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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Aniversário de Papai

                                                                  


Hoje, cinco de fevereiro, é/seria aniversário de papai.
Papai partiu três meses após completar sessenta e nove anos.
Papai já estava fraquinho, cansado, vista fraca, trabalhava tanto.
Eu sempre lembro de todos os aniversários da família, dos mais próximos, claro, como os aniversários dos meus irmãos e sobrinhos.
Lembro também dos aniversários de amigos e dos cunhados.
Tem gente que só lembra do próprio aniversário.
Bom, era isso.
Só queria lembrar o aniversário de papai:Pernambucano, palmeirense e macho.



                          

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Papai

                                                 


Papai orgulhava-se de ser pernambucano, palmeirense e macho. Exatamente nessa ordem.
Papai foi um homem bonito: cabelos escuros, pele clara e olhos verdes agateados. Papai era o Tom Cruise do Nordeste.
Papai era muito trabalhador, honesto, "inguinórante", teimoso, manhoso, cabra da peste.
Papai não era muito empreendedor, não era forte; dava um passo à frente dois para trás.
Mamãe era forte, titânica e empurrava papai para a frente.
Papai trabalhava duramente, levantava cedo, chegava sempre antes do horário, não gostava de chegar atrasado. Papai era agoniado e avexado, como dizia mamãe.
Papai era meio Gregor Samsa, personagem de Kafka no livro "A Metamorfose". Só trabalho, honestidade, cumprir horários, obedecer.
Papai nunca faltava ao trabalho, mesmo doente.
Papai temia deixar faltar o "de comer" em casa. Papai temia que os filhos passassem fome.
Uma vez papai ficou alguns dias em casa e eu estranhei ver meu pai tão trabalhador ali, dentro de casa. 
Papai tinha muitas dores de cabeça. Papai foi ao médico, depois ao hospital e finalmente voltou para ficar alguns dias em casa para se recuperar e só então voltar ao trabalho. Papai trabalhava na Moóca, na Rua Taquari.
Papai havia feito uma pequena cirurgia na cabeça; foi para remover um tumor que se formara entre o cérebro e o crânio. Papai tinha um curativo em sua cabeça e o esparadrapo branco parecia um laço de fita que combinava com a calça social e com a camisa rosa clarinha. A moda do jeans ainda não era tão forte naquela época.
Papai agachado segurando uma toalha sobre a perna de Mãevelha. 
Mãevelha com uma veia estourada a sangrar através da pele fininha que se rasgara ao raspar na porta do banheiro.
Sangue.
Sangue na perna de minha avó e o curativo na cabeça do meu pai.
O vizinho vem ajudar e leva papai e Mãevelha à farmácia; voltam os dois com curativos limpos e novos.
Papai volta a trabalhar. Papai usa chapéu para proteger a cabeça do sereno e da friagem que "ofendiam" ainda mais suas dores de cabeça".
Papai não tinha culpa de ser fraco e medroso, papai fora criado sem mãe e por muitas madrastas que iam e vinham. Deixavam filhos e levavam pedaços de terra do meu avô José, que era homem de posses para a época.
Avó Mariana fora embora muito cedo e deixou papai pequeno, como apenas cinco anos.
Avô José, moreno bugre de belos e tristes olhos verdes era ainda jovem, bonitão e sedutor e encontrava facilmente pretendentes que muito queriam saber de seus bens e pouco queriam saber de seus filhos e dele mesmo.
Foram criados um cuidando do outro.
Hoje sonhei com papai e ele conversava e sorria. De repente alguém diz que papai morreu. Como?! Papai já morreu! São quase dois anos! Oxe!
Uma dor e uma tristeza imensa me invadem; acordei chorando.
Saudades.
Meu Deus, que papai e mamãe tenham paz, saúde, alegria e sossego; já trabalharam e sofreram demais quando estavam por aqui.
Acredito que papai estava em tratamento e agora que está melhor, passou para um outro lugar mais elevado. Papai estava tão fraquinho quando foi embora.
Meu Deus, olhai por nós. Olhai por papai, mamãe e por todos nós aqui.
Que sejamos felizes, que tenhamos paz, saúde, alegria.
Amém.


