quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pogobol

                                            


Trabalhava em meu primeiro emprego e a primeira coisa que comprei foi um brinquedo para Fubá. Ele tinha visto o comercial na televisão e me pediu o brinquedo de nome estranho.
O brinquedo se chamava Pogobol e parecia com o planeta Saturno: uma bola de borracha circundada por um anel plástico.
Comprei o brinquedo e dei a Fubá que ficou encantado com a novidade. Ele brincava o tempo todo e parecia não se cansar nunca, tanto que nem percebeu os calos que fez nos pés e a pele esfolada pela fricção com o brinquedo.
Fubá brincou muito com o Pogobol.

Skate de Bebê

                                                


O skate era o brinquedo da moda e virou febre entre a molecada.
Fubá vê um comercial na TV mostrando um skate grande e com poderosas e potentes rodas que fazem manobras radicais.
Fubá pede a mamãe para comprar o tal skate e ela diz para ele esperar o dia do pagamento.
Chega o bendito dia do pagamento e mamãe vai ao bairro da Penha comprar o tão desejado skate de Fubá.
Ele espera ansioso e nós também.
Algumas horas depois mamãe abre o portão e a vemos entrar com um pacotinho debaixo do braço. Estranhamos e achamos que ela não comprou o skate. O que teria acontecido?
Perguntamos a mamãe: " Mãe, cadê o skate que a senhora foi comprar para o Fubá?"
"Oxe. E vocês não estão vendo o pacote aqui não, é?"
Nos entreolhamos e notamos a decepção de Fubá ao abrir o pacote e encontrar o pequeno skate.
Mamãe estranha nosso desânimo e pergunta: "Mas o que é que tem de errado com esse skate? Não era isso que Fubá queria?"
"Oxe, mãe. E a senhora chama isso de skate? Só se for skate de bebê".


                                              
                                           

Conserto

                                          


Meu irmão Fubá sempre foi muito esperto e ativo; sempre procurando o que fazer. 
Um menino "curioso", como dizia mamãe.
Uma vez apareceu em casa com uma bicicleta velha que havia trocado por um brinquedo com algum amiguinho. Ele consertou e a deixou em boas condições de uso.
Outra vez arrumou um pedaço de madeira, umas borrachas de pneu e rodas e construiu um barulhento carrinho de rolimã.
Fubá adora jogos eletrônicos e ganha um vídeo game, mas só podia jogar até as seis horas da tarde no velho aparelho de TV de nossa avó Mãevelha.  Nossa avó adorava novelas e por isso Fubá só podia jogar até aquele horário estabelecido. Papai não queria que jogasse na TV da sala porque acreditava que isso estragaria a televisão. As "inguinóranças" de papai.
Fubá ia ao quarto de Mãevelha e ligava o vídeo game na velha televisão preto e branco que mal funcionava e funcionava muito mal.
Mãevelha fala para Fubá desligar o jogo e ligar na novela que já vai começar e ele obedece muito a contragosto. 
Mas há um problema, a TV não funciona. Fica tudo escuro, sem som e sem imagem.
Mãevelha fica braba e diz: "Menino danado! O que foi que tu fizesse com minha televisão? Vou perder minha novela que tá tão boa. Minha Nossa Senhora!".
Fubá tenta acalmar nossa noveleira avó e diz que ele mesmo vai consertar a televisão.
Ele abre a TV e começa a mexer. Dali a pouco liga o aparelho que agora tem som, mas não tem imagem. Fubá tenta outra vez e agora a TV tem imagem mas não tem som.
Mãevelha anima-se com o progresso técnico de Fubá e o incentiva a continuar com o conserto: "Avia, meu filho. Cavuca aí pra ver se a televisão volta a funcionar".
Fubá tenta pela terceira vez; agora teria que funcionar. Agora teria que ter som e imagem.
Ele liga a TV e o que acontece é uma explosão seguida por uma fumaça branca que invade o quarto de Mãevelha.
Nossa avó fica brava e dá broncas em Fubá, o neto perigoso e curioso até demais que ainda tenta fazer a velha TV funcionar.
A TV já era, não funciona mais e o jeito foi mamãe ir às Casas Bahia e comprar um aparelho novo.
A TV foi paga em suaves prestações.


