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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sabiá

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Muita chuva e frio.
Dor de cabeça chata, só do lado esquerdo do rosto. Pressão no olho esquerdo.
Gatos encolhidos pelos cantos; fico com dó dos cachorrinhos da vizinha amarga, os pobrezinhos latem de fome e frio a noite toda e ela não toma providência alguma.
Daqui a pouco o sabiá inicia sua cantoria; acho tão lindo, mas tem gente que reclama. Final de inverno e o canto anuncia novas vidas que chegarão com a primavera.
Fumaça de cigarro que entra pelo nariz e incomoda muito. Os vizinhos fumam e bebem no quintal e toda a fumaceira vem pra cá; detesto! Piora a dor de cabeça.
Fiz arroz branco e comi com o refogado de abobrinha e mandioquinha que sobrou de ontem; bem gostosinho, embora não dê muita "sustança".
Estou "viciada" nessas bolachas integrais Nesfit e Belvita e nos cookies de chocolate da Bauducco. Deliciosos.
Tenho levantado cedo esses dias; quero fazer muitas coisas, tantas coisas, mas esqueço e lembro da minha condição.
Que vontade de largar o andador pra lá e sair pela casa fazendo o que tem que ser feito! 
Dúvidas, receios, possibilidades, incertezas e tantas outras coisas passando por minha cabeça que dói há alguns dias.
Que dor de cabeça chata!
Vou me deitar.
É isso.



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sábado, 20 de junho de 2015

Sem compromisso

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Sábado.
Fui me deitar ontem logo após o término do Globo Repórter, que falou sobre a Sérbia, ex república Iugoslava.
Não me sentia muito bem; o corpo e a cabeça doíam tanto. 
Tomei os remédios, fiz minhas orações e depois me deitei mais pro cantinho da cama; Bellatrix & Cia invadiram e se apoderaram do meu lugar.
O frio intenso fez com que os gatos procurassem um lugar mais quentinho e Alice e Nêgo Lindo têm a mania de deitar em cima de mim.
Bellatrix, muito sacana, me abraçou, como que para se desculpar da invasão perpetrada por ela. Tão bonitinha.
O frio, as dores e o cansaço me derrubaram e adormeci. Dormi por cinco horas seguidas e fiquei feliz por isso; há tempos que não dormia bem assim. Agradeci pela boa noite de sono.
O dia amanhece, o barulho da rua começa e o vizinho tagarela desembesta a falar. O homem fala por horas!
Quando ia me levantar, eis que vem minha Branca Maria e me abraça, decidi ficar mais um pouco na cama.
Fiquei ali, naquele abraço gostoso e tão bom.
Quer saber? Vou ficar na cama com os gatos até a hora que eu quiser e achar que tenho que levantar!
Não devo nada a ninguém (devo sim), e ninguém tem nada a ver com minha vida!
Estou pouco me importando para críticas, achismos e gente dona da verdade. 
"Eu acho isso, eu acho aquilo... Você deveria fazer isso ou aquilo..."
Meus livros incomodam, meus gatos incomodam, minhas plantas incomodam. O que mais?
É sina, destino, gente chata mesmo?
Levantei quando achei que devia, cuidei dos gatos, fiz meu café e tomei com bolacha do Nordeste. Adoro.
Sei lá...
Se nos preocuparmos com o que pensam e dizem de nós e com os comportamentos de ingratidão, descaso, desrespeito e arrogância de alguns para conosco, viveremos em função de tristezas e mágoas e não viveremos nossas vidas.
Não é fácil, claro, mas é o melhor a fazer. Seguir em frente.
Meu dia hoje foi sem compromisso e eu estou bem, obrigada.
É isso.



