domingo, 6 de novembro de 2011

Rarical

Deixamos nosso Pernambuco em 1973, logo após a partida de meu amado avô Paipreto.
Chegamos à terra da garoa, nosso "Santo São Paulo", como dizia mamãe e demos início à nossa nova vida em terras paulistanas.
Chegamos eu, mamãe, Mãevelha e meu dois irmãos mais velhos: Naldão e Rogério, o Bello.
Naldão tinha a saúde frágil e tinha dificuldade para se alimentar. Rogério e eu éramos magricelas, "pau de virar tripa", só tínhamos osso, cabelo e piolhos. (depois eu falo sobre os insetos chupadores de sangue de cabeças inocentes. Que nojo!).
Mamãe fica preocupada com nossa saúde e procura saber da vizinhança onde tem uma farmácia no bairro; hospitais só os públicos e todos longe. O transporte público para nosso bairro era difícil, demorado, desanimador. E não mudou muito não, até hoje o busão demora um tempão.
Mamãe é informada de que tem uma farmácia e um jovem farmacêutico muito bom, quase um médico. Esse farmacêutico, o Pedro, atua até hoje e é ele que me aplica a injeção mensal de Sandostatin LAR.
Mamãe tinha muita confiança nele e a qualquer problema de saúde que surgisse, lá ia ela falar com Pedro da farmácia.
Nós dizíamos para nossa mãe levar sua saúde a sério, procurar um médico de verdade. Pedro era farmacêutico, não podia fazer muita coisa.
Mamãe vai até a farmácia e relata o caso dos filhos magrinhos recém chegados do nordeste e sai de lá com dois frascos de remédio: Rarical B12 na embalagem cor de rosa e outro na embalagem azul. Nunca soube o porquê das cores do remédio; será que era para meninos e meninas, separadamente?
Tomamos o remédio; uma colher de sopa antes das refeições. Mas acontece que gostamos muito do sabor do remédio e um dia Mãevelha pega a mim e a Rogério virando o frasco de Rarical goela abaixo. Delícia!
Nossa avó nos dá broncas e conta tudo para mamãe.
Elas resolvem esconder o remédio e só nos dar nas horas marcadas.
Mãevelha está lavando roupas e nós estamos sós dentro de casa; falo para Rogério vigiar os movimentos de nossa avó enquanto eu procuro o remédio.
Achei. Chamo meu irmão e entornamos o Rarical. Bebemos tudo.
O resultado foi variado: broncas, chineladas e dor de barriga. Mamãe fica preocupada com uma overdose de remédio e os efeitos que poderia causar, mas nada de mais aconteceu; estamos todos vivos hoje, graças a Deus. Não muito saudáveis, mas vivos.







Gatos de Botas

Mais uma das muitas "inguinóranças" de papai.
Morávamos próximo ao local de trabalho de nosso querido e amado pai e ele almoçava em casa todos os dias. 
Papai sempre tinha do que reclamar e normalmente era sobre algo que gostávamos. Se falássemos que um determinado jogador de futebol foi muito bem na partida, papai dizia o contrário. Se concordássemos com sua opinião, logo ele procurava e encontrava algo para discordar. Nosso pai além de ser o homem de Deus, o homem sem defeitos era também o homem do contra.
Papai vem almoçar e não sabemos porque cargas d' água começa a implicar e a fazer sermão sobre os gatos.
"Que esses gatos são preguiçosos; dormem o dia inteiro; não fazem nada da vida; que é melhor criar um bicho que dê lucro..."
Mamãe ouve tudo e aguarda o momento para poder falar. Nós tínhamos medo de falar, mas quando mamãe tomava a iniciativa, nós criávamos coragem e falávamos também.
"Oxente, Dedé. E tu quer que os pobres dos gatos façam o quê?! Que calcem suas botas e vão trabalhar com você na metalúrgica?". 
Seria o gato-de-botas-peão-de-metalúrgica. O "Gato Lula", cumpanhêro.
E criar que tipo de animal que daria lucro? Uma vaca? Uma cabra? 
Só papai mesmo.





