quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cheiro, Sabores & Lembranças

Acordei com o som da chuva. Fui até o quintal e apreciei a chuva caindo e molhando as plantas; as gotículas que ficam nas folhas parecem pedrinhas de brilhante.
Observava esse espetáculo da Mãe Natureza acompanhada de meus gatos que me olhavam como se eu fosse maluca. Enquanto observava e apreciava a chuva lembrei-me de alguns causos  e episódios da minha vida antes da Acromegalia.
Eu adorava sentir cheiros, cheirar...Adorava o cheiro de café fresquinho sendo coado; o cheiro do alho e cebola fritos para temperar o feijão. Mamãe gostava quando eu preparava o feijão, dizia que com o meu tempero ficava mais gostoso. Mamãe era ótima cozinheira e para cada tipo de carne ela preparava um tempero diferente para poder combinar com o gosto mais forte ou mais suave do peixe, frango, carne de porco e de vaca. Aliás, dizemos carne de vaca aqui em São Paulo mas em Pernambuco dizemos carne de boi.
Eu acrescentava pimenta do reino e cominho ao alho e cebola fritos. O cheiro era maravilhoso. Às vezes eu abria os potes de café e de temperos só para sentir o cheiro bom e trazer de volta as memórias boas, tristes e engraçadas que marcaram minha infância e juventude. Hoje não tenho mais olfato, perdi a capacidade olfativa após as cirurgias. No começo foi difícil sentir o sabor dos alimentos, mas agora já estou habituada e a minha memória olfativa continua forte.
...
Cheiros, sabores e lembranças.
Minha avó Mãevelha na beira do fogão de lenha preparando os torrões de café que depois seriam socados do pilão. Como ela dizia, o café seria pisado até virar pó. Em Pernambuco temos outro modo de falar. É a marca de oralidade que cada região tem.
Eu prestava atenção em cada detalhe do trabalho da minha avó e ela me recompensava com torrões de café que eu devorava em segundos e pedia mais; mas ela dizia que não poderia me dar mais porque muito café ofende (mais uma marca de oralidade pernambucana).
O cheiro e o sabor do lambedor de tia Anália. Lambedor é um cozido de ervas, folhas, cascas de árvore e açúcar cristal. Depois de cozido tem-se um líquido espesso, esverdeado, doce, gosmento, cheiroso, e até gostoso. O lambedor era usado para tratar vários males que afligiam nossa frágil saúde no nosso forte, seco e belo sertão pernambucano. Além de curar os males, nos dava sustança. Eu observava tia Anália preparar o lambedor e ela colocava um pouco numa caneca e me dava. Eu adorava aquilo.
Já para os adultos era mais recomendada a garrafada. Servia para tudo; de problemas respiratórios a problemas renais, de dores nas juntas e dores de cabeça. Era um santo remédio. A garrafada era feita também com ervas, folhas e cascas de árvore. Colocava-se tudo isso numa garrafa e completava com cachaça de boa qualidade, a Pitú, muito conhecida nossa. Tampava-se bem e enterrada a garrafa por sete dias. Após esse período, desenterrava a garrafa e a garrafada estava pronta para o consumo.
O cheiro da garrafada era fortíssimo e me perguntava como é que a gente grande conseguia beber aquele líquido estranho.
O cheiro do cuscuz, o cheiro do leite fresco, do leite de coco que Mãevelha fazia: raspava o coco, punha um pouco de sal e água quente. Deixava descansar alguns minutos e depois espremia e coava. Na falta do leite de cabra minha avó fazia leite de coco pra mim.
O cheiro dos pães doces que o vendedor trazia numa cesta presa ao bagageiro da bicicleta.
Além do cheiro dos alimentos eu gostava do cheiro das pessoas, das coisas, da terra...
Adorava o cheiro de chuva, a tão bem vinda chuva naquele meu sertão pernambucano.
O cheiro de óleo Johnson nos cabelo de Mãevelha. Ela sempre passava o óleo nos cabelos recém lavados.
O cheiro dos cabelos de mamãe. Cheiro forte, assim como mamãe.
O cheiro do cigarro de palha feito com fumo de corda por papai.
O cheiro do bolo de araruta de meu avô José.
O cheiro leite condensado com abacaxi no pudinho de Natal que papai tanto gostava. Papai também gostava de sôvête  de mio verde (sorvete de milho verde).
São tantas memórias, tantos cheiros, tantas lembranças boas...São tantas emoções.
E as coisas antigas tinham um cheiro especial, melhor, diferente. Os sabores também eram mais intensos. O sabor e o cheiro das mangas maduras e doces, as melancias que depois se transformavam em bonecos esculpidos pelas habilidosas mãos de meu avô Paipreto.
Tem muita história...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Aparência

Somos julgados pela aparência.
Somos agradáveis se somos bonitinhos e causamos certo receio se não somos bonitinhos.
E não somos apenas nós, os seres humanos e animais racionais; a bicharada também sofre com o excesso de falta de beleza.
Por exemplo: Há oito anos peguei na calçada uma cachorrinha magrinha, fraquinha e com as patas traseiras deformadas. Eu estava regando as plantas de mamãe quando vi uma bela moça caminhar pela rua e deixar a cachorrinha na calçada. Chamei a moça e perguntei porque ela fez aquilo e a resposta foi: "Ah, esse cachorrinho é o mais fraquinho de toda a cria, é feio e é aleijado".
Perante motivos são sólidos e sórdidos, concordei com a bela representante feminina da raça humana bonita e perfeita e peguei a cachorrinha. Meu irmão Fubá adora cães e adorou a canina que a princípio recebeu o nome de Clóvis, pois eu achava que era macho. (confesso ter certa dificuldade em saber o que é macho ou fêmea nesse mundo atual e "mudérno").
Verificamos que Clóvis era fêmea e então recebeu o nome de Clotilde.
Clotilde recuperou-se, ficou gordinha e peluda e destruidora de plantas inocentes.
Hoje Clotilde está com oito anos e continua gorduxa, peluda e saudável. Corre com dificuldade, pois as perninhas curtas e atrofiadas não permitem correr longas distâncias por muito tempo. Para mim não importou nem um pouco a "feiúra e a imperfeição" de Clotilde, importou sim o seu agradecimento e o seu apego a mim. O balançar da cauda, o latido e a alegria ao me ver chegando em casa. Isso sim é belo e perfeito.
E eu...
Estou na Farmácia Alto Custo e aguardo minha senha ser chamada. Uma senhora senta-se ao meu lado e puxa conversa. Conta sua história, fala sobre seus netos, sua vida e seus inúmeros problemas de saúde. E eu só ouvindo...
Num dado momento, quando ela havia esgotado sua reserva de queixas e achaques, me pergunta: "Mas porque você está aqui? Que remédio você pega? Você pega remédio pra alguém? Você não precisa tomar remédio, né? Você parece uma pessoa saudável!".
As aparências enganam.

Semântica

Segundo o dicionário Houaiss, semântica é o ramo da linguística que estuda a evolução e as alterações sofridas pelo significado das palavras no tempo e no espaço.
Bom...
Mas a jovem população brasileira não sabe o que é semântica, sintaxe, interpretação de texto, leitura & escrita. E nem educação também!
Estou no supermercado e me dirijo ao caixa preferencial: idosos, gestantes, pessoas com crianças de colo e pessoas com deficiência física. Na falta dessas pessoas, o caixa é livre para qualquer outra pessoa. Pois o nome já diz "preferencial". Devemos dar a preferência a quem tem o direito estabelecido por lei.
Me aproximo com o carrinho e a moça do caixa aponta para a placa e diz: "Senhora, esse caixa é preferencial".
"Exatamente", digo eu.
E ela fica me olhando com cara de ponto de interrogação.
Explico-lhe: "O nome ja diz: preferencial. Quer dizer que têm preferência as pessoas mencionadas na placa e na falta dessas pessoas, o caixa é livre para qualquer um".
"A senhora não está entendendo".
"Você que não está entendendo, minha cara. é uma questão de semântica. Simples".
Tá...
Estou em uma loja no Shopping Center e forneço meus dados à mocinha que vai estar pegando meus dados para estar pedindo o cartão da loja para eu estar ganhando descontos. Beleza.
Dou nome, endereço, telefone e todas as informações necessárias. Ela pergunta a profissão e eu digo que sou professora em escola pública. A simpática mocinha escreve "publica".
Eu digo: "Faltou o acento gráfico na palavra".
"Quê?!"
"É público com acento; é substantivo e é proparoxítona. Se fosse publico sem acento seria verbo."
"Quê???????????????????!!!!"
"Deixa pra lá, pelo amor de Deus".
Como dizia meu amado avô João Gomes, o meu Paipreto: "A inguinórança astravanca o pogresso".
Pobre Língua Portuguesa. Tão inculta e bela. Tão abusada, deturpada...
Sou da época que "sinistro" e "irado" significavam estranho e furioso, respectivamente. "Bombar" significava se dar mal em algo, hoje tem sentido oposto.
É...o que estão fazendo com a Língua Portuguesa é sinistro e irado. Estão bombardeando a pobre língua e descaracterizando-a. E esse movimento sórdido está bombando!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Médicos e Médicos

