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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Toucinho

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Finalmente o tão esperado quinto dia útil do mês. É, mas alegria de pobre dura pouco e o salário desse mês não vai ser suficiente, também, para pagar todas as contas.
É tanta coisa junta... Haja saúde física e emocional para aguentar o tranco. Se eu ainda tivesse saúde boa, eu trabalharia e isso aliviaria os problemas.
Estou cansada de ficar trancada dentro de casa por dias e dias e só sair quando vou ao médico ou à casa da minha irmã, e olhe lá.
Tenho pensando tanto, filosofado e buscado respostas nas mais variadas filosofias, crenças, religiões etc... Todas têm algo útil e bom a dizer, mas não respondem à todas as perguntas, infelizmente.
Umas dizem que fiz algo de muito errado em outra vida e estou pagando nessa porque não deu tempo de pagar tudo na primeira. Caramba! O que foi que eu fiz?! Matei alguém?!
Não posso pensar em algo mais grave, sério, desumano e cruel que tirar a vida de outra criatura, seja ela humana ou animal.
E na boa, se eu fiz algo de errado, foi na outra vida, não nessa! Sempre fui honesta, trabalhadora, quieta no meu canto, nunca prejudiquei ninguém e nunca peguei nada do que não me pertencesse. Por que então?!
Outras dizem que é um processo evolutivo e que é necessário passar por isso. Caramba de novo! Tenho me que lascar tanto para evoluir? Tenho que me converter à uma determinada religião para ser salva? Salva do quê? Dos meus problemas? 
Só quero ter o direito de ir e vir, de ter uma saúde boa, de trabalhar, de viver minha vida, de não ser tratada e julgada como inútil, inválida e incapaz.
Não sou.
Me dediquei tanto aos outros, sempre tratei a todos como frágeis e extremamente carentes e dependentes de mim. Sempre me achei a grande mãe de meus irmãos e de todos que uma vez outra precisaram de mim. Sempre coloquei a vida e os problemas dos outros à frente dos meus; eu não era tão importante assim e poderia viver minha vida depois, sempre depois.
Tento escapar da tristeza profunda, da melancolia sedutora e da depressão devastadora e elas me cercam.
Mágoas, decepções, injustiça, ingratidão, dificuldades...
Será que não teria sido melhor se eu não tivesse voltado do coma? 
Mas dizem que dias melhores virão, que toda essa fase ruim vai passar, que coisas boas estão a caminho. Tomara meu Deus, tomara. Acho que tu me deve essa.
Gregor Samsa, Tântalo e Sísifo me representam. Nesse momento, sim.
É bobagem a gente esperar que os outros façam e ajam de acordo com nossos princípios, crenças e vontades. Cada cabeça, uma sentença, já dizia mamãe.
Decepções, mágoas e tristeza disputando meu coração com colesterol alto e triglicérides. Eita!
Será que o coração acromegálico vai aguentar?
"Guenta sim! Eu já comi toucinho com mais cabelo!", diria mamãe.
Mas o toucinho estão tão cabeludo!
É isso.

      
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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma estrada até o mar

                              


Fim de semana chatinho, sem ânimo e com dores. Legal.
As dores aumentam gradativamente e minha coluna dói como costumava doer antes da cirurgia de artrodese.
Fiquei um tempo bem, sem dores e sem entrevamento, mas pouco tempo depois as dores e o entrevamento voltaram lentamente e têm se intensificado.
Minhas mãos doeram muito e não consegui dormir direito; grande novidade.
Fiquei com uma vontade grande de ir ao hospital, falar com médicos, reiniciar os tratamentos e tirar uma necessária licença.
Se o povo da minha escola tira licença por motivos fúteis, por que eu não posso?
Não está fácil e decidi me preocupar comigo mesma; não estou concorrendo ao prêmio "Gregor Samsa" do século.
Se o apontamento dos erros e as sugestões dadas foram ignorados e as pessoas que têm algum poder de decisão nada fizeram, o jeito é entregar pra Jesus. Vou fazer o quê?!
As pessoas se habituaram a viver/trabalhar no erro e parecem não gostar quando alguém com outra visão tenta lhes mostrar o que não querem ver.
Não vou me desgastar mais. Se eu tivesse saúde boa insistiria mais, mas não dá.
Uma colega de trabalho disse algo interessante e verdadeiro: "Pessoas da antiga como nós são mais sérias e responsáveis e se incomodam com coisas erradas".
Só podemos nos incomodar, porque fazer algo de concreto é praticamente impossível: tudo é barrado pela falta de boa vontade.
Vou cuidar de mim. Não posso mudar as pessoas, mas eu faço minha parte: trabalho honestamente e trato as pessoas com educação e respeito, sejam elas uma simples faxineira ou um simples gestor.
A gente fica mais doente ainda e nada muda. Não é problema meu se faltam funcionários e os poucos que têm ainda fazem corpo mole; alguns.
Sou professora e deveria trabalhar na sala de leitura com os alunos, minhas paixões.
Lugar de professores não é na secretaria fazendo serviço burocrático, disse outra colega também insatisfeita.
Mas se acomodaram à situação e atitude nenhuma é tomada.
Vou cuidar de minha saúde e só posso lamentar se faltam funcionários. Vou me solidarizar com os pais simples e humildes que são tratados com impaciência e grosseria pelas outras distintas funcionárias.
Depois acham ruim quando 99.99% das pessoas reclamam dos funcionários públicos!
Parece que é um requisito obrigatório: para ser funcionário público tem quer grosseiro, estúpido, impaciente, mal educado e preguiçoso. Há raras exceções e eu sou uma delas, pois trabalho com todas minhas limitações e nem por isso desconto meus problemas nas pessoas que vão à escola para tratar da vida escolar sua ou de seus filhos.
Frustrações e decepções pesam e cansam e meu corpinho acromegálico já está exausto.
Minha vontade é dirigir por uma estrada até o mar.
É isso.