Vale Transporte

Mudamos para uma casa pequena e levamos junto as plantas de mamãe e nossos adorados gatos; mais adorados por nós e nem tanto por papai.
Papai um dia cisma com os felinos e incumbe a Fubá a árdua tarefa de dar um fim aos coitados. Papai só tinha as brilhantes ideias, mas quem as executava éramos nós. Sempre sobrava...
Era noite e já falei sobre a coragem de Fubá (ou a falta desta) quando o assunto são tarefas a serem realizadas no escuro.
Fubá pega os gatinhos e diz a papai que vai levá-los para um lugar longe. Papai acredita.
Dali a alguns minutos Fubá volta e diz todo orgulhoso que os gatinhos já eram.
Já?!
Assistíamos a novela das oito, que hoje é das 9, quase 10 ,quando escutamos uns miados.
Papai vai lá fora ver o que é e volta indignado e pergunta ao meu inocente e corajoso irmão:
"Mas você não ficou de dar um fim a esses gatos, Fubá? Onde você deixou eles?".
"No ponto de ônibus", responde.
Papai ficou danado e nós para aliviar e ao mesmo tempo sacanear nosso irmão, falamos:
"Mas é claro que os gatos voltaram! Você não deu vale transporte para eles? Como eles iam pagar a passagem do ônibus?!".



sábado, 5 de novembro de 2011

Desnatado

Mamãe era única e o seu Português original a fazia mais única ainda.
Mamãe trocava nomes, confundia pessoas e até se enrolava com os nomes dos próprios filhos.
Ela misturava Rejane + Renata e ficava "Reginata". Rogério + Ronaldo e ficava "Rogenaldo".
Só mamãe mesmo. Ela era capaz de criar neologismos em segundos; bastava se atrapalhar um pouco com os nomes e pronto: surgiam novas palavras.
Em determinada ocasião, mamãe conversava na calçada com algumas vizinhas e falavam sobre leite e alimentos infantis. Dos seis filhos de mamãe os que deram mais trabalho para alimentar foram eu e Naldão, meu irmão de saúde perfeita.
A conversa ia longe quando mamãe apontou para meu irmão com excesso de perfeição na saúde e disse:
"Meu filho era muito fraquinho. Ele era muito desnatado".
Meu querido irmão era desnutrido e desidratado.









Flores do meu canteiro


Flor de Maio que desabrochou em novembro


Canteiros

Cravina


Ouvia Fagner cantar maravilhosamente a belíssima versão que ele fez do poema "Marcha" de Cecilia Meireles.
Identifico-me com a letra da música.
Ouvia "Canteiros"  e fui cuidar do meu pequeno canteiro, que aos poucos vou ampliando. Contando, claro, com a colaboração nem tanto colaborativa de meus gatos, principalmente de Aurora, a Terrível.
Fui surpreendida pela bela presença de uma flor fúcsia, ou rosa forte, ou pink, ou cor de bunina, como dizia mamãe. Segundo fui informada, essa plantinha de belas flores rosa choque recebe o nome de flor de maio. Mas estamos em novembro!
Deve ser o aquecimento global, penso eu.
Chamou-me a atenção as pequeninas e delicadas flores coloridas da planta que mamãe e Mãevelha chamavam de bunina. Eu só conhecia de uma cor, mas pude ter o prazer de ver que há cores e tons variadíssimos e belíssimos.
Herdei de mamãe e de minha avó o gosto, o cuidado e até o ciúme pelas plantas.
Mãevelha tinha cuidado especial para com suas cravinas (pequenos cravos). Ela as cultivava em delicados tons de rosa bebê ou rosa clarinho. Colhia suas flores favoritas e as levava para a Igreja Santa Rita de Cássia. Lá chegando, depositava suas cravinas queridas e tão bem cuidadas aos pés das santas. Nossa Senhora, Santa Rita de Cássia e se sobrasse algumas flores, colocava uma para cada santo da ala masculina.
Acho que Mãevelha era feminista.
Tia Anália também gostava de plantas e tinha o mesmo ciúme genético que está contido no DNA da família. 
Quem realmente gosta de algo, alguém ou alguma coisa, cuida de verdade. Valoriza. Respeita. Se preocupa. Sabe que as coisas boas dependem de nosso cultivo. E falo isso não apenas no sentido florido. Literalmente.
Tia Anália tinha um pequeno quintal cheio de plantas e algumas cobiçadas por mim. Tinha um pé de pitanga, espada de São Jorge, uma pequena horta com coentro, cebolinha verde, salsinha e um lindo pé de cróton. Mas nós falávamos "cróti".
Um dia fomos à casa da tia e a encontrei regando suas preciosas plantas. Pedi a ela uma muda do cróton, mas ela disse que não poderia arrancar a mudinha porque iria prejudicar toda a planta; eu teria que esperar pela chuva. Acreditamos que as plantas devem ser podadas e transplantadas na época de chuva, pois o choque será menos intenso para planta.
Como pode-se ver, também nos preocupamos com o bem estar psicológico das plantas.
A desculpa de tia Anália não me convenceu. Esperei o momento certo e quando ela estava na cozinha preparando o café, aproveitei e arranquei uma mudinha do cróton. Ao lado da casa havia um terreno baldio; deixei a mudinha lá para levá-la quando fossemos embora e para não levantar suspeitas.
O tempo passou, as chuvas foram e voltaram a seu tempo e um domingo tia Anália vai nos visitar. Ela caminha pelo longo quintal de terra e para a cada planta para admirá-la e fazer comentários. Lá está o belo pé de cróton; forte, bonito e colorido. Sempre gostei da mistura de tons fortes e intensos de vermelho, verde e branco.
Tia Anália elogia a planta: "Mas que pé de cróti tão bonito". 
Eu falo a verdade e a tia balança a cabeça: "Mas tu não tem juízo mesmo!".
"É que planta roubada pega mais fácil e fica mais bonita do que a planta dada". 