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quarta-feira, 11 de março de 2015

50 Tons de Verde

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Faz um dia bonito; céu azul e vento frio.
Choveu rapidamente agora a pouco. Foi uma nuvem passageira, uma nuvem criança que não sabe ainda controlar o momento certo de chover, diria meu povo antigo.
Esses dias de céu azul e vento frio têm um significado especial e marcante para mim, assim como os dias cinzentos, frios e chuvosos. Não sei explicar como nem porque, só sei que têm.
Sinto as nuances, as diferenças no tempo, no clima, nos dias, nas folhas das plantas, no comportamento dos animais e nas coisa da Mãe Natureza.
Antigamente não existia aparelhos para detectar essas mudanças e as pessoas apenas observavam a Natureza e assim sabiam quando era época certa de plantar, colher, armazenar...
É fim de verão, graças a Deus, e os dias estão menos quentes. Sinto e vejo as mudanças no tempo, nos diversos tons de verde das plantas e no meu próprio humor.
Às vezes acho que vim a esse mundo por acaso, por engano ou por castigo. Se for por castigo, creio que já paguei uma boa parte da dívida.
Lavei roupas e o mesmo varal arrebentou pela quarta ou quinta vez. Improvisei como deu, é meio complicado fazer as coisas com uma mão só enquanto a outra segura o andador e mesmo assim já caí um bocado de vezes.
Hoje é quarta-feira, dias das ofertas, frutas e verduras frescas nos supermercados. Estava com vontade de ir, mas não me sinto muito segura com essas pernas fracas. 
Vou me virar com o que tenho e amanhã, ao sair do laboratório, irei. Vou conseguir.
Gosto muito de frutas, adoro, e gosto de ver a fruteira cheia. Gosto também de ver o armário da cozinha e a geladeira cheios. Ficávamos tão felizes quando chegava o dia do pagamento e mamãe passava em casa na hora do almoço só para nos deixar a bandeja de iogurte e seguir de volta para o trabalho. Quando chegava a noite, íamos ao supermercado para as compras do mês e nos permitíamos alguns luxos: bolachas, goiabada em lata, iogurte, suco em pó, achocolatado...
Estava sentada enquanto esperava a máquina terminar o ciclo e observava meu jardim. Estão tão lindo e viçoso.
Os gatos estão atacando minha orquídea, puxando as raízes e a casca do coco. Terríveis.
Já atacaram minhas baby roses amarela e vermelha, meu pé de melão, laranja, limão... Vou ter que fazer um jardim suspenso.
Agora todos dormem para quando a noite chegar recomeçar toda a correria, as brincadeiras, os ataques de ciúme e toda a arte e graça dos bichanos.
Acordei de madrugada com uma coisa fofa, quente e peluda deitada sobre cintura; era meu Ébano Nêgo Lindo que sentiu frio e veio se aquecer ao meu lado.
Morena Rosa desistiu de dormir na caixa de papelão e eu estranhei: gatos adoram caixas de papelão. O motivo? Nunes Boreal fez caquinha na caixa só para Morena Rosa não usar mais.
Tudo o que os outros gatos fazem para me chamar a atenção, Nunes Boreal faz igual ou pior. Depois dizem que os animais não pensam.
Como não?! Animais não são coisas inanimadas, animais têm vida!
Ando meio sem vida ultimamente.
É isso.



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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Mobilidade

                                 



