaria a quem quer que seja.
A raiva é pela saúde cambaleante, as pernas fracas, a coluna doente, as articulações duras e entrevadas, as dores...
Eu que gosto de trabalhar, de cuidar da casa, das plantas, livros e gatos... Ter que reduzir o que antes fazia com tanta naturalidade; tomar cuidado para não cair, tomar remédios para controlar as dores, depender de táxi ou carona... Não quero essa vida pra mim não.
Quero uma vida simples e com saúde, é o que quero e peço. Amem.
Comprei tapioca, leite condensado e coco ralado; vou fazer um bolo amanhã para comer com café.
É isso.



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sexta-feira, 7 de março de 2014

Sapo

                                 


Fui à perícia médica na Avenida Olavo Fontoura, Casa Verde, em frente ao Sambódromo.
Fui de táxi, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) fechou o acesso a algumas ruas em volta devido ao Carnaval.
Vi alguns dos carros alegóricos e são muito mais bonitos de perto do que pela TV.
Cheguei cedo, como é solicitado na via de marcação de perícia e levei exames que nunca são olhados pelos médicos peritos. Por que pedem então?
Fui logo atendida e a primeira pergunta do médico foi: "Mas você não pode trabalhar?!"
"Eu estou trabalhando! Só não fui hoje porque, obviamente, estou aqui na perícia. Esse laudo refere-se ao mês de novembro/2013, quando fui internada para exames investigativos. As aulas iniciaram em 27 de janeiro desse ano e desde então eu tenho trabalhado"
Se o doutor lesse o laudo antes de me julgar, criticar e fazer perguntas tolas, tudo ficaria mais fácil, tanto para mim quanto para os outros periciados. Pensei comigo. A gente tem que engolir muito sapo e fazer cara de paisagem para não ser prejudicada mais ainda. É a vida em Sociedade.
Acho que esses peritos têm preguiça de ler o laudo do colega, ligam o "achomêtro" no automático e nos julgam a partir daí. Errado isso.
O doutor então acessou meus dados no computador e de lá viu todo meu histórico médico. Aleluia!
Fez perguntas mais cabíveis e até demonstrou certa simpatia.
Mediu minhas pernas, que têm circunferências diferentes; olhou meus joelhos fofos, gorduchos e inchados; mediu minha pressão, que está sempre alta e mesmo com as mudanças de remédios que a cardiologista fez. Só Jesus na causa.
Depois de tudo isso o doutor perguntou se eu ainda não solicitara a aposentadoria e eu disse que vou trabalhar até onde o corpinho acromegálico me permitir. Quero ir até os cinquenta, faltam só três anos, e se me sentir bem, vou ainda mais longe. Irei.
Claro que tenho dores, que o joelho entreva e dobra e já caí várias vezes aqui em casa, que a coluna incomoda, que estou sempre com a pressão nas alturas mas isso é o que me faz mais forte e me dá mais gana para viver e trabalhar.
Ficar se lamuriando e bancando a vítima não vai trazer a cura e, além do mais, não dá para viver de brisa e luz.
Algumas pessoas acham que eu deveria me aposentar, mas eu me sinto jovem para isso.
No caminho de volta para casa fiquei analisando as duas perguntas contraditórias do perito: primeiro ele me julga sem conhecer meu histórico médico e, depois de o conhecer, muda de opinião e sugere uma aposentadoria.
Como dizem os velhos ditados: "Não julgue um livro pela capa... As aparências enganam".
É isso.


                                         




sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Carinho

                            

Fui a três farmácias no bairro para comprar meu remédio para controle da hipertensão e nenhuma delas tinha o que eu queria; fui à Droga São Paulo, na Vila Maria e encontrei.
Eu havia ido à drogaria da Vila Maria no feriado e não tinha o medicamento, o motivo alegado foi que era feriado e não haviam feito reposição dos remédios. 
Legal. Então quer dizer que durante feriados ninguém fica doente, ninguém nasce, ninguém morre e os problemas também tiram folga?
Passei pela ruas paralelas à Avenida Guilherme Cotching e vi casas antigas e ainda sobreviventes ao boom imobiliário de prédios. São casas simples, com quintal grande e muitas plantas. Senti saudades dos tempos antigos.
Volto para casa e encontro no caminho uma aluna minha, Isabel.
Isabel é uma aluna exemplar, educada, gentil, estudiosa e gostava de me ajudar a fazer a chamada e a colocar as informações na lousa.
Ela sempre pergunta quando eu voltarei para a escola e eu não vejo a hora.
Aproximo da minha rua e vejo de longe a molecada jogando bola, diminuo a velocidade e peço para tirar os cones que bloqueiam a rua; dois deles vêm ao meu encontro: "Oi, professora, tudo bem com a senhora? Quando a senhora volta?"
Perguntei se eles estavam indo bem na escola e se as notas eram boas; pelas carinhas que fizeram...
Tão pequeninos, tão lindinhos e tão danadinhos.
Eu disse: "Vão para casa direitinho, seus terríveis"
Eles sorriram e eu fiquei com um aperto no coração.
Tanto cabra safado com saúde e eu batalhando pela minha. Mas ficarei bem, tenho fé.
Claro que nem tudo são flores; têm aqueles alunos maldosos, cruéis e preconceituosos, mas eu pego a melhor parte e as coisas boas e as uso como minha ferramenta de trabalho.
Estou doida para voltar a trabalhar e estudar, e vou conseguir.
Amém.