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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Jeito

                                



Chuvinha fraca que deixou a tarde ainda mais quente e bela.
Acabou a ração dos gatos, acabou o dinheiro, acabou tanta coisa.
Há tanta coisa acabando...
Parece que quando não temos as coisas aí é que as desejamos mais e o mesmo pode-se dizer sobre os gatos: estão devorando rapidamente a ração que coloquei.
Não, não vou me desfazer dos meus gatos, eles não são objetos! Os tirei das ruas, outros foram jogados no meu quintal e maioria foi abusada, machucada e torturada.
De todas as casas na vizinhança eles vieram direto à minha, por que será?
Estou passando por uma fase difícil, mas vou sair dela. 
Para tudo se tem um jeito nessa vida e só não tem jeito para a morte, diziam meus antigos.
Venci a Morte uma vez, mas vencer nessa Vida é que está difícil.
É isso.


                                 



domingo, 9 de junho de 2013

Partir

                           

Não queria falar sobre o fim da vida, mas sinto-me meio triste e ando tendo sonhos com pessoas que já se foram e com outras que estão prestes a ir. Como sei disso? Não sei, apenas sinto.
Desculpem o tema.
É o destino de todos, dizem uns. Para morrer basta estar vivo, dizem outros. Para todo mundo vai chegar sua hora. É preciso ir para dar lugar aos que virão...
E as frases feitas continuam. 
Às vezes acho que é melhor usar uma dessas frases a ficar em silêncio. Outras vezes, na maioria das vezes, é melhor nada dizer.
Honestamente, não sei o que é "certo ou errado" nessas situações, se é que há certo ou errado nessas situações.
Sempre tive uma grande proximidade com a Morte e algumas vezes já me sentei em um banco gélido em uma praça gélida cercada por árvores gélidas. Tudo era tranquilo por ali, apenas frio demais.
Era comum, acredito que ainda seja, no Nordeste a morte de crianças menores de dois anos de idade. A fome, a seca e a miséria se encarregavam disso. Segundo a tradição local, todas a crianças menores de sete anos eram consideradas anjos inocentes e por isso, seus caixões deveriam ser carregados também por crianças menores de sete anos.
Vivi em Pernambuco até meus seis anos, completados no caminho para São Paulo, e era sempre chamada para fazer parte do grupo que carregaria o pequeno caixão até o cemitério. Era tão comum e eu era tão requisitada que achava aquilo normal. Crianças magras, braços e pernas finas, cabeça e barriga grandes, olhos fundos... Era questão de tempo.
Caminhávamos pelas ruas de terra vermelha e sentia o calor do sol em minha pele, o cheiro forte de terra trazido pelos ventos que só brincavam de anunciar a chuva e nos deixando a todos tão esperançosos.
Carregávamos o pequeno caixão que deveria ser sempre branco e o pequeno defunto parecia dormir tão tranquilamente. Que Deus receba essa pequena criatura que só sofreu em tão curta vida.
Quando acabava o cerimonial e voltávamos para casa, minha avó Mãevelha nos mandava tirar as roupas e os sapatos e correr para o banho. Ela dizia que "prestava não" entrar em casa após voltar do campo santo, como ela chamava o cemitério.
Tenho sonhado muito com mamãe, com meu irmão Naldão e com um conhecido já idoso, mas que recusa-se a aceitar que é idoso. Acha que ainda é o belo rapaz de forte sotaque europeu com seus cabelos negros e belos olhos azuis. Mas o tempo passou e ele não viu isso, ou não quis.
Em quase todos os sonhos com meu irmão obeso eu peço a mamãe que fale com ele e que o faça ver que ainda é jovem e não precisa se devorar junto com a comida. Mas mamãe disse que meu irmão "não tem jeito não". Deus.
Sonhei esses dias com seu enorme corpo deitado sobre uma mesa de pedra e ao chegar, sabia de alguma forma que ele estava morto. Eu ficava tranquila e achava que agora ele encontraria a paz, o conforto, a força e a coragem que nunca teve em vida. Mamãe era o leme, o porto seguro dele e de todos nós. Papai também.
Mas papai e mamãe partiram e nos deixaram já adultos e com nossas famílias formadas, mas quando pai e mãe vão embora não tem ninguém adulto ou jovem demais, somos todos crianças e achamos que nossos pais são para sempre, deveriam ser para sempre.
Deus, meu Deus dai-nos força, dai-nos paz. Amém.
Desculpem esse texto triste.


