segunda-feira, 7 de maio de 2012

Coruja

                                             


Dia das mães de aproximando e me lembrei da famosa historinha que todos conhecem: a mãe coruja.
Estava na quarta-série e a professora leu para a classe a história da coruja que saíra em busca de comida para seus lindos filhotes e avisa ao compadre urubu que não coma seus bebês e o compadre pergunta: "Mas como vou saber quais são os seus filhotes, comadre coruja?"
"É fácil, compadre urubu, os meus filhotes são os mais bonitos".
Ao retornar para o ninho, a pobre mãe coruja não encontra seus lindos filhotes e sai desesperada à procura do urubu: "Mas por que a comadre está tão preocupada assim? O que aconteceu?", pergunta o urubu feliz e satisfeito com o buchinho cheio.
"Minhas corujinhas não estão no ninho, compadre".
"E qual é o seu ninho?"
"Aquele ali".
"Mas a senhora disse que os seus filhotes eram os mais bonitos!". 
Adorei e viajei na história; fiquei triste pela mãe coruja e contei a história para mamãe e Mãevelha que riram e disseram: "Todo filhote é lindo para sua mãe. Toda mãe acha seu filhote o mais bonito de todos. São as mães coruja".
O mais feio de todas as histórias sobre animais é o preconceito tolo e sem fundamento de muitas pessoas que associam animais como coruja, lobos e gatos pretos à coisas ruins. Quanta tolice.
Outras pessoas de determinadas culturas sacrificam animais para usar partes de seu corpo como amuleto ou afrodisíaco; as vítimas são tigres, cobras, botos e outros. 
Quer sorte? Trabalhe!
Quer afrodisíaco? Tome um Viagra?
Corujas, gatos pretos e lobos não são maus e nem sabem o que é isso, mas o bicho gente sabe muito bem!
É isso.
                      
Filhote de coruja. Não é uma gracinha?
                                           


                                               



domingo, 6 de maio de 2012

Veias

                                              


Fui ao laboratório para fazer exame de ressonância magnética.
Gosto de agendar esse tipo de exame aos domingos porque o trânsito é menos intenso.
Cheguei ao local, fiz a ficha e aguardei ser chamada.
Sou chamada e devo vestir uma roupa especial. Beleza.
Mas antes de realizar o exame é preciso puncionar (encontrar uma veia onde será administrado o contraste).
Não encontram a veia.
Decidem fazer a primeira parte do exame, que é sem contraste, e quando fosse o momento de fazer a segunda parte, aí sim procurariam minha veia para injetar o contraste.
A enfermeira que me acompanhava não consegue e chama um colega. De colega em colega termino com a enfermeira chefe tentando e não conseguindo e eu com oito picadas de agulha nos braços e nas mãos.
Fiquei dolorida fisicamente e emocionalmente também.
Chorei. Não pela dor física, à esta estou habituada, mas pela dor emocional. Senti-me reduzida, pequena, frustrada. 
Pode parecer uma coisa boba, mas não para mim.
É frustrante precisar ou querer fazer alguma coisa e não poder.
O exame de ressonância magnética será usado nas avaliações pós e pré operatória; explico.
Fiz cirurgia de correção de fístula liquórica e o médico precisa avaliar. Esse mesmo exame será enviado ao neurocirurgião do Instituto de Radiocirurgia Neurológica Gamma-Knife e ele avaliará se haverá necessidade de mais uma radiocicurgia.
A enfermeira chefe pediu que eu retornasse na próxima quinta-feira para realizar o exame; tomara Deus que dessa vez dê certo. Até lá acredito que as dores das picadas terão melhorado e minhas veias serão encontradas.
Amém.


                                            

Cantoria

Gosto de música, mas detesto cantoria em filmes e agora, na novela das sete.
Que saco!
Assisti ao filme "O Fantasma da Ópera" e detestei a cantoria tola, chata e usada para tudo.
Há momentos em que a música combina bem e é adequada, mas cantoria sem mais nem menos é um porre!
Gostei do filme "Megamente", apesar de ter assistido a partir da metade; vou alugá-lo e vê-lo por inteiro. A batalha final entre o herói e o vilão é ao som do bom e velho Rock 'n Roll tocado por Guns 'n Roses. Aí sim!
O final do filme "Shrek" onde todos cantam também é muito legal e divertido.
Para tudo tem seu momento, até para cantoria em filmes.


