segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Melancia

Comer melancia e cuspir os caroços.
Lançamento de caroços de melancia à distância. Era nosso esporte favorito.
Mãevelha com cuidados para guardar os caroços que, segundo ela, era excelente remédio contra a febre.
Quando terminávamos de comer a fruta, Paipreto pegava as cascas e fazia bonecos.
Cortava cuidadosamente a casca da melancia; as mãos hábeis do meu avô sabiam manipular o objeto cortante. Em poucos minutos tínhamos um boneco novo.
Bonecos feitos com cascas de melancia.
Bonecos feitos pelas habilidosas mãos de Paipreto.



Mamãe.



Sonhei muito com mamãe esses dias que passaram.
A presença sempre forte, titânica e maternal de mamãe.
O amor imensamente absurdo e absurdamente imenso de mamãe.
Imensamente e absurdamente incompreendido... o amor de mamãe.
Saudade enorme. Doces lembranças.
Abraço envolvente e forte e poderoso e amoroso de mamãe.
Mamãe veio se despedir de mim; veio em sonho e me abraçou com tanto amor, tanto ardor. Senti-me envolvida pela força e pelo amor de mamãe.
Acordei e resolvi ligar para casa para falar com mamãe; queria fazer uma surpresa, dar-lhe uma boa notícia. Eu sabia que ela iria adorar a surpresa que eu tinha para ela. Deixei pra lá; ligo depois, disse para mim mesma. Depois falo com mamãe.
Não falei. Mamãe partiu naquela semana da despedida tão amorosa, poderosa, forte, titânica, maternal.
Mamãe.







Pés de Feijão



Pés de feijão com as folhas úmidas pelo orvalho da madrugada.
Caminhava com mamãe por entre os úmidos pés de feijão.
Mamãe segurava minha mão.
Eu olhava em volta.
Parei para olhar um pé de feijão mais de perto.
Atraíram-me as gotas de orvalho nas folhas dos pés de feijão.
Gotas de orvalho que pareciam pedrinha de brilhante.
Minha mão na mão de mamãe.
Andando pelo caminho e segurando a mão de mamãe.
Parando no caminho e segurando a mão de mamãe.
Os pés de feijão. Minhas mãos. As mãos de mamãe.



sábado, 29 de outubro de 2011

Panetone

Acho que todo mundo sabe o que é ou já comeu um panetone. Aquele delicioso pão doce de Natal recheado de frutinhas cristalizadas. 
Há algumas décadas só havia o panetone simples, com frutinhas, hoje há panetones com gotas de chocolate, com chocolate branco e outras invencionices que, na minha opinião, descaracteriza o símbolo mais doce do Natal (além do adorado e esperado pudinho de abacaxi de papai).
Os panetones já estão à venda nos melhores supermercados, e nos piores também. O problema é o preço exorbitante que estão cobrando, em média R$ 16.00 por um panetone de 400g! Depois do Natal o preço abaixa pela metade e até mais. Pode-se comprar 4 panetones por apenas e tão somente R$ 10.00. Isso mesmo, dez reais!
Aí comemos panetone até na Páscoa!
Mas...
Lembro da primeira vez que comi panetone. Mamãe trouxe algumas sobras de uma casa de família na qual ela trabalhava como diarista. Adorei o sabor e principalmente o cheiro. Aquele cheiro doce e inebriante que eu relacionava a mamãe. 
Eu adorava tirar o panetone da caixa, tirar aquele papel que o envolve e catar as frutinhas que ficavam presas nele. Depois eu cheirava aquela doçura para então me deliciar com um chicrão (xícara grande) de café.
Hoje abri uma embalagem de panetone, mas não pude sentir seu cheiro doce e inebriante. 
Perdi o olfato, mas não perdi a memória de tempos bons com mamãe e os panetones.