Fui à farmácia para tomar minha dose mensal de Sandostatin-LAR (acetato de octreotide).
É um remédio importado e distribuído pelo governo nas Farmácias Alto Custo. A dose que tomo, de 20mg, custa aproximadamente R$ 6.000.00 (seis mil reais).
Me pergunto como um remédio pode custar tão caro e descubro que têm remédios que custam até R$ 60.000.00 (sessenta mil reais). Por quê?
Do que são feitos esses remédios? Por que custam tanto?
Meu endocrinologista disse que são remédios feitos para doenças raras e que estes medicamentos não são vendidos em farmácias comuns; por isso o alto custo.
Quando descobri a Acromegalia iniciei o tratamento com Dostinex 5mg (cabergolina). Ao ler a bula do remédio,estranhei. Dostinex é para controlar altos níveis de prolactina, mas acontece que eu não tinha problemas com a prolactina e sim o GH (Growth Hormone - Hormônio do Crescimento)!
Bom...Meu oftalmologista indica-me seu amigo e colega endocrinologista. Eu não estava satisfeita com o endócrino e nem com seu colega neurocirugião que por sua vez disse que eu tinha uma pequena inflamação na região da hipófise e que não era nada demais. Esse distinto senhor neurocirurgião disse também que não recomendava cirurgia de coluna.
Troquei de médicos e até a data de hoje foram um total de 10 internações hospitalares e 5 cirurgias.
A pequena inflamação era um tumor que não aparecia claramente nos exames de imagem mas que produzia altíssimas taxas de GH. O normal para minha idade é de até 267 e eu estava com 1.300!. O tumor (adenoma de hipófise) foi removido parcialmente em agosto de 2009 e me deixou em coma por 27 dias. Sangrei muito, entrei em choque, tive parada respiratória e fui entubada. Já relatei sobre o coma em postagem anterior.
Acordei e tive que reaprender a falar, comer, andar...Eu era como criança que aprende aos poucos. Meu cérebro reaprendia tudo de novo.
Já a cirurgia de coluna ocorreu antes da neurocirugia. Foi realizada em maio de 2009 e correu tudo bem, graças a Deus.  Hoje tenho duas hastes e 21 parafusos de titânio segurando meus ossos no lugar e evitando que minha coluna fique torta, como já foi. Ainda tenho mobilidade reduzida mas não corro o risco de perder os movimentos como antes.
Se eu não tivesse comentado com meu oftalmologista, estaria hoje com a doença descontrolada e com graves consequências e se tivesse seguido os conselhos inúteis e desumanos do primeiro doutor da coluna, talvez hoje não pudesse andar.
Há médicos e médicos.
Sentia que esses doutores me atendiam por atender e o faziam de forma a se livrarem o mais rápido possível de mim. Diziam que estava tudo bem, para eu não me preocupar.
Não sejamos hipocondríacos mas não sejamos hipócritas.
Temos o direito de um atendimento médico digno e humano. Seja pela saúde pública, seja pelo plano particular.
Hoje sou gata escaldada. Se vou a um médico e não gosto dele/a, simplesmente não volto mais e procuro outro/a.
Sinto falta do Dr. Fábio Rogério Righetti, meu oftalmologista. Ele não está mais atuando na área médica, segundo fui informada no seu antigo consultório.
Era ótima pessoa e muito educado e atencioso. Mas continuo paciente de seu colega e amigo, o Dr. Sandro Lopes Farias.
Dr. Sandro dá suas broncas, fica feliz quando os resultados dos exames são bons e me dá esperanças.
Preciso voltar à minha cardiologista, Drª Vera Lopes Nunes. Ela cuida do meu coração há quase uma década e adora pedir vários exames. Segundo ela, é para garantir que tudo está bem e se não estiver, fazer o tratamento certo.
Há médicos e médicos.

Esclarecimentos sobre blogs (Mea culpa e "Inguinórança" mesmo!). Gzuis!

Tentei arrumar, organizar e enfeitar meu blog e, naturalmente, não consegui.
Apareceram outros blogs que eu havia criado e cancelado num esquema de "tentativa e acerto".
Eu criava apenas para fazer testes e cancelava depois, mas o problema é que continuam aparecendo: (blog da mariana e blog da mariana menina). Pensei que bastava clicar em "cancelar" e pronto. Mas não foi bem assim que aconteceu. Acho que tem um prazo para que os blogs deixem de aparecer por definitivo.
Bom...Desculpem a "inguinórança" cibernética-internética-bloguística.
Resumindo, os blogs são:
http://acromegalicasp.blogspot.com
http://blogdacrianca.zip.net

Muito obrigada pelas visitas e desculpem as burradas.

sábado, 8 de outubro de 2011

Bolo de Araruta

É uma raiz, um tubérculo. A sua farinha é usada para fazer bolos, mingaus, biscoitos.
É recomendada para pessoas que têm a doença celíaca (intolerância ao glúten).
O bolo de araruta fica amarelinho, fofinho, delicioso.
Avô José tinha bolo de araruta em sua bodega. Em Pernambuco bodega é um pequeno mercadinho onde vende-se um pouco de tudo: fumo de corda, farinha de mandioca, fubá, sal, açúcar, café, elemento (pilhas), macaxeira, jerimum, queijo de manteiga, de coalho e bolo de araruta.
A receita do bolo de araruta é bastante simples:
1 kg de araruta (farinha)
6 ovos grandes. Se os ovos forem pequenos, pode -se colocar uns 8.
3 xícaras de açúcar ou mais. Deve-se experimentar a massa antes de levá-la ao forno.
Fermento em pó.
Mistura tudo e leva para assar. Desenforma quando estiver frio e polvilha com açúcar.
Não é necessário usar leite nessa receita.
Era um bolo bom para meu avô José e para mim; ambos intolerantes à lactose.
Avô José tinha estômago sensível e dificuldade para digerir os alimentos. Avô José não tomava leite de vaca, pois como dizem em nosso Pernambuco, "o leite ofende", faz mal. Tomava leite de cabra, mas preferia mesmo era um bom e forte café acompanhado de um pedação de bolo de araruta.
Papai, mamãe e eu íamos visitar avô José e sempre o encontrávamos trabalhando em sua bodega.
Os tristes e belos olhos verdes de meu avô brilhavam ao me ver. Era um xodó só. Amor mesmo.
Avô José me abraçava, me cobria de beijos e elogios. Elogiava mamãe por me trazer sempre bem vestida e com os cabelos domados em cachinhos angelicais.
Avô José me sentava em cima do balcão de sua bodega, mostrava tudo o que tinha de gostoso e me perguntava o que eu queria.  Papai e mamãe reprimiam o avô coruja, mas ele ignorava e tinha olhos, ouvidos e coração só pra mim.
Avô José me dava um pedaço enorme de bolo de araruta com um copão de cajuína. Era delicioso!
Eu me labuzava toda; mamãe reclamava do trabalho que teria para lavar aquelas minhas roupas brancas que agora estavam coloridas por cajuína e araruta.
Acabava a visita e voltávamos para casa. Eu caminhava feliz e às vezes parava no meio do caminho para dar mais uma olhadela em avô José.
Alguns anos depois meu outro amado avô, Paipreto, partiu e nos mudamos para São Paulo. Eu tinha seis anos quando cheguei ao meu Santo São Paulo.
Avô José continuou em Pernambuco e trabalhando em sua bodega, mas sua saúde dava sinais de que não estava bem. Os problemas estomacais, a intolerância à lactose e ao glúten somados ao cigarro acabaram por prejudicar ainda mais o frágil estômago de meu avô.
Avô José fez algumas cirurgias, mas trabalhador e teimoso que era, não seguia as recomendações médicas de repouso e moderação.
O problema agravou-se e meu avô José teve que deixar sua bodega com seu bolo de araruta.
Saudades dos tristes e belos olhos verdes de meu avô José, da sua bodega, do bolo de araruta, de papai e de mamãe.



                                                              Bolo de Araruta

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Faz parte do meu show

Mais uma noite insone. Isso já está virando moda; parece que peguei gosto pela coisa.
Mas não é não.
São os vizinhos barulhentos e sem educação mesmo.
São vizinhos musicais também.
O vizinho da esquerda - à esquerda da minha casa; não trata-se de preferência política - tem o gosto musical variado; ora é sertanejo, ora é pagode, ora é MPB. Prefiro a velha e boa Música Popular Brasileira.
Mas às vezes o musicalíssimo vizinho abusa. Ligou o aparelho de som às sete horas da manhã e só o desligou às cinco horas da tarde! Acho que ele está apaixonado ou com dor de cotovelo, pois tocou e retocou a mesma música sertaneja-de-dor-de-corno cinco vezes!
Consegui até memorizar alguns trechos da música de dor de cotovelo.
O pior é ter que ouvi-lo cantando junto. Jesus!
Já o vizinho da direita tem um gosto musical que é um desgosto.
Sei que gosto não se discute, se lamenta; mas o pobre vizinho acha que está abafando com suas músicas horrendas tocadas em alto e bom volume.
Também acho emocionante o desapego material desses vizinhos: eles dividem suas músicas comigo e com os outros moradores e com quem tiver o azar de passar pela rua.
É tocante. Literalmente tocante.
Será que meus vizinhos musicais estão preocupados com nossa conta de luz e/ou com o fato de alguns vizinhos - eu - não termos aparelhos de som? Acho que sim. E por causa disso eles tocam suas músicas para que todos possamos ouvi-las - obrigatoriamente - e apreciá-las (nem por um decreto ou sob tortura!).
As músicas parecem sempre serem as mesmas. Acaba uma e começa outra e tem-se a impressão que é a mesma música que demora muito a acabar. É aquele tum tumm desgraçado acompanhado de uma voz masculina e outra voz feminina, ambas esganiçadas e medonhas.
São versões horrendas de sucessos internacionais que por sua vez também são de gosto duvidoso.
Sou do tempo em que cantava quem sabia cantar, hoje basta ter um corpão, uma carinha bonitinha e um Q.I. de ameba invertebrada e acerebrada e pronto, já temos um novo sucesso!
Minha Nossa Senhora do Chuveiro, dai-me resistência !!!
Mas...
Há os raros bons momentos musicais. Hoje mesmo, por exemplo, acordei ao som de Faz parte do meu show, de Cazuza. Sabe quando a gente está dormindo e acorda aos poucos, como se deixasse lentamente o mundo dos sonhos e caminhasse em direção a esse nosso mundo real?
Nossa! Bonito isso,hein?
Fez-me lembrar também do livro Música ao longe de Erico Veríssimo; "Um amor que não tem forma é como uma música ao longe..."
Bom. Acordei ao som dessa bela música de Cazuza e lembrei-me de minha avó Mãevelha. Era Maria Higinia, mas para nós os netos e bisnetos ela era simplesmente mãevelha.
Mãevelha gostava de Faz parte do meu show,principalmente da parte que diz "Te levo na escola e encho tua bola com todo meu amor..."
Ela dizia, enquanto fazia seus crochês com os gatos aos seus pés brincando com o novelo de linha: "Olha só que música interessante, minha filha. O rapaz vai levar a moça pra escola".
Acordei meio brava por ter o sono interrompido mas também rindo pela lembrança de minha avó.
Minha família é musical e a música e sua musicalidade fazem parte de nosso show.
Os vizinhos musicais que os digam!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ébano

Já chegou chegando. Até parece que já me conhecia.
Entrou em casa, correu pra lá e pra cá, mexeu nas plantas; se aconchegou no meu colo (o que causou uma fúria ciumenta das gatas, principalmente de Aurora).
Ébano era da vizinha, que apenas dava-lhe água e ração. Mas Ébano queria e precisava de mais. Miava muito, subia na máquina de lavar e miava olhando em direção ao meu quintal. Eu colocava a escada perto do muro e conversava com ele e acho que foi isso que fez aumentar a vontade de Ébano de fazer mudanças em sua vida.
Falei com a vizinha, que tem um menino de 3 anos com problemas respiratórios, disse a ela que seria melhor deixar o filho crescer e ficar mais forte para poder ter saúde para cuidar de um animalzinho. Ela concordou comigo e passou-me Ébano por cima do muro.
Ébano come, bebe, brinca, dorme e é perseguido por Aurora, a Terrível. Mas ele parece gostar dessa perseguição e ela também.
Cansados, ambos se aconchegam num cantinho fofo e confortável e dormem o sono dos justos.
Hoje pela manhã a vizinha comentou que Ébano não miou de noite e nem estava miando naquele momento.
Disse à vizinha que não basta apenas comida e água, precisamos também de comida e água para o espírito. Carinho, amor, frescura, mimos e manhas em doses certas para todas as criaturas.
Era isso que Ébano tentava dizer à sua antiga dona, mas ela não entendia.
Eu entendi.

Ébano Panda Massimino Da Silva
 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

São Francisco

Hoje é dia de São Francisco, o protetor dos animais.
Gosto muito de São Francisco.
Gosto muito de São Lázaro e seus cães fieis e companheiros. Lázaro que leva as doenças e traz a saúde.
Gosto de São Jorge.
Jorge guerreiro, forte, bravo, altivo e orgulhoso. E o mais importante: é o santo do Corinthians!
Gosto de Yemanjá, a rainha do mar.
Gosto dos Pretos Velhos. Tão lindos com seu cabelinho branco e suas vestes tão simples e tão limpinhas.
As crianças de Aruanda que adoram doces. E quem não gosta?!
Tanta gente boa, meu Deus.
Cada qual com sua fé e todos com muito respeito.
Mas o pedido é um só: Deus, ouça nossas preces.
Amém.

Mariana

Mariana era a mãe de papai.
Avó Mariana era uma mulher alta, forte e de pés grandes. 
Por ser muito alta, avó Mariana calçava números grandes. Era difícil encontrar calçados femininos acima dos números 37 ou 38. A solução encontrada por minha avó era usar os calçados de avô José, que era um homem alto. Ele sempre comprava dois pares de alpercatas (sandálias de couro), um para ele e outro para avó Mariana.
Nossa tia Nifa, irmã de avó José, nos contava que quando avô José e avó Mariana ficaram noivos e marcaram a data do casamento, a primeira providência da noiva foi a de encomendar os sapatos brancos, pois nem mesmo na capital Recife se achava calçados femininos de número grande nas lojas comuns.
Hoje em dia é mais fácil encontrar sapatos grandes, mas o problema é que os fabricantes se preocupam apenas com o comprimentos dos calçados e dos pés e não com sua largura. Tenho pés grandes por causa da Acromegalia, mas o problema não é tanto o comprimento dos meus pés e sim a largura.
Avó Mariana era acromegálica e por isso os pés grandes e a morte tão cedo.
Avó Mariana tinha apenas 36 anos quando partiu e segundo os relatos das pessoas que conviveram com ela, a causa de sua morte foi pneumonia. É estranho imaginar uma doença respiratória fazer vítimas em regiões quentes como Pernambuco. Atribuímos a doença a regiões mais frias como São Paulo.
Mas lembro-me agora que meu Paipreto (pai de mamãe) tinha alergia respiratória e tio José de Recife também tem.
Mas...A Acromegalia não contenta-se apenas em ficar alojada tranquilamente num tumor na hipófise (cérebro), essa doença afeta vários orgãos do corpo. As principais, segundo médicos, são doenças cérebrovasculares, cardiovasculares, doenças renais, diabetes, hipertensão, dores articulares, problemas de visão e por aí vai.
A Acromegalia cerca o corpo por todos os lados e varia de pessoa para pessoa.
Posso imaginar o sofrimento de Avó Mariana; as dores para sustentar um corpanzil de mais de 1.80m e numa época em que a altura das mulheres não passava muito de 1.60m. A falta de diagnóstico e de remédios. Numa época remota e num lugar remoto os remédios encontrados eram chás, garrafadas feitas com ervas, cascas de árvore e cachaça, benzeduras, promessas e esperança.
Mesmo nos modernos dias atuais ainda não foi encontrada a cura para a Acromegalia. São cirurgias, radiocirurgias, remédios etc, tudo usado para o alívio dos sintomas da doença, mas a cura que eu queria tanto...
Penso em avó Mariana com carinho, ternura, orgulho, admiração. Dó não.
Minha avó foi uma mulher forte, tanto fisicamente como em seu cárater sério, honesto e trabalhador. Ajudava meu avô na fazenda; ajudava com a criação e a plantação. Carregava peso que muito cabra macho franzino não conseguia carregar.
Sempre gostei de ouvir falar de minha avó e sempre carreguei comigo a promessa de que se um dia tivesse uma filha a ela seria dado o nome Mariana.
Mas me parece que a Acromegalia já me roubou mais uma Mariana.
Não tem problema. Não tenho minha Mariana, mas tenho Maria Julia, Beatriz, Maitê, Michelle, Giovanna e Rafaela, que acabou de chegar a esse mundo.
Bisnetas de avó Mariana.

Beatriz e Maitê

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Barulho, Educação & Maracujá

Tentava dormir e não conseguia. Levantei e preparei um suco de maracujá; com a fruta mesmo,não gosto muito de sucos químicos.
Enquanto aguardava o efeito calmante do maracujá, concluía a leitura de "Relato de um náufrago" de Gabriel Garcia Marquez.
O sono se aproxima e quando finalmente começo a enveredar pelo mundo diáfano dos sonhos, eis que chega o vizinho como o som ligado em altíssimo volume e tocando música de péssima qualidade. É aquele tipo de música monótona, chata, repetitva; ouviu uma ouviu todas.
Enquanto toca a música de gosto duvidoso, o vizinho conversa com algumas pessoas como se estivesse em uma reunião de família num domingo à tarde.
Era domingo, só que era 1 hora da manhã!
Vivemos na sociedade do barulho e da falta de educação. Lembro que há uns vinte anos não vivíamos com tanto barulho. Lá pelas 22hs só se ouvia o apito do guarda noturno. Era praxe, acabava o Fantástico e todos íamos para a cama. Nós e os vizinhos!
Hoje não. As pessoas perderam o bom senso, o respeito e a educação. Ligam seus aparelhos de som em qualquer lugar, qualquer hora, qualquer ocasião. Agradeço a boa vontade dessas pessoas barulhentas em dividir conosco seu gosto musical. Agradeço, mas é NÃO, OBRIGADA!
Outros vizinhos discutem de madrugada; brigam com os filhos, xingam, falam palavrões e no dia seguinte não têm o menor pudor em nos cumprimentar e agir como se nada tivesse acontecido. Cadê a vergonha?
Será que as pessoas perderam o medo e a vergonha de se expor ao rídiculo? Será que gostam mesmo de chamar a atenção? De se exibir?  Por quê?
Parece-me que a Sociedade desatou-se das amarras impostas pela religião, política, cultura etc... e não sabe o que fazer com o excesso de liberdade recém adquirida.
Liberdade demais, educação de menos. Mete-se os pés pelas mãos.
Parece que essa liberdade toda é uma forma de a sociedade dizer: "Problema seu!". Mas se vivemos em sociedade o problema é nosso, é de todos!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Rafaela

Filha de Fubá, meu irmão caçula.
Rafaela chegou ao mundo segunda-feira dia 26/09.
Já trouxe consigo a marca da família: seriedade, cenho franzido e invocadinha.
Segurei-a nos braços, cantei uma velhíssima canção de ninar que cantava para embalar o sono atribulado de meu irmão, principalmente quando ele percebia que eu ia sair.
Fiz uma oração, um pedido a Deus, aos céus e ao povo lá de cima: cuide de nossa família, cuide de Rafaela. Que ela tenha o coração bom, um bom caráter; que seu caminho seja iluminado, que tenha saúde, que seja feliz e proporcione felicidade àqueles que a cercam.
Deus, é mais uma para Sua lista de cuidados e mimos. Sua orelha vai arder de tanto eu cochichar em Teus ouvidos e pedir por mim, por minha família e por quem precisa. Ouça-nos. Não nos faça ouvidos moucos.
Se estiver ocupado, delegue a alguém a função sagrada de cuidar de nós. Tem gente muito boa aí, eu sei.
Dai-nos o que pedimos,o que precisamos. Se não for possível termos tudo de uma vez, dai-nos aos poucos, de bocado em bocado até conseguirmos o que queremos. E quando conseguirmos, não nos esqueçamos de agradecer e pedir por aqueles que ainda não conseguiram.
Amém.
Obrigada, Deus. É Nóis!



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Acromegalia: Descoberta, Cirurgia e Coma

                                            




Maio  de 2007.
Exame médico para renovação da carteira de motorista. Esperava um exame simples, básico, comum. Aguardo na sala de espera.
A médica me chama e enquanto conversa, olha fixamente para mim. Mede minha pressão arterial; 17 x 11.  Faz perguntas sobre minha família, hipertensão, crescimento e acromegalia. Por quê? Pergunto eu. A médica diz que minha pressão está muito alta, sou muito grandona, tenho pés, mãos e rosto grandes, tenho traços acromegálicos. Ela me aconselha a procurar um médico e falar sobre o assunto; fazer exames.
Eu já tratava a coluna, tinha dores fortes, andava torta, travava. Vou ao médico e falo com ele sobre a desconfiança da sua colega. Fiz exames e depois os levei ao médico. O simpático profissional da saúde disse que não era nada demais, só uma pequena inflamação na região da hipófise, mas mesmo assim me indicou um colega seu, um endocrinologista.
Fui ao endócrino, fiz exames de sangue que confirmaram as primeiras suspeitas de acromegalia: níveis altíssimos do hormônio do crescimento. Iniciei tratamento com “Dostinex”.
Continuo fazendo exames e os níveis hormonais mantêm-se altos. Fico insatisfeita, resolvo procurar outros médicos, um para tratamento da coluna e outro para tratamento da acromegalia.
Foi-me indicado outro endócrino. Faço exames e ele decide trocar o medicamento, começo a tomar “Sandostatin-LAR” ou “Octreotida” de 10mg. Esse remédio não é vendido em farmácias; é uma droga importada e distribuída pelo governo nas chamadas “Farmácia Alto Custo”. Tomo o remédio por um ano e o não surte o efeito esperado; o médico aumenta a dose para 20mg. Mais um ano e nada de melhora. O endócrino acha melhor remover cirurgicamente o tumor da hipófise e me encaminha ao neurocirurgião.
Mas antes disso eu trabalhava e tratava da coluna. Trabalhei durante um ano com dores terríveis nas costas, com dificuldade para caminhar e com a falta de compreensão de algumas pessoas. Isso doía mais.
Ao mesmo tempo em que sou chamada para assumir meu cargo de professora na rede estadual de ensino, sou chamada pelo médico para discutir meu problema de saúde. Decidi tratar com remédios e ver até onde poderia agüentar. Agüentei muita coisa: a escola fica num bairro distante, tomava quatro conduções para chegar ao trabalho, minhas aulas foram distribuídas em horários absurdos e foram inúteis minhas tentativas para fazer essas pessoas entenderem ou ao menos respeitarem meu problema.
Alguns meses depois compro um carro. Facilitou bastante minha locomoção, mas agora eu teria despesas com combustível, pedágio e seguro do carro. A escola fica na periferia, uma região afastada do centro.
Agüentei um ano com dores, cansaço e um sentimento de pouco caso, de humilhação por parte de alguns colegas de trabalho, principalmente de pessoas em postos superiores ao nosso de professor.
Março de 2009. Peço para sair mais cedo, não me sinto bem. Vou ao médico que fará a cirurgia na coluna. Ele pede meu afastamento.
Maio de 2009. Sou internada na AACD e é realizada cirurgia na minha coluna: duas hastes e 21 parafusos de titânio.. Sinto-me uma mistura de Robocop com Wolverine. Tudo correu tranquilamente, volto para casa em doze dias. Faço fisioterapia e após um mês e meio, vou ao consultório do neurocirurgião, que se admira com minha rápida recuperação.  A próxima cirurgia é marcada para agosto, o neurocirurgião acha melhor esperarmos uns três meses para que haja uma boa recuperação da primeira cirurgia.
Agosto de 2009. Hospital Santa Helena. Subo para a sala de pré- operatório. Troco de roupa, sou medicada e aguardo. O médico anestesista vem conversar comigo e fazer as perguntas de praxe. Um enfermeiro vem me buscar para me levar para a sala de cirurgia. Brinco com o neurocirurgião, imito seu sotaque sulista e digo que tudo vai ficar bem. Não fica.
Acordo um mês depois. Fui entubada, amarrada, desenganada. A cirurgia foi complicada, deveria durar duas horas aproximadamente, mas durou nove. Perdi muito sangue, entrei em choque, tive parada respiratória. Esperava-se um tumor simples, comum, mas era um tumor grande e com sistema vascular próprio. Entrei em estado de coma. Minha família preocupada, agoniada e eu parecendo dormir, travava uma batalha cansativa para poder continuar viva.

Coma.
Vi muita coisa, muita gente e realidades inimagináveis para o nosso mundo real, para o nosso aqui e agora. Foi uma viagem intensa, cansativa, assustadora, horrível. A maioria das situações foi de terror, de perseguição, raiva, desconfiança, culpa e dúvida.Senti fome, sede e frio. Sofri injustiça, acusações. Medo e solidão.
Para o mundo exterior eu parecia dormir; dormia profundamente. Ligada a aparelhos, agulhas enfiadas por todo meu corpo ou por onde fosse possível encontrar veias; até nos meus pés havia agulhas e bolsas de sangue.
Estava inchada, pesada; tive trombose no braço esquerdo. Minhas unhas estavam compridas e meus dedos sujos de sangue devido às constantes picadas para os exames de glicose. Olhava para meu braço esquerdo inchado e para meus dedos sujos de sangue e pensava que estava morta e já em estado de decomposição. Sentia-me suja, fedida e queria muito tomar um banho. Queria que cortassem minhas unhas e meu cabelo, mas não conseguia falar, me fazer entender.  Meu estômago doía e fazia barulhos estranhos de um estômago vazio. Achava estranho não comer e me perguntava porque não traziam comida para mim. Sentia-me abandonada, largada, esquecida. Ninguém vinha falar comigo, cuidar de mim. Achava que as pessoas me evitavam por não gostarem de mim por algo de muito ruim que eu, na minha imaginação, havia feito. Nessa nova realidade tão palpável, tão assustadoramente real, eu havia prejudicado muita gente, inclusive pessoas que eu nem conheço direito, que não tenho muito contato e até pessoas que amo demais: meus sobrinhos.
Eu via e ouvia as pessoas. Via quando os médicos e enfermeiros falavam meu nome e explicavam meu caso; começavam assim: “Essa paciente é a Maria Rejane, foi submetida à cirurgia de adenoma de hipófise, teve complicações...”.
Via e ouvia minhas irmãs falando comigo, meus irmãos tentando segurar as lágrimas, meu cunhado dizendo para eu ficar boa para comemorarmos com uma boa picanha e uma cerveja bem gelada. Meu médico perguntando se eu sabia quem ele era e para eu apertar sua mão; vários outros médicos conversando comigo e dizendo palavras animadoras.
Foi uma batalha. Venci. Mas antes de vencer, tive que lutar muito. Lutar contra coisas, pessoas, seres, entes, criaturas e situações que queriam me destruir, me fazer acreditar que eu era culpada de crueldades inimagináveis, que eu havia prejudicado gente inocente, que eu era má e merecia sofrer, morrer.  Tive momentos de angústia profunda.  Senti muito medo, solidão, desespero, culpa, abandono e incompreensão. Queria me fazer entender, queria ser compreendida, aceita, desculpada. Queria pedir perdão pelos meus erros, pelo mau que causara a um infinito número de pessoas.
Num momento de desespero extremo pedi a Deus que me deixasse morrer. Desafiei o Criador, disse que se Ele existe mesmo, que me levasse daqui! Estava cansada de estar presa no meu próprio corpo, de não estar em lugar nenhum e estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É fisicamente impossível, mas totalmente possível quando se está em coma. Nesse estado não há tempo, horários, cedo ou tarde, noite ou dia. Viaja-se constantemente e passa-se por diferentes planos. Vi pessoas que já se foram há muito tempo, voltei a ser criança, fui outra pessoa.
Assistia aos acontecimentos como se estivesse assistindo a um filme. Imagens e sons fortes e incômodos; assustadores. Uma música infernal, alta, forte e intensa. Pedia que desligassem aquele som, aquelas imagens. Crianças pequenas, deformadas e doentes.
No começo do coma, assim que “apaguei”, vi crianças que voltavam da escola e vieram me buscar para ir com elas. Vi-as do pescoço para baixo, não via seus rostos. Estavam com uniforme escolar e carregavam suas mochilas. Estavam impacientes, queriam que eu fosse logo. Eu queria ir com elas, sentia-me querida e queria protegê-las. Eu lhes dizia que partiria com elas assim que conseguisse me livrar daquelas pessoas que cuidavam do meu corpo. Eu dizia que a demora não era minha culpa e sim daquelas pessoas que estavam ao meu redor. Mas as crianças ficaram impacientes e se transformaram. Seus gestos doces e seus uniformes azul e branco deram lugar a roupas escuras e gestos impacientes, agressivos e ameaçadores. Pude ver seus rostos e isso me assustou. A doçura e inocência deram lugar à violência, impaciência e ameaça.  Eu tentava fechar os olhos para não vê-las, mas tinha medo de dormir e ver coisas piores. Pedia a Deus que me livrasse daquilo tudo.
As crianças continuavam bravas. Mostravam imagens com símbolos e ameaças de morte; se eu não fosse por vontade própria, elas me buscariam. Eu tentava explicar que não dependia só de mim. Havia um envelope escrito mostrando a hora que eu deveria morrer; era por volta das 20hs. Eu fiquei assustada, pois para mim, naquela realidade, já era 18hs.
Tenho muita febre, sinto meu corpo muito quente e minha cabeça ferver. Estava a um passo da morte. O hospital liga para minha irmã às duas horas da manhã e diz para se preparar para o pior.
Nessa fase em que os médicos lutam para me salvar eu luto contra os demônios que tentavam me dissuadir e me convencer de que eram verdadeiras as mentiras que me mostravam e me faziam vivenciar e sofrer. Dentre os horrores vividos, vi pessoas querendo me destruir, me matar. Essas pessoas tentavam me matar, não conseguiam e mandavam outras tentar. Pessoas conhecidas, algumas próximas, outras nem tanto, familiares. Eu me senti suja, má, merecedora de toda a agonia e sofrimento por que passava. Sentia-me um monstro, um ser abominável.
Durmo e acordo sentindo muito frio. Abro os olhos na esperança de estar em outro lugar, de já ter morrido, mas me desespero ao constatar que estou no mesmo lugar gelado e vazio. Começo a conversar comigo mesma e a me culpar, falo meu nome completo, o número do meu RG e CPF, meu endereço.  Lembro dos causos que papai contava e me vejo personagem de um deles. Papai dizia que o maior castigo para uma pessoa é desejar a morte e continuar vivo, é querer morrer e não conseguir.
Rezo, lembro das orações que papai fazia antes de dormir. Chamo por Deus e por entidades que gosto e confio muito. Peço que me levem e me protejam, me livrem dessa agonia, desse sofrimento. Uma flor púrpura gigante se abre e dança um balé envolvente. É uma flor imensa que invade o espaço de uma sala. Luz. Caminho segurando na mão de alguém que me conduz a um lugar bom.
Chego a uma caverna de paredes arenosas e vermelhas. Vejo bonequinhas minúsculas de cabelos loiros e cacheados. O vento desfaz os cachinhos e eu corro atrás deles para que não se percam. Vejo patriarcas hebraicos com suas roupas típicas; mulheres que trabalham nos afazeres domésticos e crianças que brincam no chão dessa caverna vermelha.
Vejo líderes mundiais, vejo monstros políticos e ditadores que dizimaram povos inocentes numa época remota. Vi muita coisa esquisita.
Vejo-me agora num pátio de hospital. Tenho muita febre e minha cama é colocada nesse pátio até que se resolva o que farão comigo. Há um posto policial dentro desse hospital e uma senhora elegante que tenta administrar a situação. Vejo minhas irmãs, minha ex-cunhada e as filhas que vão me visitar. Minha irmã não quer deixar as meninas se aproximarem de mim, ela teme que eu contagie as meninas com a minha doença. Vejo pessoas limpando e varrendo esse pátio, vejo papai ao longe, com as mãos nos bolsos.
Há uma sucessão de imagens, sons, situações, pessoas que vão e vem. Há uma confusão de sentimentos em relação a mim; na maioria das vezes as pessoas querem que eu morra e em alguns raros e suaves momentos, essas pessoas lutam para que eu continue a viver. Sinto-me perdida no meio desse turbilhão.
Em outro momento desse filme estranho vejo-me próxima a um helicóptero pousado numa praia de mar muito bravo com ondas furiosas. Venta muito e faz frio. Mais uma vez o vento forte e gelado. Ao lado do helicóptero tem um homem de cabelos brancos, ele me aguarda. Eu e o homem estamos vestidos com roupas que parecem roupas de montaria; o homem me aguarda para que possamos embarcar no helicóptero que será pilotado por mim. Sou jovem e bela. Tenho uma aparência agradável, suave e delicada, bem diferente dessa aparência estranha causada pela acromegalia. Nunca fui bela, mas a acromegalia piorou muito o que já não era tão bom e trazendo de volta velhos fantasmas que lutei tanto para exorcizar. Nos meus momentos de revolta volto-me para Deus e pergunto: “O que foi que eu fiz? Por que tenho que ter uma doença que me deixa mais feia ainda? Uma doença que me deixa masculinizada! Uma doença que faz com que meus pés cresçam e me obrigue a usar calçados masculinos por ser difícil encontrar sapatos femininos em números grandes. Já tenho pés e mãos grandes, já estou com a aparência transformada, a voz está ficando rouca e grave. É desagradável fingir normalidade com as pessoas me olhando fixamente e fazendo comentários maldosos e preconceituosos. Já vi e ouvi expressões admiradas de pessoas que se perguntam se sou mulher ou homem; crianças já me pararam na rua e me perguntaram a mesma coisa. Em algumas situações mais curiosas as pessoas olham para a região de minha genitália e para meu peito para verificar ou comparar o que vêem com a minha aparência masculinizada. Um corpo de mulher com cara de homem. Às vezes acho que isso é ironia da vida ou uma boa sacanagem do destino mesmo e aí volto ao passado para tentar entender o que está acontecendo comigo fisicamente. Procuro entender o contexto social e cultural daquela época, a época em que nasci.
Venho lá do sertão pernambucano. A cultura é fortemente machista e as tradições, crenças e comportamentos sustentam essa cultura. Segundo a crença popular é melhor, mais importante e mais bonito que o primeiro filho seja menino, ou um “cabra macho”.
Mamãe acreditava e seguia esses costumes e tradições. Ironicamente mamãe era machista e ao mesmo tempo era o “homem” da casa. Era ela quem tomava as decisões e resolvia os problemas. Mamãe foi mais forte do que muito “cabra macho”.
Mamãe casa-se em 1966 e engravida de mim. Sou a primeira de seis irmãos. Mamãe queria muito que eu fosse menino, acreditava que é mais bonito que o primeiro filho do casal seja menino. Ela passa os nove meses da gestação torcendo por um menino. Uma das fortes crenças é de que meninos e meninas nascem em posições diferentes; ou seja, “meninas nascem de cara pra cima e os meninos nascem de cara pra baixo”. Chega a hora do parto após dias de dor e sofrimento. Mamãe era pequenina, pouco mais de metro e meio de altura. Eu nasci grande, quase cinco quilos e ao me tirar de mamãe a parteira diz: “Louvado seja Deus Nosso Senhor Jesus Cristo! É um cabra macho!”. Eu nasci de cara pra baixo! 
A alegria de mamãe e da parteira dura pouco, “a moleca nasceu na posição de macho”. Acho que foi a partir daí que a culpa começou a fazer parte da minha vida. Decepcionei. Dor e sofrimento enormes para uma decepção maior ainda. Inconscientemente mamãe me culpa e me pune por não ser o filho que ela queria tanto. Sou culpada por não ser menino e ainda por cima ser uma menina feia. Um bebê feio, uma criança feia. Uma menina de pele claríssima e negros cabelos cacheados, ou “cabelo ruim”. Noutra tradição sem sentido espera-se que pessoas de pele clara tenham “cabelo bom” e que é normal pessoas de pele escura terem o “cabelo ruim”; o contrário causa estranhamento e admiração.  Alguém parou para pensar que os povos se misturam dando origem às pessoas das mais variadas formas, cores e tamanhos?! Pois é, venho exatamente de uma mistura de raças, ou melhor, de etnias; pois raça só tem uma: RAÇA HUMANA!!!
Dou muito trabalho na minha primeira infância; mamãe não tem leite para me amamentar e descobre que sou intolerante à lactose. Papai troca leite de vaca por leite de cabra. Minha avó Mãevelha prepara mingaus com leite de coco. Sobrevivo.
Mamãe engravida de novo e nasce um menino. Alegria.
O menino adquire tétano umbilical ou “mal de sete dias” como é comumente chamado. O menino morre no sétimo dia de vida. Tristeza.
A menina branca, feia e de cabelo ruim sobrevive. Culpa.
Mas há um consolo, meus avôs me adoram por eu ser menina e me acham bonita. Sou bonita e importante para alguém e isso me basta.  Meus avôs José e Paipreto. Amor.
Mamãe engravida pela terceira vez e agora vem um menino que vinga. Felicidade.
Outros filhos e filhas vieram. Somos seis.  Meus irmãos e irmãs são belos. E bela é a vida que desejo a eles.
É isso. Mamãe queria tanto um primeiro filho homem. Teve seu sonho despedaçado com a minha chegada. Fui culpada por essa decepção. Fui culpada por não ser menino, por não ser bonita, por não ter cabelo bom.
Hoje luto contra uma doença estúpida com nome estúpido e que me deixa com as feições estúpidas. Feições masculinizadas. Ironicamente e enfim meu rosto transmuta-se para o rosto masculino do filho homem que mamãe queria tanto.
Já não bastava ser feia, já não bastava ter o cabelo ruim...
Mamãe não tem culpa. Foram a época e a cultura em que ela viveu.
Acromegalia. Ave Maria.
Papai
Quando eu estava em coma, vi muitas coisas estranhas, assustadoras. Coisas que já aconteceram, estão acontecendo.
Havia e há uma casa onde as cores verde e azul se confundem, se misturam; é nessa casa que moram Paipreto, Mãevelha e mamãe, exatamente nessa ordem de chegada.
É uma casa simples, com muro baixo e um portãozinho simples. Passando o portão, tem um jardim que mais parece uma horta, nele tem pés de couve belíssimos, altos, fortes e saudáveis. Tem cebolinha verde com talos altos e bonitos e tudo muito fresquinho, saudável, bonito e verdinho.
Entra-se na casa e na mesa da cozinha têm ferramentas de trabalho e uma série de coisas e objetos que não consegui identificar claramente. São ferramentas de Paipreto. Saindo da cozinha, dá-se para o quintal. À direita tem uma espécie de casinha comprida que meu avô usa para guardar alguma coisa. O enorme quintal é de terra batida. No meio dele tem uma espécie de mesa grande de madeira. Paipreto trabalha em alguma coisa.
A rua dessa casa termina em um poderoso e belo rio e há belas árvores debruçadas em seu leito. Já estive nessa casa várias vezes antes, mas eu entrei como visita e não para ficar.
Durante o coma eu fui até essa casa verde-azul; eu era criança novamente. Do lado de dentro estavam Paipreto, Mãevelha e mamãe e eles seguravam o portão impedindo minha entrada. Havia uma luz morticia e uma porta e eu via papai encostado na parede logo atrás dessa porta. Papai não esboçava reação nenhuma e eu insistia para que mamãe ou meus avós abrissem o portão e me deixassem entrar.
E papai continuava ali, a esperar.
E eu sabia que se o portão fosse aberto papai entraria comigo, mas eu não queria que ele entrasse porque eu também sabia que se entrássemos, não voltaríamos mais, ficaríamos todos na casa e não acordaríamos mais.
Depois de desistir de entrar na casa, caminho até um cemitério. Está havendo um enterro. Estou a alguns túmulos de distância e consigo apenas ver um grande grupo de pessoas, flores e a terra revolvida. Flores frescas e bonitas. Digo para mim mesma que está acontecendo um enterro, mas não é o meu enterro, então de quem é?
Acordo com um balé de folhas e pétalas secas e mortas que bailam num redemoinho dentro de copo de vidro com água.
Acordo e olho em volta; vejo remédios pendurados em uma espécie de poste com pontas, um monitor barulhento com números verdes piscantes e um barulho irritante. Não consigo me mexer, quero sair dali e andar; ir para casa. Estou amarrada à cama.
O tempo passou. A vida continuou.
Mês passado papai começou a ficar mais doente, mais frágil. O levei e busquei no posto de saúde; dei-lhe broncas, chamei sua atenção para com os cuidados de sua saúde.
Domingo dia das mães Fubá veio me chamar às 8hs da manhã. Pensei comigo: "Será que papai piorou?" Não, não era nada com papai; Fubá viera me trazer flores pelo dia das mães.
Segunda-feira vou à auto-escola para fazer as aulas com o carro automático. Tudo bem.
Terça-feira faço aula noturna e, na rua mal iluminada, sinto um mal estar, um turbilhão invade minha mente e a casa verde-azul invade minha memória. Não faço uma boa aula, não me concentro, não consigo.
Quinta-feira, prova prática. Entro no carro, ligo a seta, faço parte do percurso. Um apagão de segundos me pega e me traz a casa na memória. Não passo na prova prática.
Volto para casa com uma dor de cabeça absurda.
Sexta-feira não saio de casa, a cabeça continua a doer.
Sábado, 8hs da manhã Rose me liga e diz que papai morreu.
Eu já sabia que isso ia acontecer, não seria surpresa, já esperava por isso. Mas doeu e eu chorei.
Mas eu achei bom, pois só assim papai vai descansar dessa vida física, pesada, dolorida.
Senti um alívio por saber que papai teimoso não teria mais que acordar de madrugada, encarar esse rigoroso frio paulistano, encarar barulho e poluição. Papai que não nos ouvia quando dizíamos para ele viajar, ir a Pernambuco e descansar. Lá seria bem acolhido. Mas não! Papai precisava trabalhar, não podia ficar longe do trabalho.
Papai está agora na casa verde-azul ajudando Paipreto a construir algo.
Um dia irei morar nessa casa verde-azul, mas antes irei visitá-la. Só visitá-la. Voltarei criança, trazida pelas mãos de Paipreto e ao se despedir, meu avô dirá que não posso ficar, que preciso voltar. Acordo adulta e chorando. Um pranto doloroso e bonito.
Papai parecia sereno, descansado. Estava com as feições calmas, parecia dormir tranquilo.
Papai estava bonito e tranquilo.
Pedi a Deus e ao povo lá de cima que cuidem do meu pai, que ele descanse, que tenha paz, felicidade, saúde.
Hoje fui à igreja encomendar a missa de sétimo dia e acender as velas que ele, papai, tinha pedido
Pedi a Deus e ao povo lá de cima que cuide de nós. Eles cuidarão.

