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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sábias Senhoras

                                 Resultado de imagem para árvores frutíferas pitanga



Tarde bonita e ensolarada, quintal cinza e verde.
Acho bonito o verde que invade o cimento cinza e quebrado do quintal.
Plantas crescendo, se recuperando e ficando lindas.
Gosto dos fins de tarde.
As horas da manhã passam muito rápido e é uma correria só; lembro de mamãe se desdobrando para lavar as roupas e aproveitar o sol e preparando a comida para a turma que viria ao meio dia almoçar.
A tarde vinha...
Descíamos para o intervalo e enquanto os colegas ficavam na imensa fila para tomar o lanche, eu observava a luz do sol sobre as árvores da escola, a poeira que levantava quando os carros passavam, o céu azul...
Eu achava tão lindo.
Gostava de ir à casa da tia Anália com mamãe, sentávamos lá fora, tomávamos café, colhíamos pitangas, cebolinha verde e coentro da pequena horta. Voltávamos para casa, caminhávamos pelas rua de terra, mamãe parava para cumprimentar algum conhecido e dizer que ia para casa para colher as roupas do varal; a chuva já estava lá no Corinthians.
Todo mundo já para o banho, antes que o seu pai chegue e comece a reclamar; Deus nos livre!
Era tudo tão simples, pobrezinho mesmo, mas tínhamos sonhos e esperança tão singelos. 
Já escrevi postagem semelhante, eu sei, mas as boas memórias fazem bem à essa minha alma angustiada, triste e inquieta.
Sonhei indo ao médico, o neurocirurgião, e levava exames para ele ver. Eu caminhava por ruas bonitas e arborizadas, passava por uma praça bem grande e com pés de manga, pinha e jaca carregadinhos. As frutas ainda eram novinhas e estavam verdes e eu dizia para mim mesma que chamaria meu irmão Rogério para me ajudar a colher as frutas quando estivessem maduras.
Eu andava com pressa, mas reduzia o passo quando caminhava por entre as árvores; era tão bom apreciar aquela beleza verde.
As árvores pareciam me cercar, me proteger, me dar forças e cuidar de mim. Eram velhas e sábias senhoras.
Queria ter um pedaço de chão para cuidar e deixá-lo coberto de verde e outras cores.
É isso.


                                   Resultado de imagem para árvores e flores



                                        


                                   

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Assim Assim

                                

Estava pensando de mim para comigo mesma, será que só eu sou assim ou tem mais gente igual?
Que pensa igual, que sente igual...
Folheava meus preciosos livros e encontro respostas nas palavras de Kafka, Fernando Pessoa, Goethe, Nietzsche...
Os medos, angústias, a solidão, o sentir-se só em meio à multidão, o sentir-se esquecido, abandonado por aqueles para quem um dia fomos muito úteis.
Não importam as épocas, somos todos humanos. E com nossa humanidade carregamos nosso preconceito, medos, temores, tacanheza, crueldade, falsidade; carregamos coisas boas e ruins.
Sei lá, ando meio assim assim ultimamente, seja lá o que isso significa.
Tive um manhã tranquila, graças a Deus. Sem campainha, sem telefone, sem barulho, sem encheção de saco, sem música dos vizinhos. 
Os gatos espalhados pela casa, Aurora e Branca deitadas ao meu lado.
Paz.
Ontem tive um dia estressado. 








sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Cama de gato

Como dizia papai: "Tô legal não".
Tem esse peso sobre meus ombros, essa angústia que aperta dentro do peito.
Vi uma piadinha assim: "Se você sente um vazio interior, vá comer que é fome".
O povo que faz piada com tudo!
Eu ia escrever mais, mas estou muito cansada, desanimada.
Como dizia mamãe: "Amanhã é outro dia. E nada como uma noite após a outra".
Vou-me. 
A gataiada me aguarda ansiosamente.
Vou para minha cama de gato.

Ébano Nêgo Lindo
                                       

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Forte

                                             