                                               



Parabéns

Entre os muitos nordestinos que vinham passar uma temporada em nossa casa até arrumarem o próprio canto, havia um rapaz de pernas finas, bucho grande, pele e cabelos escuros e olhos puxados. A forma física desse simpático rapaz lembrava muito a do desenho animado Bob Esponja Calça Quadrada.
Esse interessante rapaz trabalhava em uma transportadora com outros colegas nordestinos que já estavam em São Paulo há mais tempo.
Um certo dia, quando chegam ao trabalho, recebem a triste notícia de que o dono da transportadora havia falecido.  Não há expediente e os funcionários vão ao velório para prestar as últimas homenagens ao distinto patrão.
Entre os familiares presentes está a filha do falecido, uma moça jovem e bonita que chora desconsoladamente.
O distinto rapaz mostra-se comovido com a situação e querendo ser cavalheiro, aproxima-se da moça para dar-lhe os pêsames: "Sinto muito pela morte de seu pai...Meus parabéns".
Papai ao saber do causo, disse: "Nesse caso é parabéns mesmo, pois a moça vai ficar rica com a herança deixada pelo pai, né não?".


                                             

Carta

"... Ao pegar nesse lápis e escrever essas mal traçadas linhas é para saber notícias suas e dar-lhes as minhas.
Espero que esta ao chegar em tuas mãos te encontre em paz e com saúde.
Vire a folha mas não vire o coração.
Lembranças a todos..."
Começavam e terminavam do mesmo jeito todas as cartas escritas a parentes e amigos dos nordestinos que moravam aqui em São Paulo. Era um padrão de escrita estabelecido e se mudássemos alguma coisa, diziam que a carta não "prestava" e tínhamos que reiniciar a escrita.
Era uma tradição literária.


                                        

Um ano sim e oito não

                                            


Paipreto contava um causo assim:
Jesus Cristo e São Pedro caminhavam juntos pelo mundo afora. Quando paravam em algum lugar, Pedro tomava nota do que Jesus dizia.
Andavam pelo Nordeste e Jesus parou para olhar melhor aquela região castigada pela seca e decide fazer algumas modificações.
Jesus, com uma mão na cintura e a outra coçando a longa barba, chama Pedro e diz: " Pedro, anota aí: No Nordeste chove um ano sim e outro não".
São Pedro, distraído pela beleza de uma cabrocha que passava, não ouviu direito o que Jesus disse e escreveu assim em seu livro de anotações: "No Nordeste chove um ano sim e oito não".


                                                       


                                            

Frutas de Rafaela

                                                


Minha sobrinha Rafaela, filha de meu irmão Fubá, completa 4 meses hoje e já está tomando suquinhos de frutas.
Segundo Preta, a mãe de Rafaela, a pequena já tem suas preferências; ela gosta mais é de melancia.
E para que não falte a fruta favorita de Rafaela, Fubá comprou logo duas melancias para a menina.
Melhor garantir, né?
Vai que de repente acabam todas as melancias do Ceasa!


                                                 

Abafa Peido

                                           


É um cobertor fininho, feito com materiais simples.                                             
As cores também são simples, geralmente cinzentos com mesclas azuis ou vermelhas e trazem duas listras largas nas cores cinza e azul ou cinza e vermelha.
São cobertores de textura fina e que não protegem muito contra o frio da terra da garoa.
Esse cobertor simples era peça obrigatória no guarda roupa dos nordestinos recém chegados a São Paulo. 
Sempre ouviam falar do frio paulistano e pensavam que o abafa peido seria suficiente para aquecê-los, mas mamãe os alertava: "Meu filho, e lhe aconselho a comprar um cobertor mais grosso, viu? Pois aqui em São Paulo faz muito frio".
Achavam que mamãe estava exagerando,
Chegavam os meses de junho e julho e com eles chegava o inverno. Os teimosos nordestinos da bela terra do frevo iriam sentir na pele o frio da bela terra da garoa.
Pegavam seus abafa peido e se enrolavam da cabeça aos pés; pareciam salsichas cinzentas.
Outros mais friorentos encolhiam-se em posição fetal tentando aproveitar o máximo do pouco calor do cobertor. 
Mamãe sabia por experiência própria que o abafa peido não era páreo para o inverno paulistano, pois trouxera consigo um velho cobertor que fora de Paipreto e agora era do meu irmão Rogério.
Mamãe tinha dificuldades em convencer meu irmão a dormir com outro cobertor; o abafa peido era a lembrança, o carinho e a presença de nosso avô.
Não sabemos de onde nem como surgiu o nome abafa peido, sabemos apenas que o cobertorzinho cinzento é bem aconchegante.
Fiquei sabendo que o pessoal de Goiânia chama o abafa peido de "esquenta negrinho".


