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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Contragosto

                                


As aulas começaram e eu queria tanto estar em sala de aula com a molecada, principalmente os pequeninos da quinta-série com aquelas carinhas assustadas, preocupadas e curiosas.
Responder às mesmas velhas perguntas que já fazem parte dos Anais da História: "A senhora é brava? A senhora tem filho? É a lápis ou caneta? Pode usar caneta colorida? A senhora trabalha ou só da aula?".
Foi uma coisa boa que eu quis tanto e durou tão pouco, mas é preciso se afastar. Muito a contragosto, mas é preciso. Infelizmente.
É isso.



                                      

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Raiva

                                 


Fiquei um tempo sem dirigir, mas precisava ir ao supermercado, as coisas estavam acabando.
Fui até a casa da minha irmã, que iria comigo, e não foi fácil chegar lá. Pé que escorrega do pedal e ter que dirigir segurando a perna. Outros motoristas buzinando, ultrapassando e xingando. Todos muito apressados e perfeitos. Nunca envelhecerão? Terão saúde para sempre?
Parei no farol e fui invadida por um misto de raiva, tristeza e frustração: Raiva!
Por que?!
Por que não posso andar livremente? Por que preciso de bengala e andador? Por que minha saúde piora a cada dia? Por que não posso ter uma noite de sono sem dor? Por que não posso ter o simples prazer de viver minha vida simples ao lado do que eu mais amo nessa vida: gatos, livros e plantas?!
Por que tanto remédio? Por quê? Por quê? Tantos porquês...
Quando a gente pensa que as coisas finalmente começam a entrar nos eixos...
Será castigo? Mas por quê? O que eu fiz para merecer tal castigo?
Sempre fui uma pessoa simples e sem luxo ou frescuras. Como dizia meu povo antigo: "E tu já visse pobre com luxo? Oxe!"
Sempre tratei a todos com respeito, mesmo àqueles com quem meu santo não cruza. 
Nunca prejudiquei ninguém, nunca me aproveitei de ninguém, nunca roubei nada nem ninguém (exceto livros e plantas).
Tenho ficado muito em casa porque sair está complicado. Dá muito trabalho tirar o carro, descer para fechar o portão e ver e ouvir pessoas reclamando da minha demora. Não posso correr.
E-mails do coordenador nos alertando para as datas da atribuição de aulas; começa hoje.
Escolher as turmas, preferencialmente os pequenos e terríveis das quintas séries (sexto ano). Entrar em sala de aula, ver aquelas carinhas com olhos arregalados, expressão de medo e curiosidade e as mãozinhas levantadas: "A senhora é muito brava?"
Depois da primeira impressão vêm as habituais perguntas de todo o sempre, desde quando eu era aluna: "A senhora trabalha ou só dá aula? A senhora é casada? Tem filho? Tem cachorro?"...
Por que não posso ter e viver tudo isso?
Por que o que mais gosto está lenta e dolorosamente sendo tirado de mim?
Mais uma noite mal dormida com muito calor, pernilongos e muitos porquês.
É fácil não.
É isso.


                                    


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mão no coração

                             


Alunos chegam mais cedo e pedem para entrar, mas não pode, só quando bater o sinal.
"Deixa nóis entrar, tia".
"Não posso. Vocês vão aprontar, seus danadinhos"
"Nóis vai ficar quieto, tia. De verdade"
"Prometem mesmo? Então botem a mão no coração e prometam que vão se comportar".
E não é que botaram mesmo?!
Tão bonitinhos.
Saudades.
É isso.


                               

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Trabalho

                                


Final de ano se aproximando e a cara de pau de certos alunos só aumentando, explico.
Muitos desses alunos têm excesso de falta, notas baixíssimas e já perderam o ano, mas insistem. Querem trabalhos para recuperar o tempo perdido.
Por que não compareceram às aulas e exerceram seu papel de aluno?
E as desculpas são variadas... "Mas eu fiquei doente. Eu não ia vim doente pra escola, né?". Mas ficou doente o ano todo?!
Lembrei de um professor da faculdade que soltou a seguinte pérola quando alunos semelhantes pediram trabalhos também para compensar suas faltas. Ficavam nos botecos ao redor da faculdade e quando chegava a época das provas era aquele Deus nos acuda: "Você quer um trabalho? OK. Então anota aí: uma galinha preta, um charuto, uma garrafa de 51, mas pode ser Velho Barreiro".
Adorava ver a cara de surpresa desses alunos sem noção. Era divertido.
Os professores gostaram da ideia quando contei-lhes e demos boas gargalhadas.
É isso.