                                       

terça-feira, 24 de julho de 2012

Hipertensão/Pressão Alta

                                                  
                 
Sou hipertensa.
Recentemente tenho estado hiper-mega-super-plus-hipertensa.
A pressão alta afeta rins, coração, cérebro e é causa de inúmeros problemas de saúde que podem até levar à morte.
A pressão alta somada a outros fatores contribuíram para com a morte prematura de mamãe, ela tinha apenas cinquenta e cinco anos.
A Acromegalia também intensifica os problemas já existentes, ela piora o que já é ruim.
Fui ao bairro da Vila Maria para resolver algumas pendências mas tive que voltar para casa, comecei a me sentir muito mal e a pressão ficou muito alta e tive uma sensação de desmaio. É uma agonia, um mal estar tremendo e pensei comigo: "Meu Deus, será que eu vou morrer?.
Não, agora não. Ainda tenho muito o que fazer.
Não posso ir agora; penso nos meus gatos, nos meus livros, nas coisas que quero realizar, nas viagens que quero fazer. Ainda mais agora que resolvi deixar meu lado Gregor Samsa e pensar em mim, viver por mim. A vida toda me anulei e me preocupei com os outros, com a fragilidade dos outros, em resolver o problemas dos outros porque me achava forte e responsável pela vida dos outros. Não sou super-humana, sou apenas demasiadamente humana.
Os outros vão bem, obrigada. Os outros vivem suas vidas, continuam fazendo suas burradas e a vida continua. Comigo ou sem migo os outros vivem muito bem.
Não estou me tornando uma pessoa má, sempre fui boazinha demais e aí está meu erro. Ajudar sim e quando realmente necessário, mas virar capacho de gente folgada exploradora não dá! Papai dizia: "Se fazer de morto pra comer o fiofó do coveiro".
Vou cuidar de mim. Eu morro e a vida continua, tudo e todos continuam.
Bom...
Preciso voltar à cardiologista que terá vaga na agenda só em setembro. Tentei agendar consulta com outros médicos, mas a maioria deles não aceita mais meu plano de saúde e/ou mudou de endereço. Como diz meu sobrinho Vinicius: "Que doga!"
Isso porque eu pago convênio médico há uma década, imagine se fosse pelo SUSI (SUS), como dizia papai?!
Que país é esse que cobra as maiores taxas de juros e impostos do mundo e que não investe em saúde, educação, transporte e outras coisas importantes para o bom funcionamento de uma nação?!
A corrupção rouba tudo.
Vou tomar mais uma dose do remédio anti-hipertensivo, tomar meu banho noturno e me agasalhar com minha gataiada.
Vou viver muito ainda.
Vou trabalhar, viver, lutar e ser forte que nem uma cavala, como diz minha sobrinha Beatriz.
Vou ver todos meus sobrinhos e sobrinhas cidadãos de bem, formados, lindos e com uma vida honesta, digna e boa.
Amém.