Tempos de Escola II (continua)

Antes, havia poucas e sérias faculdades e universidades e a formação dos professores era de boa qualidade; hoje há uma proliferação maciça de faculdades "Tabajara" que oferecem inúmeros cursos de qualidade duvidosa.
Antes os professores se dedicavam e se esmeravam para ser um profissional capaz e capacitado; hoje o que temos são alunos de todos os níveis escolares copiando, colando e imprimindo informações tiradas da Internet. Não se preocupam nem sequer em ler aquilo que acabaram de imprimir. É uma fartura de trabalhos escolares iguaizinhos, gêmeos idênticos.
Antes os professores formandos prestavam atenção nas aulas, respeitavam seus professores enquanto estes lecionavam; liam, produziam seus próprios textos, trabalhavam de verdade.
Hoje é um entra e sai da sala de aula, estando o professor presente ou não. As alunas estão mais preocupadas em combinar a cor da roupa com o sapato, a bolsa e a maquiagem. O corredor da faculdade mais parece uma passarela de moda. É um desrespeito tremendo.
Os alunos ficam mais tempo nos botecos em torno na faculdade do que em sala de aula e ainda pagam para aquele colega CDF fazer o trabalho para ele. Tem preguiça até para pesquisar o que precisa num site da Internet. 
Que profissionais serão esses no futuro? 
Aqueles que escrevem "trousse" em vez "trouxe"?
Aqueles que criticam os colegas que leem bastante e que querem aperfeiçoar a carreira?
Aqueles que dizem: "Estudar mais pra quê? Já estou formado/a mesmo?"
Já ouvi essa barbaridade inúmeras vezes.
E eu querendo tanto fazer um mestrado ou uma simples pós graduação mesmo, mas o excesso de falta de dinheiro não me permite. Ando numa dureza que não estou nem pagando promessa pro santo!
Vixe Maria.
Claro que há exceções. Claro que há gente boa, competente, dedicada e interessada em melhorar o ensino, a educação e assim saber entender e evitar a violência nas escolas e na sociedade.
Ainda bem.









quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tempos de Escola

Já falei aqui sobre o espaço físico das escola de hoje com suas grades e muros altos que mais lembram uma prisão.
Falei rapidamente sobre a dificuldade de lecionar e sobre o comportamento dos alunos. Isso me levou a voltar aos meus tempos de escola e tentar descobrir ou pelo menos achar explicações ou motivos que fizeram a escola mudar tanto nessas últimas décadas.
Quando digo escola não me refiro apenas ao espaço físico, mas ao corpo docente, discente, políticos, pais, comunidade, etc...
Para começar, algumas mudanças na nomenclatura do ambiente escolar:
Antes era Primário, Ginásio e Colegial; hoje são Ciclo I, Clico II e Ensino Médio.
Antes era recreio; hoje é intervalo.
Antes era professora ou professor; hoje é tia ou tio. 
Antes era "Dona" e "Seu" antes do nome dos professores; hoje são chamados pelo nome mesmo e de "você". O "senhor" e "senhora" caíram em desuso na maioria dos casos.
Antes meninos e meninos de 12 ou 13 anos eram apenas meninos e meninas de 12 ou 13 anos; hoje são crianças sexualizadas que usam linguagem vulgar e imprópria para a idade.
Meninas sexualmente ativas, algumas grávidas e cujos namorados são homens feitos.
Meninas usando roupas provocantes, justas, sexies. Meninas maquiadas e constantemente olhando-se no espelho para conferir e a maquiagem e o cabelo estão bonitos. E ainda perguntam à colega do grupo se estão bem (aparência).
Antes os alunos brincavam de correr, esconde-esconde, passa anel e outras brincadeiras mais inocentes; hoje falam e mandam mensagens e fotos pelos celulares cada vez mais modernos.
Antes os alunos xingavam os colegas de "burro, magricela, quatro olhos" e outros adjetivos simples; hoje usam termos que não seria educado da minha parte escrever aqui.
Antes os alunos brincavam de "jogo da velha, forca", jogos de escrever nomes de diversas coisas iniciando com uma determinada letra; hoje usam o celular para ouvir músicas de gosto duvidoso, para tirar fotos fazendo sempre as mesmíssimas poses e ainda achar que estão abafando. São também Ipad, Ipod, "Numpod" e toda uma infinidade de parafernália eletrônica que se moderniza praticamente a cada dia.
Antes os pais eram responsáveis pela compra do material escolar. Lembro que eu estudava no período da tarde (das 15hs às 19hs), minha irmã Rose no período da manhã (7hs às 11hs) meu irmão Rogério das 11hs às 15hs.
Esperávamos o irmão no portão da saída para poder pegar o estojo com lápis, borracha e caneta e outros materiais para podermos irmos para a nossa sala de aula; quando saíamos, repetíamos a operação "entrega de estojo".
Antes nossos pais tinham prazo para comprar o uniforme ou pelo menos o bolso com o símbolo da escola para ser costurado na camisa do uniforme escolar.
Hoje o governo paternalista e tão bonzinho entrega kits escolares que a maioria dos alunos despreza. Acham o material fraco e feio e preferem comprar seu próprio material escolar; geralmente são cadernos com capas de fotos de artistas, de filmes, de personagens, etc...
Algumas escolas dão o uniforme e um par de tênis para os alunos irem para a escola e quando estão fora do ambiente escolar esses "pobres" futuros eleitores vestem roupinhas de marcas caras dos Shopping Centers da cidade. (Não são todos, há exceções).
Antes os alunos pediam para ir ao banheiro, para falar com o colega de outra sala; hoje já estão abrindo a porta da sala quando decidem dar alguma satisfação.
Antes os alunos sentavam-se em seus lugares quando o professor/a entrava em sala de aula e aguardavam a chamada ser feita; hoje  o professor/a entra na sala e tem que gritar para se fazer percebido. Fazer a chamada é um sacrifício, os alunos andam pra lá e pra cá, gritam, riem e ignoram o professor/a.
Antes os alunos temiam serem chamados à diretoria e temiam mais ainda se os pais fossem convocados; hoje ir à diretoria é rotina e ainda dizem "meu pai e minha mãe não tão nem aí".
Antes os alunos não podiam usar boné em sala de aula; hoje usam mais que isso.
Antes os pais ficavam envergonhados ao serem convocados pela professora ou diretora; hoje os pais ficam furiosos porque tiveram que sair do trabalho para ir à escola por causa de um probleminha que o filho/a teve com alguém. E hoje o "probleminha" muitas vezes envolve agressão física, verbal, constrangimento, o famoso bullying. 
Antes víamos a polícia quando havia alguma ocorrência na vizinha; hoje a polícia é presença frequente na escola para fazer B.O´s (boletim de ocorrência) sobre alunos armados, drogados e alunos que agridem colegas, professores e diretores.
Acredito que essas vantagens oferecidas pelo governo com o intuito de facilitar o acesso da população carente à educação teve/têm prós e contras. Por um lado a educação e os meios para adquiri-la chegam a todos e por outro lado gerou-se um comodismo da população. Qualquer problema, qualquer falta de material escolar, qualquer coisa é motivo para uma fila de mães e pais reclamantes na porta da escola. Curiosamente, são esses mesmo pais e mães que não gostam de comparecer às reuniões e convocações da escola!
São esses mesmo pais e mães que não podem comprar o material escolar de seus filhos e esperam pelo kit do governo, mas que têm suas casas mobiliadas e equipadas com produtos que estão na moda.
Não sou contra a ajuda, sou contra o paternalismo e o comodismo.
Proteção e ajuda em excesso criam monstros e é isso que temos hoje nas escolas, nas famílias e na Sociedade.
Marcus Aurelius disse: Não dê o peixe ao homem, dê-lhe uma vara e o ensine a pescar"