                                 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Esperar e Aguentar

                            



Fui trabalhar hoje a pulso. Ainda me sentei no sofá e me obriguei a ir; falta menos de um mês para acabar o ano letivo.
Não quero tirar licença antes porque detesto fazer perícia; sou sempre tratada com desconfiança pelos nada simpáticos doutores peritos. Gostaria de saber o porquê disso, pois é visível minha aparência acromegálica, meu caminhar inseguro mesmo apoiado na bengala.
Ninguém consegue simular ou fingir uma doença degenerativa óssea e uma Acromegalia. Pressão alta e diabetes? Não sei.
O que querem e o que pensam esses médicos tão brutos?
E por que professores com resfriado comum conseguem dez dias numa boa?
Sempre questiono isso.
E por falar em questionamentos...
Poucos alunos foram à escola hoje, o que é muito comum no final ano, mas uma dúzia deles, aproximadamente, pediu para ligar para os pais virem buscá-los. Os motivos alegados foram dor de cabeça, dor no joelho, dor na unha, no cabelo...
Reclamei e disse que isso nos faz perder tempo, pois estamos em época de matrícula e rematrícula para 2015 e é muito serviço. Essa molecada está com frescura e com vontade de ir para casa, não tem doença nenhuma!
Mas se dão moleza...
Aí a culpa nem é tanto dos alunos cara de pau e sim das pessoas que deveriam ter uma postura forte e determinar regras e limites para a escola toda.
A professora que fica comigo na secretaria já quer se debandar para a sala de leitura, lugar onde eu deveria trabalhar. Eu disse que não tenho condições físicas de fazer todo o trabalho sozinha e preciso de alguém para fazer a parte de subir e descer escadas, buscar alunos folgados cujos pais vêm buscá-los, chamar o coordenador, diretores, abrir as pesadas gavetas dos arquivos...
E se colocar fulana, beltrano e sicrano pra te ajudar?
Não! Muito obrigada. Prefiro ficar só.
Se é para me estressar com gente dissimulada, eu prefiro ficar só.
Liguei para a farmácia entregar mais remédios e voltei para casa e arriei no sofá.
O joelho direito dói muito e a cabeça também.
Estou achando que não vou conseguir aguentar até o final do ano.
É isso.


                                   



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Correria

                              



Me preparo para ir ao trabalho mas antes de sair faço minhas orações e peço a Deus e ao Povo lá de cima que protejam minha casa, meus gatos, minha família e a mim. Amem.
Tenho uma fé muito forte e não preciso provar nada pra ninguém, principalmente para os que me julgam.
Bom...
Abro o portão da garagem, pego o jornal e escuto um miado sofrido e angustiado: Será que é um dos meus gatos, minha Nossa Senhora?"
Olho em volta e do outro lado da rua vem um gato sujo, bonito e assustado; pergunto: "Você está com fome". O gato me olha como se me entendesse.
Volto, abro a porta e trago comida e água para o felino faminto e sujinho. Ele come rapidamente, mia, me olha e eu digo para comer devagar, eu o protegerei e ficarei ali até ele terminar.
A vizinha amarga passa com a cara amarrada de sempre, abre o portão de sua casa e a cachorrinha prenha escapa e corre até a mim: está com fome.
A criatura amarga não cuida bem da cachorrinha mas cuida muito bem da vida dos outros. É dose!
Na esquina vem um senhorzinho puxando uma carroça e coletando lixo reciclável. Corpo franzino, boca sem dentes, olhos fundos, cansados e tristes. Ele me lembrou papai.
Dei os jornais que separo e disse-lhe que semanalmente junto um saco grande com material reciclável; vou deixar pra ele.
O senhorzinho sem dentes sorriu e agradeceu.
Sinto-me bem quando faço o bem, por mais simples, pequeno e insignificante que pareça ser.
Mas creio que foi de grande valor para os animais que alimentei e para o idoso que ajudei. 
Isso para mim é Deus. Fazer o bem é Deus.
Eu vejo assim.
Cheguei atrasada na escola e me expliquei; ficaria uma hora a mais para compensar o atraso. Tudo bem.
Alunos vêm pedir documentos e estou só na secretaria no momento; coloquei a molecada para trabalhar: pega pasta aqui, abre gaveta pesadona ali...
"Nóis pode pegar água, tia? Nóis pode pegar café? Nóis pode pegar uma banana? Pô, tia, a senhora é muito legal cum nóis".
A vida está tão difícil, os problemas se amontoam, os cabelos estão cada vez mais brancos, mas eu não vou ficar amarga por isso. Que culpa têm as pessoas de meus problemas?
Prefiro ser legal, ser do meu jeito quieto, mas legal.
Mas a gente tem que ouvir cada asneira!
É isso.




