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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Construção




Passava pela Avenida Celso Garcia, Zona Leste de São Paulo. Observo tudo à minha volta enquanto aguardo o farol abrir e reparo nas construções pelos bairros, pelas cidades, por aí.
Procuro com os olhos a casa antiga em estilo Rococó que ficava na mesma avenida e vejo uma construção a todo vapor.
A casa antiga de São Paulo, com seus detalhes na fachada e janelas, com a data de sua construção destacada em uma estrela bem acima da janela principal: 1917.
Certamente era a casa de uma família de italianos, que naquela época vieram trabalhar nas lavouras de café de São Paulo.
Eram casas e sobradinhos bem feitinhos, com detalhes em sua construção que denotavam uma preocupação com o local onde iriam morar.
Adoro casas antigas, mas as vejo cada vez menos e em seus lugares são erigidos prédios altos.
Gosto de olhar fotografias da São Paulo antiga à época em que homens usavam terno e chapéu e as mulheres usavam vestidos bem comportados. O transporte antigo puxado a cavalo, os bondes, os trens...
Quando vou ao consultório do médico que fica bem em frente à igreja nova da Penha, fico imaginando como deveria ser lindo e difícil subir todo aquele morro com mercadoria, mudança e pessoas.
Como deveria ser lindo ver de lá do alto o entardecer por entre as árvores, os pássaros a cantar sua canção de ninar enquanto se empolavam nos galhos, o velho Rio Tietê, vivo e limpo a correr livremente.
Papai contava que quando chegou aqui por essas terras paulistanas os córregos do bairro eram limpos e tinham peixes, hoje só têm lixo e poluição.
Outra coisa que reparei em meio ao boom imobiliário são as derrubadas de casas antigas para a construção de quadrados a que chamam de novo design em moradia. Até lembro de um arquiteto antigo que foi entrevistado na rua, na região dos Jardins, pelo CQC e ele criticou essa construção desenfreada de casas em forma de quadrado.
Vejo esses quadrados no caderno imobiliário do Estadão e não acha nada bonitos ou interessantes.
Sou meio à moda antiga.
Fiquei meio decepcionada quando vi a casa antiga dos italianos sendo derrubada para dar lugar a mais um prédio com inúmeras opções de lazer. Opções que poucos moradores usam, pois como está em voga hoje em dia, pagam para não usar, só para dizer que têm. Um exibicionismo meio besta.
É isso.



                        

domingo, 15 de julho de 2012

Pelas ruas que andei

                                       


Detesto fins de semana, principalmente os domingos.
Para mim representam lentidão, solidão, esquecimento, abandono... sei lá.
Eu antes tinha o hábito de andar pelas ruas do bairro nos fins de tarde; adorava.
Hoje não dá para fazer mais isso, meus joelhos inchados e gorduchos e minha coluna cheia de parafusos dificultam minha mobilidade, que ficou reduzida após tudo isso.
Deitei no sofá e liguei a TV, mas estava difícil ouvir, os vizinhos disputavam a potência de seus aparelhos de som: um tocando sertanejo-romântico-de-dor-de-corno e outro tocando pseudo forró. Sou radical nesse ponto, assumo. Forró para mim é Dominguinhos, é Luiz Gonzaga e não esse povo entalado que se esgoela sobre o som irritante, repetitivo e imutável do sintetizador. 
Levantei-me, coloquei a gataiada para dentro e saí sem destino.
Era uma tarde belíssima; céu azul, sol, nuvens branquinhas.
Gosto de fazer isso, gosto de dirigir sem destino.
Subi a ponte Aricanduva, entrei na Assis Ribeiro e fui até o fim dela, beirando a linha de trem; romântico, melódico, coisa simples e antiga. As casas simples, umas em cima das outras, a urbanização sem projeto, feita ao sabor da necessidade e sem nenhuma preocupação com o trânsito, a segurança, nada. 
Alguns trechos me lembraram cidades do Nordeste. Saudades.
Termina a Avenida Assis Ribeiro e começa a Avenida São Miguel, depois a Avenida Amador Bueno da Veiga, na minha querida Penha. Dei um rolê pela ZL (zona leste).
Voltei para a ZN (zona norte) e subi as íngremes ruas da Vila Medeiros e do Loretto. Fui a um mercadinho de uns portugueses velhos e comprei vinho português, claro, queijo, pão e azeitonas. 
Voltei para casa e no caminho encontro meu irmão Rogério; levei-o ao trabalho, no Mercadão da Penha.
Voltei para casa com meus joelhos doloridos e as pernas adormecidas: "Parei por hoje".
Tomei um banho e depois saboreei as delícias portuguesas com certeza.
Assisti depois ao Globo de Ouro e me diverti com a breguice das roupas e dos cabelões da época. Angélica gorducha e cabeluda, Lulu Santos com as calças debaixo do peito e acima dos tornozelos, outros cantores e grupos que eu nem lembrava que um dia existiram.
Fui para a cama. Dormi. Acordei com cor de cabeça e de estômago; haja água de coco até o dia dois de agosto quando finalmente passarei em consulta. Amém.
Amanheceu um domingo frio e cinzento. 
Fiquei em casa. Fiquei mais tempo na cama com meus gatos encolhidos e aconchegados sobre e sob os cobertores.
Amanhã a correria recomeça e é disso que eu gosto.
Estou cansada.




