domingo, 8 de abril de 2012

Bar da Tia Anália

                                             


Domingo de Páscoa.
Não gosto muito de domingos, causam-me certa melancolia.
Fez um dia muito quente, sol forte, calor; esperei o entardecer para sair um pouco e passear pelas ruas do bairro, como eu sempre gostei de fazer.
Passei em frente à Paróquia Santa Rita e estranhei vê-la fechada em pleno domingo de Páscoa. Segui em frente e passei pelas ruas que costumava passar quando criança; a parentada morava espalhada pelo bairro.
Passei em frente ao que um dia foi a casa de tia Anália, com suas plantas, seus crótons e seu pé de pitanga.
Chegávamos à casa da tia e ela nos mandava comprar pão e leite tipo C para o café da tarde. A padaria ficava longe, mas os bares e botecos próximos vendiam pão e leite, o que facilitava a vida de muita gente.
O bar próximo à casa da tia ficou conhecido como o "bar da tia Anália" e ela achava muita graça quando falávamos assim.
A casa que tia Anália morou é hoje um prédio cinzento e tristonho, bem diferente do seu quintal florido, mas o "Bar da tia Anália" continua o mesmo.


                                             

sábado, 7 de abril de 2012

Sobrinhos

Vinicius e Beatriz, primos, lindos e cultos
                                             
Fomos novamente ao Pet Center da Marginal Tietê.
Fomos eu, Beatriz e Vinicius.
Beatriz encantou-se com uma cachorrinha vira lata que estava lá para adoção, juntamente com outros cães e gatos. Dá vontade de adotar todos!
Comprei a ração de meus gatos e Beatriz junto com o primo Vinicius me ajudaram a escolher os sabores dos sachês de ração molhada. Alice de Beatriz só gosta do sabor carne e cordeiro, já os meus não gostam de frango. Gataiada enjoada!
Depois das compras Beatriz foi mostrar ao primo os animais do Pet Center: aves, peixes, roedores e até um lagarto dorminhoco e desprovido de beleza física.
Beatriz adora o aquário que fica logo na entrada da loja e gosta de observar o tubarãozinho/cação preguiçoso que esconde a cabeça em um buraco das pedras e o resto de seu longo corpo fica de fora. Ela gosta também de um peixe "zóiudo" e simpático, o Baiacu. 
Vamos embora e ela me pede para ir para minha casa:"Só um pouquinho, tia Rejane".
Chegamos em casa e ela corre para ver os gatos. Ela brinca, corre e depois que se cansa dos felinos vai mexer nos objetos da sala: pega papel e lápis de cor para desenhar e pintar, adiantou a hora do relógio, quebrou a antena do meu bonequinho Smilinguido e "arrumou" os livros infantis da estante.
Eu estava na cozinha preparando batata frita e suco de melancia quando ela se aproxima de mim e sussurra: "Tia Rejane, eu quebrei uma coisa sua, mas não é de vidro não".
"E o que foi, Bibi?"
Ela me mostra o Smilinguido sem uma antena e eu digo que está tudo bem, ele apenas não será mais antenado como antes.
Batata frita e suco prontos, digo aos dois para lavar as mãos e percebo que Beatriz está demorando muito para sair do banheiro e pergunto se está tudo bem e dali a pouco ela sai com a boca borrada e diz: "Tia Rejane, eu passei um pouco do seu batom, tá?"
"Ficou linda, Bibi".
Comeram e repetiram o suco de melancia; adoraram. 
Se prepararam para voltar para casa e levaram um sachê sabor cordeiro para Alice, desenhos para pintar, melancia cortadinha e prontinha para comer e um lápis de cor amarelo.
As coisas boas da vida são as mais simples.


                                                     


                                                        


                                          

Carta de amor

                                       


Havíamos nos mudado para a pequena casa de quintal grande. Era na mesma rua da casa da majestosa mangueira onde chorei ao me despedir de mamãe que fora ao hospital buscar minha irmã Rosi.
Era final de ano eu havia concluído a quarta série e mamãe já havia feito a matrícula para a quinta série. Mesmo com todos os problemas, mesmo com minha infância e adolescência roubadas e transformadas em obrigações, responsabilidades e vida de gente grande eu conseguia tirar boas notas na escola.
Eu não era gênio, mas conseguia me sair bem.
Foi nessa casa em que mamãe eu lavávamos as roupas dos caminhoneiros gaúchos e que meus irmãos ficavam sós na companhia do cachorro Bobbie até mamãe voltar do trabalho.
Vivemos fortes emoções nessa pequena casa de quintal grande.
Foi nessa casa que conhecemos novos vizinhos e meus irmãos arteiros fizeram novas amizades com meninos mais arteiros ainda. Ave Maria.
Foi nessa casa que recebi minha primeira carta de amor. Muito romântico mesmo.
Nossa casa era bem simples e admirávamos as belas casas do bairro e da nossa vizinhança.
Numa bela casa com garagem, azulejo, piso e tudo de bonito que uma casa de "rico" deveria ter, morava uma família de quatros pessoas: os pais e dois irmãos, todos galegos branquelos de olhos azuis. 
Um dos irmãos era um menino gorducho, com cabelos loiríssimos, olhos muitos azuis e bochecha rosadas. Parecia que tinha passado blush e a molecada da rua dizia que ele tinha duas mortadelas na bochecha. O irmão mais velho já estava na faculdade e era um rapaz alto, magro e elegante.
O gorducho chamava-se Sérgio e a mãe o cobria de mimos, daí seu corpinho vitaminado. Alguns pais acham que amor materno/paterno só pode ser demonstrado com excesso de comida, brinquedos, mimos, manhas e falta de limites.
Bom...
Eu estava com onze anos e estava na quinta série e Sérgio era dois anos mais velho que eu e estudava em escola particular.
Um dia a filha da vizinha me chama pelo muro e me entrega uma folha de caderno toda dobradinha e disse: "Mandaram entregar pra você". Eu não entendi muita coisa a princípio e perguntei meio impaciente: "Tá. Mas quem?"
Ela não disse.
Entrei em casa, desdobrei a folha do caderno e vi que era uma carta de amor toda escrita com letra bonita e cuidadosa. E era do Sérgio, o vizinho gorducho.
Fiquei encantada e orgulhosa, pois um menino estava apaixonado por mim!
Mas Sérgio não era bem o meu tipo favorito de "homem".
Mas gostei muito da carta de amor e a lia e relia inúmeras vezes durante o dia e a escondera debaixo do meu colchão. 
Não sei como, mas papai descobriu a tal carta, a rasgou em pedacinhos e infernizou minha vida durante o dia inteiro. Jesus!
Papai dizia que ia falar com os pais do menino, que ele não tinha filha de onze anos pra namorar galalau taludo e sem vergonha...E a ladainha prosseguia.
Mamãe tentava amenizar e dizia que era normal, que não tinha nada demais e que eu e o menino éramos apenas crianças. 
Custou a mamãe convencer papai a não perturbar os pais do meu Romeu apaixonado.
Sei que tempos depois nos mudamos novamente e eu nunca mais vi ou soube do menino gorducho apaixonado com cara de mortadela.


                                       





sexta-feira, 6 de abril de 2012

Botas

                                            


Papai era rapaz novo e morava com pai, o avô José, e com os irmãos Bill, Manoel e Genaro.
Eles gostavam muito de ir aos bailes animados ao som de muito forró. Esses bailes aconteciam nas casas e fazendas de amigos e conhecidos que moravam a algumas léguas de distância uns dos outros. 
O uso do termo légua caiu em desuso, mas os Nordestinos mais antigos ainda utilizam a denominação para se referir à distância que varia de seis a sete quilômetros de distância/comprimento.
Bom...
As idas a esses bailes eram feitas a cavalos ou a pés. 
Nordestinos sabem que caminhos percorrer.
As caminhadas ou cavalgadas iluminadas pela luz da lua naquelas belas serras de Mundo Novo, Taquari, Poços, Conselheiro Rodrigues, Cumaru.
Dessa vez papai caminharia calçado em suas novas botas compradas especialmente para usar no baile.
O baile termina após muito rala bucho e arrasta pé e é hora de voltar para casa. É madrugada e papai toma o rumo de casa e começa a ouvir um som estranho a segui-lo: "nhec nhec...".
Papai para e o barulho também. Papai volta a caminhar e o barulho volta a "segui-lo". Papai acelera o passo e o barulho fica mais forte. Papai pensa que tem alguém ou alguma coisa a segui-lo.
O barulho e o medo estão ficando cada vez mais fortes.
Papai, muito corajoso, aperta o passo e anda o mais rápido que pode; finalmente chega em casa todo esbaforido.
Tio Manoel Soares vendo irmão pálido de medo, pergunta: "O que foi que tu visse, Dedé?"
"Olhe, Mané, derna (desde) que eu saí do baile que esse barulho estranho me segue. É um nhec nhec danado de grande, olho para os cantos e não vejo nada. Valha-me Deus e meu Padim Ciço do Juazeiro!"
Papai caminha em direção ao quarto e o nhec nhec volta a assustá-lo, tio Manoel olha para o irmão e diz: "Oh Dedé, tu arreparasse que o barulho vem da tua bota?"
Papai com cara de bobo, diz: "Oxe! E não é mesmo Mané?!"


                                                     

Dinheiro

                                            


Papai e mamãe sempre foram opostos em relação a dinheiro.
Papai sempre muito econômico e mamãe sempre muito "mão aberta".
Se pedíamos dinheiro a papai tínhamos que responder a um questionário digno de delegacia e ouvir um sermão, mas se pedíssemos à mamãe ouvíamos apenas um: "Mas para que você quer esse dinheiro?"
Evitávamos pedir dinheiro a papai; já sabíamos da looooooooonga lista de coisas que ele tinha que pagar, comprar, que só daríamos o devido valor ao dinheiro quando tivéssemos que trabalhar e sustentar uma casa, que não sabíamos quanto custa manter uma casa, etc e tal.
Uma vez mamãe ficou sem cigarro e mandou Fubá ir ao encontro de papai que voltava do trabalho e pedir que lhe mandasse alguns cigarros. Fubá vê papai do outro lado da calçada e atravessa para encontrá-lo e dar-lhe o recado de mamãe, mas papai nem deixa Fubá se aproximar e abrir a boca para falar e já desembesta: "Tem dinheiro não! Tem dinheiro não!"
Fubá surpreende-se com a reação de papai que nem dera-lhe oportunidade de falar e volta para casa chorando: "O que foi, meu filho?", pergunta mamãe.
Fubá relata o ocorrido e mamãe balança a cabeça dizendo: "Teu pai tem jeito não".


                                                  

Joana Aparecida da Silva

                                               


Joana era uma gata amiga de nosso gato Johnny.
Joana tinha o pelo colorido: preto, branco e laranja. Dizem os entendidos que todos os gatos de três cores são sempre fêmeas. 
Havíamos nos mudado há pouco tempo para a nova casa e Johnny foi o único gato que nos acompanhou. Michele (leia-se Miquele, por favor) havia falecido e Andretti decidiu continuar morando no mesmo quintal onde havíamos morado; havia outras casas e outros moradores e por isso ele recusou-se a se mudar conosco.
Sempre ouvíamos um diálogo felino em cima do telhado da nova casa: eram Johnny e Joana.
Johnny descia as escadas, parava por um momento e miava para Joana segui-lo.
Joana era arisca, desconfiada e tinha medo daquele bando de humanos que morava naquela casa, mas Johnny sempre a assegurava de que éramos pessoas legais.
Em pouco tempo Johnny convenceu Joana a entrar em nossa casa e assim conquistamos sua amizade e confiança.
Pensamos em um nome para a nossa nova aquisição felina e eu, como sempre, surgi com o criativo nome de Joana Aparecida da Silva.
Joana viveu muitos anos conosco e teve muitas crias a quem batizamos com os mais criativos nomes: Julia Roberts da Silva, João, Maria Aparecida e Aparecida Maria.
Uma de suas últimas crias foi um gatinho muito danado que sempre assustava mamãe com seus pequenos ataques surpresa, o Febinho.
Mamãe estava deitada e o gatinho pulou em cima dela e com o susto ela quis chamá-lo de "Seu gato febre do rato!", mas na hora só conseguiu dizer "Seu Febinho!". E Febinho ficou.
Mamãe reclamava que Febinho era muito danado, a seguia pela casa, arranhava suas pernas... Mamãe parava para falar com o gatinho: "Por que você não igual à sua mãe? Joana é uma gata muito educada, uma ótima mãe de família. Mas bem que meu velho pai dizia que a mãe pare o filho mas não pare seu destino".
Febinho olhava para mamãe sem nada entender e Joana, atenta a tudo, chamava o ativo filhote para uma longa conversa felina.
Joana ficou doente após sua última cria e partiu ao encontro de Maximino.