                                    


                                  

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Santo Expedito

                                  


Atendo todos os dias a vários tipos de pessoas que vão ao guichê da secretaria da escola em busca de informação, vagas, matrícula, documentos, situação dos alunos etc...
Vejo pais e mães, a grande maioria é de mães, interessados e preocupados com a vida escolar do filho e seu comportamento.
Vejo pais e mães bravos por terem sido chamados à escola e mais bravos ainda porque "injustiças" são cometidas contra os filhos santíssimos; só faltam ser canonizados em vida!
Vejo mães permissivas, ausentes e que não se preocupam com a vida escolar do filho. Uma dessas mães ligou e perguntou se o filho poderia ir à escola, estranhei. O motivo alegado é o que moleque havia faltado por duas semanas consecutivas, mas ao verificarmos no sistema vimos que a criatura não tem nem nota do segundo bimestre! 
Perguntei o motivo de tanta falta e a mãe disse: "Eu mando ele ir pra escola, mas ele não quer ir! Será que dá pra mandar um trabalhinho pra ele fazer e recuperar as notas?"
É uma cara de pau sem tamanho!
O cara falta, a mãe não toma atitude nenhuma e ainda acha que um trabalhinho qualquer vai substituir todo o tempo perdido.
Fiquei com pena de uma mãe que já havia ido a várias escolas em busca de documentos para a matrícula, mais uma vez, da filha na escola onde trabalho.
A filha já "estudou" em quase todas as escolas da região e quando se cansa daquela determinada escola, pede para a mãe matriculá-la em outra onde estiver amigos seus. A menina gosta de variar.
Detalhe: essa moça tem dezesseis anos e é mãe de um bebê de menos de um ano. A menina gosta de experimentar.
Outros casos, já relatados aqui, que me irritam pelo descaso e desrespeito dos pais para com seus filhos são o de alunos que estudam dois ou três meses e depois os pais decidem se mudar de volta para suas cidades de origem. Aí fica aquela agonia de pegar documento, levar documento, trazer documento...
Uma mãe nos atormentou no início do ano para que arrumássemos vaga para a filha dela; foi até a DE (Diretoria de Ensino) e conseguiu a vaga, OK. Dois meses depois a aluna some e quem aparece? A mãe pedindo documentos para fazer a matrícula da filha em uma escola de outro estado!
É por essas e outras que adolescentes de quatorze, quinze anos e até mais, ainda estão na quinta série e não sabem ler e escrever corretamente!
Bom...
Nem vou falar do sinal que está quebrado desde o início das aulas em janeiro (!!!), dos computadores sem acesso à PRODESP (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo), do portão do estacionamento que quebrou mais uma vez e eu não vou empurrar aquele trambolho pesado e depois ficar com dores nesse meu corpo acromegálico e entrevado pela artrose de nome bonito: osteoartrite sistêmica!
Já cansei de falar, perguntar, solicitar... Mas parece que nesse país as pessoas se acomodaram e se acostumaram a deixar pra lá, a esperar, a ouvir o "É assim mesmo" e assim mesmo tudo ficar.
A quem mais posso recorrer? A Santo Expedito, o santo das causas impossíveis?
Vou fazer umas orações.
É isso.


                                  
Ébano Nêgo Lindo, "rezando".


terça-feira, 29 de julho de 2014

Zica

                                