Proteção
Espera-se que meninas sejam bonitinhas, lindinhas, meiguinhas e todos os “inhas” possíveis. Eu não. Nasci grandona, careca, branquela. Quando meus cabelos finalmente decidem aparecer, surgem em cachos castanhos que com o passar do tempo se tornam negros.
Fujo ao estereótipo da menina bonitinha de pele clarinha e cabelo lisinho.
Cresço e percebo que as meninas da minha escola começam a desenvolver corpos atraentes para os meninos. São bonitas, têm cabelos lisos e compridos, têm corpos bonitos. Eu não. Sou magérrima, alta, “Maria moleque”, volumosos cabelos cacheados, nenhum atrativo. Assumo uma postura masculinizada, sou durona, cuido dos meus irmãos, e desço a porrada nos meninos que queriam pegar meus irmãos meninos. Cuido  da casa, lavo roupas de caminhoneiros de uma transportadora vizinha para ajudar mamãe. Uma vez por mês levava meu irmão caçula para pesar, medir, tomar vacinas e pegar as seis latas de leite em pó que o posto de saúde dava.  O interessante era ter que carregá-lo nos braços mais a sacola com mamadeira, fralda e toda a parafernália infantil mais as seis latas de leite. Esperar mais de uma hora pelo ônibus carregando tudo isso num corpo magro infantil de onze anos! Acho que isso explica as quase duas dúzias de parafusos na minha coluna.
Trabalho muito em casa e ainda consigo boas notas. Não sou gênio, mas me esforço.
Vou às aulas de educação física. Sou péssima atleta, sou péssima no voleibol, apesar de gostar do esporte. Considero-me ruim em tudo, além do cabelo ruim e da feiúra. As outras meninas jogam vôlei tão bem, têm corpos bonitos e são tão bonitas. Por que eu não posso ser assim também?
Vejo muitas meninas bonitas e perfeitas com namorados. Eu nem pensar. Papai teria um ataque e me causaria outro. O ciúme de papai era insuportável, imagine se eu fosse bonita?!
Mas tempos depois essas mesmas meninas bonitas encontram-se grávidas e casam-se com seus namorados que tempos depois vão embora.
As meninas bonitas já não estão tão bonitas, na sua maioria.
Às vezes acho que não ser bonita de certa forma me ajudou e protegeu. Se eu fosse bonita correria o risco de ser assediada, de não ser estudiosa e de não amar os livros como amo. Talvez tivesse tido filhos, como as meninas bonitas. Talvez fosse até avó!
Talvez tenha sido melhor assim.
Evitava me olhar no espelho. Pra que perder tempo? Já sei como sou e como me viam.
Segui em frente com essa crença e continuei anos cuidando da casa, irmãos, estudando e lendo muito. Nunca me preocupei com minha aparência; até hoje não sei usar maquiagem. Acostumei-me a simplesmente tomar banho e vestir uma roupa limpa. Os cabelos cacheados sempre muito curtos e por isso mesmo muitas vezes fui confundida com um menino. Foram anos assim, bastava o cabelo começar a crescer e lá vinha a parentada falar para mamãe “cortar o cabelo dessa menina, pelo amor de Deus!”.
...
Aguardo autorização para mais uma cirurgia, a sexta. O plano de saúde usa a desculpa de que ainda está analisando materiais e eu, honestamente, não me sinto segura e confiante em fazer essa cirurgia e nem estou me estressando com a demora e as desculpas do convênio. Tenho certo temor, desconforto, desconfiança. Lembro o que passei durante o coma, voltam à memória as imagens e situações pelas quais passei. Os tormentos, as lutas... Meu Deus! De novo não! Lembro de um trecho da oração: “... livrai-nos de todo o mal, amém”.
Continuo com o tratamento; são remédios, exames, consultas, licenças médicas,dores, desconforto, olhares das pessoas, dificuldade em encontrar calçados e a boa e velha batalha contra os cachos rebeldes de meu cabelo “ruim”. Isso tudo é muito besta, eu sei, mas é o meu pilar, o que me alimenta e me destrói.
O gelo, a neve e o frio. Contêineres sendo colocados dentro de caminhões para os homens do gelo transportarem seu conteúdo. Os homens aguardam enquanto seus rostos são cobertos pela neve. Homens de pele, olhos e cabelos claríssimos. Vi esses homens, senti o frio, o gelo tocar no meu rosto, senti a dor de respirar o ar gelado. O que fui eu fazer nesse fim de mundo gelado?
Um grande navio, mar gelado, agitado. Um homem pequenino de pele escura e cabelos lisos me observava. Os passageiros desse navio vão a um hotel para participar de uma premiação. O navio está ancorado em um porto do mesmo país gélido dos caminhoneiros. Frio, muito frio. Mas antes, as pessoas se preparam para o evento. Fico no navio com outras pessoas e nos é servida uma comida estranha; uma espécie de geléia de mocotó rosa e borrachuda. Passo mal e vou para fora para tomar ar. Frio demais. Alguém entra no navio e atira em uma das pessoas, era um cientista que ia para a tal premiação; um homem de família. O alvo da bala seria eu, mas o atirador errou e a partir daí começou a perseguição. Queriam me matar a todo custo.  
Acordo em uma sala de UTI. Todos me odeiam e querem que eu morra. Uma enfermeira mostra para os colegas onde estou instalada. Ela me dá um copo com um líquido branco e doce para eu beber. Mas eu não bebo e ela resolve então injetar isso na minha veia. Não morro. A enfermeira abre a cortina e aponta uma pequena arma para minha cabeça, a arma trava. Outros enfermeiros tentam fazer o mesmo, mas a arma falha. Após tentativas frustradas, eis que surge um novo atirador que jura conseguir fazer o que todos os outros não conseguiram: acabar comigo. Mas eu conheço esse atirador! Ele titubeia, chora, não consegue acertar. Não encontra meu leito, passa por ele várias vezes e em não conseguir me matar, pede ajuda a outras pessoas. São pessoas de sua família e até da minha.
Surpreendo-me com essas pessoas. Eu as julgava neutras, imparciais e indiferentes e até “boazinhas”. E são as bozinhas que querem meu fim!
Estão todos impacientes e bravos com a minha sobrevivência e a incompetência daqueles que frustraram as tentativas de tirar minha vida. Não cuidam de mim, não me alimentam e não me dão banho. Sinto-me suja, abandonada.
Queria que entendessem que não sou aquela pessoa horrível que acreditam que sou e que não prejudiquei ninguém e que nunca o faria. Não sei por que pensam isso de mim, porque me julgam de maneira tão cruel e voraz. Querem devorar minha vida, minha existência, minha alma.
Estou presa à cama e fico observando o vai e vem de médicos e enfermeiros. Todos os outros pacientes são tratados, menos eu. Aparece enfim uma enfermeira que se oferece para cuidar de mim. Ela me dá banho, lava meus cabelos, conversa comigo usando uma linguagem infantil, mas quando está com os outros colegas, fala mal de mim e diz que não quer ser mais responsável por meus cuidados. Me chama de nomes feios.
Continuo amarrada à cama e me mexo muito, tentando sair e me esconder, pois sinto cada vez mais próxima a chegada de mais pessoas para me matar. Digo à minha irmã que vamos fugir e sair do país. Estou num estado de semi consciência, misturo sonho/coma com a realidade. Minha irmã, médicos e enfermeiros dizem que são sintomas causados pelos fortes remédios que me dão.
Fico nesse estado de consciência alternada com inconsciência. Não sei o que é verdade, o que é ilusão ou sonho e, mesmo após acordar do coma e começar a recobrar a memória, ainda confundo algumas coisas, ainda acho que tem gente me observando e esperando o melhor momento para me matar. Peço para a enfermeira falar mais baixo, pois acho que ela fala alto para que meu algoz possa ouvir e me localizar.
Minhas irmãs vêm me visitar e digo a elas para chamarem a polícia e a mídia, tento convencê-las de que querem me matar. Fico irritada por elas não acreditarem em mim. Por que não acreditam em mim? Por que querem me matar?
O comportamento dos enfermeiros e médicos muda. Agora todos rezam e pedem a Deus por mim, em suas diferentes fés, crenças e religiões. De repente o meu algoz volta para me ver e suborna enfermeiros para que cuidem bem de mim. As coisas parecem ficar bem, já não sou mais tão odiada.
