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terça-feira, 22 de julho de 2014

Bem

                               



Domingo frio e ensolarado; me preparava para ir à casa da minha irmã Rosi.
Abro o portão e a simpática e espertalhona vizinha, que quer um novo colchão fashion, me diz que tem um gatinho miando muito na firma da esquina. OK.
Vou até o local e não vejo nada, mas a menina vem e me mostra onde é: na firma no fim da rua. Diferente.
Parei o carro, ouvi o miado e chamo; vem um gatinho cinzento, magrinho, manco e bonitinho.
O coloquei na caixa de papelão e voltei para casa. Preparei uma cama quentinha, coloquei comida e água e o deixei na área de serviço. Fui para a casa da minha irmã.
Voltei depois de algumas horas e fui ver como estava o novo gatinho; estava bem.
Tranquei portas, fiz chá e liguei a TV; escuto miados meio assustados e sofridos. O gatinho estava com frio.
Trouxe o bichano para dentro de casa, forrei o chão com jornal e coloquei a caminha, a comida e a água e ele adormeceu.
Algum tempo depois o gatinho acorda, olha para mim, mia e vem ao meu encontro. Se esfregava nas minhas pernas, rolava fazendo charme, miava... Fiz-lhe carinho e ele ronronava, demonstrando alegria. Os imbuídos de ignorância e preconceito dizem que é asma, mas é o modo de o gato demonstrar contentamento. Gatos não latem nem balançam o rabo!
Peguei o bichinho no colo e olhei para saber se é macho ou fêmea; é fêmea, sempre fêmea, claro.
A mulher, a fêmea, de toda e qualquer espécie, sempre sofreu e sofre abusos, violência, intolerância e preconceito só pelo simples fato de ser fêmea!
Os muito machos e poderosos temem a mulher e por isso a castram das mais variadas e horrendas formas.
Bom...
O gatinho é gatinha e dei-lhe o nome Loretta.
Loretta se parece muito com Clara Blue, que é filha de Léo Caramelo.
Meu Leozinho deve ter aprontado muito por aí.
Um fato que tem me chamado a atenção é o grande número de animais mancos, ou com alguma deficiência, que cruzam ou cruzaram meu caminho.
Além de machos, as pessoas querem animais perfeitos, como se elas mesmas fossem muito perfeitas.
Minhas tias de Pernambuco, mamãe e minha avó Mãevelha dizem/diziam que eu tenho parte com São Francisco e São Lázaro.
Acho que sim e vejo pela óptica da bondade para com aqueles que não podem se defender sozinhos e que só me fazem bem. 
Eu mesma sou imperfeita fisicamente, tenho problemas de saúde intensificados pela Acromegalia e também tenho meus defeitos como pessoa, mas faço minha parte sendo sempre do bem.
É isso.



                                     

sábado, 9 de março de 2013

Dom Bruxético

                                     


Um conhecido de longa data diz que eu tenho um "dom bruxético".
Acho que ele quis se referir a um desconfiomêtro, sensibilidade, percepção extra sensorial e afins.
É assim, se eu não simpatizar com a pessoa e o nosso santo não cruzar, não adianta forçar a barra.
Isso acontece com os médicos, colegas de trabalho, locais e situações e até mesmo com familiares. 
Levei meu Ébano para consulta e esperava encontrar os veterinários com os quais estou acostumada, mas um deles não trabalha mais no local e o outro havia saído; fui atendida por uma veterinária desconhecida para mim.
A moça mostrou-se simpática e educada, mas não topei com a fachada dela.
Judiou do gato, fez mil subjeções e me assustou com suas teses e probabilidades do que poderia vir a ser a doença do meu gato. Estranhei e me estressei.
Por que tanto mistério e elucubrações se o diagnóstico de Ébano é semelhante ao de Aurora e Léo Caramelo?
Percebi que a médica é inexperiente e quis mostrar serviço fazendo e falando mil coisas diferentes e assustadoras.
Ligaram para eu comparecer ao local e conversar com a outra veterinária e, de cara, gostei dela. Bem mais experiente, precisa, direta ao ponto e sem firulas. 
Fiquei mais aliviada ao falar com ela e trouxe meu Ébano Nêgo Lindo para casa. Ele ainda urina com dificuldade, mas está bem melhor do que estava antes e até comeu um pouco.
Quando o levei, estava com quarenta graus de febre e com muita dor.
Enquanto tirava Ébano da gaiola, reparei em um cachorro na gaiola de baixo e fiquei com dó dele. O bichinho tremia e tinha problemas renais e hepáticos. Pedi a São Lázaro e São Francisco que cuidem dele também.
Não gosto de ver nada nem ninguém sofrer; muito menos bicho, seja ele bicho homem ou bicho animal.
Bom..
Não tive a intenção de desmerecer a veterinária inexperiente, mas espero não encontrá-la novamente caso precise retornar com qualquer um dos meus gatos.
Ela pode ser uma boa pessoa mas não gostei dela como profissional.
É isso.