                                             

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Super & Receitas

                                             


Os programas matinais são até razoáveis, ao contrário dos programas da tarde.
Gosto de assistir aos telejornais e depois aos programas de culinária. Gosto de programas que mostram receitas simples e com ingredientes "normais", sem muita frescura e invencionice.
Receitas que levam ingredientes básicos e acessíveis ao pobres mortais e nada de ingrediente caro, raro e importado. A não ser para quem goste e possa.
Outra coisa que estranho nesses programas de culinária é que alguns são de outros países e os hábitos alimentares deles são diferentes dos nossos. Tem muita coisa estranha enlatada que não encontramos aqui por simplesmente não fazer parte de nosso cardápio.
Acho interessantes os programas do Olivier Anquier e Jamie Oliver e gostava das calóricas e deliciosas receitas da Palmirinha. 
Tem um programa novo que descobri por acaso, é o Nestlé com você e que usa os ótimos produtos da marca, claro. 
São receitas rápidas, práticas e fáceis de fazer assim como as receitas do programa Dia a Dia com Daniel Bork. O problema do Dia a Dia foi a mudança de horário, das 10hs para as 8hs, um horário muito besta.
O problema da maioria desses programas é o excesso de "recadinhos" que faz com que o apresentador pare com a receita para poder dá-los. É uma infinidade de produtos e serviços oferecidos e que prometem mil maravilhas. São planos de saúde, odontológicos, máquinas, objetos, tranqueiras e muitas inutilidades domésticas.
Sabe aquele produto que precisamos desesperadamente comprar e que quando compramos usamos uma ou duas vezes e depois acaba o encanto e o produto volta para a caixa da embalagem e fica lá mofando? Pois é.
Outro problema que assola não só aos programas de culinária, mas ao resto da programação também é o vício linguístico. Explico: Alguém fala uma palavra que parece fashion e chic, alguém ouve essa palavra e decide repeti-la à exaustão porque é chic e fashion, outros "alguéns" ouvem e a repetem porque se alguém famoso, rico, bonito, chic e fashion falou é porque a dita palavra também é chic e fashion.
Tivemos a moda do "a nível de" e agora é a moda do "super". Super isso, super aquilo, super lindo, super fácil de abrir, super fácil de fazer, super, super, super...
É super chato o que fazem com a super inculta e bela Língua Portuguesa.


                                           


                                             

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Bairro da Penha

Igreja Nova da Penha
                                              

Gosto muito do bairro da Penha; é um bairro com ares bucólicos de cidade de interior. 

Ainda há muitas casas e muitas delas conservam a arquitetura antiga de uma São Paulo charmosa de séculos passados.
Fui ao meu médico endocrinologista que fica na Rua Santo Afonso, em frente à Igreja Nova da Penha, e apreciei um belo entardecer ao sair do consultório. Que tarde linda!
O sol, o céu azul, as ruas estreitas, as ladeiras e as casas da Penha.
Fiquei observando esse espetáculo bucólico e saudosista e torcendo para que não façam com a Penha o mesmo que fizeram com o Tatuapé e adjacências; transformaram a região em uma selva de pedra e o Tatuapé é o Morumbi da ZL (zona leste).
São novos ricos que compram os novos apartamentos em novíssimos prédios cheirando à tinta fresca. Tanto prédio, tanto luxo, tanta ostentação e tanta solidão. Gente trancafiada em apartamentos luxuosos e decorados por profissionais fashion e caros mas que não tem com quem conversar, talvez por medo de sequestro ou por se achar melhor que o outro.
Ser pobre tem suas vantagens; acho que ninguém perderia tempo com planejamento e execução para sequestrar um pobre e os pobres sempre falam com outros pobres. 
A gente é pobre mas é feliz.
Bom...
Mas como eu ia dizendo...
A Penha foi nosso primeiro bairro, moramos na Vila Ré ou Jardim Popular por um curto período de tempo até nos mudarmos para o bairro dos caminhões e transportadoras.
Li um artigo no Estadão sobre o boom imobiliário que tomou São Paulo de jeito. Segundo o artigo, o bairro do Tatuapé já está saturado e as grandes construtoras direcionam seu interesse para bucólico bairro da Penha.
O problema, ainda segundo o artigo, são as ruas estreitas do bairro e o trânsito da região.
Na minha humilde opinião, não basta apenas construir prédio atrás de prédio, é preciso levar em consideração vários fatores como: trânsito, transporte público,  rede de esgoto, o impacto social e ambiental que empreendimentos podem causar e muito mais.
Torço para que a Penha continue sendo a aconchegante Penha de sempre. A mesma graciosa e bucólica Penha de ruas estreitas e ladeiras com o querido Shopping Penha de Beatriz. Mas parece que vai ser difícil.
              