Lendo artigos em jornais e conversando com algumas pessoas que têm alguma deformidade ou problemas com mobilidade física, cheguei à conclusão de que as pessoas "normais e perfeitas" não têm paciência para com essas pessoas "imperfeitas".
Parece que há uma lei que obrigada as todos a serem saudáveis e perfeitos; não tem muito espaço para aqueles que não se encaixam no padrão estabelecido.
Pessoas doentes, com mobilidade reduzida, cadeirantes, ou qualquer outra categoria, não são aceitos, bem vindos e não podem fazer parte do grupo dos perfeitamente saudáveis; atrapalha.
Atrapalha o andar livre daqueles que podem andar. Demora muito para acompanhar o passo.
Dá trabalho dobrar o andador e/ou a cadeira de rodas. Dá uma certa vergonha também. Não é "da hora", legal, bacana estar acompanhado por alguém "assim".
Assim como?
Deficientes e pessoas com mobilidade reduzida também têm direitos! Têm direito à diversão, a sair de casa, a passear, viajar... tudo como qualquer pessoa "normal".
Deficientes e pessoas com mobilidade reduzida também são gente e têm sentimentos!
Consomem, compram, pagam impostos, pagam suas contas... Se somos inúteis e atrapalhamos a vida dos perfeitos, então nos eximam de pagar impostos, que nossos remédios sejam gratuitos e nosso transporte também.
Não é fácil e barato ir às consultas e exames de táxi; a fase Angélica está pesando no orçamento.
Pagar uma prestação cara e deixar o carro na garagem. Mas se está difícil e arriscado dirigir, o melhor é pagar o táxi. Mais seguro e mais prático.
Bom...
Muitos exames e consultas marcadas. Não vejo a hora de resolver e me livrar disso tudo. 
Me livrar dessa ridícula radiculopatia lombar, (radícula = pequena raiz; pathos = doença), que é a compressão ou irritação dos nervos que saem da coluna.
Eu e essa minha coluna problemática.
Dor, formigamento, fraqueza, dormência e uma sensação de estar pisando em brasa quente. As pernas ficam fracas e pesadas e não obedecem aos comandos do cérebro. Preciso segurar as pernas, principalmente a direita, se quiser levantá-la ou esticá-la.
Marquei consulta com o cardiologista também, estou preocupada com esse meu cansaço e batimentos acelerados ao mais simples esforço físico. Além do susto ocorrido no dia da perícia médica.
Coração velho de guerra.
Chove...
Consegui estender as roupas sem cair e até consegui amarrar/instalar/colocar um novo varal. 
Uma bobagem insignificante, mas importante para quem tem suas limitações.
Tenho limitações e acredito que serão temporárias.
Tenho limitações, mas ainda não morri!
Estou viva, quero viver e tenho direito à vida!
Tenho direito de circular por aí, mesmo que seja de táxi.
"Vou de táxi, se sabe..."
É isso.


                                       









quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Pódio

                               


Desde criança ouço as pessoas dizendo essa frase: "O que é para ser, será. E ninguém pode mudar o destino".
Eu não entendia muito e com o decorrer do tempo criei o hábito de questionar, de querer saber o porquê das coisas. Eu e esses meus hábitos.
Se as coisas, fatos, acontecimentos estão mesmo destinados a ser e acontecer, por que de repente a vida nos dá uma rasteira e nos deixa doloridos, frustrados, desolados e querendo entender o que foi que aconteceu e por que aconteceu?
"Vida longa com muita saúde"; está meio difícil ultimamente.
"Sucesso profissional"; se eu estivesse trabalhando, se eu pudesse trabalhar, se eu tivesse saúde.
E outras certezas que estavam marcadas pelo Destino, mas que Deus, a Vida e/ou alguém muito filho duma égua não permitiram que fosse, que acontecesse. Por que então nos iludem? É para ter o prazer de nos ver sofrer? Se assim for, Deus, a Vida e o filho duma égua são sádicos e egoístas. Na boa.
O que está marcado e decido, por mim, é que vou seguir em frente mesmo com todas as dificuldades e só contar vitória depois de subir ao pódio para receber a medalha de ouro.
Vida e Destino mais sacanas!
É isso.


                                   




sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Jeito

                                



Chuvinha fraca que deixou a tarde ainda mais quente e bela.
Acabou a ração dos gatos, acabou o dinheiro, acabou tanta coisa.
Há tanta coisa acabando...
Parece que quando não temos as coisas aí é que as desejamos mais e o mesmo pode-se dizer sobre os gatos: estão devorando rapidamente a ração que coloquei.
Não, não vou me desfazer dos meus gatos, eles não são objetos! Os tirei das ruas, outros foram jogados no meu quintal e maioria foi abusada, machucada e torturada.
De todas as casas na vizinhança eles vieram direto à minha, por que será?
Estou passando por uma fase difícil, mas vou sair dela. 
Para tudo se tem um jeito nessa vida e só não tem jeito para a morte, diziam meus antigos.
Venci a Morte uma vez, mas vencer nessa Vida é que está difícil.
É isso.