O estado de coma é uma viagem. Vamos de um lugar a outro em frações de segundo. Essa viagem não respeita limites de tempo, espaço, velocidade ou qualquer outra lei física. Fui criança, viajei para um país gelado, fui a um navio, voltei ao tempo. Fui a uma clínica de séculos passados onde os elegantes doutores usavam fraque e o tratamento incluía banhos, massagens e chás.
Fui uma partícula, uma centelha de luz. Vi a Terra girar e tentar voltar ao eixo, como se fosse um cubo mágico. O tempo mudava, viajávamos nele. Os trens partiam e chegavam. Fui colocada numa balsa para ser levada pelas águas do rio. O tocar do sino avisando para liberar a balsa me causou tristeza profunda. Solidão, abandono e tristeza.
Em outro momento estou em uma sala cheia de pessoas vestidas de branco. Essas pessoas têm a pele de cor estranha e pergunto a uma delas porque sou a única com a pele de cor diferente. Ela me diz que aquelas pessoas estão mortas e eu ainda não.
Estou em outro leito e vejo tudo e todos engordurados, ensebados e nojentos. Pergunto-me como podem os médicos realizar cirurgia sem o mínimo de higiene! As cortinas, lençóis, tudo está engordurado. Não volto ao quarto e vejo as faxineiras limpando o local onde eu estava. Durmo e vejo uma árvore dourada de pequenas folhas douradas. As pessoas pegam uma folha e vão para outro lugar. O vento balança a árvore e leva as folhas para longe de mim, não consigo alcançá-las.
Um tronco de árvore cortado, um homem ajoelhado rezando, um luar iluminando esse homem de vestes brancas e rústicas.
Evito olhar para cima com medo de ver coisas e pessoas dentro da lâmpada. Tento dormir para descansar, mas tenho medo de ver coisas piores. Vejo de cima meu corpo amarrado à cama; estou muito inchada.
Alguém me diz o que aconteceu comigo e porque estou ali. Segundo a explicação, meu algoz atirou em minha cabeça e explodiu uma parte de meu crânio e cérebro e por esse motivo estou ali naquela cama de hospital. Irritei meu algoz e o fiz fazer o que fez!
Em um momento de consciência, peço à minha irmã um espelho; quero ver como estou sem a metade do rosto. Me surpreendo ao ver que estou inteira, meu rosto está normal, não falta pedaço! Minha irmã não entende de onde tirei essa idéia.
Reparo que há várias pessoas na mesma ala que eu. Para cada pessoa há uma espécie de quadro informativo com o nome do paciente e seu país de origem. A língua falada e a localização geográfica do país. São pessoas na sua maioria de países do leste europeu e da Eurásia. Há um velhinho que me provoca e faz sinais com o pé de que serei enterrada. Mas o velho muda seu comportamento e tenta me proteger. Ele tenta sair de sua cama para me ajudar. O velho morre e é coberto por um manto grená e é colocada uma coroa em sua cabeça; o ancião pertencia a uma nobre família desses países mostrados nos gráficos.
Em outra ala há vários idosos de origem japonesa. São colocados alimentos estranhos em seus leitos. Acho estranho colocar alimentos daquele tipo para pessoas em coma, é claro que elas não poderão comer, estão imobilizadas! Vejo bandejas colocadas aos pés da cama dos pacientes e nessas bandejas tem tartarugas, patos e outros animais estranhos. Em outras bandejas são colocados pães e bolos. Os alimentos são oferecidos de acordo com o país e a cultura dos pacientes.
Vejo crianças internadas e na mesma ala que os adultos. Um garotinho tem medo de mim por eu ter apenas metade do crânio e do cérebro. Minha aparência deformada o assusta e isso causa revolta entre os familiares que pedem minha remoção daquele quarto. Esse garotinho tem uma irmã e ambos sofrem de uma doença que os envelhece precocemente.  O garoto tem picos de pressão alta toda vez que me vê e os médicos precisam ser rápidos para socorrê-lo. Vejo o garoto ficar pálido, desmaiar e o sangue escorrer por seu nariz, olhos, boca e ouvidos. Sou culpada por isso.
Os enfermeiros fazem patuás para o garoto. Dão-lhe objetos de símbolo religioso e o ensinam a rezar para que ele possa se sentir protegido de mim.
Uma garotinha de longos cabelos loiros come pães doces de costas para mim; seus pais dizem para ela me oferecer e ela se nega e diz não gostar de mim.
Uma enfermeira jovem e atrapalhada cuida de mim, mas leva broncas o tempo todo. Não sabe aplicar os remédios e demora em fazer a limpeza e organização de meu leito. Vejo que ela tem dificuldade em retirar os dois vasos brancos com uma imagem azul de Nossa Senhora. Ela troca a água desses vasos e coloca flores novas. Os vasos são pesados para ela.
Ouço as pessoas reclamarem constantemente que minha aparência deformada assusta aos pacientes, as crianças e aos visitantes. Vejo meu irmão e minha cunhada ao meu lado fazendo orações. Eu empurro meu irmão e peço que vá embora, pois uma paciente oriental está tentando rezar por seu marido e a forte voz do meu irmão atrapalha sua oração. Ela chama os seguranças e peço que meu irmão vá embora para evitar mais problemas. Minha cunhada pergunta se ela pode ficar e eu digo que sim.
Depois de voltar à vida, meu irmão comentou comigo que se sentiu magoado por eu tê-lo empurrado. Disse a ele que não fiz de propósito, eu não estava em posse de minhas faculdades mentais.
Vejo uma jovem senhora que é deficiente física, tem as pernas e pés juntos como se fosse uma sereia. Ela vende artesanato na porta do metrô e do hospital. Foi atacada por bandidos que a roubaram e espancaram. Ela é trazido para a mesma ala onde estou e se assusta ao me ver. Pede aos enfermeiros que abaixem uma cortina para me evitar. Ela tem um sotaque de pessoas de países latinos. Ela traz consigo várias ervas diferentes e faz chás com elas. Uma paciente se engasga com o chá e passa mal. É hipertensa e vejo o sangue escorrer por seu rosto. Outra senhora lembra mamãe. Ela é faxineira do hospital, mas caiu durante a limpeza e quebrou a perna. Ouço pedir comida aos enfermeiros e eles dizem para ela esperar os exames para ver sua glicemia.
Ela sorri para mim.
Era tudo muito confuso; ora as pessoas me odiavam e queriam meu fim, ora lutavam e rezavam por mim.
Chegaram a fazer apostas de quanto eu iria morrer, diziam que daquela noite eu não passaria. Trouxeram um caixão e o deixaram em frente ao meu leito para que assim que eu morresse fosse feita a minha remoção do local. Mas não há mais leitos e o hospital está lotado, o caixão é transformado em cama. Eu fico olhando para aquele caixão, vejo as pessoas andarem pra lá e pra cá e me ignorarem. Chega um novo paciente que é colocado nessa cama caixão.
Em outro local vejo meu corpo arrumado e vestido em um caixão, já pronto para o velório. Estou vestida com uma calça preta e blusa verde, alguém pinta meus lábios com um batom vermelho forte.
Volto à ala do hospital e vejo muitas pessoas amontoadas num pequeno espaço. São mulheres paridas, crianças recém-nascidas, bebês e adultos. Muitos estão no chão por não haver espaço para todos. Vejo as enfermeiras preparar as mamadeiras das crianças.
Tudo é tão confuso. Não consigo me fazer entender. Choro ao sentir a presença de pessoas que querem me machucar. Tento mostrar que sou inocente, que não causei mal algum a ninguém.
Em um grande corredor vejo várias camas com pacientes e seus familiares. Os enfermeiros param para conversar com essas pessoas em vez de trabalhar. Falam de mim e fazem apostas. Uma enfermeira é subornada para me aplicar um remédio letal, que fará minha pressão arterial subir e me matar. Olho para o aparelho e vejo os números subindo disparados; tento gritar e chamar meu médico. A enfermeira se arrepende e retira o remédio da minha veia. O médico discute com as enfermeiras que dizem ser melhor me deixar de lado e se dedicarem ao tratamento das crianças que tem a doença do envelhecimento. O médico argumenta, diz que aquelas crianças não terão futuro, estão condenadas a morrer e que eu posso acordar e voltar a ter uma vida normal.
Sou observada e vigiada o tempo todo. Tento pedir ajuda.

Continua...