                                    

domingo, 27 de maio de 2012

Itália

Paróquia de Casa Luce
                                              
Papai tinha orgulho de dizer que era nordestino neto de "intaliano", além de pernambucano, palmeirense e macho! Exatamente nessa ordem.
São Paulo é a cidade mais italiana fora da Itália e a partir do mês de maio podemos apreciar a cultura, a música, a alegria e principalmente a culinária italiana nas festas típicas de Casa Luce, San Genaro, San Vito, Achiropita e quermesses de bairro.
Muito macarrão, vinho quente, quentão, bolos, doces, jogos e muita alegria.
São festas juninas que trazem o melhor do sertão com o melhor da Itália e esquentam as frias noites do outono/inverno paulistano.
Ontem fomos eu, minha irmã Rosi, meu cunhado Pepê e minha sobrinha Beatriz à Festa de Casa Luce (Casa de Luz) no bairro do Brás, um bairro tipicamente italiano mas que recebeu e recebe migrantes e imigrantes de outras paragens: italianos, nordestinos, coreanos, bolivianos...
São Paulo está sempre de braços abertos a receber gente dos quatro cantos do mundo.
Passeamos pela Rua Caetano Pinto, entramos na Paróquia de Casa Luce e depois fomos degustar uma bela macarronada da mamma ao som de belas canções italianas.
São canções conhecidas por nós, pois ouvíamos no rádio que ficava sempre ligado quando mamãe ficava em casa. Adorávamos quando mamãe saía mais cedo do trabalho ou quando não ia trabalhar. Ela trabalhava em casa, e muito, mas estávamos em sua companhia, para nossa alegria.
Músicas como "Torneró, Io que amo solo te, Dio come ti amo, Roberta, Champagne" eram tocadas no rádio e cantávamos num italiano improvisado. Algumas músicas também foram temas de novelas e é muito bom ouvir de novo boas canções.
Fotografei a capela, o cantor de bela voz e Beatriz se deliciando com o macarrão.
Rosi perguntou se ela queria mais alguma coisa e ela disse: "Não, mãe. Eu vou si matar com esse spaghetti aqui".
E enquanto definíamos o cardápio, eu pergunto à Beatriz se ela queria macarrão e ela disse: "Macarrão não, eu quero spaghetti".
É isso.


Beatriz degustando o macarrão da mamma
                                      

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ditos Populares Nossos

                                             

Somos nordestinos e mesmo há muitos anos em São Paulo ainda conservamos nossas tradições, cultura, língua etc...
Mamãe sempre manteve seu forte sotaque pernambucano, mesmo estando aqui há algumas décadas.
Um hábito nosso é usar ditos populares que usam animais como exemplo; fábulas nordestinas ficaria bem, acho eu.
Por exemplo:
Se uma pessoa não guarda segredo é chamada de "bucho de piaba". Piaba é um peixe de água doce.
Se uma pessoa come muito rápido, engole quase sem mastigar é chamada de "socó". Socó é uma ave que pesca e engole o peixe inteiro.
Se uma pessoa sente-se solitária e esquecida pelos outros, diz: "Estou igual a guaiamum, todo mundo tem um pai e eu não tenho nenhum". Guaiamum é uma espécie de caranguejo.
Outra envolvendo o crustáceo é: "Caranguejo por causa de amigo perdeu a cabeça".
Quando há uma briga ou confusão dizemos: "Bafafá e c... de boi"
Se a família tem filhos adultos preguiçosos e acomodados que não querem trabalhar, dizemos: "Quem cria filho barbado é gato", ou "Quem cria filho com cabelo no c... é cebola, e eu não sou cebola!", já disse papai muitas vezes do alto de sua santa "inguinórança".
Se a pessoa é muito boa e coloca os interesses dos outros à frente dos seus, dizemos: "Anu emprestou o rabo e ficou sem nenhum".
Um ditado que eu achava - ainda acho - machista é: "Prendam suas cabras que meus bodes estão soltos". É uma referência à moças e rapazes que despertam interesse romântico um no outro. O interessante é que os meninos podem ficam livres, mas as meninas não. Machismo puro.
Têm muitos outros. Colocarei à medida que lembrar.
É isso.

                                 

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sobrevivência

                                                