                                 



terça-feira, 25 de março de 2014

Mãe

                               



Todos os dias mães de alunos são chamadas para conversar com a coordenação e/ou direção sobre o comportamento dos filhos/alunos; é praxe.
Alunos que não respeitam professores, inspetores e nem a própria mãe.
Hoje cedo ouço a conversa do coordenador com o aluno e a mãe que se debulhava em lágrimas; o filho não quer saber de nada, não tem perspectiva de vida, não "está nem aí" para nada.
O coordenador falava, orientava e tentava ajudar da melhor forma possível, mas lidar com adolescentes rebeldes que acham que o mundo está errado e eles certos, não é tarefa das mais fáceis.
A mãe dizia que fazia o possível, dentro de suas parcas possibilidades, para que o filho tivesse o melhor. O menino não trabalha, só "estuda", tem boas roupas e calçados e ainda assim reclama. 
É um adolescente bonito, um menino com lindos olhos claros. Pelo menos nesse aspecto, a vida favoreceu-lhe. 
Vivemos na Sociedade da beleza, da preocupação extrema e obsessiva com a aparência.
A mãe não parava de chorar e o filho não se importava com a situação, estava preso e amedrontado em seu mundo ainda confuso.
A rebeldia são o medo e a fraqueza disfarçados.
Pedi licença e a atenção do menino por um momento. Ele me voltou seus lindos olhos claros e eu falei: "Completei quarenta e sete anos sábado passado e espero completar mais quarenta e sete. Estou na minha segunda vida e agradeço todos os dias por estar viva. Você sabe o que é ficar entre a vida e a morte? Você é um menino bonito, saudável, tem tudo pela frente, só depende de você. Você pode andar sem ajuda de bengala, pode correr e eu não. Você tem coluna e ossos bons, eu não... Desejo que você seja feliz".
Voltei ao trabalho e as horas passaram.
Levo documentos para o diretor assinar e vejo o menino de lindos olhos claros brincando e sorrindo. 
Que a vida possa lhe mostrar o quão valiosa e importante ela é.
É isso.


                          
                                      

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O primeiro passo

                                



"... Chove chuva, chove sem parar..."
Há uma semana que chove em São Paulo, meu Santo São Paulo.
O frio diminuiu um pouco, mas, segundo as previsões meteorológicas, voltará a esfriar mais a partir de amanhã.
Fim de semana e feriado de paulista é assim mesmo, sol de segunda à sexta e chuva e frio nos finais de semana.
Acho que é por isso que o pessoal do Rio de Janeiro, do Norte, Nordeste e Centro-Oeste é mais alegre, festeiro e animado; eles têm sol e calor o ano quase todo!
Não que paulistas e paulistanos não sejam animados, eles são sim, mas a tendência é mais para a seriedade, a pressa, o trabalho.
Paulistano corre tanto pra ficar parado no trânsito da Marginal Tietê, Radial Leste, Vinte e Três de Maio...
Isso sem contar os "busão lotado", o Metrô e o trem.
Mas eu amo essa cidade, principalmente em dias cinzentos, frios e chuvosos com o dia de hoje. 
Vai falar isso "pros mano e as mina" que estão presos no trânsito!
Mas eu tinha outro assunto em mente...
Queria falar sobre o bem que me fez e faz esse blog; o bem que faz o ato de escrever.
Sinto-me útil, viva, inteligente, apta a ajudar com o conhecimento e experiência que tenho com/sobre a Acromegalia.
Explico.
Quando comecei esse blog eu nada ou pouco sabia sobre Acromegalia e à medida que fui escrevendo e relatando minha história com a doença, fui descobrindo que, sem querer, ajudava muita gente que também tinha dúvidas como eu.
O bacana do conhecimento é o poder dividi-lo e como dizia meu amado avô Paipreto: "Não há riqueza maior no mundo do que o conhecimento".
Isso dito por um analfabeto cultíssimo que conhecia munto (muito) das coisas do mundo.
Tenho recebido muitos e-mails de pacientes e/ou parentes e amigos de pessoas que se descobrem acromegálicas mas que não sabem como reagir, o que fazer, que médicos procurar...
Respondo a todos os e-mails com prazer, divido minha experiência e meu conhecimento sobre a Acromegalia porque conheço bem a dúvida, o medo e até o desespero que o descobrir-se com essa doença pode causar.
Não é fácil não.
Recebi e-mail de um jovem que desconfia ter Acromegalia mas que tinha certa dificuldade em ser ouvido e acreditado por seu medico. Já passei por isso e sei bem como é. É uma enorme sensação de fraqueza, injustiça e impotência.
Médicos não são Deus, embora haja muitos que pensam que são.
Médicos deveriam ouvir os pacientes, prestar atenção às suas queixas, olhar os exames com atenção e não tentar bancar a Mãe Diná e simplesmente nos dizer: "Está tudo bem".
Se estivesse tudo bem por que nos submeteríamos a exames, alguns invasivos e dolorosos? Por que perderíamos nosso tempo com laboratórios, consultas e exames?
Recebi e-mail de uma moça cujo pai passará por cirurgia para remoção de tumor de hipófise na próxima segunda-feira. Ela estava apreensiva, preocupada com o pai e queria saber como a cirurgia é feita. 
Leio desabafos de mulheres que foram abandonadas pelos maridos, namorados, ficantes, Ricardões, peguetos (masculino de peguete) e afins quando souberam que elas estavam doentes.
As pessoas agem como se nunca fossem envelhecer ou ficar doentes e é nessas horas que conhecemos de verdade aqueles que nos cercam.
E foi também por meio do meu blog e da minha escrita que conheci outros acromegálicos que com suas valiosas informações me ajudaram a encontrar um tratamento mais eficaz. Ainda estou no aguardo, mas o primeiro passo foi dado e isso é o mais importante: o primeiro passo.
Acho que essa é minha missão nessa segunda chance de vida que recebi. 
Às vezes desanimo, sinto-me triste, esquecida e sem vontade para nada, mas aí lembro de tudo o que passei e digo para mim mesma: "Vamo acordar pra vida aí, mano! Tu não ganhou a segunda chance de graça não"!.
Tem que valer a pena.
E tudo começa com o primeiro passo.
É isso.