                                          

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Papai

                                                 


Papai orgulhava-se de ser pernambucano, palmeirense e macho. Exatamente nessa ordem.
Papai foi um homem bonito: cabelos escuros, pele clara e olhos verdes agateados. Papai era o Tom Cruise do Nordeste.
Papai era muito trabalhador, honesto, "inguinórante", teimoso, manhoso, cabra da peste.
Papai não era muito empreendedor, não era forte; dava um passo à frente dois para trás.
Mamãe era forte, titânica e empurrava papai para a frente.
Papai trabalhava duramente, levantava cedo, chegava sempre antes do horário, não gostava de chegar atrasado. Papai era agoniado e avexado, como dizia mamãe.
Papai era meio Gregor Samsa, personagem de Kafka no livro "A Metamorfose". Só trabalho, honestidade, cumprir horários, obedecer.
Papai nunca faltava ao trabalho, mesmo doente.
Papai temia deixar faltar o "de comer" em casa. Papai temia que os filhos passassem fome.
Uma vez papai ficou alguns dias em casa e eu estranhei ver meu pai tão trabalhador ali, dentro de casa. 
Papai tinha muitas dores de cabeça. Papai foi ao médico, depois ao hospital e finalmente voltou para ficar alguns dias em casa para se recuperar e só então voltar ao trabalho. Papai trabalhava na Moóca, na Rua Taquari.
Papai havia feito uma pequena cirurgia na cabeça; foi para remover um tumor que se formara entre o cérebro e o crânio. Papai tinha um curativo em sua cabeça e o esparadrapo branco parecia um laço de fita que combinava com a calça social e com a camisa rosa clarinha. A moda do jeans ainda não era tão forte naquela época.
Papai agachado segurando uma toalha sobre a perna de Mãevelha. 
Mãevelha com uma veia estourada a sangrar através da pele fininha que se rasgara ao raspar na porta do banheiro.
Sangue.
Sangue na perna de minha avó e o curativo na cabeça do meu pai.
O vizinho vem ajudar e leva papai e Mãevelha à farmácia; voltam os dois com curativos limpos e novos.
Papai volta a trabalhar. Papai usa chapéu para proteger a cabeça do sereno e da friagem que "ofendiam" ainda mais suas dores de cabeça".
Papai não tinha culpa de ser fraco e medroso, papai fora criado sem mãe e por muitas madrastas que iam e vinham. Deixavam filhos e levavam pedaços de terra do meu avô José, que era homem de posses para a época.
Avó Mariana fora embora muito cedo e deixou papai pequeno, como apenas cinco anos.
Avô José, moreno bugre de belos e tristes olhos verdes era ainda jovem, bonitão e sedutor e encontrava facilmente pretendentes que muito queriam saber de seus bens e pouco queriam saber de seus filhos e dele mesmo.
Foram criados um cuidando do outro.
Hoje sonhei com papai e ele conversava e sorria. De repente alguém diz que papai morreu. Como?! Papai já morreu! São quase dois anos! Oxe!
Uma dor e uma tristeza imensa me invadem; acordei chorando.
Saudades.
Meu Deus, que papai e mamãe tenham paz, saúde, alegria e sossego; já trabalharam e sofreram demais quando estavam por aqui.
Acredito que papai estava em tratamento e agora que está melhor, passou para um outro lugar mais elevado. Papai estava tão fraquinho quando foi embora.
Meu Deus, olhai por nós. Olhai por papai, mamãe e por todos nós aqui.
Que sejamos felizes, que tenhamos paz, saúde, alegria.
Amém.


                                    

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tia Dolores

                                                




Tia Dolores é irmã de mamãe e ao contrário de tia Antonia, é bastante despachada, engraçada e faladeira.
Tia Antonia é tímida, mais calada e conservadora.
Tia Dolores e tia Antonia moram em Buíque, Pernambuco.
Mamãe adorava viajar e sempre que possível, íamos juntos com ela.
Não tinha época certa para viajar; se fosse no meio do ano pegaríamos chuva, friozinho e névoa em Buíque, que fica a aproximadamente 800 metros acima do nível do mar. Se fossemos em dezembro, enfrentaríamos um calorão danado de grande. Ave Maria!
Além do calor tínhamos que encarar as muriçocas (pernilongos) e baratas enormes.
As baratas pernambucanas parecem ter o dobro do tamanho das baratas paulistanas. Fiquei espantada, assustada e com nojo desse inseto kafkaniano (Kafka nunca disse que o inseto no qual transformara-se Gregor Samsa [metafisicamente] era uma barata, no livro "A Metamorfose"). Beleza.
Tia Dolores percebe que me espantei com o tamanho da barata e diz, para me assustar mais ainda: "É, minha filha. As baratas daqui são bem grandes, visse? Elas até usam óculos!".
"Óculos, tia?! Oxe!".
"Arrepare o tamanho dos zóio delas. Não parece óculos?"
"Vixe. É mesmo tia. Que nojo!".
A tia continua no assunto insetívoro e me pergunta: "E lá em Sum Paulo tem muita muriçoca?"
"Tem sim, tia".
"E como é que vocês chamam as muriçocas de lá?"
"É pernilongo, tia"
"Pois aqui elas vêm sem a gente chamar".
A tia é muito engraçada e maluquetes.