                                   


                                     

Milagre da Multiplicação

                              


Como relatei na postagem anterior, meu gato negro lindo está internado e estou preocupada com ele.
Outra preocupação é com os valores cobrados; não é barato.
Preciso fazer o milagre da multiplicação; multiplicar meu rico salário de professora para pagar as contas habituais e mais essa que tenho com meu felino.
Eu vou conseguir.
Pelo jeito ficarei sem ovos de Páscoa e estou pensando em fazer um pequeno empréstimo. 
As coisas estão tão complicadas, meu Deus.
Pensei em fazer o "Gato Esperança", para doar ração, disque um; para doar dinheiro, fale comigo.
Sou muito criticada por ter muitos gatos e por gastar muito com eles. Algumas vezes deixo de comprar algo para mim só para comprar ração e areia sanitária para eles.
Eu os aceitei em minha casa quando foram jogados de qualquer jeito em minha garagem. Eu os salvei da fome, do frio e da crueldade humana. 
Para se ter uma ideia de quão estúpido é o bicho homem, meu Ébano Nêgo Lindo sofre preconceito porque é gato preto! Meu Cássio Antônio veio do extremo sul da capital e veio com marcas de queimadura de cigarro. Minha Aurora foi salva por um triz; tirada ainda recém nascida das mãos de crianças más.
Boreal foi jogado na calçada e chegou aqui magérrimo e esfomeado.
Léo Caramelo até hoje é estressado, medroso e fujão; marcas da violência que sofreu.
E ainda dizem que o bicho homem é o animal racional?!
Estou muito bem, obrigada, na companhia de meus gatos e faço tudo o que estiver ao meu alcance para mantê-los alimentados, saudáveis e amados.
É um direito de qualquer um me criticar, mas desses que me criticam, nenhum vem até a mim oferecer qualquer forma de ajuda. Ninguém paga a ração e o tratamento médico de meus gatos. Sou eu.
Faço milagres com a merreca do meu salário de professora e vou conseguir resolver mais um problema.
São Lázaro e Francisco, cuidem de minha gataiada, cuidem de mim e meu neguinho lindo.
Amém.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Bons Amigos

                              


Estou parecendo mãe de adolescente; não dorme enquanto os filhos não chegam. No meu caso, não durmo e não sossego enquanto meus seis gatos não estiverem todos em casa.
Semanas atrás voltei do supermercado e não encontrei Aurora, minha favorita em todo o Universo e em todas as Galáxias. Chamei, me desesperei e até acendi uma vela para São Lázaro e rezei.
Isso era umas oito horas da noite e lá pelas onze chega dona Aurora na maior cara de pau. Ela me olha com seus enormes olhos verdes e faz um miado diferente de quem faz um mea culpa.
Percebi que recentemente Aurora tem dado umas sumidas e só volta horas depois e hoje descobri o motivo dessas fugidas: um gatão branco, enorme, peludo, fofo e lindo;parece um leão branco.
Essa é minha Aurora!
Ela sobe pelo muro estreito entre minha casa e a do vizinho e nem se importa com os latidos de Sofia, a cachorra dele. Cachorra mesmo, da espécie canis lupus familiares, o cão doméstico vindo do lobo.
Bom...
Horas depois Aurora volta e escuto um miado forte e desesperado, é o gatão branco.
Ela vai ao quintal e os dois conversam, ela do chão e ele do alto, pela grade. Tão romântico, tão lindo.
Agora estou mais tranquila com as sumidas de Aurora, pois sei que ela está em boa e bela companhia felina.
Por enquanto são só bons amigos.
Mas... vai saber.

                                  

                            

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Desaparecimento

Minha Aurora, a terrível, linda e favorita
                                  

Fui ao supermercado para comprar minhas frutas e legumes, entre outras coisas. Confesso que saí de casa com medo da chuva; o céu estava escuro, com nuvens carregadas e relâmpagos furiosos.
Santa Clara clareai esses ares...
Não choveu, graças a Deus. Minha casa está em paz, meus gatos estão paz.
Mas percebo que minha inteligentíssima, linda, esperta, terrível, arteira e favoritíssima Aurora não está. Meu São Lázaro! Cadê minha gata?!
Sempre que saio e volto para casa encontro todos os seis gatos atrás da porta a esperar por mim, mas dessa vez minha Aurora não estava. 
Fiquei agoniada, avexada, aperreada... Elevei meu olhar aos céus e pedi a São Lázaro que trouxesse minha gata sã e salva e se Lázaro estivesse ocupado, que delegasse a função aos santos ou entidades que estivessem mais próximas e disponíveis. Só quem ama sabe o que é desespero.
Faço minhas orações e acendo velas para o povo todo do céu; penso que quanto mais gente procurando, melhor.
Tiro as compras das sacolas, guardo, organizo, como uma besteirinha, tomo banho e escuto um miado e uma patinha mourisca empurrando a porta do banheiro; era minha Aurora, graças a Deus! Agradeço a Todos.
Fico mais calma, estão todos os seis em casa comigo; assisto TV, vou para a cama e leio três edições da revista Galileu e finalizo a leitura do livro "A Volta do Jovem Príncipe" de A.G Roemmers.
O sono finalmente chega e adormeço cercada pelos meus adoráveis felinos.
É isso.


                                         

                                        Oração para Aviadores - Manuel Bandeira

                                        


Santa Clara, clareai

Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
de feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.

Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.

Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Agonia

Ébano Nêgo Lindo, charmoso, elegante, sensual e lindo
                                   

Levanto pela manhã e vejo poças de sangue pela casa. Procuro todos os seis gatos e examino um por um.
Morena Rosa está mancando, Ébano Nêgo Lindo vomita e Léo Caramelo sangra.
Léo tem as unhas quebradas, machucadas e roxas; seus órgãos genitais sangram. Meu Deus, será que foi briga com outros gatos da rua? Tomara que sim. É melhor que seja sim.
Ligo para todas as clínicas veterinárias que conheço, mas hoje é feriado.
O Pet Center da Marginal está aberto mas é caro e eu não tenho um centavo, graças a Deus.
Lembro que tenho um cartão de crédito que deixei bloqueado e que só usaria para emergências. É uma emergência. Ligo na central de atendimento para desbloquear o cartão e pedir senha mas sou informada que o cartão está cancelado por falta de uso e que é preciso pedir outro. Falei para a atendente: "Não posso esperar por outro cartão, tem que ser agora! Você está me entendendo?"
"Lamento, senhora".
Tá.
Ligo 102 para pedir informações sobre a Associação Protetora de Animais São Francisco de Assis, que fica na Rua Santo Eliseu, 272, Vila Maria, mas a apressada atendente da Embratel diz: "Nada consta, senhora, a Embratel agradece".
Agradece o quê, sua abestada?!
Ligo e deixo recado no celular da veterinária que castrou meus gatos e ela me orienta.
Ligo para minha amiga Cleusa em busca de conforto e ela me conforta, graças a Deus.
Cleusa me orienta a fazer um chá de quebra-pedra e depois de frio dar para os gatos; é cicatrizante e faz bem para os rins.
Choro, me desespero, rezo, peço a Deus e ao Povo lá de Cima que cuide dos meus bichos, que não os deixe sofrer e que alivie suas dores. Amém.
Acho que até foi bom eu não ter tido filhos, pois se com meu gatos adoentados eu entro em pânico, imagina com uma criança minha? Nossa Senhora!
Arrumo uma caminha quentinha, fofinha e confortável para Léo Caramelo e para Morena Rosa e a dor e o cansaço os fazem dormir. Isso é bom porque enquanto dormem são cicatrizados, tratados, curados.
Pego a imagem do meu São Lázaro e coloco perto da caminha de Léo Caramelo, acendo uma vela e faço minhas orações e meus pedidos: "Meu Deus, meu São Lázaro, meu São Francisco e todo o Povo aí de cima, eu sei que tem gente com problemas muito mais sérios que os meus, mas não peço só por mim, peço por meus bichinhos inocentes. Eles são bichos brutos, não sabem se defender, são inocentes e não merecem sofrer. Aliviem a dor e o sofrimentos deles, por favor. Amém"
Deus e o Povo lá de Cima devem estar com as orelhas ardendo de tanto eu chamar por eles e aperreá-los com minhas maluquices.
Mas se ser maluco é respeitar a tudo e a todos e amar incondicionalmente os animais e as coisas da Natureza, então quero permanecer na minha maluquez até o fim dos meus dias. Se ser normal é ser mesquinho, mau e maltratar vidas inocentes, então quero é distância da normalidade.
Domingo assisti ao programa do Marcelo Rezende e ele mostrou reportagens sobre animais abusados e pessoas que salvaram esses animais. Chorei ao ver o sofrimento do bichinho e, Deus me perdoe, desejei pegar o cabra que teve a coragem de praticar ato tão vil e fazer o mesmo com ele! 
Foi bom eu ter nascido menina, acho que se fosse cabra macho, como queria mamãe, eu já teria dado um bocado de cola brinco no escutador de rádio de filhos duma égua que maltrata animais e crianças inocentes. 
Foi e é bom eu ser menina e ser pacífica, calma, tranquila, educada, equilibrada e só um pouquinho impaciente. Deus está vendo.
Os gatos dormem novamente e amanhã os levarei ao veterinário para ver se está tudo bem mesmo. Permita Deus que sim.
Choro demais, me preocupo demais e me aperreio demais.
Sou humana, demasiado humana.
É isso.


Léo Caramelo e Morena Rosa quando ainda filhotes
                           

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Imagens e Detalhes

                                     

Sou muito observadora e como disse minha irmã Rosi: "A gente pega as coisas é nos detalhes". E ela está certa.
Desanimou-me o detalhe da capinha de dólar do doutor galã: ostentação e frieza.
Desanimou-me o corpinho de caminhoneiro do cardiologista: médico que cuida da saúde alheia tem que cuidar da sua saúde primeiro.
Desanimou-me a bagunça da recepção do consultório do ortopedista: imaturidade e bestagem de gente jovem e deslumbrada demais. Mas a seriedade e profissionalismo do doutor compensou a desorganização.
Bom...
Saio da clínica veterinária e me deparo com um senhor idoso acompanhado por um simpático cachorro de pelagem e olhos cor de caramelo; lindo.
O cachorro se aproxima de mim e eu lhe afago.
O idoso diz que andava pelo bairro desde manhã e que iria pedir um pouco de ração no pet shop que fica no andar de baixo da clínica. 
Perguntei-lhe se ele e o cão haviam almoçado e ele disse que um rapaz de uma firma havia dado um marmitex que foi dividido e devorado por ambos: ele e o cachorro.
Que Deus abençoe esse rapaz.
Eu perguntei ainda se ele e o cão haviam tomado água, essas comidas de marmitex são bem salgadinhas.
O idoso me pediu um real para comprar um pouco de ração caso o pessoal do pet shop se negasse a dar-lhe alguma. Eu tinha cinco reais na bolsa e dei a ele para comprar a ração do cachorro. Ele me agradeceu, o cachorro esfregou a cabeça em minhas pernas ao mesmo tempo agradecendo e pedindo carinho. 
Fui ao Pet Center da Marginal e passei pelos locais onde têm animais em exposição para a venda: cães, coelhos, aves, peixes...
Os cachorrinhos corriam para a frente de suas jaulas/gaiolas e abanavam o rabinho; as aves abriam suas asas coloridas e conversavam em sua língua exótica; dei a volta pelo aquário e o simpático e risonho baiacu me acompanhou. Fiquei contente pela saúde e bem estar do baiacu, pois da outra vez que lá estive, o peixe não estava muito disposto.
Volto para casa pela Marginal Tietê e entro em rua que tem um enorme terreno à venda, passo muito rápido mas vejo uma imagem azul que me lembrou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Dei marcha à ré e reparei que não era uma imagem, mas um saco de lixo azul que se dobrara e parecia a imagem da santa.
Cheguei em casa e alimentei os gatos com a ração nova e dei o remédio de Aurora. Sentei-me no sofá e estiquei as pernas, meus joelhos doíam muito, principalmente o direito, que estava inchado e parecendo uma broa de milho. Dirigi muito o dia inteiro.
Cochilei um pouco e me veio à mente a imagem de São Lázaro acompanhado por seus cães e a imagem de Nossa Senhora de Aparecida em seu manto azul.
Oxe! Que bom! Obrigada pela visita. 
Minha irmã Rosi tem razão, as coisas se revelam nos detalhes.
É isso.



                                 



quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ilha

                                                 


Mandei hoje pelo motoboy os exames pedidos pelo neurocirurgião do Instituto de Radiocirurgia Neurológica Gamma-Knife.
Mandei cópia para o outro neurocirurgião e amanhã levo mais exames para o endocrinologista.
Bom...
Dormi mal essa noite, para variar. Demoro a pegar no sono, levanto, ligo a TV, desligo, leio, olho para minha gataiada encolhida com frio e pedindo para eu apagar as luzes e me deitar com eles. 
Tenho tido sonhos estranhos há tempos e até comemoro quando consigo dormir e ter sonhos simples.
Mas...
Estávamos em um ilha cinzenta e fria, não havia luz do sol; vejo uma sardinha machucada, dilacerada, mordida e com marcas de corte de faca. Ela se debatia e lutava por ar. Eu a pego e a coloco em um pequeno aquário com peixinhos coloridos. Eu sabia que a sardinha morreria devido aos ferimentos, mas que pelo menos ela pudesse respirar em paz; um sofrimento a menos.
Assim que coloco a sardinha no aquário surge uma mulher furiosa e me pergunta: "Por que você fez isso?! Quem mandou você mexer aqui?!". Eu tentei explicar, mas a mulher voltou-se para um casal de crianças pequenas que tentava fugir dela. Era um sobradão antigo e cheio de portas e janelas de madeira. Eu desci as escadas rapidamente e abri a porta para as crianças escaparem.
Corremos por uma trilha no meio do mato cinzento com essa mulher e outras pessoas atrás de nós. Atravessamos uma ponte e à medida que corríamos, o cinza ficava para trás e à nossa frente abria-se uma aconchegante luz azul.
Paramos de correr para observar o trabalho de várias pessoas a abrir covas, como em cemitério. Eram muitas covas, eram muitos homens vestidos dos pés à cabeça e trabalhando sob uma chuvinha fina. 
Paro em frente a uma cova alta e um homem tirava a terra com as mãos e descobria um gato branco; eu gritava dizendo que o gato estava vivo!
Entramos em um enorme salão onde há uma festa. Muito brilho, muita cor, muitos sorrisos. 
A mulher é a anfitriã e eu observo seu comportamento. Em um dado momento vejo sua pele clara se abrir e dar lugar a uma pele grossa e rugosa e grito para todos que ela é uma bruxa, mas estranhamente a mulher diz que não a julguem por sua aparência, ela não é má.
Acordei gritando para as crianças e as pessoas saírem dali e não acreditarem na mulher.
Se ela fosse mesmo boa, por que perseguia as crianças? Por que não gostou quando eu tentei ajudar a pobre sardinha machucada?
Sei lá.
Minha amiga Cleusa diz que eu tenho certos dons, Mãevelha dizia que eu tinha parte com São Francisco e São Lázaro por gostar dos bichos e um conhecido meu diz que eu tenho dom "bruxético".
Vai saber.
É isso.




São Francisco
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quarta-feira, 7 de março de 2012

Fazenda Taquari

São Lázaro, amigo dos cachorros e de todos os animais
                                        
Nasci na Fazenda Taquari.
Papai trabalhava cuidando do gado e mamãe lecionava para as pessoas da região.
Algumas vezes meu primo João vinha me buscar para ficar com Paipreto e Mãevelha e assim mamãe poderia trabalhar sossegada.
Outras vezes Paipreto e Mãevelha iam à nossa casa para ajudar mamãe a cuidar de mim. Eu era terrível.
Eles ajudavam também com os afazeres domésticos e a tratar das criações (animais) da fazenda.
Era uma infinidade de vacas, cavalos, porcos, cabras, carneiros, galinhas, patos, perus, guinés (galinhas d'Angola) e outros bichos.
Eu adorava tudo isso. Sempre fui louca por animais.
Mamãe e Mãevelha iam ao galinheiro para pegar os ovos das patas, peruas e galinhas; as penosas quando estão chocas fazem um barulho estranho. Mãevelha dizia: "Aquela galinha ali está choca, visse Marlene? Pois arrepara como ela canta bonito".
Mamãe e Maevelha pegavam os ovos e separavam aqueles que estavam galados; seriam chocados e em pouco tempo teríamos pintinhos, patinhos e peruzinhos fofinhos e bonitinhos.
Eu ouvia interessada a conversa de mamãe e de minha avó e queria entender como era possível pintinhos e patinhos saírem de dentro daqueles ovos. Por onde eles tinham entrado?
Para responder a essa intrigante questão, eu pegava alguns dos ovos deixados para chocar e  os quebrava. Eu queria saber o que tinha dentro.
A resposta era uma boa palmada e uma bronca: "Menina danada!"
Voltávamos para casa; eu chorando e mamãe e Mãevelha lamentando os ovos perdidos.
As duas ficavam entretidas na cozinha e não percebiam quando eu saia.
Procurariam por mim e iriam me encontrar no curral, no meio do gado, no meio das aves e perto do açude. 
Eu colocava capim na boca das vacas e dos bois, brincava com a água do bebedouro das cabras, tentava pegar pasta (uma planta aquática) na beira do açude, acariciava e brincava com os animais...
Quando davam por mim era uma correria só. Mamãe e Mãevelha chamavam por Paipreto e papai e todos saíam juntos à minha procura.
Meu avô José, pai de papai, vinha chegando para uma visita e já sabia onde me encontrar.
De braços abertos, ele me chamava, e eu sorria e corria feliz em sua direção.
Avô José me envolvia em um doce e longo abraço, me cobria de beijos e dizia: "Minha neta!".
Havia muito orgulho e muito amor em suas palavras.
Avô José me segurava em seus braços e caminhava em direção ao restante da família que estava preocupada comigo e com minhas artes.
Mamãe e Mãevelha com as mesmas ladainhas de sempre: "Vixe Nossa Senhora! Que menina mais impussivi, meu Deus! Já pensou se um boi ou um cavalo faz uma arte nessa danada!"
Mamãe ajudava com o sermão: "E já pensou, mamãe, se um boi ou uma cabra empurra essa danada pra dentro do açude? Quando fosse dar fé, ela já teria morrido afogada. Valha-me Deus!"
A ladainha prosseguia...
Eu estava segura, sã e salva nos braços do meu avô José que ria das minhas artes e dizia para meu Paipreto: "Elas não entendem que nossa neta gosta de estar perto da criação, não é João? Querem criar a bichinha trancada dentro de casa. Oxe! Onde já se viu uma coisa dessa?!"
Paipreto concordava com avô José e ambos me protegiam e me defendiam das injustas acusações de mamãe e Mãevelha. 
Vamos todos para a cozinha, o café estava pronto.
Mamãe me deu algumas bolachas "cremi cráqui" (cream cracker) e eu fui caminhando para o alpendre da fazenda. Eles tomavam café e debatiam sobre meu caso e minhas artes.
Tínhamos um cachorro velho; um belo cachorro de pelos longos e avermelhados. 
O cão estava velho e doente e babava muito; ficava quieto pelos cantos e não queria saber de comer nem beber.
Eu caminho em direção ao cachorro que estava deitado num canto; ele olha para mim e emite um rosnado fraco. Pensei que ele queria me dizer alguma coisa, que não estava se sentindo bem.
Havia uma aranha caranguejeira se aproximando de mim.
Um trabalhador da fazenda vê a cena e corre espantado chamando a todos da casa. Avô José mata a caranguejeira e a joga longe e enquanto isso eu me aproximo do cachorro e coloco uma bolacha em sua boca; pensei que a bolacha o faria se sentir melhor e seria uma forma de agradecimento. Ele me lança um olhar triste.
Mamãe vem correndo e me puxa para longe do cachorro. Mãevelha lava minhas mãos e joga as bolachas fora.
Papai, Paipreto e avô José levam o cachorro para outra parte da fazenda; vão sacrificá-lo.
Mas não foi necessário, graças a Deus. 
Mamãe e Mãevelha reiniciam a ladainha de sempre: "Mas será Deus impussivi? Essa menina parece que tem parte com São Lázaro! A sorte dada por Deus foi que o cachorro não mordeu ela. Será que essa menina vai um dia tomar juízo, meu Padim Ciço do Juazeiro?"
Sob as bençãos de Deus, São Lázaro, Padre Cícero do Juazeiro, meu Paipreto e meu avô José, não tomei juízo até hoje e nem vou tomar, se Deus quiser.
Continuo fazendo minhas artes no que se refere ao amor que tenho pelos animais.
Amor que nasceu comigo na Fazenda Taquari.


Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço do Juazeiro