Megamente
                                          

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Maio

Maio é o mês das mães e das noivas.
Maio é o mês que menos gostamos.
São dois anos sem papai e onze anos sem mamãe.
Mamãe partiu em cinco de maio de 2001 e papai em quinze de maio de 2010.
Temos motivos para não gostarmos do mês de maio.
Anteontem, dois de maio, tenho pesadelos. Acordo chorando e chamando por mamãe.
Mamãe me abraça forte. Mamãe é força, aconchego, acalanto.
É desesperador saber que não posso ficar ali com mamãe e que ela precisa ir.
A dor da separação é imensa, intensa, doida. 
Papai vem ver o que está acontecendo e parece calmo e ocupado com algo. Mamãe precisa ir.
Estou depois no hospital com minha irmã Rosi, que me acompanha. Passo mal, tenho dor, tomo remédios e vão raspar minha cabeça. Meus dentes ficam soltos e alguns caem.
Mamãe me abraça.
Acordo: "Mãe! Mãe!".
Devo ter acordado os vizinhos também.
Minha cabeça dói, tomo meu anti hipertensivo e volto para a cama. Sonho agora em um aeroporto me despedindo de Rosi e Pedro que vão viajar para o Irã. Coisa mais doida, meu. Justo o Irã? Tantos conflitos políticos religiosos naquela região.
Irã é um país belo de rica e bela cultura; conheci alguns iranianos, são pessoas bacanas.
Antes de Rosi e Pedro embarcarem acontecem algumas explosões. Fogo, gritos, terror.
Meu Deus.
Me levanto, não quero dormir mais, tenho medo de sonhar de novo.
Rezo, peço a Deus e ao Povo lá de cima que proteja a minha família e a todos aqueles que estiverem carecendo de algum conforto, seja em forma de saúde, trabalho, carinho...
Deus sabe o que faz.
Temos a mania de pensar que tudo é para sempre. Estamos tão certos e seguros disso que não nos atemos ao fato de que o tempo passa, que envelhecemos, que as pessoas morrem, que a vida continua para quem fica... É difícil entender e aceitar. É a ordem natural das coisas, mas temos dificuldade para entender e aceitar.
Como dizia minha titânica mãe: "Dias Melhores Virão".
É isso.


                                    





Zé Claudino

Era um dos muitos nordestinos que passaram por nossa casa antes de terem suas próprias casas. Vinham de Pernambuco, ficavam em nossa casa e depois de algum tempo trabalhando,  arrumavam o próprio espaço.
Zé Claudino já era um senhor quando veio para "Sum Paulo" e era famoso pelo apetite insaciável; vivia sempre com fome.
Zé Claudino não saia de casa sem antes comer um "pratão" e onde chegasse comia o que lhe era oferecido e ainda saía falando mal: "Me deram só um bocadinho de cumê. Eu tô verde de fome, aquele povo come muito pouco, não sei como pode"
Curiosamente, mesmo comendo muito e sempre, Zé Claudino não era gordo, tinha o peso considerado normal; mamãe achava que ele tinha uma solitária na barriga que comia a maior parte da comida que ele ingeria, por isso a fome constante.
Mamãe contava um causo de um conhecido lá em Pernambuco que também comia muito mas era magérrimo; um dia alguém teve a ideia de fazer um teste: o doente adormeceu encostado à uma árvore e esse alguém colocou uma tigela com leite fresco recém tirado da vaca. A solitária saiu pela boca da vítima atraída pelo cheiro do leite e as pessoas em volta a mataram. O doente recuperou a saúde depois disso.
Não sei até que ponto é verdade, mas ficávamos impressionados com a história.
E por isso mamãe achava que Zé Claudino tinha solitária e papai para fazer graça, dizia que não era solitária, era acompanhada.
E o nome Zé Claudino virou sinônimo de gula e apetite guloso, quando alguém é muito esfomeado, nós dizemos: "Calma, Zé Claudino!".


                                                 

Sal Grosso, Palha de Alho & Mandingas do Bem

                                              


Mamãe tinha seus rituais para afastar energia negativa, inveja e "inganja" (o zóiao do povo, na sua linguagem peculiar).
O bom do Brasil é isso: essa mistura cultural, social, linguística e religiosa. Graças a Deus.
Mamãe queimava palha de alho com açúcar e pó de café e andava pela casa com essa mandinga a espalhar um fumacê que espantava mesmo era as muriçocas.
Mamãe nos dizia para colocar um dente de alho e uma pedra de sal grosso no bolso da calça quando fôssemos procurar emprego ou resolver alguma coisa importante.
Quando alguma visita desagradável ia embora, mamãe jogava um punhado de sal grosso pelas costas da dita cuja isso sem contar que nós também éramos adeptos praticantes da macumbaria, como diz Fubá. Colocávamos a vassoura pra cima e atrás da porta na tentativa de fazer a visita ir embora logo. 
Uma vez uma vizinha curiosa perguntou porque a vassoura estava ali e daquele jeito e nós dissemos que era para secar mais rápido.
Mamãe comprava na feira tranças de cebola e alho e usava como amuleto na casa. Ninguém podia pegar um cebola ou um alho para fazer tempero, ela comprava separado. 
E como todo pobre mandingueiro que se preze, tinha na entrada de nossa casa vasos com plantas como Comigo ninguém pode, Espada de São Jorge, Guiné, Babosa e outras.
Se dependesse de mamãe, de sua fé e de suas mandingas, nenhum mal chegaria à nossa porta.
Amém.
E estou zapeando pela Internet e vejo o anúncio de uma correntinha com um pingente cheio de sal grosso; era para afastar a má sorte, segundo o anúncio. 
É cada coisa que inventam para ganhar dinheiro!
Acho que vou patentear as mandingas de mamãe e fazer bijuterias com casca de alho, pó de café, plantas...


                                          
                                            

Docinhos

                                              


Fomos à uma festinha de aniversário muito simples. Era apenas um bolinho, alguns docinhos e refrigerantes.
A casa do aniversariante era bem simples também, quase nem cabia todos os ilustres convidados.
Fomos papai, mamãe, eu, Rogério, Naldão, Fubá e a pequena Rosi, na época.
Seria um pedaço de bolo, um beijinho e um brigadeiro para cada convidado e pronto. 
Aguardávamos impacientes pelo "Parabéns a você..." para podermos finalmente comer o bolo e os docinhos. Rosi queria um dos doces: brigadeiro e beijinho, mas a dona da casa disse que não podia comer ainda e colocou as bandejas em cima da geladeira, fora do nosso alcance. Mas ela não contava com nossa astúcia!
Rogério, Naldão e eu éramos grandões já naquela época e podíamos alcançar a geladeira. Como a casa era muito pequena, ficamos espremidos na cozinha bem ao lado da geladeira e era exatamente o que precisávamos.
Disfarçamos e pegamos alguns docinhos, mas o auge da gula somada à esperteza e falta de educação foi quando apagaram as luzes para cantar o "Parabéns...".
Eu, Rogério e Naldão alcançamos as bandejas com os doces e atacamos o mais rapidamente que pudemos. As luzes são acesas e tentamos disfarçar nossas bocas cheias e nossa cara de pau. 
O aniversariante corta o bolo e a dona da casa vai pegar os doces, mas cadê?! As duas bandejas com brigadeiro e beijinho estavam vazias! 
A mulher ficou doida: "Mas que falta de educação! Que coisa feia! Quem fez isso?! Gentalha! Bando de @#$%¨*!"
Nós tentávamos segurar o riso e ao mesmo tempo fazer cara de indignação.
Voltamos para casa e papai e mamãe perguntam: "Foram vocês que comeram escondido os doces da festa, não foram não? Vocês me matam-me de vergonha! Isso é coisa de gente amundiçada!"
"É mãe, mas a mulher é a maior mão de vaca, a gente pediu um docinho só e ela falou que não podia, então nós catamos e comemos tudo. Bem feito! Só pra deixar de ser miserável!".
Ainda hoje Rogério lembra desse causo e damos boas gargalhadas.


                                         

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Desculpa

Eu era boa aluna, tirava boas notas e saía da escola direto pra casa.
Tinha uma colega branquela, sarará, sardenta e com cabelos estilo "Afro". Essa simpática coleguinha adorava mandar nos outros e impor suas ordens.
Os outros coleguinhas tinham medo da sardenta poderosa. Eu não.
Um dia durante o intervalo a colega me provoca e eu tento ignorar; sou uma pessoa da paz.
Sempre fui muito diplomática; tento negociar pacificamente com o opressor, mas se não funcionar...
A semana inteira sou provocada pela sardenta de cabelo "Black Power" e chega uma hora que não aguento mais: desço-lhe o braço. Vixe!
No dia seguinte a mãe da briguenta vai à sala de aula e conversa com a professora.
A professora chama a sardenta folgada, que faz cara de vítima, e pergunta quem foi que bateu nela e a terrorista aponta o dedo para mim. 
A professora me chama. Ficamos de frente para a classe a professora dá um sermão sobre bom comportamento e boas relações com os colegas.
Terminado o sermão a professora me manda pedir desculpas para a colega e me faz prometer que nunca mais vou bater nela. Tá.
Demorei um pouco para me desculpar: "O que está acontecendo, Maria Rejane? Peça desculpas para sua colega, já!".
Eu demorei porque estava me recuperando do choque, pedir desculpas pra aquela folgada?! Foi ela que começou tudo! Não eu! Eu estava ultrajada!
A professora insiste; pedi desculpas.
A mãe da minha arqui-inimiga sai mais aliviada achando que as diferenças entre as coleguinhas foram resolvidas.
A aula volta ao normal.
A colega me provoca com sorrisinhos irônicos e eu a fulmino com olhar.
Toca o sinal e fazemos fila para sair; espero a colega.
Ela vem com um sorrisinho cínico achando que eu estava com medo dela, mas se enganou: "Você nunca mais chame sua mãe e me faça pedir desculpas em frente à classe, entendeu?!"
Isso foi na terceira série do Ensino Fundamental e estudamos juntas na mesma escola e às vezes na mesma classe até a oitava série. 
Mantínhamos relações diplomáticas.


                                               

Irmãzinha

E a treta com os moleques da ponte continua...
Era um domingo e fomos ao mercadinho do bairro para comprar algumas coisas para o almoço. Deveríamos também comprar um maço de cigarro para papai.
Fomos eu, Rogério, Naldão e Rosi; Fubá era bebê ainda.
Caminhávamos pelas ruas de terra vermelha cercadas pelo verde das chácaras. Um passeio bucólico.
Tudo ia muito bem até que vimos um grupo vindo em nossa direção. Não demos muita importância, achamos que era apenas pessoas comuns andando pelas ruas.
O grupo se aproxima e reconhecemos: os moleques da ponte! Ferrou!
Os moleques da ponte também tinham uma irmãzinha e ela andava inocentemente com eles naquele lindo e bucólico dia de domingo.
O moleque maior provoca: "Você bateu no meu irmão, agora eu vou bater no seu!".
"Mas ninguém fez nada! Ninguém quer confusão aqui!"
"É, mas nóis qué descontar, então vamos bater naquela pequenininha ali"
"Na minha irmãzinha?! E o que foi que ela fez?! Se você quiser briga, chega junto, agora bater na minha irmã pequena, de jeito nenhum!".
"Ah é?!
"É!"
E o pau comeu de novo. Os dois grupos assistindo à briga entre mim e o moleque grandão da ponte. 
Rosi ficou assustada e se escondeu atrás de Naldão e Rogério correu pra casa pra chamar algum adulto. Veio um primo nosso que apartou a briga e aconselhou que vivêssemos em paz.
Tá.
Mas desde que não mexa com meus e minhas doces e inocentes irmãos e irmãs.
Beleza?

                                         

Moleques da Ponte

Atrás da casa onde morávamos havia um córrego.
Havia também uma ponte de madeira que muitos chamavam de pinguela.
Alguns parentes e conhecidos moravam do outro lado do córrego, mas bastava atravessar a ponte e logo chegaríamos ao nosso destino.
Naldão e Rogério não atravessam a ponte; eles davam a volta pelo quarteirão, o que era mais demorado. Quando voltavam para casa, mamãe perguntava porque demoraram tanto e eles diziam que tinha uns moleques na ponte impedindo a passagem.
Coragem não é a característica mais marcante de nossos irmãos.
Naldão e Rogério já chegaram em casa muitas vezes correndo e fugindo dos moleques da ponte; arrumavam confusão e corriam. Algumas vezes os moleques iam até o portão de nossa casa e esperavam meus irmãos saírem, mas eles não saíam nem por decreto.
Outras vezes os moleques da ponte esperavam meus irmãos na saída da escola.
Quando arrumavam problema e tinham medo dos moleques da ponte, Naldão e Rogério pediam minha ajuda. Eles iam na frente e eu atrás, observando e disfarçando.
A molecada se aproximava. Naldão e Rogério munidos de repentina coragem desafiavam: "Se  vocês baterem na gente eu chamo minha irmã".
"Então chama sua irmã que eu quero ver".
Como reza a cartilha machista, o "certo" seria os irmãos protegerem a frágil e doce irmã, mas com nossos corajosos irmãos, acontecia exatamente o contrário.
Eu me aproximava, a molecada me encarava.
Eu dizia que se encostassem um dedos nos meus irmãos o pau comia!
E o pau comia mesmo! Era porrada para todos os lados!
Quando mamãe voltava do trabalho sempre encontrava a mãe de um dos moleques a esperá-la no portão: "Dona Marlene, sua menina bateu no meu filho, o coitadinho está todo machucado, diga a ela para não fazer isso mais não".
Mamãe desculpa-se com a mãe da pobre vítima, me fulmina com o olhar e entramos em casa; começa o sermão.
Eu tento argumentar dizendo que apenas defendi meus irmãos bundões e que os moleques da ponte eram grandes e muitos, Oxe!
No dia seguinte, mais uma vez os moleques da ponte a ameaçar meus bravos irmãos e mais uma vez os moleques da ponte iriam levar porrada!
Hoje estamos todos adultos e a maioria casada e com família constituída.
Hoje somos todos da paz.
Amém.




                                  

Novela

Naldão sempre diz que é muito inteligente. Ele tem mesmo uma imaginação muito fértil e deveria escrever novela ou ser roteirista de Hollywood. É cada história...
Fubá brinca dizendo: "As histórias de Naldão".
Como disse na postagem anterior, papai e mamãe tinham seus filhos favoritos e como somos seis, restavam o quatro filhos reclamões.
Naldão dizia: "Eu vou escrever uma novela e o título vai ser 'Os rejeitados'. Os atores principais serão Fubá, Rosi, Rejane e eu. Rogério e Renata não vão participar na novela porque eles já são mimados demais".
Mamãe ria e perguntava: "E eu e teu pai, não vamos participar nessa novela?".
"Não, mãe. Nem a senhora nem papai, o nome da nove já diz tudo: "Os rejeitados".


                                                    

Gato Branco Do Meu Pai

Mamãe e papai criaram seis filhos, uns com mais mimos do que os outros, mas verdade essa veementemente negada por ambos quando confrontados por nosso ciúme fraternal.
Papai mimava muito nossa irmã caçula, Renata, e mamãe mimava demais nosso irmão Rogério.
Papai chamava Renata de "meu gato branco".
Reclamávamos da preferência filial, mas ambos negavam e vinham com a mesma ladainha: "De onde saiu um saíram os outros, são todos meus filhos, trabalhamos para dar de comer a todos, não tem mais bonito nem mais feio, não tem diferença nenhuma, Oxe!"
Fubá fazia graça: "Tem mais bonito sim! O mais bonito sou eu!".
Era segunda-feira e aguardávamos o fim da novela para assistirmos à Tela Quente; Rogério sai do banho e pergunta a Naldão: "Qual é o filme da Tela Quente de hoje?"
Naldão responde: "O gato branco do meu pai".
Caímos na gargalhada e papai e Renata não gostaram nenhum pouco da brincadeira, claro.
Em vez de filme, tivemos mais uma sessão sermão e reivindicamos direitos fraternos igualitários. Reivindicamos igualdade entre a maternidade, a paternidade e a irmandade.
Assim seja.


                                             


                                           

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Diplomacia

                                                    
Paipreto era muito conhecido na região onde morava.
Era conhecido por sua força, garra, determinação e muita "inguinórança" também.
Todos nós herdamos uma ou outra característica de nosso avô.
Paipreto era "cabra macho de sangue no olho", como dizia mamãe.
A casa de meu avô era frequentada por todo tipo de gente, desde o mais humilde sertanejo até poderosos coronéis e inimigos políticos.
Mamãe voltava da escola para casa e sempre encontrava alguém que acabara de visitar meu avô; ela admirava-se de encontrar pelo caminho pessoas que não se davam bem mas que tinham em comum a amizade com meu Paipreto.
Mamãe achava interessante a disparidade e a variedade do círculo de amigos do meu avô, ele conseguia manter paz entre os inimigos e dizia:
"Minha filha, eu sou amigo de toda nação: do gato, do cachorro e do ladrão".


                                       

Nome de Família

                                             


Papai e mamãe tinham muito orgulho do nome de suas famílias.
Papai orgulhava-se de ser filho de Zezé Soares, meu avô José, e mamãe tinha orgulho de ser filha de João Gomes, meu Paipreto, que era mais conhecido como João Xicó.
Quando discutiam sempre falavam mal da família um do outro. 
Eu nunca soube direito o que os nomes das famílias tinham a ver com a briga de ambos, mas sei que estavam lá, sempre.
Mamãe provocava papai: "Tu só fosse homem depois que se casasse comigo, filha de João Xicó!".
Papai respondia: "E tu e tua família só viraram gente depois que tu se casou comigo, filho de Zezé Soares!".
E antes de se casar e virar gente, eram o que? Bicho?
A guerra entre os representantes dos Soares & Gomes da Silva ia longe quando tio Manoel Soares, irmão de papai, resolve intervir. Tio Manoel tenta pacificar o conflito, mas notadamente puxando a brasa para a sardinha dos Soares.
Em dado momento, tio Manoel acha que papai não está reagindo e defendendo suficientemente o sagrado nome da família; cruza os braços sobre o peito e manda: "O Dedé, e a Família Soares? Como é que fica?"
Papai nervoso, responde: "Fica na m..., Mané!".
O riso foi geral.
E a quem interessar possa, as nobres e distintas Família Soares & Gomes da Silva estão bem, obrigado.