Bunina




De blogs a ursos polares





Tenho alternado minhas postagens entre temas tristes, engraçados, sobre minha família e sobre a Acromegalia.
A princípio pensei em falar/escrever apenas sobre minha doença, mas pensei melhor e decidi escrever de tudo um pouco. O que seria um blog sobre Acromegalia tornou-se em um blog sobre assuntos gerais. E se faço um blog para cada coisa, aconteceria o seguinte: Eu me atrapalharia, pois sou muito anta nessa área internética/cibernética/bloguística; e se transformaria no blog samba do afrodescendente com problemas mentais (forma politicamente correta para dizer samba do crioulo doido). 
Pois é...A vida é assim; pensei comigo. A vida não é feita de uma única coisa; não segue uma rotina ou um plano estabelecido por nós. A vida é como ela é e nós somos apenas coadjuvantes nessa grande tragicomédia da existência. (Acho que estou lendo muito Nietzsche ultimamente "Ecce Homo". Que tal Paulo Coelho ou Zíbia Gasparetto?). Hummmmmmmmmmmmmmmmmmm...
Não estou dizendo que devemos cruzar os braços e aguardar a ação do Destino e da Vida e depois culpá-los por isso. Estou tentando dizer que por muitas vezes as coisas não saem como planejamos; as pessoas não são do jeito que queremos que elas sejam. É a vida, e é bonita é bonita. Grande Gonzaguinha.
Acho que esqueci de tomar algum remédio. Deve ser isso.
Bom...
Comentei com uma colega e amiga sobre o ato de escrever. Aliás, ler e escrever. Livros.
A paixão por livros somada ao hábito da leitura e da escrita transformaram-se no melhor remédio para combater tristezas, angústias, agonias e desespero.  
Tem gente que recorre a remédios químicos quando se deparam com esses sentimentos e dúvidas; eu escolhi não escolher drogas/remédios/químicos. 
Sim, tomo remédios para controlar hipertensão, diabetes, dores de cabeça, nos ossos e para controle tumoral. Só isso! Ufa! Tomo porque sou obrigada se quiser continuar viva e com saúde razoável. Fora isso, não gosto de medicamentos e só tomo caso seja necessário.
Vejo pseudo celebridades dizendo orgulhosamente ( e para aparecer mais na mídia, é claro), que tomam remédio para dormir, para acordar, para emagrecer, para ganhar força muscular...Já pararam para pensar no mal que estão fazendo à própria saúde?!
Meu! A vida é tão curta, tão complicada e tão deliciosa de ser vivida exatamente por ser curta e complicada! Como dizia o maluco beleza Raul Seixas: "É chato chegar a um objetivo num instante".
Deus do céu! Será que sou bipolar?! E eu achava que bipolar era coisa de urso que vive no meio do gelo. Urso Polar. Entendeu? Santa Ignorância!
Mas, sou demasiadamente humana e tenho direito à questionar, duvidar, acreditar, tentar e errar, tentar e acertar. Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. É a vida.
Melhor parar por aqui. Ia falar sobre um assunto e descambou para outro. E que bom que é poder escrever/falar/elucubrar/criar. O blog foi uma das melhores invenções desses tempos modernos.











sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Banho

Toda criança passa pela fase de não querer tomar banho e pela vontade de tomar muitos banhos. As fases variam de duração.
Mas a fase de não querer tomar banho durou muito tempo com Fubá.
Ele brincava o dia todo na rua (numa época que era possível e seguro crianças brincar na rua), jogava bola, corria, se escondia, subia nos muros. Enfim, vivia a vida de menino.
Anoitecia e mamãe chamava Fubá para casa; estava na hora de tomar banho, jantar, fazer a lição e depois se agasalhar (deitar). Mas Fubá não queria saber nem fazer nada disso, queria ficar na rua o mais que pudesse.
Aos poucos as mães dos outros meninos os chamavam e repetiam  a mesma ladainha: banho, janta, lição e cama.
Fubá finalmente vai para casa e janta, sem tomar banho.
Mamãe reclama: "Você vai jantar sem tomar banho? Então tome banho antes de fazer a lição".
Fubá responde: "Não preciso tomar banho não, mãe. Eu tô limpo, ó". E Fubá mostrava o braço suado e sujo pelas brincadeiras de rua com os colegas.
Hoje Fubá toma banho e é vaidoso; está sempre cheiroso.