"Monstro da Penha", prédio exagerado que fica na estreita rua do Hospital da Penha, a Rua General Sócrates. O "Monstro" também cobre a visão da bela basílica. 
                                               

Defesa

                                              


Beatriz pegou seus dois cofres para me mostrar, mas ela me corrigiu dizendo que um cofrinho é dela e o outra é de sua mãe.
Beatriz pega as moedas do cofre da mãe junta às moedas do seu cofrinho e com a mãozinha cheia de moedas, pergunta: "Isso aqui dá para ir ao Shopping Penha comprar ovo de Páscoa?"
"Dá e sobra!".
Nos preparamos para ir ao adorado Shopping Penha de Beatriz e ela faz uma arte e eu dou-lhe um bronca; ela dá de ombros, retruca e fala que eu sou chata.
Eu falo que ela é terrível e a resposta é: "Viu? Eu sei se defender!".


                                                 
                                             















Bebidas

                                               


Atravessava uma movimentada rua de Santana em um quentíssimo dia de Verão e ouço um vendedor ambulante oferecer seus produtos: "Tem água, cerveja, guaraná, Coca Cola, suco e   'minoai'. Quem vai querer?"
Me aproximei do vendedor e perguntei que bebidas ele tinha, pois fiquei curiosíssima para descobrir o que raios era "minoai".
Comprei uma água mineral, às vezes suspeito que seja "água torneiral", e descobri que "minoai" é Smirnoff Ice.


                                                

Mamãe e os ovos de Páscoa

                                             


Ontem fui comprar os Ovos de Páscoa com minha irmã Rosi e minha sobrinha Beatriz.
Estávamos agoniadas para irmos às compras pascoais; eu muito mais, devo confessar.
Rosi falou sobre mamãe e como ela se comportava durante a Páscoa; era assim:
Mamãe dizia que não gostava de doces nem de chocolate. Tá.
Pepê e Rosi haviam comprado vários ovos de chocolate para os sobrinhos Demétrius e Marcos Paulo, que na época moravam conosco, e ovos para papai e mamãe também.
Mamãe guarda o ovo dela bem guardadinho e começa a abrir e a comer os ovos dos netos, de papai e dos filhos. E isso porque ela não gostava de chocolate!
Rosi pergunta a mamãe: "Mas cadê seu ovo, mãe? A senhora está abrindo e comendo os ovos da gente e o seu lá guardadinho. Espertinha a senhora, né mãe?!"
"Eu só estou experimentando"
Tá bom, mãe.
                                                  
                                         
                                       

terça-feira, 3 de abril de 2012

Coronéis


                                         

                                              












Era muito comum no Nordeste os grandes donos de fazenda serem chamados de coronéis. Não eram coronéis de verdade, a maioria comprava a patente.
O título de coronel parecia dar mais força e autoridade aos grandes fazendeiros e donos de terras. Esses coronéis tinham forte poder e influência política; manipulavam, usavam de coerção, tocavam o terror mesmo. 
Muitos coronéis mandavam matar os inimigos políticos e o incauto eleitor que ousasse votar no candidato da oposição em época de eleições.
Esses coronéis faziam promessas ao povo e davam metade do prometido antes das eleições e a outra metade depois das eleições. Por exemplo: se prometiam um par de "oprecatas" (sandálias de couro), davam apenas um pé do calçado e outro seria dado quando terminada a eleição e quando verificado se o eleitor havia mesmo votado no dito cujo coronel.
Tinha-se muito temor e respeito por essas figuras poderosas e assustadoras e ninguém ousaria  desafiar ou desrespeitar um coronel. Quando encontrava-se, mesmo que por acaso, com o distinto coronel era mandatório perguntar como ele estava, a família e a saúde dele e de todos os que o cercam. Era muita bajulação. Mas era melhor garantir uma certa paz, vai que o coronel se enfeza.
Havia mais temor que respeito, pois ninguém queria contrariar um coronel porque sabiam que seria morte na certa! Sabiam que mesmo havendo assassinatos não haveria investigação policial e ninguém seria preso, o coronel era quem mandava e desmandava.
Mas havia coronéis que eram até que "legais" usando um termo atual.
Papai e mamãe trabalharam para dois deles: o Manoel Bandeira e o Chico Heráclio que era chamado por todos de "Chico Eráqui".
Esses caudilhos "do bem" deram empregos a papai e a mamãe em suas fazendas e papai cuidava do gado e da criação e mamãe lecionava para as crianças e adultos da região.
Ter coronéis como patrões, amigos ou padrinhos dos filhos era motivo de grande orgulho e dava até uma certa segurança. 
Papai e mamãe sempre falavam sobre Manuel Bandeira e Chico Heráclio, os coronéis "do bem".