                                     
                               

terça-feira, 19 de março de 2013

19 de Março

                              



Hoje é dia dezenove de março, dia de São José.
Se papai e mamãe estivessem por aqui, completariam quarenta e sete anos de casados.
Hoje, no Nordeste, são celebradas missas para o santo e promessas são feitas também. São José abre a temporada das chuvas, que vai até São João e Santana; junho e julho respectivamente.
Que venham as chuvas para o meu Sertão, meu Deus, que venham.
Chega de seca, chega de gado e gente morrendo de fome e sede, meu Deus.
Mande um 'cadinho de chuva para meu Sertão, mande.
Mande para meu Sertão as chuvas que destroem vidas por aqui por essas bandas do Sul.
Mande a chuva para molhar o chão, pra módi matar não; visse, Nosso Sinhô?
Sem seca demais, sem chuva demais e sem morte demais.
Amém.


                                  

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Amor e Violência

                              

Assistia aos telejornais e me assusto e preocupo com a violência. Parece que a vida humana perdeu o valor e matar por qualquer coisa ou motivo é algo comum.
Absurdo cruel atirar em uma moça grávida de nove meses! Mataram por matar? Pois não levaram a bolsa nem o carro da vítima. Será que foi crime passional? Posso estar falando besteira, mas penso na possibilidade de alguma ex namorada do marido da grávida ter participação nesse ato vil.
Outra barbaridade ocorreu com um casal de Goiás; uma bomba caseira foi jogada dentro do carro do casal por um suposto ex namorado da moça.
Vejo no programa do Datena e do Marcelo Rezende barbaridades cometidas em nome do amor, do ciúmes, da possessividade e obsessividade.
As pessoas não aceitam o fim de seus relacionamentos e não suportam ver o/a ex com outro/a. 
Claro, amar dói, perder a pessoa amada para outro/a dói mais ainda, mas tirar a vida de alguém ou usar de qualquer outro ato vil não justifica.
Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém e se a relação se desgastou, o melhor a fazer é partir para outra/o. É difícil e doloroso, mas a vida continua e ninguém é de ninguém.
O problema dos relacionamentos atuais, me parece, são a possessividade, a obsessividade e o ciúme crônico e o resultado disso tudo somado é o descontrole emocional seguido de violência verbal, emocional e física.
As pessoas estão tão inseguras que não conseguem viver sós por um tempo e se estão em um relacionamento, o protege com unhas e dentes.
Será que isso é amor? 
Não, não é.
Quando a coisa transforma-se em obsessão o amor perde o espaço para a neura, a desconfiança, o ciúme doentio e termina com violência e até morte.
Isso definitivamente não é amor.
Lembro de uma frase bobinha que gostávamos de escrever em nossos cadernos. As meninas tinham cadernos coloridos, enfeitados e bonitinhos onde escreviam frases de amor e era assim: "O Amor perguntou ao Ódio: Por que odeias tanto?, e este respondeu: Porque te amo demais"
O mundo anda tão complicado.
É isso.

                                  

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Retrato

                              