Pernil, Café & Fogão

Mais pérolas do meu irmão Fubá. 
Sempre me fazem rir e isso é bom.


Comecemos com:            
                                                  PERNIL 


Fubá está com mamãe na casa de conhecidos. É Natal e a dona da casa oferece uma farta variedade de doces, pães, bolos, carnes e todas essas coisas deliciosas que temos na época natalina.
A anfitriã oferece a Fubá fatias de pernil e ele  aceita e diz:
"Não como carne de porco. Só pernil".








                                     Café   


Café é a bebida mais consumida na nossa casa. Não há nada melhor do que um café quente pela manhã e um cafezinho após as refeiçoes. É uma delícia.
Sempre temos bons motivos para fazer e tomar um bom café.
Mãevelha dizia: "Vou botar água no fogo para fazer um café novo".
Uma vez falávamos sobre os benefícios e malefícios do excesso de café e, Fubá enchendo sua xícara, concorda:
"É mesmo. O café tem muita cafetina".






                                    Fogão     


Fomos a uma grande loja que vende de tudo a perder de vista. Dedicação total ao cliente.
Compramos um fogão simples com quatro bocas (queimadores) e acendimento automático.
Mas ao chegar em casa e tentar acender o forno, eis que o fogão não funciona.
Fubá, muito rápido no gatilho com uma de suas pérolas já engatilhadas, diz:
"Não está funcionando. Temos que chamar a assistência social.







O menino que engoliu o trem e prendeu a orelha na geladeira



Ronaldo é o caçula dos meninos e desde bebezinho é chamado de Fubá.
Fubá nasceu grande, com mais de quatro quilos e era chamado pelos médicos e enfermeiras de "O pai do berçário". Além do seu tamanho, Fubá também tinha/tem outras partes em seu corpo que são bem grandes: a cabeça e as orelhas.
E por causa do cabeção e dos orelhões, Fubá foi vítima de muita gozação e aporrinhação (bullying) por parte da molecada da rua e da escola. E por nós também - ninguém é de ferro.
Fubá aprontou muita arte quando menino. Minha Nossa Senhora!
Uma vez ele brincava com um carrinho e empurrando com muita força, fez com que o brinquedo fosse parar debaixo do armário. Fubá abaixa-se para pegar o carrinho, mas não conseguindo alcançar, arrasta-se para debaixo do móvel. Alcançou e puxou o brinquedo, mas tem certa dificuldade para se levantar: a cabeça ficou presa entre o armário e o chão.
Fubá tentar sair sozinho, não consegue e entra em desespero. Chora e chama por mamãe, que grita: "Acode aqui. O menino prendeu a cabeça debaixo do armário!".
Papai, mais um grupo de pessoas que estavam em casa ajudam a levantar o móvel para Fubá poder sair.
Uma das pessoas presentes no resgate olha para Fubá e diz: "Também, com uma cabeça dessa!".
O que Fubá respondeu é impublicável.
De outra feita Fubá está na cozinha fazendo seu pratinho e com uma das mãos segura o prato e com a outra abre a geladeira para pegar suco. Como só tem duas mãos, Fubá resolveu usar a cabeça, literalmente.
Ele empurra a porta da geladeira com a cabeça e acaba prendendo uma das orelhas. Ele puxa a cabeça, se remexe, vira para todos os lados e nada de se soltar. 
Fubá chora e grita por socorro: "Ajuda aqui!"
Todos correm para ver o que aconteceu e chegando à cozinha nos deparamos com a seguinte visão: Fubá com o prato de comida numa mão, um copo com suco na outra e a orelha presa na geladeira.
Ninguém conseguiu segurar o riso. Fubá fica mais nervoso e diz: Vão ficar parados aí? Me solta, p...!"
Fubá é salvo novamente.
Num belo dia, Fubá compra uns doces que trazem pequenos brinquedos como brinde e num desses doces vem um trenzinho.
Fubá muito guloso e zóião, come o doce e lambe o trenzinho de brinquedo até deixá-lo limpinho, mas distraído engole o brinquedo.
Desespera-se. Tenta colocar o trenzinho para fora; não consegue, chora e pede nossa ajuda. De novo.
Mamãe pergunta: "O que foi dessa vez, Fubá?!
Meu pobre irmãozinho responde e pergunta ao mesmo tempo:
"Engoli o trem. Vou morrer?"
Papai, rindo muito, responde: "Morre nada! Se não saiu por cima, amanhã ele sai por baixo. Se avexe não!".