                            










domingo, 29 de setembro de 2013

É a vida

                                


Pretendia escrever/falar sobre outras coisas, mas o assunto acabou descambando para refrigerantes antigos.
Talvez não quisesse naquele momento falar sobre outras coisas. Sei lá...
Não queria falar sobre a Acromegalia.
Não queria falar sobre refrigerantes, gatos, frio, estradas...
Falar sobre sentir-me só, esquecida, desimportante...
Eu que já fui tão forte como touro; que já segurei touro na unha, que passei por trancos e barrancos, que fiz coisas e assumi responsabilidades muito sérias para uma criança de seis, sete, onze anos...
Eu que me dei, me entreguei e me dediquei aos outros e esqueci de mim. Me deixei de lado na certeza de que um dia me retomaria e seguiria em frente com a minha própria vida; livre, leve e solta.
Mas nem tudo é como planejamos.
O que ganhei de anos de responsabilidades, dedicação, seriedade? Apenas um bom caráter, uma coluna ruim e cheia de parafusos e uma doença besta de nome estranho e que ninguém nunca ouviu falar: Acromegalia.
Acro = extremidades, altura.
mega = grande.
lia - doença.
Mas nem tudo pode ser totalmente bom ou totalmente ruim nessa vida.
A Acromegalia me deixou mais fraca, cansada, isolada, desolada, esperançosa pela cura ou pelo menos por uma solução.
Por me deixar mais fraca, a Acromegalia me afastou de gente que só me via como a solução de seus problemas. Gente que me sugava as forças, a vitamina, as energias.
Há males que vêm pra o bem, já diziam os antigos.
Sinto-me mais aliviada e até mais alegre por estar livre de compromissos e obrigações que não eram meus. Livre de passar o dia inteiro rodando pelo caótico trânsito paulistano a serviço de pessoas que se julgavam melhores e mais merecedoras que as outras.
Não sou de ferro.
Cansei, estou cansada. 
Minhas forças não são as mesmas de antes.
Estou me afastando e me libertando aos poucos e isso é bom.
Pena? Culpa? Já tive/senti demais, mas quem sentiu de mim?
Ninguém é tão frágil que não possa andar com as próprias pernas. Se vira malandro, tu não é quadrado!
Eu me viro com andador, bengala e cadeira de rodas quando a espera é grande e estou mais ou menos bem, obrigada.
É preciso mudar, deixar, barrar a pena e a culpa que são bem traiçoeiras e dramáticas e nos impedem de ver quem e o que nos fazem mal.
Mas por outro lado é preciso ter força, coragem, garra, gana para lutar e viver.
Têm dias que bate um desânimo danado. Vem uma tristeza, um sentir-se só em meio à multidão, um sentir-se um nada, um estranho em meio a desconhecidos familiares.
Meio louco tudo isso.
Parece que tudo pesa, tudo é mais complicado e difícil quando não estamos bem de saúde.
Com saúde fica tudo mais fácil; não incomodamos ninguém, não somos evitados nem esquecidos.
Com saúde cuidamos de nós mesmos e do que é nosso.
Mas têm momentos que encontro certas injustiças por parte dos saudáveis, dos normais e magnânimos para com os doentes e imperfeitos.
Nenhum doente quer que seu fardo seja carregado pelo outro, ele quer apenas companhia em sua jornada, respeito, carinho e compreensão, por mais errado ou louco que esteja ou seja.
Críticas, julgamentos e cobranças não vão melhorar o bem estar do doente, só irão fazê-lo sentir-se pior ainda.
Eu pensava que um dia ficaria livre, poderia de me dedicar ao meu trabalho e à minha educação, às minhas coisas, aos meus gatos, livros, plantas e, resumindo: à minha vida simples, básica, íntegra e honesta.
Mas não.
Deus ou Vida ou ambos juntos decidiram me sacanear e quando pensava eu em simplesmente viver minha vida por mim mesma, lá vem uma doença estranha e me toma tudo.
Eu até havia pensado em fazer mudanças no visual. Olha só!
Mas a Acromegalia já o fez. Adiantou-se e fez mudanças para pior, claro.
Agora com corpo e carão acromegálicos o peso da vida fica quase insustentável.
Eu disse quase. Estou viva e sou guerreira.
Com dias bons ou ruins, frios ou quentes, solitários ou acompanhados, eu sou guerreira, estou habituada a lutar.
Acho que nasci para isso, para lutar.
Têm dias que dói bastante, outros menos... mas dói.
É a vida.