                                    

Escola

Mamãe foi professora.
Era muito querida pelos alunos e suas famílias.
Eu gostava de andar pela sala de aula entre as mesas dos alunos; queria ver o caderno de um, o lápis do outro.
Me pegavam no colo e me deixavam rabiscar seus cadernos.
Mamãe tinha que interromper a aula para dar um jeito em mim; ela chamava alguém da casa para vir me buscar, pois eu estava tirando a concentração dos alunos e atrapalhando a aula.
A escola ficava na fazenda e os alunos eram os trabalhadores e seus familiares.
Vinham me buscar e eu ia sob protesto.
Mas dali a pouco eu voltava; ia para outra sala de aula pentelhar outra professora e seus alunos.
Chegava a hora do intervalo e o lanche era distribuído; eu pegava meu lance e saía.
Dali a pouco sentiriam minha falta, procurariam por mim.
Eu ia pra casa e meu Paipreto estava de pé à porta a me esperar com um sorriso e um balançar de cabeça.
Me sentava no batente da porta e comia meu lanche.
Mamãe e os alunos me encontravam e ficavam danados comigo.
Paipreto dizia para todos voltarem às suas obrigações, sua neta estava muito ocupada comendo o lanche. Mamãe reclamava: "Essa moleca danada não deixa ninguém estudar, pega o lanche e sai sem falar nada; só para me deixar preocupada!".
Mamãe voltava para a escola e eu ficava com meu Paipreto, tinha concluído mais um dia de aula.


                                     

Mamãe e as laranjas

                                            


Mamãe dizia não gostar de frutas. Ela ia à feira e trazia frutas para os filhos e netos.
Chego de viagem em um sábado, dia de feira, e mamãe diz: "Comprei umas frutinhas pra você, filha".
Vou até a cozinha para ver as "frutinhas" que mamãe comprou e me espanto com a quantidade e a variedade: mangas, maçãs, peras, melancia, goiabas, abacaxi, laranjas, bananas...Uma verdadeira cornucópia frutífera.
"Experimenta essas laranjas, estão bem docinhas".
Mamãe pega uma enorme bacia plástica e enche com laranjas; começa a descascar e é cercada pelos filhos e netos. Ela corta as laranjas ao meio e dá uma metade para quem atacar primeiro e chupa a outra.
É um festival cítrico.
Passadas algumas agradáveis horas, papai chega do trabalho e encontra mamãe deitada no sofá, as mãos alisando a barriga e soltado sonoros arrotos. Aos pés dela a enorme bacia plástica cheia de cascas de laranjas.
Papai olha aquele cenário, balança a cabeça e diz: "Mas tu num dissesse que não gosta de fruita, Tita?"  Papai chamava mãe de Tita.
"Mas uma laranjinha faz bem de vez em quando, né Dedé?".


                                                 

Verde

                                           


Eu não gostava da cor verde, mas agora aprendi a gostar.
Estava na primeira série e não tinha todo o material escolar; tinha só lápis, borracha e caderno e tudo levado dentro de um saco de arroz de cinco quilos. Já falei sobre.
A professora nos dava desenhos para colorir e adorávamos cheirar as folhas ainda úmidas com álcool recém saídas do mimeógrafo.
Eu não tinha lápis de cor e pedi emprestado aos coleguinhas, mas ninguém quis me emprestar. Procurei nas minhas coisas na vã esperança de encontrar algo que servisse para pintar e encontrei um cotoco de lápis de cor verde.
O desenho era de um menino com escafandro no fundo do mar, tinha algas e peixinhos em volta.
Olhei em volta e todos os coleguinhas pintavam seus desenhos, menos eu. A professora passeia pelas fileiras para observar os alunos e suas pinturas e me pergunta: "Você não vai pintar, Maria Rejane?".
Já que ninguém queria me emprestar seus lápis de cor eu decidi pintar com o que tinha: o cotoco de lápis verde. 
A professora pede que todos nós entreguemos nossos desenhos e quando entrego o meu, ela diz: "Por que você pintou tudo de verde?".
"É que eu não tenho lápis de cor".
Fiquei com aquilo na cabeça e mesmo tempos depois, já tendo meu material escolar completo, sempre evitava usar o lápis de cor verde. 