Coronel Chico Heráclio e Coronel Manuel Bandeira
                                    

Seca

                                         


Gosto de assistir ao Globo Rural e já me perguntaram porque assisto ao programa se não tenho fazenda e nem plantação!
Eu gosto de assistir ao programa; simples assim.
Esses dias tenho visto muitas reportagens sobre a Seca no Nordeste; meu querido e tão sofrido Sertão. 
Meu Deus.
É triste e me dói na alma ver pessoas terem que andar quilômetros em busca de água salobra para pelo menos enganar a sede.
Dói ver o gado morrer de fome e sede.
Dói ver a plantação secar e morrer sem dar o tão esperado fruto, o tão esperado lucro.
Lucro no Sertão não se refere unicamente ao luco financeiro, mas à produção dos alimentos plantados: milho, feijão, mandioca, jerimum, macaxeira e batata doce, principalmente.
Isso me lembra mamãe em busca de água, como já falei aqui.
Meu Deus.
Anos e anos de Seca e descaso político. 
Até quando?
Fugimos da Seca em 1973 quando eu tinha apenas seis anos, e hoje, aos quarenta e cinco, vejo que nada mudou, que a miséria, a fome, a Seca e o descaso político continuam os mesmos!
É como um círculo sem começo nem fim, é um Oroboro.
Entre outras teorias e definições, Oroboro, palava de origem grega (oura= cauda, boros= devora), simboliza a eternidade, a evolução, voltando-se sobre si mesmo, eterno retorno.
É a Seca. O eterno retorno nas vidas dos sertanejos que pelejam por água para saciar sua sede, a sede de seu gado e molhar a plantação.
Há países que têm o mesmo problema de falta de água por meios naturais mas que encontraram soluções com transposições de rios e/ou irrigação. Por que isso não pode ser feito no Nordeste Brasileiro? O que é que falta? Dinheiro? Vontade política? 
Quando criança ouvia falar na "Indústria da Seca" e achava o termo estranho, pois eu não vira indústrias no Sertão, só gado, caatinga, açude, Seca, fome e miséria na maior parte do tempo.
A Seca dá dinheiro e garante votos aos políticos que só se lembram do Nordeste e do Sertão seco quando é época de eleição. Compram votos em troca de uns caminhões pipa, umas cestas básicas, muita falsa simpatia e falsos sorrisos.
Essa história de comprar voto é antiquíssima, desde a época dourada dos Coronéis de patente comprada (falo mais sobre o assunto na próxima postagem).
Acredito que se houvesse mais interesse e respeito pelo Nordeste e pelo seu povo, talvez o flagelo da Seca fosse resolvido e assim os nordestinos ficariam em suas terras a cuidar de seu gado, de sua plantação e de suas vidas e diminuiria a migração para "Sum Paulo" em busca de uma vida decente e digna. Pelo amor de Deus!
Evitaria também preconceito de gente tacanha e abestada que se esquece que todo mundo vai morrer um dia e pouco importa se somos nordestinos, sulistas, pobres, ricos...