                 
                                         






segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Afastamento

                             


Fui à escola para levar o laudo médico pedindo meu afastamento. 
Cumprimentei uma colega que me viu entrar, mas fingiu o contrário. A cumprimentei e ela respondeu secamente.
Assim como alguns, ela deve ter pensado que fui à escola só para levar mais um laudo, só para ficar sem trabalhar apenas por não querer trabalhar. Como se eu fosse uma preguiçosa. Não sou. 
Senti-me meio mal, chateada, triste.
Essa colega vê e sabe de minha condição. Até cego vê, como diria papai, que ando com dificuldade, que tenho dores, que não estou bem.
A Acromegalia está me devorando, me entrevando, me roubando a saúde, a liberdade, a vida.
Às vezes me pergunto: Por que Deus e/ou a Vida estão me sacaneando?
Faz tempo que não consigo dormir direito e daria um doce se conseguisse dormir tranquilamente, sem dores.
Queria me deitar, dormir e me levantar sem dores e sem entrevamento.
Sem ser acordada de madrugada por um "soco" na nuca e ter que tomar, de novo, os remédios anti-hipertensivos.
Por que eu?!
Sou boa pessoa, não desejo mal a quase ninguém, batalhei tanto pela minha formação e adoro o que faço, mas fiz por tão pouco tempo.
Será que não estou preparada para ser feliz?
Quando éramos crianças e ríamos muito com nossas artes e brincadeiras ouvíamos sempre de nossos pais e das pessoas mais velhas: "Esse riso todo vai acabar em choro!".
Papai não gostava quando ríamos muito e nos perguntava criticando: "Pra que tanta risadage (gargalhar, rir)?"
Tem até um maldito de um ditado popular besta demais que diz que muito riso, ou muita alegria, é sinal de choro ou tristeza.
Então é proibido sorrir, gargalhar, ter momentos de alegria e até de felicidade?!
Esses mitos tolos têm origem e influência católicas e ouvia muito nas missas que ia com minha avó que só alcançarão os reinos dos céus aqueles que sofrem e choram. Que é preciso sofrer muito nessa vida para ser feliz na outra e absurdos desse tipo.
Mas quem disse que não se pode ser feliz nessa vida? Quem garante que vou entrar no reino dos céus? Alguém me perguntou se quero outra vida?!
Não pretendo desrespeitar nada nem ninguém, mas estou num momento delicado e não aceito ou admito que é preciso sofrer para ser feliz.
Já não basta tudo o que já passei até aqui?!
Quero ser feliz, quero ter saúde e quando chegar lá na outra vida, quero ser feliz e ter saúde também!
Sem Acromegalia. Sem dores e entrevamento. Sem gente preconceituosa e ignorante.
Assim seja.
"... Não dá pra ser feliz... Não dá pra ser feliz..."