                                                 


                                               
                                                  

terça-feira, 1 de maio de 2012

Amarelo

                                            


Gostávamos dos programas de clipes musicais.
Estávamos habituados a ouvir nossos cantores e bandas mas não os víamos com a mesma frequência.
Ficávamos encantados ao descobrir quem eram as pessoas donas das vozes que nos faziam cantar juntos.
Os videos clipes daquela época eram bem simples, sem muito exagero ou invencionice, bem ao contrários dos vídeo clipes milionários que temos hoje. Aliás, os clipes atuais seguem o mesmo padrão e faz com que tenha-se a impressão de que quem viu um viu todos: são cantores/rappers cercados de mulheres seminuas, casas luxuosas, carrões, bebidas, joias, dinheiro e muita ostentação. As letras das músicas fazem apologia a tudo isso:mulheres, carrões, bebidas, sexo, drogas e dinheiro.
A MTV estrearia alguns anos depois e nos divertíamos com o programa "Super Special"; não perdíamos um.
Adorávamos ver os clipes de Madonna, Cindy Lauper, Duran Duran, U2, The Smiths,The Police, Billy Idol,The Cure,  Kiss, Queen, Michael Jackson, KC and the Sunshine Band, Air Supply, Eurythmics...
Eram todos novinhos, bonitinhos e no auge da carreira. A maioria ainda está no auge da carreira, mas quanto a novinhos e bonitinhos...aí já é uma outra história.
A variedade musical também é bastante ampla mas que às vezes torna-se repetitiva oferecendo mais do mesmo: são cantoras fazendo duetos com rappers, virou moda.
São cantoras rebolando, berrando e posando de sexy.
É Beyoncé berrando, Rihanna fanhosa, Shakira balindo, Mariah Carey com seus trinados intermináveis, Boys Bands com rapazes bonitinhos, insossinhos e rebolativos.
Bom...
Assistíamos ao Super Special e papai implicava, claro: "Mas vocês não enjoam de assistir esses amarelos não? Qual é a graça em ver esse povo amarelo? Oxe!".
Os artistas europeus e americanos eram loiros, nas sua maioria, e papai implicava com isso e por essa razão os chamava de amarelo.


                                                  
                                                  

Rádio

                                         