Zuleika

Havíamos mudado para uma casa que ainda estava em construção. É... tem cada história...
Mamãe tinha ido à loja de material de construção e comprado azulejos entre outros materiais para finalizar a obra.A entrega seria feita no sábado à tarde e mamãe nos avisa para ficarmos atentos à chegada do caminhão.
Ronaldo, meu irmão Fubá, era pré adolescente e estava na fase de mudança de voz. Ora falava grosso, ora falava fino. A voz ainda não estava definida.
Estávamos na sala quando Fubá entra correndo e nos chamando:
"A Zuleika chegou! A Zuleika chegou!"
Nós, os outros irmãos e irmãs compreensivos, pacientes e amáveis não entendíamos nada e muito calmamente e educadamente perguntamos:
"E quem danado é Zuleika, Fubá?!".
"Que Zuleika o quê! O a-zu-le-jo chegou...P...!"
Ahhhhhhhh bom!



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sem pé nem cabeça







Conversava com uma pessoa amiga e falávamos sobre livros, filmes, personagens da ficção e da vida real. Até então nada demais, apenas um bate-papo metido a intelectual.
Mas acontece que essa pessoa tem uma inteligência e uma sagacidade invejáveis. Ela "saca" na hora e fala na "lata" o que pensa, o que acha, que isso, que aquilo...É meio o "advogado do diabo".
Caramba! Às vezes a gente só quer conversar, desabafar e encontrar apoio, mas ocorre exatamente o contrário! Penso que, só pelo fato de procurar alguém para conversar, desabafar e confidenciar nossas agruras é sinal de que confiamos nesse alguém.
Todos estamos intitulados a opinar, criticar, concordar, descordar etc e tal, mas acontece que  nos esquecemos que não somos perfeitos e que temos problemas também! Então o filho duma mãe vai procurar um ombro e ouvidos amigos e o que leva? Uma crítica desarmante, angustiante, frustrante. A gente sai pior do que chegou.
Então, o melhor a fazer é tratar apenas de amenidades, de coisas do "dia a dia do cotidiano", como diz um pseudo músico. Tem gosto pra tudo.
Bom...
Vi numa placa de caminhão uma frase engraçadinha, mas que se analisarmos semanticamente, faz sentido: "Todo mundo vê as pingas que eu bebo, mas ninguém vê os tombos que eu levo". 
Crítica, crítica e mais crítica. Como se fôssemos os únicos culpados de tudo e por tudo. Sim, temos nossa parcela de culpa; queremos ser prestativos, bonzinhos, colocamos panos quentes, não queremos ver os erros e defeitos, achamos que aquilo é passageiro, que vai mudar, ser diferente...
Bom, de uma coisa eu sei: "Na vida tudo é passageiro, menos o motorista e o cobrador". Isso é fato.
Mas incidimos no erro. Continuamos acreditando que vai mudar, que daqui pra frente tudo vai ser diferente, você vai aprender a ser gente. Desculpa aí RC, não pude resistir.
Bom, isso é só um desabafo meio sem pé nem cabeça. "Sei lá, entende?" Como diria Patropi, personagem humorística meio sem noção e mais perdido que pijama em lua de mel.
Se fiquei esperando meu amor passar... Grande Renato Russo.
Já passou e eu não vi. Devo ter perdido a hora. 


"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
Clarice Lispector.







Se fiquei esperando meu amor passar - Legião Urbana



Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então, eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro

Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor

Mas você e eu podemos namorar.
E era simples: ficamos fortes.
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero a minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso.
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido.

Começo a ficar livre
Espero. Acho que sim.
De olhos fechados não me vejo e,
Você sorriu pra mim
"Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Dai-nos a paz."