                                       

domingo, 9 de junho de 2013

Partir

                           

Não queria falar sobre o fim da vida, mas sinto-me meio triste e ando tendo sonhos com pessoas que já se foram e com outras que estão prestes a ir. Como sei disso? Não sei, apenas sinto.
Desculpem o tema.
É o destino de todos, dizem uns. Para morrer basta estar vivo, dizem outros. Para todo mundo vai chegar sua hora. É preciso ir para dar lugar aos que virão...
E as frases feitas continuam. 
Às vezes acho que é melhor usar uma dessas frases a ficar em silêncio. Outras vezes, na maioria das vezes, é melhor nada dizer.
Honestamente, não sei o que é "certo ou errado" nessas situações, se é que há certo ou errado nessas situações.
Sempre tive uma grande proximidade com a Morte e algumas vezes já me sentei em um banco gélido em uma praça gélida cercada por árvores gélidas. Tudo era tranquilo por ali, apenas frio demais.
Era comum, acredito que ainda seja, no Nordeste a morte de crianças menores de dois anos de idade. A fome, a seca e a miséria se encarregavam disso. Segundo a tradição local, todas a crianças menores de sete anos eram consideradas anjos inocentes e por isso, seus caixões deveriam ser carregados também por crianças menores de sete anos.
Vivi em Pernambuco até meus seis anos, completados no caminho para São Paulo, e era sempre chamada para fazer parte do grupo que carregaria o pequeno caixão até o cemitério. Era tão comum e eu era tão requisitada que achava aquilo normal. Crianças magras, braços e pernas finas, cabeça e barriga grandes, olhos fundos... Era questão de tempo.
Caminhávamos pelas ruas de terra vermelha e sentia o calor do sol em minha pele, o cheiro forte de terra trazido pelos ventos que só brincavam de anunciar a chuva e nos deixando a todos tão esperançosos.
Carregávamos o pequeno caixão que deveria ser sempre branco e o pequeno defunto parecia dormir tão tranquilamente. Que Deus receba essa pequena criatura que só sofreu em tão curta vida.
Quando acabava o cerimonial e voltávamos para casa, minha avó Mãevelha nos mandava tirar as roupas e os sapatos e correr para o banho. Ela dizia que "prestava não" entrar em casa após voltar do campo santo, como ela chamava o cemitério.
Tenho sonhado muito com mamãe, com meu irmão Naldão e com um conhecido já idoso, mas que recusa-se a aceitar que é idoso. Acha que ainda é o belo rapaz de forte sotaque europeu com seus cabelos negros e belos olhos azuis. Mas o tempo passou e ele não viu isso, ou não quis.
Em quase todos os sonhos com meu irmão obeso eu peço a mamãe que fale com ele e que o faça ver que ainda é jovem e não precisa se devorar junto com a comida. Mas mamãe disse que meu irmão "não tem jeito não". Deus.
Sonhei esses dias com seu enorme corpo deitado sobre uma mesa de pedra e ao chegar, sabia de alguma forma que ele estava morto. Eu ficava tranquila e achava que agora ele encontraria a paz, o conforto, a força e a coragem que nunca teve em vida. Mamãe era o leme, o porto seguro dele e de todos nós. Papai também.
Mas papai e mamãe partiram e nos deixaram já adultos e com nossas famílias formadas, mas quando pai e mãe vão embora não tem ninguém adulto ou jovem demais, somos todos crianças e achamos que nossos pais são para sempre, deveriam ser para sempre.
Deus, meu Deus dai-nos força, dai-nos paz. Amém.
Desculpem esse texto triste.