Ouvíamos muito rádio. 
Somos da época da TV preto e branco e com poucos canais; não tinha redes sociais, TV a cabo, Internet, telefones celulares e toda essa parafernália digital e cibernética que temos hoje.
Papai ouvia o futebol pelo rádio de pilha e era estranho ouvir o locutor narrar tão rapidamente o jogo. 
Aliás, pilha (para nós era elemento) era item obrigatório na nossa lista de compras.
Mãevelha ligava o rádio de madrugada e sempre sintonizava no programa do Zé Betio. Era divertido ouvir o programa com música sertaneja da boa, e não isso que temos hoje em dia: rapazes com calças mais justas do que Deus, outros com cabelos arrepiados, outros esganiçados e que acham que cantar é gritar e os denominados sertanejo universitário. 
Zé Betio fazia um programa barulhento e engraçado e eu achava que aqueles sons todos eram reais. Tinha sons de animais de fazenda, de um garotinho falando com o locutor, de uma mulher tentando acordar o marido preguiçoso e muitos outros.
Zé Betio falava as horas e dizia que era hora de levantar, hora de ir para o trabalho e ainda aconselhava as suas ouvintes donas de casa: "Joga água nele, dona Maria".
Tocava uma música assim: "Quem é que não chora por alguém?" e ele respondia: "É o Zé Betio"... "Quem é que não chora uma lágrima sentida?"... "É o Zé Betio".
E o programa prosseguia com o locutor falando as horas, tocando música sertaneja da boa e conversando com personagens engraçadas que me faziam viajar na imaginação. Era galo cantando, balido de bodes, um garotinho perguntando as horas e dizendo: "Tá na hora da janta", a mulher tentando convencer o marido preguiçoso a se levantar: "Acorda homi, tem que trabaiá pra comprá as coisa". 
Era muito legal.
Lembro um dia que Zé Betio não foi à Radio para fazer seu programa e ficamos sabendo que seu irmão Arlindo Betio fora sequestrado e assassinado.
Foi um assunto que chocou a todos os ouvintes do radialista.
Depois do programa do Zé Bétio entrava Eli Correa, aquele do "Oiiiiiiiiiiii gente!" e falava a hora em cima da música. Era impossível ouvir a música inteira.
Acabava Eli Correa e entrava Altieres Barbiero com o programa "A Volta do Sucesso". Eu achava Altieres Barbiero mais elegante que o barulhento Zé Betio e o emocionalmente exagerado Eli Correa.
Depois era a vez de Barros de Alencar que tinha no seu programa o ajudante Fubá, que acabou emprestando o apelido ao nosso irmão caçula, e tinha a sessão fofoca onde o fofoqueiro profissional Nelson Rubens dava as últimas notícias sobre os famosos da época.
Meu, na boa, acho que o Nelson Rubens deve estar com uns cem anos! Eu era criança e o cara já fofocava na rádio!
Barros de Alencar também cantava e gravou umas músicas bem bregas sobre dor de corno mesmo! Era muita cornice romântica!
As músicas que mais tocavam nessas rádios eram músicas do Amado Batista, Paulo Sérgio, Sérgio Reis, MPB e música sertaneja de raiz: Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Milionário e José Rico e por aí vai.
Mamãe e a Cleusa achavam Milionário e José Rico muito lindos!(só Jesus).
Lembro da cantora Tetê Espíndola que vencera o "Festival dos Festivais" da Rede Globo em 1985 com a canção "Escrito nas estrelas"; mas quando tocada na rádio, a música era "cortada" durante o trecho que dizia " meu tesão". 
A palavra era considerada ofensiva na época.
E hoje somos obrigados a ouvir cada coisa...
Bom...
Havia um radialista, o Paulo Barbosa, que vinha logo depois do Altieres Barbiero. Eu não gostava muito dele porque ele sempre começava o programa assim: "Bom dia, vó gostosa, vô gostoso..." Todo mundo era gostoso para ele. Eu hein!
Eram programas da Rádio AM, a FM ainda não estava tão em voga.
Papai comprou um rádio moderno que funcionava tanto com pilha como com eletricidade e tinha as opções de AM e FM. 
Mas papai não gostava que ouvíssemos FM porque segundo ele, gastava mais pilha e estragava o rádio! Não sei de onde ele tirou isso, mas era mais uma de suas muitas "inguinóranças".
Nós aproveitávamos quando ele ia trabalhar e ligávamos o rádio na FM e ouvíamos nossas rádios favoritas: Rádio Cidade e Transamérica. Quando se aproximava a hora de papai voltar para casa, mudávamos o rádio para AM e o guardávamos direitinho, papai nem desconfiava, até que um bendito dia nós esquecemos de mudar para AM e ele liga o rádio e...Vixe! Tome sermão.
O rádio marcou nossas vidas e marcou uma época que só tocava música boa, mesmo as bregas de dor de corno, bem diferente do que temos hoje: sertanojo universitário, funk fazendo apologia às drogas e tratando a mulher como mero objeto sexual, cantorezinhos de uma música só, filhos e filhas de duplas sertanejas que pensam que cantam, e por aí vai.
Mas temos rádios boas: Nova FM que só toca música brasileira, Alpha FM que toca velharias que nos fazem perceber que estamos ficando velhos e a Kiss FM, que toca o bom e velho Rock n´Roll.
É isso.

                                          
                                      

Entrou

Conheço pessoas que gostam de esconder a idade; fazem muita questão disso. Bobagem.
Conheço pessoas que diminuem a idade; fazem muita questão disso. Bobagem.
Tem gente que já dobrou o Cabo da Boa Esperança e está pra lá de Marrakech, mas age como se marinheiro de primeira viagem fosse.
Bom...
Papai adorava aumentar nossa idade e isso nos desagradava um bocado.
Fazíamos aniversário hoje e amanhã já estávamos um ano mais velho do que nossa atual idade, segundo os cálculos de papai, claro.
Por exemplo: Rogério fez vinte anos no dia 29 de fevereiro e papai disse: "Já entrou pra vinte e um!".
Rogério não gostou e disse: "Não senhor! Se eu morrer amanhã morro com vinte anos. Oxe!"
Mas não adiantava, papai sempre tinha seus argumentos: "Não sinhô digo eu! Se tu completou vinte anos hoje quer dizer que tu já entrasse pra vinte um".
"E quando eu fizer vinte um vou entrar pra vinte e dois?"
"Justamente!"