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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ocasião Especial

                                  


Liguei para minha sobrinha Maria Julia e perguntei se ela gostou do livro que lhe mandei pelo tio Fubá. Adorou.
O livro é "O Corpo Humano" e Maria Julia tem muito interesse em Ciências, Biologia e Matemática. Inteligente essa minha sobrinha.
Ela comentou o seguinte: "Tem uma foto de pulmões de fumante, sabia? É todo preto, credo! Sabia que o cigarro faz muito mal para a saúde? Foi um pessoal na escola e falou sobre tudo isso e disse que cigarro, álcool e drogas prejudicam a saúde das pessoas. Beber um pouquinho até pode, né tia Rejane? Mas só em ocasiões especiais".
Certo. Beber pouco e só em ocasiões especiais e se beber, não dirija.
Mas eu fiquei curiosa, o que minha sobrinha de dez anos entende por "ocasião especial"?
Tão linda.
É isso.





                                       

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Sabão em pó, LSD, Música...

                                         


Era o ano de 1974.
Mamãe e Mãevelha lavavam roupas e o rádio de pilha sempre ligado. 
Tocava uma música dos Beatles "Lucy in the Sky with Diamonds" (Lúcia no céu com diamantes). As iniciais da música faziam referência à droga LSD (ácido lisérgico), uma droga sintética descoberta pelo químico suíço Albert Hofmann. A droga provoca viagens, alterações sensoriais, delírios e alucinações.
O livro Moksha de Aldous Huxley faz referência ao uso de drogas psicodélicas para permitir viagens, abertura da mente e o desenvolvimento das potencialidades humanas. 
Com todo respeito a quem faz uso de drogas, mas eu prefiro viajar nas páginas de um livro.
Bom...
Acabava de tocar a música e o locutor traduzia o título: Lúcia no céu com diamantes e eu imaginava minha prima Lúcia no céu olhando para os diamantes em suas mãos.
Minha prima Lúcia é dois anos mais velha que eu.
Mamãe e Mãevelha lavando as roupas com o sabão em pó Viva 74
O comercial mostrava uma mulher com cabelo liso cortado em cuia que marcava um X com fita crepe em uma camiseta; depois ela removia a fita e ficava o X marcado na camiseta que seria facilmente lavado/removido pelo sabão em pó.
Eu achava isso tudo muito bacana e queria que mamãe comprasse fita crepe para fazermos a experiência do sabão em pó: "Oxe, tome tento menina! E tu acha que eu vou bem deixar de comprar sabão pra lavar as roupas pra gastar com besteira! Oxe!".
Eu seguia ouvindo as músicas do rádio, imaginando minha prima Lúcia no céu com diamantes e sonhando com o dia em que faria a experiência do X.
É isso.

                                               

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sobrevivência

                                                


Euclides da Cunha, em seu livro "Os Sertões", disse: "O sertanejo é antes de tudo um forte".
Somos sertanejos, somos fortes. Viemos lá do Sertão pernambucano para vida melhor tentar em Sum Paulo. "Meu Santo São Paulo, como dizia mamãe".
Já passamos por muitos e bons bocados e isso prova nossa força, nossa sobrevivência: seca, fome, trancados em casa enquanto papai e mamãe trabalhavam, vigiados e guardados por um cachorro, trabalho, responsabilidades e... Produtos Químicos!
Explico.
Era comum a venda de produtos de limpeza por senhores que paravam sua perua na rua e ofereciam água sanitária (cândida), amaciante de roupas, detergente, desinfetante, cera, sabão etc... Hoje ainda existe esse tipo de comércio, mas está mais restrito a bairros distantes.
Há uma infinidade grande de produtos de limpeza vendidos em supermercados e que prometem limpeza, brilho, maciez num piscar de olhos. É.
Fomos expostos à toda sorte de produtos químicos disponíveis na época, fossem em forma de inseticida para matar piolhos e muriçocas, fossem em forma de produtos de limpeza.
Era inseticida, era cera que deixava nossas mãos vermelhas por uma semana, removedor que era usado antes de encerar o chão e que nos deixava tontos com o cheiro forte, sabonetes que nos davam coceira... E para completar a toxicidade química, papai e mamãe fumavam que nem duas Caiporas!
Mamãe ensopava nossos cabelos com inseticida e íamos para a escola muito doidões (acho que era por isso que mesmo com a vida dura que tínhamos, sempre tiramos notas boas).
Sexta-feira era dia de limpeza e lá íamos nós nos expor ao fortíssimo cheiro do removedor e depois manchar nossas mãos com cera em pasta; cera líquida ainda era pouco conhecida e era mais cara.
Lavar roupas com sabão em pó e cândida e ficar com as mãos secas e descascando.
Latas com soda cáustica para desentupir os ralos e fossas.
Álcool para limpeza de vidros e a fórmica dos móveis.
Lustra móveis para os de madeira.
E querosene também.
Sobrevivemos a tudo isso e acho que foi por esse motivo que não nos viciamos em bebida, cigarro e drogas ilícitas (só as lícitas: café, chocolate e cerveja).
Fomos expostos a tantos cheiros fortes e a tanta química que fomos naturalmente imunizados contra qualquer vício desse tipo. 
Ainda bem.
Sobrevivemos.


                                     

terça-feira, 20 de março de 2012

Lico Doido

                                               


Era um jovem rapaz que andava pelas ruas do bairro.
Lico Doido tinha barba grande, cabelos desgrenhados, roupas sujas, pés descalços, falava sozinho e sempre andava com um velho e sujo saco de estopa.
Os moradores mais antigos do bairro diziam que Lico Doido era uma rapaz bonito e de boa família mas que trocou e perdeu tudo para as drogas. Infelizmente.
A molecada adorava provocar Lico Doido para poder sair correndo dele.
Mamãe não gostava que o provocassem e dizia que poderia ser perigoso, pois ninguém sabia o que Lico Doido trazia naquele saco de estopa; mas era exatamente por isso que a molecada o provocava.
Numa tarde bonita de sol Lico Doido para sob um jasmineiro e começa a colher e a cheirar as flores. Ele cheirava as flores, conversava com elas e depois as depositava cuidadosamente em seu saco de estopa.
Talvez fosse isso o que Lico Doida trazia em seu saco de estopa: flores.