Já mencionei em postagem antiga o que meu avô Paipreto dizia: "Sou amigo de toda nação: do gato, do cachorro e do ladrão".
Meu avô conversava com todos, era amigo de todos e sempre procurava manter a paz e a civilidade mesmo entre desafetos.
Tem que ter paciência, jogo de cintura, molejo e uma boa dose de diplomacia para lidar com pessoas. Não é fácil. 
Cada um acha que tem mais razão que o outro e aí os conflitos surgem.
Trabalhar com pessoas não é fácil, tanto entre colegas como no atendimento ao público. Nossa!
Tem que lidar com gente folgada, preguiçosa, cínica, ignorante, lesa (abestada)...
Fiquei só na secretaria hoje e me virei bem. Foi corrido, o senta-levanta-sai-volta é cansativo e incomoda o joelho, mas prefiro assim a me estressar com gente folgada que oferece ajuda quando está tudo calmo e corre quando tem muito trabalho a fazer.
Veio uma mãe para falar com o coordenador do Ensino Médio e ela estava brava, nervosa, irritada por ter sido chamada à escola. O filho é dela e quem educa são os pais e não a escola!
Cumprimentei a brava senhora, ofereci café, falamos sobre o frio e outras amenidades e a brabeza da mãe revoltada passou.
Alunos pedem documentação para ontem e digo que não é possível, que alguns documentos demoram mais que outros etc e tal. As declarações são geralmente entregues no dia seguinte ao pedido, mas se os alunos e as pessoas que pedem esses documentos o fazem de maneira educada e gentil, eu "quebro o galho".
Dois alunos pediram documentos para serem entregues aos seus empregadores e tinham pressa. Disse-lhes para passar na saída e entreguei-lhes o solicitado: "A senhora é zica, hein tia! Valeu! A senhora é %$#@!".
Acho que isso foi um elogio com agradecimento, ou vice-versa. 
Sou da seguinte opinião: Se uma coisa tem que ser feita, então faça!
E ainda me chamam de radical, entre outras coisas.
É isso.




                                   


                                            

sexta-feira, 14 de março de 2014

Espera

                               



Não sou muito afeita à essas tecnologias, "mudérnagens", Gadgets e afins. Meu celular é básico e me serve bem nas funções básicas e necessárias de um telefone: fazer e receber chamada.
Vejo celulares enormes, que mais parecem uma telha, caros e cheios de aplicativos que a maioria das pessoas nem sabem que têm ou sabem usar.
Descobri esses dias que quando ligamos para o celular de uma pessoa e ela demora a atender, a ligação fica em modo de espera e a vítima do outro lado da linha é obrigada a ouvir músicas do gosto de seu interlocutor.
Todos os dias dezenas de alunos "muito doentinhos e sentindo-se muito mal" vão à Secretaria e pedem que liguemos para seus pais para que venham buscá-los; tadinhos. O problema é quando ligamos logo de manhã cedo e ainda encontramos pais adormecidos, mal humorados e com voz sonolenta. Demoram a atender ao telefone e só após ligarmos várias vezes seguidamente é que se rendem à tortura e finalmente nos atendem; sempre de mal humor, claro.
O problema está na demora em atender: ouvir Bruno e Marrone se esgoelando é de doer! Na boa.
Desligo e ligo de novo e repito o processo. Desligo assim que começa a tocar a música. 
Finalmente conseguimos falar com os pais, que ficam bravos por serem incomodados no aconchego de seus lares. 
Lamento, mas toma que o filho é teu!
É isso.


                                       
                                      

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Cara de Pau

                               


Uma mãe foi hoje à escola para resolver pendências relativas à matrícula do filho; perguntamos qual a data de nascimento do pimpolho e a doce mãe não sabia!
Procuramos, encontramos e ironizamos: "A data de nascimento do seu filho é tal, viu mãe? Caso a senhora queira saber".
O mesmo aconteceu com um pai essa semana, já falei aqui.
É cada uma...
Alunos bancando os espertinhos; explico.
Alunos vão à escola ou ligam pedindo Histórico de Conclusão Escolar e quando acessamos as informações, vemos que a criatura não concluiu nada! Muitos alunos se matriculam, "estudam" por alguns meses, abandonam o curso e tempos depois aparecem na maior cara de pau pedindo o documento e/ou exigindo vaga em uma séria acima daquela que ele deveria ter concluído antes.
Explicamos a situação para o ex futuro aluno e para seus pais que vão à escola para exigir seus direitos de cidadãos civilizados. Querem porque querem aquela determinada vaga, falam mal da escola, nos ofendem e ainda ameaçam ir à D.E. (Diretoria de Ensino) para reclamar!
Atendi ontem à uma ligação do Conselho Tutelar de Rondônia e a história repetiu-se: aluno abandona curso, matricula-se em outra escola e exige um histórico de algo que ele não concluiu ainda.
Outros espertinhos vão à escola para pedir documentos e declarações provando que estudam ou estudaram ali em determinado período; verificamos as informações e nada consta.
O cara é o maior 171: Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento. 
As pessoas querem tudo fácil, simples e sem trabalho nenhum, ou quase nenhum. 
Outros alunos aparecem para perguntar em que salas estão; não frequentaram as aulas um único dia! E, por motivo de alguma força misteriosa, decidem voltar a estudar. Deus tá vendo! 
Perdem a vaga por excesso de faltas e depois ficam pedindo para voltar. É uma vontade de estudar que dá gosto de ver! Até emociona.
Bom...
Amanhã é sexta-feira e estou exausta.
É isso.