Euclides da Cunha, em seu livro "Os Sertões", disse: "O sertanejo é antes de tudo um forte".
Somos sertanejos, somos fortes. Viemos lá do Sertão pernambucano para vida melhor tentar em Sum Paulo. "Meu Santo São Paulo, como dizia mamãe".
Já passamos por muitos e bons bocados e isso prova nossa força, nossa sobrevivência: seca, fome, trancados em casa enquanto papai e mamãe trabalhavam, vigiados e guardados por um cachorro, trabalho, responsabilidades e... Produtos Químicos!
Explico.
Era comum a venda de produtos de limpeza por senhores que paravam sua perua na rua e ofereciam água sanitária (cândida), amaciante de roupas, detergente, desinfetante, cera, sabão etc... Hoje ainda existe esse tipo de comércio, mas está mais restrito a bairros distantes.
Há uma infinidade grande de produtos de limpeza vendidos em supermercados e que prometem limpeza, brilho, maciez num piscar de olhos. É.
Fomos expostos à toda sorte de produtos químicos disponíveis na época, fossem em forma de inseticida para matar piolhos e muriçocas, fossem em forma de produtos de limpeza.
Era inseticida, era cera que deixava nossas mãos vermelhas por uma semana, removedor que era usado antes de encerar o chão e que nos deixava tontos com o cheiro forte, sabonetes que nos davam coceira... E para completar a toxicidade química, papai e mamãe fumavam que nem duas Caiporas!
Mamãe ensopava nossos cabelos com inseticida e íamos para a escola muito doidões (acho que era por isso que mesmo com a vida dura que tínhamos, sempre tiramos notas boas).
Sexta-feira era dia de limpeza e lá íamos nós nos expor ao fortíssimo cheiro do removedor e depois manchar nossas mãos com cera em pasta; cera líquida ainda era pouco conhecida e era mais cara.
Lavar roupas com sabão em pó e cândida e ficar com as mãos secas e descascando.
Latas com soda cáustica para desentupir os ralos e fossas.
Álcool para limpeza de vidros e a fórmica dos móveis.
Lustra móveis para os de madeira.
E querosene também.
Sobrevivemos a tudo isso e acho que foi por esse motivo que não nos viciamos em bebida, cigarro e drogas ilícitas (só as lícitas: café, chocolate e cerveja).
Fomos expostos a tantos cheiros fortes e a tanta química que fomos naturalmente imunizados contra qualquer vício desse tipo. 
Ainda bem.
Sobrevivemos.


                                     

sábado, 21 de abril de 2012

Cobra

Papai orgulhava-se de ser pernambucano, palmeirense e macho.
Papai também orgulhava-se em dizer: "Duas coisas que eu não conheço: medo e preguiça"
Mas mamãe cantava mais alto e papai ouvia; reclamava mas ouvia.
Papai contava suas peripécias e artes e dizia: "Eu mato o pau e mostro a cobra!"
"É ao contrário, pai!"
"Oxe! E o que foi que eu disse?!"


                                          

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Gente

                                            


O Brasil é um país multicultural; de muitos povos, muitas línguas, muitas culturas.
Aqui estavam os índios quando os portugueses chegaram e tempos depois vieram os escravos negros da África.
Além desses povos aportaram no Brasil outros imigrantes europeus, asiáticos, orientais...
Mas segundo a História, alguns povos não eram bem vistos e eram tratados e tidos com animais ou seres inferiores. 
O ser humano e sua capacidade de julgar, humilhar e destruir aquilo que não entende, não conhece e teme.
Italianos, Negros, Judeus, Indígenas eram tratados como inferiores.
Na carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal é feita menção ao fato de os índios não serem judeus por não serem circuncidados e o narrador da carta ficara encantado com a cultura dos nossos índios.
Outra coisa que acho interessante é quando alguém fala "de boca cheia" que é descendente de europeu. Mas todos nós somos! A suposta descoberta do Brasil por portugueses é prova disso. Portugueses são europeus.
Bom...
O avô de papai, José Soares, veio de Portugal para o Brasil no final do século XIX (19) início do século XX (20) e instalou-se no sertão pernambucano em busca de terras para construir sua nova moradia. Era solteiro e procurava por aqui uma moça para se casar. Mas eis que o bisavô está explorando suas terras quando percebe a presença de alguém na mata: era uma bela índia. Naquela época os índios eram expulsos de suas terras sem muita cerimônia; não muito diferente do que acontece hoje.
Bisavô estranha aquele tipo diferente de gente; a pela escura, os olhos puxados, os cabelos lisos e negros, a nudez. Bisavô pensa tratar-se de alguma espécie estranha de bicho, mas era gente. Ele pega seu chicote e laça a bela índia e a leva consigo para casa. Não falam a mesma língua, claro, e ambos se estranham mutuamente.
A índia recebe o nome de Belarmina e com meu bisavô constitui família. Entre os muitos filhos do casal está meu avô José e ele herda os belos olhos verdes de meu bisavô e a bela pele escura da bisavó índia.
E anos depois a mesma mistura continua com sua presença forte na família: temos loiros, galegos, morenos, negros...
E somos todos gente.