Fiz mais exames e farei mais amanhã.
Fui aos consultórios do neurocirurgião, gastroenterologista e ortopedista.
O bicho pegando.
Há exatamente um ano comecei a ter problemas nos ossos e juntas: artrite, artrose, osteoartrite sistêmica (pelo corpo todo).
Segundo os médicos, o "normal" seria tudo isso iniciar agora, nos meus quarenta e cinco anos, e progredir lentamente e lá pelos sessenta ou setenta anos começar de fato a apresentar os sintomas mais graves. Mas tudo foi e está sendo precoce e muito rápido e isso é devido à minha doença de base, a Acromegalia.
Em maio do ano passado fui ao ortopedista com uma dor no pé esquerdo e desde então tenho retornado para mais exames, remédios, injeções no joelho e diagnósticos desagradáveis.
Estou meio chateada.
Estou me entrevando. Está difícil subir escadas sem apoio, sem corrimão. Está difícil levantar quando fico algum tempo sentada e/ou dirigindo, parece que tem um peso enorme puxando meu corpo e minhas pernas para baixo. Uso minha bengala e isso me ajuda a ter alguma estabilidade; tenho medo de cair, de ser empurrada por pessoas apressadas nessa e dessa Pauliceia Desvairada.
Relatei ao neurocirurgião meus problemas ósseos e o que disse e vem dizendo o ortopedista, e ele, o neuro, disse que essa evolução rápida é devido ao tumor que está em atividade. Ele pegou uma folha de papel e fez um desenho, simbolizando meu tumor e a área em que está. Ele disse que a Radiocirurgia feita em setembro de 2010 ainda faz efeito mas que se os exames de sangue mostrarem um número alto do GH (Growth Hormone - Hormônio do Crescimento) há a possibilidade de um novo procedimento, tanto radiológico quanto cirúrgico. Tudo depende da atividade e do tamanho do tumor e rezemos para que ele não cresça e não ultrapasse a barreira de segurança imposta pela radiação e pelo Sandostatin - LAR. Aliás, vou tomar mais uma dose na semana que vem.
Saí do consultório muito triste e até derramei umas lágrimas enquanto seguia pela Avenida Vinte e Três de Maio sempre congestionada, graças a Deus.
Mas eu disse ao neurocirurgião que o tumor não vai crescer e que faço uma nova Radiocirurgia numa boa, mas cirurgia convencional não faço de jeito maneira, jeito qualidade!
Tenho medo, pavor, angústia. 
Lembrar que fiquei em coma, lembrar do que vi e pelo o que passei no coma. 
Não, pelo amor de Deus, não!
Quero isso não.
Ainda tentei brincar para afastar a angústia: "Faço Radiocirurgia, DVDcirurgia, CDcirurgia, mas cirurgia convencional não!"
A gastroenterologista pediu vários exames: ultrassom de abdome, endoscopia, colonoscopia e biópsia caso necessário. Pediu também exames de sangue e de intolerância à lactose. Meu estômago tem doído muito nos últimos meses. Dor mesmo! Parece que tem um bicho se contorcendo enquanto me devora por dentro; é essa a sensação.
A Acromegalia piora o que já é ruim e além dos problemas ósseos também afeta estômago e a região intestinal (pólipos). Eu sempre tive uma péssima digestão e tive uma forte intolerância à lactose quando criança. 
A Acromegalia não se contenta em ficar só no tumor localizado lá num cantinho do cérebro, não. A Acromegalia estraga tudo, piora o que é ruim, intensifica problemas existentes... Doença do cacete!
Não, não bastavam as mazelas internas e as mudanças externas que deixam os ignorantes me olhando como se eu fosse de outro planeta, a Acromegalia quer mais.
Sou forte, sou guerreira e a Acromegalia não vai tirar essa força de mim. Não vai mesmo!
Já comi toucinho com mais cabelo, como dizia mamãe.
Sou mameluco
Sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco
Sou Leão do Norte

                                        




domingo, 13 de maio de 2012

Setembro

                                                                  


Além de maio, setembro é outro mês marcante para mim.
Alguns eventos tristes, fortes e marcantes aconteceram em setembro.
Lembro exatamente da bela tarde de Primavera de vinte e oito de setembro de 1989. Céu azul, nuvens brancas, tarde dourada e uma forte, tensa e intensa escuridão dentro de mim.
Já travei batalhas solitárias para segurar a dor que me devorava e para parecer normal aos olhos das pessoas... Dor, angústia, medo, dúvida.
Ouvia no rádio de pilha de mamãe canções da nossa MPB (música popular brasileira) e me intrigavam as canções Paralelas e Manhãs de Setembro da cantora Vanusa.
Pétalas, Meu Bem Querer, Faltando Um Pedaço de Djavan; músicas de Lulu Santos, Zé Ramalho, Fagner...A boa e velha MPB e não os "tche re re, eu quero tchu tcha" de hoje. Na boa.
Eu doía, sofria, chorava... tudo por dentro.
Não sei.
Tenho sonhado diariamente com mamãe e tenho essa agonia dentro de mim.
Tenho tido flashes de imagens do meu coma e me assustam.
Tenho medo das coisas que vi e peço a Deus que quando chegar minha hora, que eu vá em paz, que eu feche os olhos para esse mundo e os abra já na companhia de papai, mamãe, meu Paipreto, avô José, Mãevelha e o meu povo antigo na casa verde e azul. Na santa paz de Deus. Amém.
Não vou mais acordar chorando.
Metade de agosto e setembro inteiro em coma; era 2009.
Mas tem coisa boa também, graça a Deus, eu "vi" uma delas durante um flash, durante um apagão rápido de segundos no qual viajo até o arquivo do coma e lá revejo e relembro as coisas que vi e/ou me foram mostradas.
Esses flashes dessas viagens rápidas me assustam.
Em alguns meses será o aniversário de três anos dessa agonia, da dor, sofrimento, medo, solidão, culpa, injustiça, frio, fome, sede e uma vontade enorme de me libertar daquela tormenta, meu Deus.
Sei lá, música, coma, flashes, medo, desconforto...Vou parar por aqui.
Os dias ruins já se foram...
Dias Melhores Virão.
Estão a caminho.
Por favor, Deus, eu já doí demais.