                                     


                                   

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Kathlenn

                               


Kathlynn, Katlinn. Ketlynn...
A lista é longa e tem inúmeras e infindáveis variações do nome gringo.
Faço cadastro de novos alunos, acesso informações sobre ex alunos e alunos matriculados e percebo o excesso de "Katlynn" como segundo nome. Sou da época que segundo nome de meninas era sempre Cristina ou Aparecida. 
Quando as donas desse nome vão solicitar algum documento eu peço para soletrar e vira uma salada de letras dobradas e coisas como: "É Katlyn com dois L, é com Y,é com I, é Ketlynn com E, dois N e dois L..."
Tenho uma sobrinha cujo segundo nome é um desses Kethlin da vida e eu não sei como se escreve. Honestamente.
Pra que isso?!
É pública e notória a moda de nomes estrangeiros entre a população infanto juvenil, mas tem coisa que beira o exagero e o ridículo. Na boa.
E têm umas bizarrices que são uma mistura de nomes importados com algum outro nome ou palavra que os pais acharam bonitos. Quem sofre é a pobre da criança.
Vejo a lista de alunos e me surpreendo com nomes simples, bonitos e comuns; estou acostumada a nomes estrambóticos.
Acho que vou mudar o nome de uma de minhas gatas para Ketlynn Reyshylla Rallyanne Sayonara da Silva.
As pessoas são tão criativas.
Não sei se isso é bom ou ruim.
É isso.



                                       

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Caos e Futuro

                                      


Mais um dia de caos na escola. 
Mais um dia de falta de professores; mais um dia de alunos sem aula, saindo mais cedo e/ou zanzando pela escola e atormentando a pouca paz que pode-se ter com adolescentes barulhentos, agressivos, mal educados... A maioria, infelizmente.
São poucos inspetores e tem sempre aquele/a que faz corpo mole e sobrecarrega o outro.
Hoje uma inspetora não aguentou o stress contido e se debulhou em lágrimas; ela reclamava da situação caótica em que se encontra a escola, da falta excessiva de professores, da falta de apoio da direção e coordenação.
Um pai de aluno foi convocado para ir à escola para falar com o diretor, mas ao chegar encontrou pessoas que nada sabiam e com a clássica desculpa: "Não é comigo. Não convoquei pai nenhum. Não sei de nada". 
Fica fácil assim.
O pai pedira para sair do trabalho mais cedo só para ir à escola, mas teve que voltar para trás porque ninguém podia ou queria atendê-lo.
Basta ler o relatório escrito pelo professor e lá consta a situação do aluno! A partir dessas informações, qualquer mortal na face da Terra pode conversar com um pai de aluno, principalmente se for alguém que trabalha em uma escola!
Alunas dançando Funk em salas de aula sem professores. 
Alunos arremessando cadeiras e carteiras, chutando o cesto de lixo, brigando uns com os outros, correndo pelos corredores e escadas... Um caos.
A moça que trabalha comigo na secretaria sentiu-se insegura e com medo; tem toda razão.
Hoje pela manhã não havia ninguém da direção, apenas o coordenador que é um dos poucos que toma uma atitude, que fala, que age e que trabalha.
A outra parte da coordenação passeia pela escola, enrola, está sempre "ocupada" e fica bravíssima se a interrompemos para perguntar alguma coisa, tirar uma dúvida etc... É cada coice! Passeia pra lá e pra cá segurando e comendo um maldito sanduíche que nunca termina.
Cada um com suas manias mas não consigo comer de pé, andando etc... Tenho que me sentar à mesa e fazer as refeições, por mais simples e rápidas que sejam. E depois de comer aí sim volto ao trabalho ou ao que estava fazendo.
Alunos que não ouvem. Ou se ouvem, não escutam, não assimilam o que foi dito; não pensam.
Pouco antes das nove horas da manhã desce um grupo de alunas fogosas e mal educadas e perguntam se a "moça do uniforme" vem hoje; dissemos que a partir das onze horas e ouvimos a pergunta: "Então ela já ta aí?"
A partir das onze horas, agora são nove horas!
Dali há alguns minutos as mesmas criaturas retornam com a mesma pergunta e depois mais umas duas ou três vezes. Isso tudo é só para sair da sala e dar uma rolê pela escola, ninguém está de fato preocupado com o raio do uniforme.
Outro detalhe curioso é que vem um grupo e seu séquito junto para fazer uma simples pergunta.
Ontem deixei na última gaveta da mesa uma pasta com lápis, borracha e canetas, material que usamos para trabalhar, e hoje quando cheguei a pasta estava vazia! 
Deixei um recado na gaveta dizendo que pode usar o material, mas que o devolva e o coloque no exato local onde o encontrou.
Tem muita gente fútil, convencida, cheia de si, mesquinha... não só na escola, mas no mundo todo.
O respeito está cada vez mais indo por água abaixo e foi-se o tempo em que diretor, coordenador, professor eram símbolos de sabedoria e educação e eram respeitados.
Foi-se o tempo em que pedia-se por favor um documento ou uma informação na secretaria da escola.
Foi-se o tempo em que estudar significava estudar mesmo!
Está difícil ver a vida melhor no futuro, principalmente a Educação.
É isso.