                                          


                                     

sexta-feira, 9 de março de 2012

Primeiros Nomes

Rosi, Naldão, Fubá, Rejane, Renata, Rogério e Lila, nossa meia prima, meia irmã.
                                                                                     
Mamãe teve sete filhos, hoje somos seis.
Todos os filhos de mamãe têm o nome iniciado pela letra "R".
É tradição nas famílias nordestinas dar nome aos filhos usando sempre a mesma letra; temos primos com nomes iniciados pelas letras "D", "E", e por aí vai.
E tudo começou comigo, a primeira filha.
Mamãe queria que eu fosse menino e papai, Paipreto e avô José queriam que eu viesse menina; venceu a maioria.
O problema agora era escolher um nome para mim.
Na verdade seriam dois nomes, pois o primeiro nome é sempre Maria para as meninas e José para os meninos, principalmente se a criança tivesse nascido com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Segundo a crendice popular, se não fosse dado um nome de santo à criança, esta poderia morrer enforcada ou sufocada.
Meu Paipreto, como bom português-católico-religioso-nordestino, queria Maria de Fátima e minha também religiosíssima Mãevelha queria Maria do Rosário ou da Conceição.
E muitas outras Maria-alguma-coisa foram sugeridas: Maria das Dores, Maria dos Remédios...
Bom, Maria já era certo porque eu havia nascido com o cordão em volta do pescoço, faltava agora o segundo nome.
Papai queria Joana D'Arc. Não concordaram, pois Joana D'Arc foi uma santa que sofreu muito. 
Venceu a maioria de novo, graças a Deus.
Uma prima nossa estava presente durante o momento decisivo e teve presença de espírito, graças a Deus; a prima olhou em um calendário que trazia nomes relativos à data de nascimento, aos santos e ao horóscopo e havia os seguintes nomes: Regina, Regiane, Rejane.
Eram nomes que estavam no calendário de 22 de março de 1967. Há quase exatos 45 anos.
Mamãe gostou de Rejane e de Maria Rejane fui batizada. Regiane e Regina eram nomes muito delicados para uma bebezona de quase cinco quilos.
Tempos depois veio o segundo filho, José Rinaldo, mas ele viveu apenas uma semana.
Em 29 de fevereiro de 1970 veio José Rogério. Haviam sugerido o nome Roger, mas alguém disse que soava muito estrangeiro e era difícil de pronunciar; o povo ia dizer "Rógi".
Mamãe gostava do cantor Jackson do Pandeiro e cogitou em batizar meu irmão de Jackson, mas o nome fugia aos dois "R" de Rejane e Rinaldo. E além do mais, o povo não saberia pronunciar Jackson e iria dizer "Jáquisu". Melhor Rogério mesmo.
Em 27 de maio de 1971 veio Reginaldo, meu irmão Naldão, aquele de saúde e português perfeitos.
Papai viajara a São Paulo e deixou mamãe grávida de Naldão e disse que se fosse menina deveria receber o nome de Regina, Maria Regina, claro. Seria uma dupla sertaneja: Maria Rejane e Maria Regina. Ainda bem que veio menino.
Em São Paulo, 29 de junho de 1974, dia de São Pedro e do aniversário de Paipreto, nasce a primeira paulistana da família: Rosi.
Mãevelha disse a mamãe que se fosse um cabra macho deveria se chamar Pedro, mas como era menina fêmea, deveria se chamar Pedrita.
Mamãe queria Paula ou Fernanda, mas... Mais uma vez esses nomes fugiriam ao tradicionalíssimo "R".
Ainda no hospital, uma enfermeira sugere a mamãe o nome Rosilene e ficaria também dentro dos "R". Mamãe gostou, mas a Rosi nem tanto.
O segundo paulistano a chegar foi Ronaldo, nosso Fubá. Papai queria Roberto, mas eu não gostei porque Roberto era o nome do encarregado de papai e eu não topava com esse cavalheiro; que Deus o tenha pra lá. Amém.
Na época em que Fubá nasceu havia um programa de televisão no qual alunos de universidades respondiam a perguntas de conhecimentos gerais e havia um rapaz muito inteligente chamado Ronaldo Bandeira. Gostei do nome, começava com "R" e quem sabe meu irmão não seria tão inteligente quanto aquele Ronaldo da TV.
A última paulistana a nascer foi Renata, em 02 de abril de 1981.
Papai queria Rosana e eu queria Raquel (Rachel) ou Renata. Mas eu achava Renata mais bonito.
Papai me surpreendeu, pois achei que ele iria ao cartório e registraria Rosana, mas chegou com a certidão de nascimento da nossa caçula e lá estava o nome Renata.
Mas minha inteligente, arteira e artística irmã caçula Renata prefere ser chamada pela tola alcunha de "Nara", isso porque supostamente seria essa a pronúncia de seu nome falado por estrangeiros. Tá. Tudo isso por causa de um grupo de tiozões quase quarentões chamado de "Back Street Boys", ou "Boyola Boys", como gostamos de chamar, só pra contrariar. hehehe.
Bom, gosto não se discute, se lamenta.
Mas...
São três pernambucanos e três paulistanos que somam seis talentosos, inteligentes, teimosos, "inguinórantes, e às vezes (muitas vezes) infantis "R" de dona Marlene e seu José.
É nóis.
                                        
