quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bala de Mel

                                              


Estávamos a pouco tempo em São Paulo e tínhamos nos mudado para o bairro onde moramos até hoje. Quando aqui chegamos, moramos por um mês num bairro da Penha, na casa do tio Manoel Gomes e nosso primo Pedro "Sabe como é o negócio" conseguira alugar um pequeno barraquinho próximo à sua casa.
O primo sempre falava a frase "Sabe como é o negócio" e a usava para tudo o que fosse assunto. Ele não é muito normal, é meio fraco das ideias.
Uma prima nossa, a Ivete, que ri de tudo e por tudo, já morava no bairro há algum tempo e pede ao seu marido, o finado Antonio Roque, para nos mostrar os arredores.
Mamãe e Mãevelha cuidam da limpeza do pequeno barraco enquanto papai, o tio Manoel Soares e o primo Pedro cuidam da mudança. Não tinha muito o que trazer; basicamente sacolas e malas com roupas e alguns pertences. A esposa do tio Manoel Gomes nos deu um sofá cama grandão e pesadão de plástico vermelho com minúsculas bolinhas coloridas. Aquilo me lembrava o Universo, as estrelas e as constelações. É, eu sei, eu tinha apenas seis anos, mas também sempre fui meio fraca das ideias. Mal de família.
É que tínhamos outro primo maluquetes mas de inteligência absurda e ele gostava de ir à casa de Paipreto e Mãevelha para estudar e ler seus muitos e adorados livros. Ele gostava da ampla mesa da casa de meus avós e dizia que estudava melhor naquela mesa grande e limpa. Eu também sou assim, nunca consegui estudar e/ou fazer minhas lições de casa se a mesa não estivesse limpa e arrumada. Mania de gente maluquetes.
O primo intelectual, João Cândido, nunca se casou, não teve filhos e preferia a companhia de seus preciosos livros à companhia de pessoas; de certas pessoas, talvez.
Estou achando que isso é mal de família mesmo. Ai Jesus!
João Cândido respondia às perguntas de Paipreto e falava sobre tudo: geografia, História, línguas, astronomia e para toda pergunta o primo tinha uma responda inteligente na ponta da língua.
Eu ouvia as conversas do primo João Cândido com Paipreto e acredito que foi dai também que surgiu meu interesse pelos livros e pelo conhecimento.
Aliás, meu Paipreto sempre dizia: "Minha filha, não tem riqueza maior no mundo do que o conhecimento".
Meu Paipreto.
Bom...
Durante a limpeza do barraco e a mudança dos nossos cacarecos, papai pede a Antonio Roque para ir comprar café e cigarros; não conhecia bem a região e estava ocupado com seus afazeres.
Vou com Antonio Roque ao botequinho e caminho segurando sua mão.
Antonio Roque era negro e alto e eu achava que ele parente do meu bisavô Francisco. 
E eu tenho uma coisa com mãos; adoro pegar, segurar, beijar, buscar força e conforto nas mãos daqueles que gosto. As compridas e fortes mãos de Rafaela, as brancas, finas e delicadas mãos de Maitê, as mãos hábeis ao segurar o lápis de Beatriz, as mãos sempre magrinhas, frágeis e compridas de Maria Julia, as mãos fofinhas e gordinhas de mamãe... Mãos.
Volto para casa com Antonio Roque e ele me mostra o bairro que consiste basicamente de chácaras, ruas de terra e de barro vermelho agora alagadas pelas fortes chuvas de março. São as águas de março fechando o verão é promessa de vida em teu coração - Tom Jobim e Elis Regina. Grandes talentos de nossa música.
Observo o verde das chácaras contrastando com o céu límpido e azul, as nuvens brancas e fofas, a terra vermelha molhada e a correnteza que se formara com as fortes chuvas.
Achei lindo aquele espetáculo da Natureza; aquela profusão de cores e sentidos.
Cheiro de terra molhada, cheiro das verduras frescas e molhadas das chácaras, cheiro do café e do cigarro de papai.
Antonio Roque havia comprado também algumas balas de mel. Para nós, bala era só de revólver e a bala doce era chamada de confeito. 
Lembro-me da embalagem das balas de mel, era um papel amarelo com listras pretas imitando o corpo de uma abelha. Lembro da marca da bala: Kid´s.
A bala era dura e recheada com um líquido que deveria ser mel. Era muito claro e ralo para ser mel, mas tinha gosto de mel. Pronto.
Caminhamos de volta para casa e paro aqui e ali para apreciar as belezas e encantos da Natureza. Antonio Roque espera pacientemente e diz para irmos logo, pois vai escurecer e papai e mamãe já devem estar preocupados com a demora. Não havia iluminação na nossa casa nem na rua, só nas ruas e avenidas principais do bairro. Nosso barraco era iluminado à luz de velas, mas pouco tempo depois foram feitas melhorias no bairro e já podíamos assistir ao Jornal Nacional numa grande, velha e pesada TV dada por tio Manoel Gomes. 
Chegamos finalmente em casa e mamãe pergunta: "E por onde vocês andaram?"
Antonio Roque conta o ocorrido e mamãe diz: "Mas essa minha moleca não jeito mesmo"




                                      


                                                     





terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Conselhos

                                                                                                 


Mãevelha achava engraçado e fazia piadinhas sobre o meu modo carinhoso de tratar os gatos lá de casa.
Ela dizia: "Minha filha, vou lhe dar um conselho: em vez de tu se agarrar e beijar esses gatos, tu devia era arrumar um gato de duas pernas".
Mas Mãevelha!.
O problema é que os gatos de duas pernas ou são casados ou já têm namorado. 
Assim fica difícil.


Aurora e Ébano num momento íntimo
                                 

Ano que vem

                                              


Fiz a segunda aplicação do remédio em meu joelho; a próxima dose será ano/mês que vem.
Volto para casa ansiosa no aguardo da ligação do hospital ou do meu médico.
Não consigo mais esperar e ligo. 
A cirurgia foi adiada mais uma vez! Ficou agora para janeiro 2012. Para o ano que vem.
Um dos meu médicos dissera que é muito difícil agendar procedimentos cirúrgicos nessa época do ano. Por quê?
No final do ano ninguém fica doente?
As doenças tiram férias e vão às compras natalinas e de Réveillon?
Talvez acompanhem os médicos às compras e viagens de fim de ano.
Bom...
Fui aconselhada a continuar com os medicamentos, a fazer exames, tomar o Sandostatin- LAR e correr para a emergência do hospital caso aconteça algo. Que algo?
Não dá para correr para o hospital com um joelho atacado pela artrose e uma coluna sustentada por quase duas dúzias de parafuso.
Não dá para correr nesse trânsito caótico de São Paulo.
É isso aí.
Estou cansada, com sono e meio assim assim. Não sei bem o que isso quer dizer, mas sei bem o que isso significa.


                                             

Mais uma batalha




Estou me preparando para mais uma batalha. Para mais uma guerra.
Se Deus quiser, sairei vencedora.
Se o Universo conspirar a meu favor, sairei vencedora.
Deus quer.
O Universo já conspira a meu favor.
Estou vestida com as roupas e as armas de Jorge. Salve Jorge.
Estou cercada, amparada, protegida e assistida por gente muito boa.
Gente que pede por mim; que reza, que ora, que pede, que implora.
Serão ouvidas. Já são ouvidas.
São em momentos como esse que nos damos conta o quão tolo é brigar, ofender, criticar, derramar sangue em nome de um deus ou de uma religião.
Deus é Uno é quer a mesma coisa de TODOS nós: união, paz, respeito e amor para conosco e para com nossos semelhantes. 
Os nomes dados à seitas, religiões, crenças ou seja lá o que for, são apenas rótulos criados pelo Homem para dar mais importância a uma coisa e consequentemente diminuir outra.
Os Homens (raça humana) são complicados.
Mas...
O importante é a fé.
Tenho fé em Deus que tudo dará certo.
Mamãe sempre dizia: "Tenho fé em Deus...Tenha fé em Deus, minha filha"
Pensando nisso, me lembrei de um comentário que o médico fez quando sai do coma e me recuperava aos poucos: "Tu é muito querida, guria. Tinha muita gente pedindo por ti".
Isso foi em 2009 e sempre me lembro dessa frase.
É verdade. E é um orgulho ser querida por pessoas mais queridas ainda que me querem bem sem se importarem com minha aparência física, com meu excesso ou falta de beleza física. Minha beleza está em minha alma, em meu caráter.
Isso também me faz pensar em como as pessoas podem ser boas quando se despem de suas vestes e rótulos impostos por um nome ou  por uma marca e se unem por um bem comum.
Não importa o nome que é dado a uma religião ou a uma crença, ou filosofia ou o que quer que seja; o importante é a UNIÃO.
Agradeço e peço a Deus que retribua carinhosamente à essas pessoas queridas o bem que elas me querem e que ouça suas orações, suas rezas, suas preces, seus pedidos.
Tem gente boa que é Católica, Espírita, Kardecista, Judia, Evangélica, da Umbanda, do Candomblé, da Rosa Cruz e de tantas outras denominações, definições. 
Agradeço a todos e peço respeito a todos e de todos para com todos. 
Amém.
                                                   





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Cabeça

Tenho algumas ideias e temas para serem escritos/falados aqui, mas estou meio sem cabeça para isso.
Estou muito cansada, chateada, preocupada.
São muitos "adas" invadindo minha cabeça e não deixam espaço para o prazer de escrever.
Amanhã eu volto.
Amanhã tomo a segunda dose do remédio do joelho e aguardo ligação do hospital com as orientações para a internação.
Vou-me.
Boa noite a todos.


                                

domingo, 11 de dezembro de 2011

Tristeza

                                           


Quando eu era pequena não entendia o que era tristeza.
Ficava triste algumas vezes, mas logo em seguida ia brincar e me esquecia da tristeza.
Mesmo quando passávamos por dificuldades ficava mais preocupada do que triste e sempre confiava em mamãe, principalmente quando ela lançava seu poderoso olhar aos céus e dizia: "Tenho fé em Deus que daqui pra de noite vou ter o pão em minha mesa para dar de comer aos meus filhos".
Confiava em mamãe. Confiava naquela força titânica, naquele poder de decisão, naquela vontade férrea de lutar, vencer.
Mamãe era o símbolo maior de força. Mamãe era a força.
Algumas vezes a vi chorar após ter discutido com papai. Uma vez perguntei: "O que foi, mãe?
"Nada não, filha".
Mamãe chorava sob a majestosa mangueira de nossa casa.
Era noite. Mamãe volta para casa e tudo volta ao normal.
Penso comigo mesma: "Não entendo porque as pessoas ficam tristes. Quando eu crescer, nunca vou ficar triste".
Se eu soubesse...
Outras vezes assistia novelas e não entendia aquele dramalhão e aquela choradeira toda. As personagens boazinhas tinham sempre que sofrer, chorar e no final tudo ficava bem.
Mas não é assim na vida real.
Hoje entendo porque as pessoas ficam tristes, só não sei explicar.


                                               

Suco de goiaba

                                            


Ontem fomos todos ao bingo na casa da minha irmã Rosi. É muito divertido.
Todo mundo querendo ganhar, todo mundo "secando" o outro e todo mundo (eu) "pifado" por um número mas o bendito não é chamado nem com reza brava! De outra feita eu levei uma cabeça de alho e um vidro com pimenta; deve ser isso. Se eu tivesse levado, talvez a "zica" fosse menor.
Tudo bem. O que vale mesmo é a diversão; ouvir pela milésima vez os causos contados por meu irmão Fubá e sua pronúncia engraçada quando ele resolve falar os números em inglês e espanhol.
Eu ganhei alguns prêmios, mas os distribui pela sobrinhada. Dei para Vinicius um shampoo em forma de cone de trânsito do filme Carros, um batom e um perfuminho para Maria Julia.
Ganhei lápis de cor, mas esses vou mantê-los comigo para fazer artes e pinturas com os sobrinhos depois.
Eu pretendia ficar com os sobrinhos, levá-los ao querido Shopping Penha de Beatriz e comprar suco de uva, mikshake, bata frita e um brinquedo no MacDonald´s.
São os programas favoritos deles.
Simples, mas eles adoram.
Quando eu estiver recuperada da cirurgia eu os levarei.
Maria Julia ouve a conversa sobre minha cirurgia, olha para minha cicatriz na garganta e diz: "Tia Rejane, sabia que suco de goiaba é bom para cicatrização? Se você tomar bastante suco de goiaba essa sua cicatriz vai sumir rapidão".
Essa cicatriz não me incomoda; são aquelas invisíveis aos olhos.


                                              

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cacos de telha

                                           


Fui com minha irmã Rosi ao supermercado. Fizemos uma pequena compra e entre os itens, minha irmã pega uma esponja natural para lavar os pés.
Eu gosto mais de pedra pomes.
Enquanto andávamos pelos corredores do supermercado, lembrávamos de papai e de seu lava pés. Nossos pés que eram lavados, não os de papai.
Esclareço.
Brincávamos na rua, corríamos, suávamos e voltávamos imundos para casa.
Fubá dizia que não precisava tomar banho porque estava limpo. Certo.
Papai nos chamava e fazíamos fila para termos nossos pés lavados no tanque de lavar roupas e, advinha por quem? Papai.
Nosso querido e amado pai. 
Papai nos colocava dentro do tanque, que naquela época era de cimento, grandão e pesadão. Os tanques de hoje são muito pequeninos e frágeis, não nos aguentaria dentro.
Bom...
O tanque já estava cheio com água e sabão e ao lado tinha aquelas duras e ásperas escovas de lavar roupas e cacos de telha.
Papai primeiro tirava o grosso da sujeira, mergulhava nossos pés na água ensaboada e esfregava primeiramente com a escova e arrematava com os cacos de telha. Esfregava tanto que a pele de nossos pés ficava transparente e podíamos ver as veias. Mais um pouco e poderia ocorrer uma hemorragia. Juro por Deus.
Papai era muito exagerado.
Um a um. Todos os seis filhos. Todo mundo com os pés limpos.
Papai.


                                          

Paixão

                                                                                     


Paixão é sofrimento. 
Temos a Paixão de Cristo; temos crimes passionais, paixonites agudas, frases "amo de paixão" e um sem fim de sentimentos fortes, tensos, intensos, sofridos.
"Mas o que é o sofrer para mim que estou jurado a morrer de amor..." Djavan.
Assistia à final do Brasileirão 2011, Palmeiras x Corinthians....Vai Curinthia!!!!. 
Desculpe.
Bom, assistia ao jogo e aos comentários tecidos por Casagrande e Cleber Machado e lembrei que na minha adolescência fui apaixonada pelo Casagrande. Walter Casagrande Junior.
Sabia o nome completo dele, recortava fotos dos jornais e não perdia os programas esportivos, principalmente o Globo Esporte, só para ver as entrevistas com o objeto do meu desejo.
Fui e sou apaixonada por Marcelo Tas e Lobão. Amo suas mentes brilhantes e inquietas.
Adorava assistir à programação infantil da TV Cultura para ver Marcelo Tas dizer: "Olá, Classe" e " 'Porque sim' não é resposta". Achava uma gracinha sua voz marcante e um tanto quanto esganiçada.
Achava Lobão meio maluco, rebelde, radical, inteligente e fingia concordar com um professor que dizia: "Lobão não passa de um maconheiro". Ele dizia outras coisas também, mas melhor mantermos a discrição.
Eu fingia concordar com o professor porque ele era advogado, era um senhor "pai de neto", como dizia mamãe e eu tinha que manter minha normalidade e minhas notas. Desculpa aí, Lobão.
Fui apaixonada também pelo ex goleiro Leão, o Penélope Charmosa de belas pernas. O leão era um gato!
Outra paixonite futebolística foi o ex goleiro Zetti; muito gato também.
E além do futebol tive paixões do vôlei e do basquete. Sou uma pessoa que adora esporte.
E por falar em futebol...
Não entendo os nomes das posições dos jogadores: zaga, lateral direito, líbero, atacante;
não entendo pequena área, grande área, impedimento... Minha irmã Rosi entende pra caramba!
Eu não.
Para mim são dois goleiros e mais dez homens de cada lado adversário correndo atrás da bola e tentando chutá-la em direção ao gol. 
A bola entrou, balançou a rede, é gol. Pronto. Simples assim.
E melhor, claro, quando é a bola do Corinthians que balança a rede.
Futebol também é paixão.
Então é isso.
Revelo aqui algumas das minhas maiores paixões. 
Eu nunca fui disso; será que é o Espírito Natalino? 


Lobão
Marcelo Tas
Casagrande
   

Poupar

"Vou estar me irritando"
                                            
Sexta-feira de muita chuva em São Paulo e, para variar, caos no trânsito.
Faço algumas ligações e organizo as coisas aqui em casa para deixar tudo ajeitadinho para quando for para o hospital.
Aguardo confirmação do convênio médico e, até segunda ordem, devo me internar na terça-feira à noite.
Beleza.
Ligo para algumas lojas e companhias de cartões de créditos e aguardo para ser atendida. Após ouvir pela enésima vez: "Você já será atendido... Sua ligação será atendida em instantes", me pergunto em que tempo se baseiam essas pessoas físicas e jurídicas. O que é o tempo? Como se calcula o tempo? 
Para mim, alguns instantes são apenas alguns instantes e não alguns longos minutos de musiquinha de elevador e blá blá blá infindável e repetitivo.
Finalmente sou atendida por uma moça sonolenta e bocejante. 
Já começo a me irritar.
Aqui é São Paulo, meu. Tudo aqui é rápido, ligeiro, pra ontem!
A moça  fala muito devagar, muito arrastado e me pede para anotar o bendito número do protocolo que não sei para que serve. Talvez sirva para fazer uma combinação numérica e jogar na Mega Sena, Loto, Jogo do Bicho...
Começo a anotar o número: 1, 2; paro. Pergunto: "Só dois números?" Os protocolos costumam ter numeração longa.
A moça boceja longamente e finalmente diz: "Não senhora, é o 1, 2, 3, 4..................."
É número que não acaba mais.
Comentei com minha irmã Rosi sobre o serviço de telemarketing das empresas e observamos um padrão: são pessoas de outras regiões do país que trabalham por um salário menor que o pago a um paulistano. Tá ligado?
Cheguei a São Paulo aos seis anos de idade e hoje estou com 44; estou muito adaptada,envolvida e habituada à pressa da cidade que não para. Não para nem mesmo quando o trânsito vai devagar quase parando.
Não é uma crítica é só um comentário sobre as diferenças de ritmo entre as cidades.
Mas posso apostar que essas mesmas pessoas "calmas" ficam bem animadinhas quando é época de Carnaval e vão pelas ruas afora cantando ritmos que até mudos conseguem cantar: "Aê, aô, ôooooo, oooo, aê..." e tudo isso debaixo de um sol escaldante e calor de mais de 40º.
Ânimo, minha gente.
Entendo que os serviços prestados são para esclarecer dúvidas e resolver problemas; não estamos (eu, pelo menos) praticando meditação, autocontrole e paciência. Se o quisesse, iria para um retiro espiritual ou para as altas montanhas do Himalaia.
Sei que posso parecer radical, mas se uma coisa é para ser resolvida, ela deve ser resolvida e pronto. 
E por falar em radicalismo e até mesmo em "inguinóranças", mais um vez me vêm à cabeça a lembrança e a imagem de papai e suas pérolas de sabedoria: "Não tô viçando. Não vou ficar de cara pra cima quem uma paruara besta esperando à toa. Me pópi".
"É, me poupe, pai".
"Oxe. Me pópi, menino".


                                                 


                                        

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cisma

                                                  


Como já disse Euclides da Cunha no livro Os Sertões, "O nordestino é antes de tudo um forte".
Fome, seca, miséria, descaso político, preconceito, migrante.
O nordestino tenta até o último instante. Aguenta. Crê. Confia. Tem esperança.
E se ali não dá mais, o jeito é procurar viver em outro lugar, principalmente em Sum Paulo.
O nordestino não tem medo, ele tem cisma. 
Medo é coisa de cabra frouxo. Nordestino tem é sangue no olho!
Tem palavra, tem fé, tem coragem.
Tem que ter, se quiser sobreviver.
Conheço um senhor já velhinho, de brancos e fofos cabelos de algodão, pele rosada, olhos claros e bochechas de Papai Noel.
É o senhor José e ele é da Bahia. O baiano. Seu Zé da Bahia.
Seu Zé da Bahia é forte.
Nordestino quando está um pouco acima do peso diz que está forte; gordo não.
Seu Zé da Bahia usa roupas brancas e por ser forte, os botões de sua camisa não fecham direito. A camisa fica meio repuxada. Seu Zé disse que faltou pano para costurar uma camisa maior. Tá certo.
Seu Zé contava um causo e ia dizendo que tinha ficado com medo; parou de falar, pensou um pouco e disse: "Com medo não minha filha, fiquei com cisma. É diferente, viu?"
Sim, é diferente.
Não estou com medo, só com cisma.
Mas seu Zé da Bahia já me disse que não carece de ter medo e nem mesmo de cisma. Carece não.
Seu Zé da Bahia me entrega nas mãos de Deus, de Nosso Senhor do Bonfim, de Nossa Senhora da Abadia, das Candeias e de todos os trezentos e sessenta e cinco santos das trezentas e sessenta e cinco igrejas da Bahia.
Cisma pra quê?
Carece não.


                                          

Cirurgia de Correção de Fístula Liquórica

                                       


A fístula liquórica é uma complicação presente em casos de cirurgias em base de crânio (adenoma de hipófise) e deve ser diagnosticada corretamente a fim de evitar complicações como a meningite. 
Em outubro de 2009, dois meses após acordar do coma e voltar para casa, tive que retornar ao hospital e ficar internada por 21 dias para tratar de uma meningite. No início era uma dorzinha de cabeça chata que foi evoluindo para uma dor muito forte. Eu perdia muito líquido (líquor) pelo nariz e tinha dificuldade em mexer a cabeça; a nuca ficara rígida.
Os sintomas da fístula liquórica são a rinorreia (líquido/líquor que sai pelo nariz) e que pode piorar com esforço físico, tosse, espirro, mudar a posição da cabeça e forçar para ir ao banheiro.
Como tenho prisão de ventre, acabo colaborando sem querer para o aumento e risco da fístula liquórica. Por isso consumo cereais integrais, granola, aveia, soja, iogurte Activia e bebo muita água. Faço minha parte, mas têm dias que é uma dificuldade tremenda.
Bom.
A secretária do neurocirurgião, Dr. Ricardo, me ligou e disse que a cirurgia está marcada para quarta-feira dia 14/12. Falei também com a anestesista, a Drª Celeste, que me orientou, foi muito simpática, gentil e compreensiva.
Disse que preciso fazer a cirurgia; sou suscetível a infecções e a meningites e numa dessas corro o risco de morte. 
A Acromegalia é terrível. Meu Deus.
A médica também me disse que há pacientes que se recusam a fazer a cirurgia e isso prejudica ainda mais o problema e no geral são pessoas simples e/ou pouco instruídas.
Mas eu posso falar de cátedra (experiência própria) que mesmo sendo uma pessoa com boa formação cultural e a leitura de muitos livros, há momentos que são brabos; difíceis de encarar. É preciso ser um/a Übermensch (Super Homem/Super Humano de Nietzsche) para enfrentar os problemas e as dificuldades a nós impostas pela vida, pela doença e por muitos outros fatores.
Mas super heróis e guerreiros também temem, choram, duvidam, doem.
Sou forte. Sou guerreira.
Dias melhores virão.
                                           



Adivinhando chuva

                                        


São meia noite e quinze. Já é quinta-feira.
Vou para a cama. 
À essa hora a bendita "ferveção" de cabeça não irá me importunar mais.
Mãevelha dizia que quando fazíamos algo fora do nosso habitual era porque estávamos adivinhando chuva.
Então vou para cama. 
Será que vai chover?
Boa noite.


                                  
                           

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O carteiro e o vendedor de pães

                                          