                                             







Confeito

                                      


Nossa prima Valéria, aquela da "criatura de Jesus", havia chegado a pouco tempo a São Paulo e ainda carregava o forte sotaque pernambucano.
Valéria também tinha outras formas de nomear as coisas, objetos, alimentos etc...
Por exemplo: aqui em São Paulo "bala" pode ser de revólver ou o doce, já para nossa prima "bala doce" era "confeito".
Confeito é de fato um doce, mas soava estranho para nós habituados ao linguajar paulistano.
Uma tarde brincavam todos na rua, naquela época isso era possível, e avistam o "tio do doce"; todos correm até ele e escolhem seus pirulitos, doces, balas, maria-mole etc...
Valéria pergunta: "Oh moço, o sinhô tem daquele confeito miudinho?"
O "tio do doce" não sabia o que exatamente era o tal do "confeito miudinho" e mostrou à nossa prima as opções açucaradas das quais dispunha.
Fubá estava presente durante a cena e educadamente diz a Valéria: "Que confeito miudinho o quê?! É bala, sua abestada!"
"Oxe, Fubá. Eu não vou atirar em ninguém! Eu quero é confeito!".


                                      



domingo, 1 de abril de 2012

Eli Correa

" Ooooooooooooooooooiiiiiiii gente!"
Era assim que começava o programa de rádio de Eli Correa, um radialista com bela e dramática voz. O programa de Eli Correa também era um tanto quanto dramático, pois tinha uma parte dedicado à histórias dos ouvintes, era o "Que saudade de você", onde o radialista lia e interpretava teatralmente as cartas dos ouvintes. Era um exagero dramático danado. Eli Correa merecia um Oscar de interpretação!
Mãevelha ligava o rádio de manhã bem cedo "pra dar a hora" e evitar de chegarmos atrasados no trabalho ou na escola.
Não havia perigo de "perder a hora" ouvindo Eli Correa, pois ele falava a hora de minuto em minuto; interrompia a música para falar a hora, minuto e segundos. Até irritava, pois queríamos ouvir a música sem interrupções.
As aulas do meu irmão Fubá começavam às sete horas da manhã e às seis horas, a casa estava toda de pé; menos Fubá.
Mãevelha aumentava o volume do rádio e Eli Correa repetia: "Oooooooooooooooiiiiii gente!  São seis horas e 30 minutos da manhã, hora de levantar, hora de ir para o trabalho, hora de ir para a escola".
Curiosamente, Fubá sempre amanhecia "doente" e tudo nele doía, as unhas, os cabelos...
Mamãe fica preocupada, media a temperatura, o achava febril e dizia que não mandaria o "bichinho" doente para escola. Tadinho.
E Fubá, muito esperto, ficava de ouvidos atentos esperando Eli Correa falar as horas: "Oooooiiiiii gente! São sete horas da manhã em São Paulo".
Fubá sabia que os portões da escola fechavam às sete horas e que após esse horário ninguém mais poderia entrar, salvo exceções explicadas pelos pais.
"Oooooooooooooooi gente! São sete horas e dez minutos em São Paulo".
Pronto.
Fubá levanta sentindo-se bem melhor, a febre havia passado e a saúde retornado com força total. 
Fubá toma o café da manhã, assiste a seus desenhos favoritos e depois vai à rua procurar os coleguinhas para mais um dia de arte e Mãevelha continua com seu rádio ligado no programa do Eli Correa.


                                       

Datena

                                              
Sempre assistimos ao programa "Brasil Urgente" com o jornalista José Luiz Datena.
O programa começa a partir das cinco da tarde e é um horário bom, pois nesse período não tem muita coisa interessante na televisão.
O programa informa ao vivo o que está acontecendo e é bastante dinâmico; o problema, permita-me uma crítica, é a demora em dizer o local/bairro onde acontece a cobertura jornalística. 
Por exemplo: "Perseguição policial na Zona Leste de São Paulo". Tá. 
Apenas falar a zona ou região não é suficiente; é necessário dizer o bairro também. No caso da Zona Leste complica um pouco, pois a ZL é imensa, mano! Aí ficamos apreensivos e curiosos para saber qual o bendito bairro da Zona Leste onde o fato ocorre.
José Luiz Datena mete bronca, fala o que pensa e não tem papas na língua. Certo ele.
Grande figura, literalmente.
Bom...
Uma vez papai e mamãe desciam as escadas de nossa casa para irem ao botequinho dela, ou mini restaurante, como ela gostava de dizer. Papai falava, falava e falava, como sempre, e mamãe já estava ficando agoniada e impaciente quando para em um degrau e diz: "Tá bom, Datena!".
Pronto! Foi aí que papai desembestou a falar mais ainda!