                                   

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O menino que engoliu o trem e prendeu a orelha na geladeira



Ronaldo é o caçula dos meninos e desde bebezinho é chamado de Fubá.
Fubá nasceu grande, com mais de quatro quilos e era chamado pelos médicos e enfermeiras de "O pai do berçário". Além do seu tamanho, Fubá também tinha/tem outras partes em seu corpo que são bem grandes: a cabeça e as orelhas.
E por causa do cabeção e dos orelhões, Fubá foi vítima de muita gozação e aporrinhação (bullying) por parte da molecada da rua e da escola. E por nós também - ninguém é de ferro.
Fubá aprontou muita arte quando menino. Minha Nossa Senhora!
Uma vez ele brincava com um carrinho e empurrando com muita força, fez com que o brinquedo fosse parar debaixo do armário. Fubá abaixa-se para pegar o carrinho, mas não conseguindo alcançar, arrasta-se para debaixo do móvel. Alcançou e puxou o brinquedo, mas tem certa dificuldade para se levantar: a cabeça ficou presa entre o armário e o chão.
Fubá tentar sair sozinho, não consegue e entra em desespero. Chora e chama por mamãe, que grita: "Acode aqui. O menino prendeu a cabeça debaixo do armário!".
Papai, mais um grupo de pessoas que estavam em casa ajudam a levantar o móvel para Fubá poder sair.
Uma das pessoas presentes no resgate olha para Fubá e diz: "Também, com uma cabeça dessa!".
O que Fubá respondeu é impublicável.
De outra feita Fubá está na cozinha fazendo seu pratinho e com uma das mãos segura o prato e com a outra abre a geladeira para pegar suco. Como só tem duas mãos, Fubá resolveu usar a cabeça, literalmente.
Ele empurra a porta da geladeira com a cabeça e acaba prendendo uma das orelhas. Ele puxa a cabeça, se remexe, vira para todos os lados e nada de se soltar. 
Fubá chora e grita por socorro: "Ajuda aqui!"
Todos correm para ver o que aconteceu e chegando à cozinha nos deparamos com a seguinte visão: Fubá com o prato de comida numa mão, um copo com suco na outra e a orelha presa na geladeira.
Ninguém conseguiu segurar o riso. Fubá fica mais nervoso e diz: Vão ficar parados aí? Me solta, p...!"
Fubá é salvo novamente.
Num belo dia, Fubá compra uns doces que trazem pequenos brinquedos como brinde e num desses doces vem um trenzinho.
Fubá muito guloso e zóião, come o doce e lambe o trenzinho de brinquedo até deixá-lo limpinho, mas distraído engole o brinquedo.
Desespera-se. Tenta colocar o trenzinho para fora; não consegue, chora e pede nossa ajuda. De novo.
Mamãe pergunta: "O que foi dessa vez, Fubá?!
Meu pobre irmãozinho responde e pergunta ao mesmo tempo:
"Engoli o trem. Vou morrer?"
Papai, rindo muito, responde: "Morre nada! Se não saiu por cima, amanhã ele sai por baixo. Se avexe não!".