                                     
                               

sexta-feira, 22 de março de 2013

Fortuna



Sempre ouvimos dizer, desde criança, que Deus sabe o que vai acontecer com as nossas vidas mesmo antes de nascermos.
Já para outras correntes religiosas, nós fazemos nossa vida e a modificamos o quanto bem entendermos, mas fiquemos atentos ao que fazemos de bom ou ruim, pois há a Lei do Retorno.
A vida faz as contas e no fim vem nos cobrar por aquilo que fazemos aos outros e a nós mesmos.
Deus, Vida, Destino, Fortuna...
Fortuna aqui não trata-se de valores materiais, dinheiro ou riqueza, mas trata-se na verdade do Destino.
Fortuna era a deusa romana da esperança e da sorte, seja ela boa ou má. A deusa carregava uma cornucópia e um timão (Vai Corinthians!), que simbolizam a distribuição de bens e o destino dos homens.
Fortuna tinha os olhos vendados, assim como a Justiça, para que não cometesse erros ou injustiças ao distribuir suas bençãos.
Deve ser por isso que uns têm tanto e outros tão pouco; sejam em termos de bens materiais, de beleza, caráter, sorte, inteligência...
Escrevo sobre o tema porque estava a conversar a sós com meus botões, e com meus gatos, e me perguntava sobre coisas que ainda não estamos prontos para entender. Ou a vida é tão complicada e a complicamos mais ainda que nos impossibilita ver e fazer o mais simples. Sei lá.
Se temos o tal do Livre Arbítrio, então isso quer dizer que temos o controle de nossas vidas e podemos vivê-la como a planejamos. Será?
Mas as coisas nem tão boas também parecem ter o tal do arbítrio e escolhem atrapalhar aquilo porque e por quem lutamos tanto e queremos tanto.
A vida é feita de escolhas; não escolhi ser pobre.
Não escolhi ser acromegálica. Não escolhi ter uma doença estúpida que me rouba aos poucos a vida e a saúde.
Têm tantas coisas que não escolhi ter ou viver, mas que parece que foram escolhidas para mim sem respeitarem meu Livre Arbítrio.
Acho que a vida é simplesmente arbitrária.
Sei lá.
Mexia na minha papelada na faculdade e encontrei textos das aulas de Língua e Literatura Latinas. Adorava as aulas de Latim.
Encontrei A Cantata Carmina Burana, musicada pelo compositor alemão Carl Orff.
A cantata fala sobre a Roda da Fortuna, que está sempre girando e trazendo boa e má sorte; como a vida humana, que está sempre mudando e tem dias bons e outros nem tanto.
Sei lá o que me deu hoje. Acho que estou ficando velha.


Carmina Burana - O Fortuna, Imperatrix Mundi

Em LatimEm Português
O Fortuna,Ó Sorte,
Velut LunaÉs como a Lua
Statu variabilis,Mutável,
Semper crescisSempre aumentas
Aut decrescis;Ou diminuis;
Vita detestabilisA detestável vida
Nunc obduratOra oprime
Et tunc curatE ora cura
Ludo mentis aciem,Para brincar com a mente;
Egestatem,Miséria,
PotestatemPoder,
Dissolvit ut glaciem.Ela os funde como gelo.
 
Sors immanisSorte imensa
Et inanis,E vazia,
Rota tu volubilisTu, roda volúvel
Status malus,És má,
Vana salusVã é a felicidade
Semper dissolubilis,Sempre dissolúvel,
ObumbrataNebulosa
Et velataE velada
Michi quoque niteris;Também a mim contagias;
Nunc per ludumAgora por brincadeira
Dorsum nudumO dorso nu
Fero tui sceleris.Entrego à tua perversidade.
 
Sors salutisA sorte na saúde
Et virtutisE virtude
Michi nunc contrariaAgora me é contrária.
Est affectus
Et defectusE tira
Semper in angaria.Mantendo sempre escravizado
Hac in horaNesta hora
Sine moraSem demora
Corde pulsum tangite;Tange a corda vibrante;
Quod per sortemPorque a sorte
Sternit fortem,Abate o forte,
Mecum omnes plangite!Chorai todos comigo!
  • *** Fortuna é um falso cognato em latim para o português. Fortuna=Sorte, Fortunae=Riqueza Material.