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terça-feira, 23 de julho de 2013

Muito, Muito Frio

                            


Faz muito frio hoje em São Paulo e amanhã será mais frio ainda; temperatura máxima de apenas dez graus e mínima de cinco. É frio pra caramba!
A gataiada está toda encolhidinha e enfiada debaixo dos cobertores. Ébano, Cássio e Boreal disputam meu colo quentinho. 
Fiquei pensando comigo mesma e perguntei aos meus gatos friorentos: "Mesmo com todo esse pelo e a gordurinha espalhada pelo corpinho gordo, vocês ainda sentem frio?".
Ninguém respondeu. 
Ainda bem.
Sempre lembro do tio Manoel Soares, irmão de papai, que sempre reclamava do frio paulistano: "Dedé? Que terra de corno é essa para fazer frio?! Oxe! Na minha terra não tem disso não?"
Acho que vou fazer um bolinho para aquecer a casa.
Como diria minha avó Mãevelha: "Está frio por demais! Assim a gente vira picoléu!"


                                        



quinta-feira, 7 de junho de 2012

Praia de Paulista

                                            


Feriado de Corpus Christi com muita chuva e frio.
Muitos acidentes nas estradas também, infelizmente.
Imaginei que os supermercados, lojas, shoppings e afins estariam vazios com a saída dos paulistanos para o feriado, mas não.
Já disseram que shopping é a praia de paulista, antes era o aeroporto. Os paulistanos iam até lá só para ver avião subindo e descendo.
Lembro que fomos uma vez ao aeroporto num domingo frio e chuvoso; fomos com o tio Manoel Gomes, irmão de mamãe. O tio tinha uma Brasília cor de creme e nos levou ao aeroporto; fomos eu, Mãevelha, Rogério e Rosi ainda pequena. O tio levou uma das filhas.
Passamos pela Avenina Miruna e eu lembrei do Zé Betio que anunciava no seu programa de rádio para mandar as cartas para o endereço mencionado. 
Olhava os prédios e procurava os números e as placas de rua: Avenida Miruna, 713.
Bom...
Fui ao Extra da Penha e lá chegando vi o vai e vem de carros procurando vagas para estacionar. Havia as vagas especiais para idosos e deficientes físicos e vários carros estacionados lá, mas em nenhum deles havia o Cartão Defis colocado no painel próximo ao vidro, como manda a lei.
Entrei no hipermercado e comprei ração seca, ração molhada, café, iogurte e algumas frutas. As filas para o caixa eram enormes e o pessoal dos caixas eram lerdos.
Finalmente chega minha vez, pago as compras e saio. Mais gente chegando e ouvi alguns comentando sobre o fato de o hipermercado estar tão cheio em pleno feriado, mas é exatamente isso: aqueles paulistanos que não viajam nos feriados prolongados vão aos hipermercados, lojas, shoppings... Levam a família e fazem daquilo um evento e o que se vê são carrinhos cheios, locutor falando pelos cotovelos para anunciar promoções imperdíveis, pessoas aguardando e reclamando nas filas, crianças dentro dos carrinhos de compra querendo que os pais comprem tudo o que veem pela frente, mesmo que não saibam para que serve. É o poder do consumismo.
Mas só fui ao hipermercado para comprar ração para meus gatos enjoados, as lojinhas e Pet Centers do bairro estavam fechadas e o jeito foi encarar a praia dos paulistas, meu.
É isso.




                                         
                                      

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Nome de Família

                                             


Papai e mamãe tinham muito orgulho do nome de suas famílias.
Papai orgulhava-se de ser filho de Zezé Soares, meu avô José, e mamãe tinha orgulho de ser filha de João Gomes, meu Paipreto, que era mais conhecido como João Xicó.
Quando discutiam sempre falavam mal da família um do outro. 
Eu nunca soube direito o que os nomes das famílias tinham a ver com a briga de ambos, mas sei que estavam lá, sempre.
Mamãe provocava papai: "Tu só fosse homem depois que se casasse comigo, filha de João Xicó!".
Papai respondia: "E tu e tua família só viraram gente depois que tu se casou comigo, filho de Zezé Soares!".
E antes de se casar e virar gente, eram o que? Bicho?
A guerra entre os representantes dos Soares & Gomes da Silva ia longe quando tio Manoel Soares, irmão de papai, resolve intervir. Tio Manoel tenta pacificar o conflito, mas notadamente puxando a brasa para a sardinha dos Soares.
Em dado momento, tio Manoel acha que papai não está reagindo e defendendo suficientemente o sagrado nome da família; cruza os braços sobre o peito e manda: "O Dedé, e a Família Soares? Como é que fica?"
Papai nervoso, responde: "Fica na m..., Mané!".
O riso foi geral.
E a quem interessar possa, as nobres e distintas Família Soares & Gomes da Silva estão bem, obrigado.