                                       

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Postura

                                       


Terceira semana na secretaria e estou melhor adaptada. Ligações, fichas cadastrais, guichê etc...
Hoje foi um dia cheio, bastante movimentado e, como sempre, objeto de minhas análises e observações. Não só o dia de hoje, mas todo o período que tenho trabalhado na secretaria e na escola como um todo.
Já falei/escrevi sobre os temas Educação e comportamento dos alunos, crianças e pessoas em geral.
Sempre comparo a minha época escolar com a época atual e, infelizmente, a má educação impera na grande maioria das vezes.
A cada dez minutos desce um/a aluno/a pedindo para ligar para a mãe vir buscá-lo/a e a desculpa para tal é que está com dor de cabeça. A criatura faz cara de sofrimento, dor e agonia e mereceria ganhar um Oscar de melhor atriz/ator. 
Ligado para a mãe, pai ou responsável, o "pobre" aluno enfermo passeia pela escola, ri e brinca com os colegas até a hora de ir embora. A saúde volta como mágica.
Atendo a duas alunas e pergunto o que querem e ouço: "Nóis qué coisá o negóço do SPTrans (vale transporte)".
Acho que vou rasgar meu "diproma".
Além do ataque à pobre e inculta Língua Portuguesa, esses alunos e alunas ignoram, desconhecem ou pouco se importam com a boa educação, o respeito e uma postura correta ao lidar com as pessoas, principalmente professores, funcionários da secretaria, inspetores etc...
Chegam ao guichê já demandando o que querem; não usam "por favor, com licença, obrigado" e agem como se fossem seres superiores e estivessem nos agraciando com suas ilustres presenças.
O modo como falam conosco e chegam até nós é muito diferente do modo educado, respeitoso e até temeroso que tínhamos no meu tempo de escola.
"O tia, vem aqui. Ah, você tá demorando muito! Depois eu venho".
"O tia, liga pra minha mãe vim me buscar... Já ligou?"
Outro aluno assoviou para chamar a nossa atenção. Estávamos todas entretidas com nossos afazeres e não percebemos a doce criatura debruçada sobre o guichê, ele simplesmente assobiou!
Como é que é?! Liga pra minha mãe.
Como é que é?!
Por favor.
Ah, bom!
Falei com a diretora sobre esse oba-oba de aluno ir à secretaria e pedir para ligar para a mãe. Se não sentem-se bem, que fiquem em casa e /ou vão ao médico com a digníssima mãe, mas ficar enchendo nossa paciência com futilidades, falta de educação e arrogância não dá!.
As aulas iniciaram dia 27/01, vinte e sete de janeiro, e na quarta-feira foi entregue o Kit escolar: cadernos, caderno de desenho, lápis, borracha, apontador, régua, caneta etc... Uma semana após a entrega a aluna me pede uma caneta vermelha e eu pergunto pelo material/kit escolar dela e a resposta foi um dar de ombros e um muxoxo seguido de um "Ah!"
No dia da entrega do tal kit a diretora percebeu que "chovia" pedaços/cotocos de lápis e ao verificar, flagrou alunos quebrando seus lápis e jogando ou pela janela ou uns nos outros. Lindo isso.
Já falei o que penso sobre esse passar de mão na cabeça de gente folgada, acomodada e que se faz de vítima para garantir a ajuda perene de um governo paternalista e, em troca, o governo ganha votos e se mantem no poder.
É...
Pretendia falar/escrever mais, mas o calor associado à pressão alta está me deixando mole e com tonturas.
Boa noite a todos.