                                                 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

São tantas emoções

Estive bem triste esses dias, bem deprê mesmo! Sou humana, demasiado humana (Nietzsche).
Deixei de fazer coisas que gosto, de ver pessoas que gosto e de ir a lugares que gosto: basicamente à casa da minha irmã e ao Pet SHop para comprar a ração das minhas gatas. Isso sem contar visitas a médicos gatinhos (sim, meus médicos são gatíssimos), visitas à farmácia para comprar tudo no cartão de crédito e quando a fatura chegar só pagar o mínimo. O pobreza! Queria ser pobre só uma vez na vida, porque todo dia é dose!
Fico imaginando a dificuldade pela qual passam idosos aposentados; recebem o salário mínimo e o deixam praticamente na farmácia. Os remédios são caros demais! É muita ganância e mesquinhez lucrar com a doença das pessoas!
Pensei em me isolar das pessoas, de tudo e de todos. Escrevi e-mails para a Silvia, uma amiga muito bacana e ela sugeriu a ideia do blog. Ela e eu pesquisamos sobre Acromegalia, mas não encontramos muita coisa. E o curioso é que quando finalmente encontramos alguma informação, nos surpreendemos com o número de pessoas acromegálicas no Brasil e no mundo! Então por que essa doença é tão desconhecida?
Fiquei bastante animada com a ideia do blog e seria estranho eu me isolar de uma das minhas maiores paixões: ler e escrever. E além do mais, esse blog tem o intuito de trocar informações com pessoas que, acromegálicas ou não têm o desejo de buscar conhecimento (não, não é o E.T. Bilú !) e evitar/desfazer o preconceito.
E decidi...Não, não vou me isolar de jeito maneira jeito qualidade! Não tenho culpa de ser acromegálica!Não tenho culpa de não me encaixar nos padrões de beleza estabelecidos. Estabelecidos por quem mesmo?
Tenho o direito de ir e vir. Como dizia minha titância mãe, sou honesta, sou cumpridora dos meus deveres e não desejo mal a quase ninguém.
Se queremos respeito temos primeiramente de respeitar e nos fazer respeitar. Então é isso. Se me olham, dou um sorriso, se insistem, pergunto se posso ajudar. Isso deixa a pessoa sem graça, desarmada, com cara de bunda mesmo. Bunda tem cara?
Falei hoje com o Valdir, um amigo acromegálico e perguntei se poderia mencioná-lo no blog. Ele concordou. Um cara legal, trabalhador esse Valdir. Vive ocupado.
Estou divulgando meu blog e minha irmã Renata também está divulgando entre suas amigas. Minha irmã não é o Roberto Carlos, mas ela tem um milhão de amigos!     
...                                                                           
Bom...minha cabeça está a mil. Tenho lido muito e retorno à escrita. As lembranças e as saudades de meus pais me trazem de volta memórias que fazem parte do que nós somos hoje. 
São tantas emoções...
No caminho de volta para casa, hoje à tarde, lembrei-me de algumas frases absurdas de papai. Meu Deus, era muita "inguinoránça!"
Para começar, papai dizia que era um homem sem defeito, era o homem de Deus. Aliás, segundo ele mesmo, meu pai e não Deus, o único defeito que ele tinha era o de ser pobre. Era honesto, trabalhador, nordestino e cabra macho.
Certa vez, no que deveria ser um simples exame de próstata, papai revoltou-se e disse essa pérola ao médico: "Sou pernambucano, Palmeirense e Macho! E ninguém vai enfiar o dedo no meu r...!".
Papai também trocava as letras e as sílabas das palavras, as pronunciava com seu jeito particular, sua própria marca de oralidade. Pesquisávamos nos livros - não havia Internet naquela época - sobre sanguessuga e papai nos corrigiu a pronúncia; disse que não era sanguessuga e sim xamexuga! Não adiantou tentar convencê-lo do contrário e ainda lhe mostramos o livro. Papai disse: "O livro está errado! É xamexuga"!.
É..."A inguinórança astravanca o pogresso!"
José Soares. Meu pai.
Pernambucano, Palmeirense e Macho!