                                    

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bala de Mel

                                              


Estávamos a pouco tempo em São Paulo e tínhamos nos mudado para o bairro onde moramos até hoje. Quando aqui chegamos, moramos por um mês num bairro da Penha, na casa do tio Manoel Gomes e nosso primo Pedro "Sabe como é o negócio" conseguira alugar um pequeno barraquinho próximo à sua casa.
O primo sempre falava a frase "Sabe como é o negócio" e a usava para tudo o que fosse assunto. Ele não é muito normal, é meio fraco das ideias.
Uma prima nossa, a Ivete, que ri de tudo e por tudo, já morava no bairro há algum tempo e pede ao seu marido, o finado Antonio Roque, para nos mostrar os arredores.
Mamãe e Mãevelha cuidam da limpeza do pequeno barraco enquanto papai, o tio Manoel Soares e o primo Pedro cuidam da mudança. Não tinha muito o que trazer; basicamente sacolas e malas com roupas e alguns pertences. A esposa do tio Manoel Gomes nos deu um sofá cama grandão e pesadão de plástico vermelho com minúsculas bolinhas coloridas. Aquilo me lembrava o Universo, as estrelas e as constelações. É, eu sei, eu tinha apenas seis anos, mas também sempre fui meio fraca das ideias. Mal de família.
É que tínhamos outro primo maluquetes mas de inteligência absurda e ele gostava de ir à casa de Paipreto e Mãevelha para estudar e ler seus muitos e adorados livros. Ele gostava da ampla mesa da casa de meus avós e dizia que estudava melhor naquela mesa grande e limpa. Eu também sou assim, nunca consegui estudar e/ou fazer minhas lições de casa se a mesa não estivesse limpa e arrumada. Mania de gente maluquetes.
O primo intelectual, João Cândido, nunca se casou, não teve filhos e preferia a companhia de seus preciosos livros à companhia de pessoas; de certas pessoas, talvez.
Estou achando que isso é mal de família mesmo. Ai Jesus!
João Cândido respondia às perguntas de Paipreto e falava sobre tudo: geografia, História, línguas, astronomia e para toda pergunta o primo tinha uma responda inteligente na ponta da língua.
Eu ouvia as conversas do primo João Cândido com Paipreto e acredito que foi dai também que surgiu meu interesse pelos livros e pelo conhecimento.
Aliás, meu Paipreto sempre dizia: "Minha filha, não tem riqueza maior no mundo do que o conhecimento".
Meu Paipreto.
Bom...
Durante a limpeza do barraco e a mudança dos nossos cacarecos, papai pede a Antonio Roque para ir comprar café e cigarros; não conhecia bem a região e estava ocupado com seus afazeres.
Vou com Antonio Roque ao botequinho e caminho segurando sua mão.
Antonio Roque era negro e alto e eu achava que ele parente do meu bisavô Francisco. 
E eu tenho uma coisa com mãos; adoro pegar, segurar, beijar, buscar força e conforto nas mãos daqueles que gosto. As compridas e fortes mãos de Rafaela, as brancas, finas e delicadas mãos de Maitê, as mãos hábeis ao segurar o lápis de Beatriz, as mãos sempre magrinhas, frágeis e compridas de Maria Julia, as mãos fofinhas e gordinhas de mamãe... Mãos.
Volto para casa com Antonio Roque e ele me mostra o bairro que consiste basicamente de chácaras, ruas de terra e de barro vermelho agora alagadas pelas fortes chuvas de março. São as águas de março fechando o verão é promessa de vida em teu coração - Tom Jobim e Elis Regina. Grandes talentos de nossa música.
Observo o verde das chácaras contrastando com o céu límpido e azul, as nuvens brancas e fofas, a terra vermelha molhada e a correnteza que se formara com as fortes chuvas.
Achei lindo aquele espetáculo da Natureza; aquela profusão de cores e sentidos.
Cheiro de terra molhada, cheiro das verduras frescas e molhadas das chácaras, cheiro do café e do cigarro de papai.
Antonio Roque havia comprado também algumas balas de mel. Para nós, bala era só de revólver e a bala doce era chamada de confeito. 
Lembro-me da embalagem das balas de mel, era um papel amarelo com listras pretas imitando o corpo de uma abelha. Lembro da marca da bala: Kid´s.
A bala era dura e recheada com um líquido que deveria ser mel. Era muito claro e ralo para ser mel, mas tinha gosto de mel. Pronto.
Caminhamos de volta para casa e paro aqui e ali para apreciar as belezas e encantos da Natureza. Antonio Roque espera pacientemente e diz para irmos logo, pois vai escurecer e papai e mamãe já devem estar preocupados com a demora. Não havia iluminação na nossa casa nem na rua, só nas ruas e avenidas principais do bairro. Nosso barraco era iluminado à luz de velas, mas pouco tempo depois foram feitas melhorias no bairro e já podíamos assistir ao Jornal Nacional numa grande, velha e pesada TV dada por tio Manoel Gomes. 
Chegamos finalmente em casa e mamãe pergunta: "E por onde vocês andaram?"
Antonio Roque conta o ocorrido e mamãe diz: "Mas essa minha moleca não jeito mesmo"