                                       



                                            


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Na ativa

                            



Volto à ativa depois de um tempo meio parada.
Fui à clínica, tomei as injeções, falei com o médico, peguei mais um laudo, levei para escola, fui ao banco para pagar as contas e, como era de se esperar, sobrou conta e faltou dinheiro, graças a Deus.
Voltei para casa, liguei para o Estadão; não recebi os jornais de ontem e de hoje. Serão entregues, disse a simpática atendente.
Beleza.
Os efeitos das injeções começam a se manifestar: sono, moleza, cansaço e ânsia de vômito. 
Já tomei bastante água. Aliás, o que mais tem espalhadas pela casa e pelo carro são garrafas d'água. Adoro água, sou a Maria das Águas e não à toa nasci no dia 22 de março, o Dia Mundia da Água.
Encontrei o coordenador pedagógico quando chegava à escola, muito simpático. Falei com o diretor, entreguei o laudo para a secretária, fui abraçada pela inspetora de alunos e fui cumprimentada por alguns dos danadinhos. Saudades...
Vontade louca de subir aquelas escadas, entrar em uma sala de aula, responder às mesmas perguntas de sempre, desde que aluno é aluno e professor é professor: "É pra copiar?... Vai valer nota? Que dia é hoje? É para fazer em dupla? Pode ser dupla de três? Por que a senhora nunca falta?"
E por aí vai...
Mas a senhora aqui tem faltado muito, tem sido afastada muito, tem problemas de saúde muitos, causados por uma doença rara de múltiplas facetas.
Derrubei algumas lágrimas externas; disfarcei.
Desabei por dentro, levantei os olhos aos céus e perguntei: "Deus, por que tu tá fazendo isso comigo, mano?"
Deus é brasileiro, paulistano e corinthiano. 
É nóis.
Senti-me só. Tão só.
Pego o telefone, procuro alguns nomes na agenda, os mais próximos. Estão desligados, fora de área, na caixa postal...
Queria ouvir uma voz, apenas dizer alô, dizer que está tudo bem, falar sobre o tempo, as chuvas, alguma coisa, qualquer coisa.
Consegui falar com meu irmão caçula, que é muito rápido e prático, pelo menos comigo: "Tá tudo bem?... Tá... Então tá bom..."
Deveria ir ao supermercado, mas não deu. Não tenho condições, estou mole, cansada...
Volto para casa, desço para abrir o portão, sou recebida pelo meu séquito felino. Minha terrível Aurora vem na frente, claro. Senta-se em meu colo, me faz um chamego, senta-se no banco do carona enquanto guardo o carro.
Entro em casa, encontro meu negão lindo moído, cansado, sonolento. Não tem jeito, por mais eu fale, peça, ameace botar de castigo, meu neguinho lindo é marrudo por natureza.
Vou deitar um pouco, minha cabeça dói.
Minha alma também.
É isso.



                                   

sábado, 6 de abril de 2013

Merenda Escolar

                              