Jerimum dramático



Tenho algumas plantas no quintal. Adoro plantas. 
Eu havia colocado algumas plantas na garagem e esperava que crescessem para se espalhar pelas grades do portão e pelas telhas. Mas...
Eis que tem gente que gosta de plantas tanto quanto eu, ou até mais! 
Há dois meses senti falta de uma das plantas; fora roubada.
Há três ou quatro semanas roubaram as outras duas que restaram. 
Olhando pelo lado ecologicamente correto, o ladrão é uma pessoa consciente e preocupada com o meio ambiente e sua conservação. Irá conservá-lo com minhas plantas.
Bom...
O jeito foi deixar as plantinhas no quintal dos fundos; o quintal dos gatos. Esse é o problema. Mesmo tendo sua areia sanitária para usar, meus gatos preferem cavar e espalhar a terra das plantinhas além de mordê-las e dar-lhes tapas e socos como se estivessem lutando box.
Após me recuperar desse roubo triplo à mão desarmada, adquiri mais plantas, sementes, vasos e terra. Joguei sementes de melão, melancia e jerimum (abóbora) na terra e não é que vingou? Está uma planta linda e cheia de flores amarelas mas só não sei que fruto dará. Mas eu acho que será jerimum. 
E é um pé de jerimum dramático. Por quê?
Porque é o primeiro a ser regado, é o primeiro a ser reparado, elogiado e o primeiro a ser cumprimentado logo cedo pela manhã. E o primeiro a "desmaiar" ao primeiro toque de sol forte em suas folhas largas. É uma planta dramática e exagerada. Lembra-me muito a rosa dramática e caprichosa do Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry.
Sim, sei que não é normal, mas tenho o hábito de cumprimentar e elogiar as plantas, os animais e todas as criaturas e criações da Natureza. 
Se Deus criou a tudo e a todos, criou também as plantas, os bichos e até meu jerimum dramático.









quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sermões de papai. Mais "inguinórança"







Mais pérolas, ou melhor, mais "inguinóranças" de José Soares Neto, o Dedé; meu pai.
Papai levantava-se cedo todos os dias; mesmo nos fins de semana e feriados. É um hábito do nordestino levantar-se bem cedo.
Papai ia para a sala e ligava a TV para assistir a missa das seis horas da manhã! Nós pedíamos para mamãe pedir para ele abaixar o volume; estava muito alto e nós queríamos aproveitar mais umas horinhas de sono tranquilo antes de começar a sessão sermão. Infalível!
Pronto. Bastou mamãe fazer nosso pedido e papai iniciou o falatório. Jesus!
"...Que voceizi devia ir assistir uma missa". E o senhor vai? Perguntávamos nós cheios de coragem com o apoio de mamãe.
"...Voceizi não vão a igreja pra ver o padre". Ver o padre pra quê? E o senhor também não vai à igreja e quer que a gente vá?!!! Vixe! Papai ficou doido!
"Eu não careço de ir a igreja, eu não tenho pecado! Eu não tenho defeito". Claro, o senhor é o homem de Deus.
"Sou o homem de Deus sim! Meu único defeito é ser pobre. E é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o rico entrar para o Reino do Céu".
Mas quem falou de rico e de camelo aqui?
"Voceizi são tudo inguinórante! Vão pra escola todo dia e não sabem de nada!"
Olhávamos para cima como que pedindo um milagre quase impossível: papai parar de falar.
Papai detestava quando fazíamos isso; dizia que ficava com o "má dos cachorro" quando a gente "revirava os zóio pra cima".
Dali a pouco ouvíamos alguém chamar do portão. Graças a Deus! Uma pausa no sermão.
Eram os amiguinhos de Fubá, meu irmão, que vieram chamá-lo para brincar na rua e aprontar muitas das suas artes.
Um tempo depois Fubá voltava da rua e acendia a luz da sala para mostrar um pipa que havia pego. Pra quê? Lá vinha sermão de novo.
"Pra quê essa luizi acesa meio dia em ponto!". Mas não é meio dia em ponto, são só 9 horas! Mais sermão.
Hora do almoço. Arroz, feijão, a sempre presente farinha de mandioca, salada de alface e tomate e de mistura ovo frito ou cozido.
Papai não gostava da mistura do dia. Dizia que nasceu comendo carne; que não era cavalo pra comer bredo (alface); que Deus disse que nem só de pão vive o homem, carece de comer uma carninha também. 
Mas pai, quer dizer que não é só de comida que vivemos; precisamos alimentar a alma também. E o senhor tomou leite da sua mãe quando nasceu. Ninguém come carne quando nasce. Oxe!
"Oxe menino! E derna de quando morto come? Deus disse que nem só de pão vive o homi é pruquê a gente tem que cumê carne também!".
Mamãe dizia que era o que tinha e que devíamos dar graças a Deus, pois tem muita gente passando fome pelo mundo.
Mas papai não aceitava: "Eu trabalho que nem um fio duma égua pra não ter um pedaço de carne pra cumê?! Deus disse que ...".
Tá bom pai, pelo amor de Deus! 
Mas o sermão continuava: sobre comida, carne, camelo, agulha, rico, bíblia, Deus, meio dia em ponto... e ia longe.