Mar, meu doce mar
                                                  

terça-feira, 17 de abril de 2012

Angústia

                                        


Sempre que volto para casa sou recepcionada por meus seis gatos. Da rua já posso escutar seus miados e preciso abrir a porta cuidadosamente para não machucá-los, pois estão todos atrás dela.
Voltei ontem da consulta com o ortopedista e ao abrir a porta vi apenas cinco dos meus seis gatos; faltava Branca Maria.
Bateu um desespero, uma angústia.
Meu Senhor do Bonfim, cadê minha gata? Será que foi sequestrada? Será que foi para longe? Será que caiu em algum quintal? Será que algum cachorro a pegou? Será que alguém muito malvado a pegou? Tem muita gente ruim nesse mundo, Minha Nossa Senhora das Candeias.
Liguei para minha irmã Rosi e ela me acalmou dizendo que a gata deveria estar passeando pelos telhados afora e logo logo voltaria.
Fui ao quintal, chamei por Branca e nada. Pergunto ao simpático vizinho que ouve músicas rimando filhinho com leite Ninho e ele me respondeu perguntando: "É aquela gata branca grande que fica correndo por dentro dos telhados, é?"
"É sim"
"Vi não"
"Obrigada"
"De nada. Oxe!"
Fui preparar o jantar: arroz integral com legumes cozidos e suco de melancia; abusei muito do chocolate nesses dias de Páscoa.
Vou ao quarto e lá vejo Branca Maria toda suja e encardida a olhar para mim e a miar, como quem estivesse explicando uma arte feita.
Dei-lhe uma bronca e a alertei sobre os perigos que corre ao andar pelos telhados alheios.
Mas o mais importante foi ver Branca Maria sã, salva e suja. Ela estava mais para Encardida Maria.
A angústia teve fim, graças a Deus.


                                         

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Desassossego

                                                


É assim que tenho me sentido, num grande desassossego.
Um turbilhão de dúvidas, temores e alguma melancolia.
Centenas de pensamentos invadem minha cabeça, que dói e que não me deixa dormir.
Tem tanta coisa presa aqui dentro, tanta coisa querendo ser dita, mostrada, libertada. 
Eu tinha tanto ânimo, tanto pique, tanta vontade, mas não sei onde foram parar. 
Tenho me comunicado com pessoas de várias partes do mundo e que enfrentam o mesmo problema, a Acromegalia, e elas falam das mesmas angústias, temores, melancolia...
Somos apenas separados pela geografia e pelo idioma, mas estamos todos juntos na mesma batalha.
Sei de gente que "pirou" e é triste isso. Pessoas produtivas transformam-se em seres inertes, sem vontade e sem iniciativa.
Alguns podem dizer simplesmente que trata-se apenas de preguiça, mas não é.  Nem eu nem as pessoas acromegálicas e angustiadas sabemos dizer o que é.  É essa coisa que nos rouba a vida, a vontade de viver, de fazer, de ser.
Alguns também podem dizer que trata-se de depressão; não sei, pode ser.
Alguns também podem dizer que é frescura e que depressão é doença de rico. Não, não é.
Surpreende-me a mim mesma essa coragem de falar/escrever o que acabei de falar/escrever. Eu que sempre fui tão fechada em mim. Falar pra quem? Quem iria ouvir? E se ouvisse, que palavras usaria para me responder? Mais críticas, mais verdades verdadeiras de pessoas donas da verdade? 
Não. 
Basta-me.
Mas me conforta o fato de saber que existem pessoas como eu e que talvez minhas palavras sirvam para alguma coisa, algum alívio.
Sou melhor com palavras escritas; nunca me dei bem com palavras ditas. Sou quase sempre mal entendida, mal interpretada. 
Algumas vezes o receio de não ser compreendida cala minha voz e a tranco dentro de mim.  
É melhor assim, acho eu. Já bastam as porradas que a vida me deu.


Poema em linha reta - Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa