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sábado, 12 de dezembro de 2015

Encarregado

                      Resultado de imagem para fábricas       

Algum sem noção, e sem respeito pelos outros, deixou em duas estações do metrô mochilas com artefatos que pareciam bombas. Resultado: tudo parado, Polícia, Esquadrão Anti-Bombas, horas de atraso e falta ao trabalho.
Filas enormes, muita confusão e muita gente sem saber o que estava acontecendo.
Comentei com minha irmã e disse que não valia à pena esperar a manhã inteira; eu voltaria para casa. Mas ela lembrou que muitos patrões não entenderiam a situação e muitos trabalhadores seriam prejudicados. Verdade.
Lembrei de mamãe e do que ela falava quando conversava com outros adultos sobre trabalho, faltas, encarregados, chefes, descontos etc...
Se a gente faltar na sexta-feira, perde o dia, mais o sábado e o domingo. Eu não entedia como alguém poderia perder esses dias; mamãe sempre ficava em casa nos fins de semana.
Se a gente chegar atrasado, o encarregado anota e depois desconta do pagamento. Quando a gente vai ao banheiro, o encarregado marca quanto tempo a gente demora e depois reclama. 
Eu ouvia isso e ficava com raiva desse tal encarregado. Quem é essa pessoa? É gente?, É bicho? É uma máquina?
Antes não havia tantas leis e sindicatos de apoio ao trabalhador como existem hoje e na minha visão de criança, todo trabalhador era meio escravo, era triste, não tinha liberdade, não podia demorar no banheiro, não podia reclamar de nada, aceitar tudo o que lhe fosse pedido e imposto e ainda dizer "sim, senhor".
Todo trabalhador era gado marcado, seguindo a mesma rotina, temendo aquele tal de encarregado, aquele que lhe dava ordem e que lhe botava medo caso cometesse algum erro. Mas herrar não é umano?!
Mamãe sempre falava de um encarregado de nome Wagner, e, segundo o que ela contava, era o Capeta no Inferno e esse cara na Terra.
Papai falava de um encarregado chamado Robertão e eu não ia com a cara do distinto cavalheiro. Esse tal humilhava papai e fazia brincadeiras maldosas sobre seu modo de falar.
Eu queria tanto poder fazer algo, falar com esses encarregados e dizer-lhes para tratar melhor meus pais e a todos os outros funcionários. 
Eu ficava tão triste com a soberba, a arrogância e a maldade humana.
Ainda fico.
É isso.



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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Toucinho

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Finalmente o tão esperado quinto dia útil do mês. É, mas alegria de pobre dura pouco e o salário desse mês não vai ser suficiente, também, para pagar todas as contas.
É tanta coisa junta... Haja saúde física e emocional para aguentar o tranco. Se eu ainda tivesse saúde boa, eu trabalharia e isso aliviaria os problemas.
Estou cansada de ficar trancada dentro de casa por dias e dias e só sair quando vou ao médico ou à casa da minha irmã, e olhe lá.
Tenho pensando tanto, filosofado e buscado respostas nas mais variadas filosofias, crenças, religiões etc... Todas têm algo útil e bom a dizer, mas não respondem à todas as perguntas, infelizmente.
Umas dizem que fiz algo de muito errado em outra vida e estou pagando nessa porque não deu tempo de pagar tudo na primeira. Caramba! O que foi que eu fiz?! Matei alguém?!
Não posso pensar em algo mais grave, sério, desumano e cruel que tirar a vida de outra criatura, seja ela humana ou animal.
E na boa, se eu fiz algo de errado, foi na outra vida, não nessa! Sempre fui honesta, trabalhadora, quieta no meu canto, nunca prejudiquei ninguém e nunca peguei nada do que não me pertencesse. Por que então?!
Outras dizem que é um processo evolutivo e que é necessário passar por isso. Caramba de novo! Tenho me que lascar tanto para evoluir? Tenho que me converter à uma determinada religião para ser salva? Salva do quê? Dos meus problemas? 
Só quero ter o direito de ir e vir, de ter uma saúde boa, de trabalhar, de viver minha vida, de não ser tratada e julgada como inútil, inválida e incapaz.
Não sou.
Me dediquei tanto aos outros, sempre tratei a todos como frágeis e extremamente carentes e dependentes de mim. Sempre me achei a grande mãe de meus irmãos e de todos que uma vez outra precisaram de mim. Sempre coloquei a vida e os problemas dos outros à frente dos meus; eu não era tão importante assim e poderia viver minha vida depois, sempre depois.
Tento escapar da tristeza profunda, da melancolia sedutora e da depressão devastadora e elas me cercam.
Mágoas, decepções, injustiça, ingratidão, dificuldades...
Será que não teria sido melhor se eu não tivesse voltado do coma? 
Mas dizem que dias melhores virão, que toda essa fase ruim vai passar, que coisas boas estão a caminho. Tomara meu Deus, tomara. Acho que tu me deve essa.
Gregor Samsa, Tântalo e Sísifo me representam. Nesse momento, sim.
É bobagem a gente esperar que os outros façam e ajam de acordo com nossos princípios, crenças e vontades. Cada cabeça, uma sentença, já dizia mamãe.
Decepções, mágoas e tristeza disputando meu coração com colesterol alto e triglicérides. Eita!
Será que o coração acromegálico vai aguentar?
"Guenta sim! Eu já comi toucinho com mais cabelo!", diria mamãe.
Mas o toucinho estão tão cabeludo!
É isso.