Dor de cabeça, Hipertensão e Saudades.







Há algumas semanas tenho dor de cabeça. 
Fui aos médicos. Mais remédios e mais exames, mas as dores de cabeça persistem.
Fico angustiada, chateada e até mesmo muito triste.
Sou humana, demasiado humana. Olha Nietzsche de novo na área!
A parte boa dessa tristeza é que ela traz saudades e lembranças e uma vontade imensa de escrever, de falar...
Falo e escrevo aqui. Alivia a saudade, a tristeza e até as dores.
Escrevi duas postagens seguidas falando do meu avô e da minha avó. Podem parecer repetidas, mas não são. 
São lembranças boas de uma época que eu não tinha e nem sabia o que era dor de cabeça, hipertensão, saudades e a infame da Acromegalia.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cream Cracker/ Cremi Cráqui

Ou bolacha de água e sal. Nunca soube a diferença.
Mas não dizíamos "cream cracker"; é muito complicado enrolar a língua para pronunciar a palavra, então a adaptamos para a pronúncia do português brasileiro e ficou "cremi cráqui!.
Mãevelha preparava um forte e cheiroso café, punha a mesa e chamava meu avô:
"João, chega meu velho. O café tá mesa e tem as bolachas cremi cráqui que tu tanto gosta".
Paipreto sentava-se à mesa, despejava o forte e cheiroso café no xicrão e comia as bolachas "cremi cráqui".
Paipreto me chamava: "Chega aqui minha filha, vem comer uma bolacha com teu avô".
Mãevelha protestava: "A menina tá brincando no terreiro, João. Se tu chama, ela não vai te deixar comer sossegado. Tu sabe que ela não come, só faz arte. E tu parece que gosta de ver essa danada fazer arte, não é, João?".
Paipreto me chamava outra vez. Eu entrava correndo em casa e ia direto para os braços do meu avô. Sentava-me em seu colo e já tinha uma xícara de café e um prato com bolacha "cremi cráqui" para mim.
Mas eu queria  a bolacha e o café do xicrão de Paipreto.
Mãevelha mais uma vez protestava: "Eu não te disse João, que essa moleca só quer fazer arte e não vai deixar tu comer sossegado? Mas eita homi ateimoso, meu Padim Ciço do Juazeiro!".
Paipreto não dava atenção aos protestos de Mãevelha e me deixava beber seu café e comer suas bolachas.
Eu molhava as bolachas no café e comia. Paipreto depois tomava aquele café com pedaços de bolacha flutuando.
Não havia nem café nem cremi craqui mais gostosos como os de Paipreto.





Café com Banana e Farinha.





No fogão à lenha o café era torrado.
No pilão de madeira o café era pisado (batido, socado) até se transformar em pó.
Minha avó Mãevelha preparava o café e chamava:
"João...Chega...o café tá pronto". João era o meu avô Paipreto.
Paipreto sentava-se à mesa e nela estavam o bule com o café novo, bananas e um prato com farinha de mandioca.
O café era despejado no xicrão (xícara grande).
Paipreto descascava a banana e passava na farinha, comia um pedaço e tomava um enorme gole de café.
Paipreto pedia mais: "Maria, me de mais um golinho de café". 
Mãevelha trazia mais café.
Eu, no colo de Paipreto, passava a banana na farinha, comia um pedaço e tomava um gole de café.
Algumas vezes enchia o xicrão de Paipreto com farinha e depois me lambuzava com aquela gororoba de café doce, banana e farinha. 
Mãevelha e mamãe ficavam doidas com Paipreto.
Paipreto ficava doido de encantos por mim e eu por ele.
A palavra ou o termo amor resume-se àquele café com banana e farinha da minha Mãevelha e do meu Paipreto.






                       

Margaridas

Uma casa amarela.
Do lado de fora, entre as paredes da casa amarela e da casa vizinha, havia um corredor frio e úmido onde os raios de sol deixavam um belo dourado naquela umidade fria e sombria.
No corredor úmido e frio da casa amarela havia margaridas. 
Muitas margaridas.
Brancas margaridas. 
Margaridas que balançavam ao capricho dos ventos. 
Margaridas que se mostravam ainda mais belas sob os raios dourados do sol; sob o vai e vem dos ventos que brincavam por entre suas folhas.
Eu olhava aquele corredor frio e úmido, as margaridas, os ventos brincando, os raios do sol...
Parecia mágica, encanto.
Observava encantada os ventos balançando as margaridas.
Ventos que pareciam crianças brincando, sorrindo.
Os ventos sorriam. Os ventos chamavam para brincar.
As margaridas balançavam respondendo aos ventos que sim, queriam brincar.
Os raios do sol iluminavam os caminhos dos ventos indo ao encontro das margaridas.
A umidade fria que lembrava alguém mais velho e mais sério a observar aquela brincadeira.
Eram seres mágicos.
Para um adulto era apenas um corredor frio e úmido com margaridas que balançavam aos ventos.
Para mim eram seres que brincavam, sorriam e observavam.