                                            

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A mala era um saco e o cadeado era um nó

                                            


Mamãe usava muito essa frase, que é letra de uma música de Luiz Gonzaga, quando ia contar as histórias e os causos de pessoas que deixavam o Nordeste em busca de uma vida melhor em São Paulo.
Era uma referência à simplicidade dos pertences que os retirantes nordestinos traziam consigo. Não havia muito o que trazer, o pouco que tinham fora vendido para poder conseguir algum dinheiro e comprar a passagem de ônibus para São Paulo e deixar algum com a família que ficaria a aguardar esperançosa.
Às vezes viajam de "pau de arara" e assim economizavam o pouco que tinham.
A bagagem desses humildes retirantes consistia numa "pareia" (par) de roupas, num par de alpargatas (sandálias que eram chamadas de "oprecatas"), uma toalha de banho e um cobertor muito fininho e simples que era conhecido pelo singelo e sugestivo nome de "abafa peido".
Não havia necessidade de mala, chaves e cadeados. Nada disso.
Porque a mala era um saco e o cadeado era um nó.


Pau de Arara
                                          

São Paulo

Avenida Paulista, a mais paulista das avenidas
                                        


Nos preparávamos para viajar a São Paulo.
Meu avô Paipreto falecera e não havia mais sentido em continuar sofrendo naquela seca; a sobrevivência estava cada vez mais difícil.
Papai estava há alguns meses em São Paulo e tinha um emprego e esperança de dias melhores para a família na capital paulistana.
Mamãe organizava tudo aos poucos.
Embarcamos no ônibus. Mamãe, Mãevelha, meus irmãos Rogério e Naldão e eu. 
Foram três longos dias de viagem. Naldão era muito pequeno, frágil e doente e passou mal durante todo o tempo.
Mamãe e Mãevelha não viam a hora de chegar, o cansaço consumia as poucas energias que tinham. 
Eu ouvia curiosa a conversa delas e pensava comigo mesma: "Como será esse São Paulo?".
O ônibus vem pela Via Dutra; olho pela janela e me encanto com os altos eucaliptos na beira da estrada. 
Chove muito, o céu cinza. Os ventos balançando as árvores.
Me admiro com o intenso trânsito em estrada tão estreita. São carros, ônibus, caminhões e gente que arrisca a vida atravessando apressadamente aquelas perigosas pistas.
O ônibus deixa a Via Dutra e segue em direção à região central de São Paulo, onde ficava a antiga rodoviária. Mais carros, mais gente, mais chuva.
Pessoas caminhando apressadamente. São Paulo não para.
Prédios altos, automóveis. São Paulo cresce.
Chuva, céu cinza, vento frio. São Paulo, terra da garoa.
Descemos do ônibus e nossa prima Ivone já nos esperava. 
Mamãe, Mãevelha e a prima ocupam-se com as bagagens.
Na calçada, em meus pequenos seis anos completados durante a viagem, olho admirada e encantada aquela São Paulo tão grande, com sua gente apressada, seus automóveis velozes, seus prédios altos, seu céu cinza, sua chuva, sua garoa.
Adoro São Paulo quando chove, quando fria, quando cinza. 
Meu Santo São Paulo.
Era março, mês de meu aniversário, mês das chuvas, mês das águas.
"...São as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no teu coração".
Em São Paulo mamãe e papai trabalharam tanto por uma vida melhor.
Em São Paulo nasceram mais três filhos para completar o sexteto de Dona Marlene e Seu José.
Em São Paulo chegamos, nascemos, crescemos, multiplicamos.
São Paulo de oportunidades, de portas abertas.
São Paulo de tantas culturas, de tanta gente diferente que luta por coisas iguais.
São Paulo de pau e pedra.
São Paulo de pedra e cal.
São Paulo fazendo a ponte do progresso nacional
Deus abençoe esse meu Santo São Paulo de mamãe e de todos nós.
É nóis!