      
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quinta-feira, 19 de março de 2015

19 de Março



                                    Resultado de imagem para 19 de março sertanejo plantando


Fui ao Atacadão e fiz minhas compras, finalmente.
Não gosto de comprar de "quilinho" e gosto é de ver tudo cheio: armário da cozinha, geladeira, fruteira... Gosto de fartura.
Meu irmão foi comigo e havíamos combinado de cada um empurrar um carrinho: ele com as compras e eu apenas usando como apoio. Não deu muito certo.
As pernas fracas e moles; os pés sem força para pisar no chão. Um funcionário percebeu minha dificuldade e trouxe uma cadeira de rodas. Fizemos as compras, graças a Deus.
A parte sempre chata do Atacadão é quando os funcionários fecham os corredores e manobram empilhadeiras; não podemos escolher os produtos que queremos.
Seguimos em frente e acabei esquecendo de voltar para pegar varal, pó para maria mole, milharina para fazer cuscuz e outras coisinhas. 
Achei os preços dos ovos de Páscoa menos abusivos que os vistos em outras lojas e comprei duas barras de chocolate de um quilo; os preços estavam bons.
Me arretei com o preço do ovo recheado com marshmallow de limão e decidi fazer o meu próprio. Não estou achando dinheiro em árvore para pagar quase noventa reais em um mísero ovo de menos de quatrocentos gramas, oxe!
E também não sou dondoca ostentação para pagar caro por coisas e produtos só para ostentar e humilhar os pobres. Sou pobre mesmo.
Bom...
Voltamos para casa e meu irmão descarregou as compras. Ainda bem. Eu demoraria um tempão e ficaria exausta depois.
Está tudo escuro e os trovões anunciam mais chuva. Março cinzento, frio e chuvoso.
Hoje é dezenove de março, dia de São José, e dia de iniciar a plantação de milho, jerimum, macaxeira, batata doce e outros alimentos que serão colhidos entre São João e Santana (junho e julho, respectivamente). Permita Deus que a fartura de alimento seja grande no meu sertão nordestino.
E em todo canto do mundo. Amem.
Papai e mamãe completariam hoje quarenta e nove anos de casados. Nunca me esqueço dessas datas.
Estou com vontade de fazer pudim de tapioca. Tem a massa da tapioca, leite condensado e coco ralado; os principais ingredientes.
Gosto dessas coisas. E gosto mais ainda é de ter essas coisas em boa quantidade e fartura.
É isso.