Todas as tardes um rapaz franzino pedalando uma bicicleta com um cesto de pães preso ao bagageiro parava à nossa porta.
Vendia pães. Pães doces, cheirosos, quentinhos; recém saídos do forno.
O vendedor de pães nos oferecia seus produtos.
Mamãe sempre comprava pães desse rapaz mas dessa vez não compraria, não tinha como pagar e ainda esperava o dinheiro de São Paulo chegar.
Todos os dias mamãe ficava no alpendre da casa esperando o carteiro passar para fazer a mesma pergunta: "Tem alguma coisa pra mim?".
O carteiro, vestido em seu uniforme amarelo, dizia: "Hoje tem não senhora".
Mamãe que sempre carregou uma força e esperança enormes no olhar dizia ao carteiro: "Tem nada não. Amanhã é outro dia. Se Deus quiser, terá"
No dia seguinte, o rapaz vendedor de pães para à nossa porta como de costume mas mamãe recusa novamente. O vendedor de pães segue seu caminho.
O carteiro aproxima-se de nossa casa e chama o rapaz dos pães, que volta todo sorridente e já tirando a toalha branquinha que cobria o cesto de pães.
O carteiro diz: "Dona Marlene, a senhora pode escolher os pães, pois o dinheiro de São Paulo já chegou".
O carteiro retira de sua mochila um pequeno pedaço de papel e dava para mamãe assinar. Nem pedia documento de identidade a mamãe; não precisava. Conhecia mamãe e sabia de sua honestidade e sua vida difícil.
O carteiro segue seu caminho e mamãe o cobre de bençãos em nome de Deus e de todos os santos do céu.
Mamãe vai à cozinha e já tem um bule de café forte, quente e cheiroso para acompanhar os pães doces, cheirosos e deliciosos.


                                      

Sopa com farinha

                                    


Papai e seu irmão Manoel Soares moravam em uma pensão na região da Moóca.
Papai sempre falava da Rua Taquari, o mesmo nome da fazenda onde eu nasci. E eu dizia para mim mesma que um dia conheceria essa tal de Rua Taquari.
Bom...
Tio Manoel Soares adaptava-se lentamente aos hábitos alimentares de São Paulo. Estranhava o ritual efetuado durante o jantar servido na pensão.
Após chegarem do trabalho os pensionistas tomavam banho e depois sentavam-se à mesa para jantar.
A senhora dona da pensão servia sopa como o primeiro prato, ou entrada, e depois serviria o prato principal que geralmente era composto de arroz, feijão, carne e salada.
Como a maioria dos pensionistas era de nordestinos, a senhora dona da pensão mantinha um bom estoque de farinha de mandioca em sua despensa.
Tio Manoel senta-se à mesa e repara que todos estão tomando a sopa, inclusive papai. O tio olha para o prato e diz: "E é só isso que tem pra comer, é Dedé? Essa água de lavagem?!"
Papai diz que depois da sopa virá mais comida: arroz, feijão, carne...
Mas tio Manoel prefere não arriscar e pega o pote com farinha que está na mesa e despeja o conteúdo em sua sopa.
Papai olha admirado e pergunta: "Oxe. Mas o que tu tá fazendo, Mané?
Tio Manoel responde: "E tu acha que essa tal dessa sopa é comida, Dedé? O cabra trabalha o dia inteiro e quando chega de noite vai comer isso? Tem que botar bem muita farinha que é pra dar sustança!".
Quando terminou de comer sua sopa com farinha, tio Manoel estava com a barriga cheia de mais para comer o prato principal que a dona da pensão iria servir: arroz, feijão, carne e salada.


                                   

Pão com banana

                                              


Papai estava em São Paulo há poucos meses.
Tio Manoel Gomes, o irmão de mamãe, recebeu papai e ofereceu-lhe moradia até ele se estabelecer e poder buscar sua família.
A esposa de tio Manoel Gomes não gostou muito da ideia; queria que papai arrumasse outro lugar para ficar e que saísse o mais rápido possível de sua casa.
Papai passou muita fome.
Trabalhava o dia inteiro e quando chegava a noite tinha que esperar por tio Manoel para poder ter algo para comer.
Uma tarde de domingo papai está faminto e só tinha no bolso o dinheiro da condução para ir ao trabalho no dia seguinte. Mas a fome era grande. Iria a pés para o trabalho.
Papai foi a um mercadinho próximo e comprou uma baguete (naquele tempo era chamada de bengala) e uma dúzia de bananas.
Comia com tanta vontade que o pão duro e seco feriu-lhe a gengiva.
Guardou o pão e as bananas restantes; não sabia quando comeria de novo. 
À noite não pode dormir muito bem, a barriga estava estufada de pão com banana comidos apressadamente e a gengiva também doía.
Mas havia saciado a fome.