Na minha época de escola a merenda resumia-se a café com leite ou achocolatado com uma fatia de bolo, sopa de "Bonzo" e macarronada; todos em dias alternados.
As coisas mudaram e o governo paternalista melhorou a merenda escolar. São frutas frescas, deliciosas, maravilhosas, desperdiçadas e usadas em "guerrinhas" pelos alunos, crias de uma geração idiota, mal educada, que espera que tudo caia do céu, que espera que o governo resolva tudo e dê tudo.
Uma geração que transforma a escola em um depósito de filhos problemáticos, preguiçosos, vagabundos, mal educados... Para dizer o mínimo.
Acredito que a causa desse comodismo, dessa cara de pau, dessa preguiça e de outras coisas foi a mudança radical de um sistema político castrador para um sistema mais liberal; até demais, eu diria.
Passamos de um lutar para conseguir o que se quer para um cruzar os braços, chamar a mídia, fazer cara de vítima e culpar o governo pela falta de material escolar, uniforme, leite, pelos bueiros cheios de lixos que transbordam durante as enchentes.
Como já disse aqui, na minha época não ganhávamos uniforme ou material escolar, nossos pais compravam e tinham um prazo para isso.
Era difícil para meus pais comprarem todos os uniformes e todo o material para cada um de seus seis filhos e o jeito dado foi esperar pela saída do irmão para pegar com ele o estojo com lápis, borracha, lápis de cor etc...
O uniforme do mais velho ia para o mais novo, crescíamos muito rápido e mamãe brincava dizendo que nossas calças estavam curtas iguais às do Michael Jackson. 
Hoje a vagabundagem anda livre, leve  e solta. Se esforçar pra quê, se o governo dá tudo?
Alunos mal educados, grosseiros, que falam palavrões, que mandam os professores a lugares inimagináveis à minha época de estudante.
Pais e mães que reclamam quando são chamados à escola: "Mas vocês me chamaram só por isso?!".
"Isso" significa alunos levando celulares com fotos pornográficas, alunos que ameaçam professores, alunos que ameaçam colegas, alunos que destroem a escola. Só isso.
Estudar que é bom, nem pensar.
Sentam-se em grupinhos nos fundos da sala e mostram os aplicativos de seus celulares e porcarias afins. Fones nos ouvidos e celulares nas mãos digitando freneticamente.
Uns três ou quatro interessados em aprender, mas que são atrapalhados pelo vai e vem de alunos que desfilam pela sala, que saem sem pedir autorização, outros que são de outra sala e vêm chamar os coleguinhas. Simplesmente abrem a porta e chamam o fulaninho ou a ciclaninha, isso sem pedir licença ao professor que está em sala de aula.
Voltei ao trabalho essa semana e confesso que desanimei. É dar murro em ponta de faca, é jogar pérolas aos porcos.
Bate o sinal do recreio e desce a boiada. Se não tomarmos cuidado, somos levados pela turba, é melhor esperar.
O que tem de lanche hoje? Fruta. Que m...
Começam a fazer "guerrinha" de frutas e muitos voltam para a sala de aula com o corpo roxo pelas pancadas das frutas jogadas.
Termina o recreio e lá fica o pátio coberto por maçãs, peras, goiabas, caquis, mexericas... Frutas que poderiam alimentar a quem tem fome de verdade, mas que são desperdiçadas por projetos de bandidos. Alguns já o são.
Tivemos reunião hoje e houve muita discussão sobre como atrair o aluno para a sala de aula, como identificar se o desgraçado tem problema, o que fazer para ajudá-lo e blá, blá, blá...
Uma professora sabe-tudo-dona-da-verdade-esganiçada-histérica e chata defendia com unhas e dentes os pobrezinhos dos alunos que não têm para onde ir para se divertir ou não têm nada para fazer nas horas vagas. A mulher não parava de falar! E falava alto que até doíam a cabeça e os ouvidos da gente.
Peraí, Madre Tereza de Calcutá! Não é bem assim não!
O bairro tem um núcleo que oferece vários cursos de aprendizagem para inserir o indivíduo no mercado de trabalho.
O bairro tem praças e campinhos de futebol que são depredados por esses "pobrezinhos".
Tem uma praça que foi restaurada e ficou muito bonita, mas que em pouco tempo foi destruída por esses vândalos. Tem um laguinho com peixes que são pescados por essa gentalha.
Inúmeras garrafas PET são deixadas espalhadas pela praça por grupos que fazem picknick.
Muito lixo que poderia ser reciclado mas que vai para os bueiros a entupi-los e  causar enchentes.
E os problemas se estendem assim como o bate boca do bem.
Eu sempre quis ser professora, achava lindo ser professora e me espelhava nos meus professores que tanto me inspiravam. 
Mas ali eram outros tempos, havia respeito, trabalho e compromisso.
Hoje só há comodismo, preguiça, desperdício de tempo, de material, de boa vontade, de dinheiro público...
Desanimei e não vou gastar minha pouca saúde com quem não quer nada com a vida.
Queriam que eu ficasse no sobe e desce entre as salas de aulas, recusei. Isso vai diretamente contra o que lutei tanto para conseguir, a readaptação.
Subo as escadas para ficar na biblioteca e só desço na hora de ir embora; se ficar no sobe desce serei prejudicada e sentirei as dores nas pernas, no joelho e na coluna. Ando com dificuldade e me apoiando nas paredes ou no que servir de apoio e às vezes algum professor me ajuda.
Uso bengala, mas tenho receio de ir para a escola com ela, o perigo desses alunos a pegarem e algo de errado acontecer é muito grande.
Já senti que está difícil e não vou conseguir aguentar por muito tempo. Volto para casa dolorida, cansada e desanimada.
É como um grande amor que acaba e tentar retomá-lo só piora as coisas. Acabou, acabou... O melhor é seguir em frente sozinho/a ou procurar um novo amor. 
Não estou querendo fazer a "caveira" da escola ou dos alunos ou me fazer de vítima, mas estou cansada, muito cansada.
Estão transformado o Ensino em um grande circo e os professores em palhaços tristes.
Infelizmente.