Adoro fotografar, mas nunca gostei de ser fotografada. Hoje muito menos ainda; culpa da Acromegalia.
Antigamente, tirar fotos não era tão fácil, acessível e barato e só em ocasiões especiais chamava-se o fotógrafo.
Lembro que muitos deles passavam de porta em porta oferecendo seus serviços e eram comum trazerem consigo um carneiro ou burrinho pintado com cores berrantes. Eu não gostava daquilo de jeito nenhum, ficava preocupada com o bem estar do pobre animal. Será que aquela tinta era atóxica?
Detestava quando ia à feira com mamãe e via pintinhos coloridos sendo vendidos, queria pegar todos para mim, mas não podia.
Bom...
As fotografias de papel eram mais raras, para nós, pelo menos. Era muito comum o uso de monóculos, tínhamos que aproximar bem o olho da lente e ver ao foto ao fundo. Era legal.
Aliás, lá no meu Pernambuco, dizíamos retrato e não usávamos os termos foto ou fotografia. 
Lembro de uma tarde em que vi minhas primas Vera e Lúcia vestidas em novos e lindos vestidos, calçadas com meias brancas e sapatos de verniz pretos e cabelos arrumados e enfeitados com laço de fita; iam tirar um retrato.
Eu queria também.
Corri para casa e chamei mamãe e pedi para também tirar um retrato, mas mamãe disse que não podia, não tinha como pagar o retratista. 
Fiquei tão triste.
Eu já tinha um retrato que havia tirado ao lado de uma prima e isso bastava. Eu tinha três anos e estava vestida com as roupas e meias brancas feitas por mamãe e os cabelos cacheados presos em laços de fita feitos por minha prima, que gostava muito de mim.
Dois ou três anos depois estamos em São Paulo e sou fotografada com minha irmã Rosi no colo, eu tinha sete anos. Foram feitas piadinhas sobre minha aparência e meu volumoso cabelo cacheado. Não quis mais ser fotografada.
Anos depois venci, razoavelmente, a aversão à fotografias, mas eis que surge a Acromegalia e traz tudo de volta.
Olhava fotografias minhas tiradas na praia, sempre perto do meu amado mar oceano; eu não era bonita, mas eu era "normal".
Olhava fotografias minhas tiradas durante a festa de aniversário de minha sobrinha; eu não era bonita nem "normal", eu sou acromegálica e isso não é nada bonito.
Isso machuca, deforma, destrói, dilacera o corpo e a alma.
Não vejo a "cara de homem" que as pessoas tanto gostam e insistem em dizer, vi apenas um "carão" branco, feio, estranho, melancólico e acromegálico.
Sei lá...
Perdoa-me Deus em minha insensatez, mas... Talvez não teria sido melhor se eu tivesse partido durante a cirurgia que quase me matou? O coma e a Morte me rondando e que por três vezes quase me levou...
Não, não seria justo. Tanta gente boa pedindo por mim e eu tenho mais é que agradecer. Não seria justo desperdiçar e desmerecer tanta bondade, tanta fé, tantas orações, tanto trabalho.
Meus dias não têm sido nada bons, ultimamente. Será que dias melhores virão? 
Tomara, meu Deus, tomara.
Amém.

                                 

                                

terça-feira, 24 de julho de 2012

Hipertensão/Pressão Alta

                                                  
                 
Sou hipertensa.
Recentemente tenho estado hiper-mega-super-plus-hipertensa.
A pressão alta afeta rins, coração, cérebro e é causa de inúmeros problemas de saúde que podem até levar à morte.
A pressão alta somada a outros fatores contribuíram para com a morte prematura de mamãe, ela tinha apenas cinquenta e cinco anos.
A Acromegalia também intensifica os problemas já existentes, ela piora o que já é ruim.
Fui ao bairro da Vila Maria para resolver algumas pendências mas tive que voltar para casa, comecei a me sentir muito mal e a pressão ficou muito alta e tive uma sensação de desmaio. É uma agonia, um mal estar tremendo e pensei comigo: "Meu Deus, será que eu vou morrer?.
Não, agora não. Ainda tenho muito o que fazer.
Não posso ir agora; penso nos meus gatos, nos meus livros, nas coisas que quero realizar, nas viagens que quero fazer. Ainda mais agora que resolvi deixar meu lado Gregor Samsa e pensar em mim, viver por mim. A vida toda me anulei e me preocupei com os outros, com a fragilidade dos outros, em resolver o problemas dos outros porque me achava forte e responsável pela vida dos outros. Não sou super-humana, sou apenas demasiadamente humana.
Os outros vão bem, obrigada. Os outros vivem suas vidas, continuam fazendo suas burradas e a vida continua. Comigo ou sem migo os outros vivem muito bem.
Não estou me tornando uma pessoa má, sempre fui boazinha demais e aí está meu erro. Ajudar sim e quando realmente necessário, mas virar capacho de gente folgada exploradora não dá! Papai dizia: "Se fazer de morto pra comer o fiofó do coveiro".
Vou cuidar de mim. Eu morro e a vida continua, tudo e todos continuam.
Bom...
Preciso voltar à cardiologista que terá vaga na agenda só em setembro. Tentei agendar consulta com outros médicos, mas a maioria deles não aceita mais meu plano de saúde e/ou mudou de endereço. Como diz meu sobrinho Vinicius: "Que doga!"
Isso porque eu pago convênio médico há uma década, imagine se fosse pelo SUSI (SUS), como dizia papai?!
Que país é esse que cobra as maiores taxas de juros e impostos do mundo e que não investe em saúde, educação, transporte e outras coisas importantes para o bom funcionamento de uma nação?!
A corrupção rouba tudo.
Vou tomar mais uma dose do remédio anti-hipertensivo, tomar meu banho noturno e me agasalhar com minha gataiada.
Vou viver muito ainda.
Vou trabalhar, viver, lutar e ser forte que nem uma cavala, como diz minha sobrinha Beatriz.
Vou ver todos meus sobrinhos e sobrinhas cidadãos de bem, formados, lindos e com uma vida honesta, digna e boa.
Amém.