                                  Resultado de imagem para marshmallow de limão


                                   


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Espelho d'água

                                 


Troco a água dos gatos duas ou três vezes por dia, embora eles adorem tomar água diretamente da torneira do banheiro ou do tanque.
Acho que foi o Marcelo Rubens Paiva, em sua coluna no Estadão, que disse que gatos adoram tomar água corrente.
Arrumo o quintal, troco a areia sanitária, rego as plantas, tiro as folhas velhas e amareladas de algumas e me encanto com o florescer de outras.
Léo Caramelo toma muita água; dizem que a ração é muito seca e salgada, não sei se é verdade.
A gataiada corre assim que coloco o pote com água fresca no chão e forma-se fila para tomar. Observo.
Reparo que Clara Blue vai até o pote, olha, observa e depois coloca a patinha na água e faz um movimento para afastar as folhas que caem das plantinhas e para "quebrar" aquela película que se forma na superfície, o que mamãe chamava de espelho d'água.
Acho esse nome bonito.
Achei tão bonitinho e interessante!
Os outros gatos também olham, mas escolhem um cantinho onde a água esteja mais limpa para beber, mas Clarinha mexe o líquido com a patinha.
Lembrei dos açudes e cacimbas cheias de pasta, planta aquática muito comum no Nordeste, e de ver mamãe e o povo da fazenda mexendo na água para afastar as plantas e depois encher potes e dar de beber aos animais.
Eu achava tudo aquilo tão bonito.
Às vezes, quando mamãe estava ocupada com os afazeres da casa, eu ia sozinha para a beira do açude ou cacimba e brincava com as plantas e as águas. 
Quando percebiam que eu não estava por perto, sabiam que eu estava aprontando alguma arte envolvendo água, animais e as coisas da Mãe Natureza, que sempre exerceu enorme fascínio sobre mim.
Mamãe ficava brava, minha avó Mãevelha me chamava de "menina impussivi" e meus avôs João e José achavam muita graça naquilo tudo.
Mamãe tinha medo da minha atração pela água ou da atração que o precioso líquido exerce sobre mim.
Mamãe não confiava em mim sozinha perto de rio, mar, açude ou o que fosse.
As águas atraem, são sedutoras e traiçoeiras, dizia ela.
Tive um dia pesado hoje e lembrar dessas histórias e causos de infância me fazem bem. Me trazem saudades, mas me fazem bem.
É isso.



                                      

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Opções

                                       



Sou da paz.
Embora meu carão acromegálico possa, talvez, mostrar o contrário, eu sou da paz. 
Trato a todos com educação e respeito, só não gosto de muita "firula, lero-lero, nhem-nhem-nhem, blá,blá,blá, tal e coisa, coisa e tal". 
Pronto, falei.
E julgar os outros pela aparência é um grande erro, a não ser que a pessoa esteja acima do peso e insista em usar legging quase transparente mostrando as coisas. Jesus, Maria José!
Bom...
Estou na sala dos professores lendo o jornal "A Folha de São Paulo; sou assinante do "Estadão", mas gosto de ler os fabulosos textos de Contardo Calligaris, colunista do jornal.
Jornais e revistas são assinados pela escola, mas são pouquíssimos os professores que se dão o trabalho de ler. Eu devoro tudo o que vejo largado ali na mesa.
Uma professora senta-se ao meu lado e puxa conversa e eu deixo o jornal de lado e bato um agradável papo com a colega. Ela se surpreendeu com minha educação, simpatia e ausência de preconceito e disse que muitos colegas a evitam por não gostar ou concordar com sua opção sexual.
Eu disse-lhe que ali dentro somos todos professore e a opção sexual, religiosa ou seja lá o que for de qualquer um, não me diz respeito; nem a mim nem a ninguém. Estamos ali para fazer nosso trabalho da melhor maneira possível, não estamos ali para julgar ou sermos julgados.
"Poxa, você é mente aberta mesmo! Só pessoas cultas têm essa visão de mundo. Você lê bastante né?..."
E aí a conversa prosseguiu; falamos sobre jornais, revistas, livros, autores, jornalistas, cultura... Assuntos que adoro falar a respeito.
Mamãe nos dizia: "Saibam entrar e sair dos lugares, a gente é pobre, mas tem que mostrar que tem educação".
Acho que ouvi mamãe.
É isso.