Antiga Rodoviária de São Paulo (Bairro da Luz, região central)






                                            

Consultório

Recebi ligação do consultório do neurocirurgião, o Dr. Ricardo. Ele quer que eu vá ao seu consultório para conversarmos. Até segunda ordem, devo me internar amanhã, dia 26/01.
Mas ainda não foi confirmado e não estranharei se o convênio encontrar algum problema/desculpa que impossibilite minha internação e cirurgia.
É estranho e eu deveria estar acostumada, mas toda vez que se aproxima minha ida para o hospital eu fico bastante triste. Há outros fatores que me preocupam e entristecem no momento... também.
Mas como dizia minha titânica mãe: "Amanhã é outro dia".


                                                  

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Amor Animal

                                           


Desde pequena tenho adoração por animais.
Acho que se eu fosse veterinária não devolveria os bichos dos clientes, ficaria com todos para mim.
Tenho "apenas" seis gatos e tenho amor incondicional por eles e eles por mim. Acredito.
E fico feliz em saber/ver/conhecer pessoas que compartilham esse amor animal comigo. 
Conversava com colegas na escola e um deles deixou de viajar para poder cuidar do cachorrinho que foi atacado por um Pit Bull. Há leis dizendo que determinadas raças de cães só podem sair à rua usando focinheira e enforcadeira, mas o animal da história são os próprios donos.
São rapazes marombados e cheios de gororoba artificial para adquirir um corpo artificial.  Usam os cães para se imporem, mas por trás daquela massa muscular tem uma pessoa meiga e sensível.
Bom...
A outra professora disse que a mãe dela tem 6 cachorros e 11 gatos e disse também que pretendia viajar em férias, mas o marido não quis porque não queria deixar a gata deles sozinha em casa.
O irmão de uma colega de faculdade também compartilha do mesmo amor animal que eu e tantos outros temos; toda vez que ele vai ao Pet Shop para comprar ração para seus gatos, volta de lá com mais um. São nove, por enquanto.
Assisti esses dias ao programa do jornalista Marcelo Rezende e o tema da reportagem era fogo e queimadura. Foram mostradas imagens de animais queimados por "brincadeira" ou por simples crueldade mesmo. 
Repito: Não precisa amar os animais, mas deve-se respeitá-los. 


                                             

Teorias, Descobertas & Soluções

                                             


Tive um dia cheio hoje; escola e sobrinhos.
Alguns dos sobrinhos, claro. Meu pequeno possante não caberia os dez sobrinhos e isso sem contar que a décima primeira está a caminho. Graças a Deus.
Fui à escola de manhã para finalizar a atribuição de aulas/2012 e depois fui à casa de minha irmã Rosi para pegar Maria Julia e Beatriz para irmos ao Pet Center.
Ambas se encantaram com o aquário, as aves, os roedores, os cães e os gatos. 
As aves são lindas, se eu pudesse compraria uma de cada!
Os coelhos e os porquinhos da Índia são fofinhos e até mesmo os ratos são bonitinhos, apesar de sua longa e pelada cauda.
Maria Julia queria que eu comprasse um rato e um peixe e Beatriz queria um coelho.
Comprei apenas ração para meus adoráveis felinos.
Vou começar a jogar na Mega Sena...
Bom...
Voltamos para casa e pegamos um trânsito terrível na Marginal Tietê e Maria Julia reclama da demora. Beatriz fala para a prima reclamona: "Julia, você fala demais. Oxe! A tia Rejane sabe se virar muito bem no trânsito, não é tia Rejane?".
Depois do pequeno entrevero entre as primas lindas e terríveis, o assunto muda para festa de aniversário. Eu brinco e digo que já escolhi o tema para minha festa e elas querem saber qual. Eu digo: "A Bela e a Fera".
Elas riem e dizem: "Mas você já está velha para fazer esse tipo de festa, tia Rejane".
Maria Julia por sua vez faz uma descoberta interessante e surpreendente: "Tia Rejane, sabe o que eu descobri? Que eu faço aniversário no mesmo dia que eu nasci! Não é maluco isso? Muito legal, né tia Rejane?".
Voltamos para casa e vamos dar a nova ração para os gatos; ouvimos a campainha e atendo a um jovem rapaz que veio pedir ajuda em dinheiro ou alimento. Beatriz pergunta porque o moço veio pedir ajudar e eu explico porquê. Ela sugere uma solução prática e simples: "Ué, tia Rejane. Se ele está sem dinheiro, é só jogar na Mega Sena!".