Milharal

É São João, o mês de junho para o nordestino. 
É Santana, o mês de julho para o nordestino.
Época da colheita de batata-doce, jerimum, macaxeira, milho e outras plantações que estão sempre presentes no roçado do sertanejo trabalhador.
A terra do roçado é preparada para receber as sementes que serão plantadas no dia 19 de março, dia de São José, e a colheira será feita em São João e Santana.
São três meses de espera e esperança. 
Chega o dia da colheita e vamos ao roçado. Alguns ficam em casa cuidando do fogo de lenha e das panelas onde serão preparados os alimentos colhidos. Outros arrumam a casa, varrem o terreiro (quintal); é tempo de Santo Antonio, São João e São Pedro.
Chegamos ao roçado e começamos a colher o milho. Espigas com cabelos vermelhos. Há algumas espigas que não crescem e ficam com longos e abundantes fios vermelhos. São chamadas "bonecas de milho".
Essas bonecas são dadas às crianças como um brinquedo. É uma festa.
Andamos pelo milharal. Ora sou carregada por meu avô Paipreto, ora caminho entre o milharal. Aquela imensidão verde, aquele balançar de folhas, aquele dourado do sol refletido nos vermelhos cabelos das bonecas de milho, o vento morno. 
Tudo me encanta e fascina.
O balançar das folhas pelos ventos faz-me pensar que cada pé de milho é um ser. Seres que conversam entre si. Os ventos carregam suas vozes. Paro para ouvir essas vozes. O que dizem?
Os adultos impacientes e apressados não param para ouvir as vozes do milharal; dizem:
"Se avexa menina! Saia do caminho!".
Paipreto me pega nos braços, fica em silêncio, olha à sua volta, anda alguns passos e encontra uma boneca de milho. Meu avô pega a boneca de milho e me entrega. Fico feliz.
Os ventos balançam as folhas do milharal com mais intensidade. Paipreto sorri. Eu também.
Um sorriso feliz por ter ganho uma boneca de milho.
Um sorriso feliz por ter encontrado uma boneca de milho.
Paipreto e eu ouvimos as vozes do milharal.







É assim que estou me sentindo hoje...

"Inguinóranças" de Papai



José Soares Neto. Dedé. Meu pai.
Semianalfabeto, trabalhador, honesto, teimoso, ignorante, pernambucano, palmeirense e macho!
Esses são alguns dos adjetivos que definem meu pai.
Papai adorava dar seus sermões intermináveis e nós não víamos a hora daquela tortura acabar. Papai era do contra, sempre do contra.
Gostávamos de assistir aos jogos da seleção de vôlei  e para tal tínhamos que pedir a ajuda de mamãe para que ela intercedesse e papai nos deixasse assistir. 
Papai detestava vôlei e muitas vezes assistíamos aos jogos na casa do nosso vizinho Pixilinha. A televisão dele era bem velha, em preto e branco e as imagens ficavam distorcidas. Mas assistíamos mesmo assim.
Papai dizia que nunca viu ninguém jogar bola com as mãos; que Deus deixou a bola para ser jogada com os pés. Que vôlei e basquete eram esportes de fresco. Santa Ignorância!
Papai criticava o vôlei, o basquete e todo esporte cuja bola não fosse jogada com os pés.
E tome sermão.
Quando algum de nós saía do emprego ficava mais preocupado em ouvir os sermões de papai do que com o voltar ao mercado de trabalho.
Papai chegava para almoçar e não podia nos ver assistindo TV; dá-lhe sermão.
Falava e falava e encerrava o discurso com uma frase de efeito que sempre nos fazia rir e isso o deixava doido.
"Que o filho só puxa ao pai se ele for cego ou ladrão de cavalo".
"São duas coisas que eu não conheço: medo e preguiça".
"Quem cria filho barbado é gato."
E a nossa favorita: "Quem cria filho com cabelo no c... é cebola e eu não sou cebola!"
Essas são algumas das "inguinóranças" de José Soares Neto; o meu pai.