Perícia

Fui hoje à escola na qual trabalho para levar o laudo médico e agendar nova perícia.
Pedi à secretária para fazer o agendamento o mais rápido possível; eu não queria ver meus alunos da 5ª e 6ª série que desceriam em breve para o intervalo. No meu tempo era hora do recreio.
Não quis vê-los para não chorar e nem fazê-los chorar. 
Gosto do meu trabalho, gosto de transmitir o que aprendi, gosto de bancar a durona e logo em seguida aquiescer...os alunos já perceberam isso há muito tempo.
Não é fácil ser professor/a; o comportamento e o respeito dos alunos para com a escola, para com os colegas e para conosco mudou bastante, e para pior. Infelizmente.
Mas há as pequenas preciosidades; aqueles alunos aplicados, que fazem a lição direitinho e mantêm os cadernos em ordem. Vejo-me nesses alunos CDF (tradução não é necessária).
Bom...
Entrego o laudo à secretária e ela pergunta se estou bem. Sempre respondo que sim; as pessoas também têm seus problemas e o fato de alguém perguntar ao outro se está tudo bem é mera formalidade para se iniciar uma conversa educada. Mas têm os hipocondríacos, aqueles que gostam de reclamar de tudo e de todos; aqueles que têm dor aqui e ali e em toda parte, mas que estão e são muito saudáveis e vão demorar a morrer. Não me levem a mal, mas o que pode-se esperar de uma pessoa que vive doente, dorida, sofrendo?!
Não, não estou bem. Mas sempre digo o contrário. 
Não são só os problemas físicos; para doenças temos remédios e cirurgias, mas...
Enquanto pede meus dados pessoais para agendar a data da perícia, a secretária me diz que há professores que quando não estão afim de trabalhar, pegam um atestado com algum médico amigo. Simples.
E eu tão afim de trabalhar!
Aí chega a hora da perícia e o simpático médico me diz que posso muito bem trabalhar e que ninguém faz cirurgia todo dia. Tá. Todo dia não, mas estou indo para 6ª e talvez a 7ª cirurgia em um período de dois anos e isso sem contar as internações por conta de hipertensão, edema cerebral (meningite), infecções, etc...
Conheço uma dondoca cinquentona que parece uma pomba gira desvairada; nunca fez cirurgia nenhuma, mas tem uma dorzinha....Essa nobre senhora com excesso de fogo no rabo não trabalha justamente por causa dessa dorzinha. Tadinha.
Pergunto-me: qual é o parâmetro usado pelos médicos peritos? Acho que já fiz essa pergunta dezenas de vezes e desculpo-me pela repetição.
Sou honesta demais?
Sou boba demais?
De novo: Que país é esse?
Volto ao meu blog, se Ébano desocupar o notebook.











Hipertensão








Vou deitar com a cabeça latejando e acordo com a cabeça latejando. É a infame da pressão, como diria mamãe.
Semana que vem verei minha cardiologista e já posso imaginar o que ela vai falar e pedir. Talvez mude novamente a dosagem dos remédios e certamente me pedirá uma dezena de exames. Ela sempre diz: "Eu sei que você não gosta, mas é para o seu bem e para tirarmos todas as dúvidas". Beleza.
Bom...
Vou ali preparar um café forte, quente, bom. Café de Preta Velha, café de Mãevelha.
E vou fazer um pão também. Ontem fui ao supermercado - para variar - e fui com a intenção de comprar pão. Mas...e cadê o pão?!
Como diz minha lindíssima e terrível sobrinha Beatriz: "Titi, você é véia e maluca".
Estou começando a achar que ela tem razão.



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Conversa Penosa

Sempre vou à casa de Cleusa, uma amiga muito querida.
Cleusa é paciente, carinhosa e sempre tem uma palavra de conforto para nos dar.
Ela também gosta de bichos como eu e tem cachorros, passarinhos e um papagaio. 
Sim, sei que papagaio também é pássaro...
Mas...
Quando chego à casa da minha amiga cumprimento a todos e vou até o quintal para falar com os pássaros, principalmente com o papagaio, ou lôro.
O penoso conversa comigo, arrepia as penas e faz muito charme. Disse à Cleusa que o papagaio fala comigo e eu entendo o que ele diz. Minha amiga me olhou como se eu não estivesse em posse de minhas faculdades mentais.
Mas esses dias o marido de Cleusa, o invocadão e muito macho Maurição, também disse a ela que o papagaio falou com ele. Tá vendo?
Posso jurar que o papagaio fala as seguintes frases ou palavras entre outras: "Você chegou? Tudo bem?"
Juro!
Bom...
Fui ao Pet Shop comprar ração das minhas gatas e antes de entrar na loja paro para conversar com uma pombinha branca que vive numa gaiola e está à espera de alguém que a leve para casa. Se não fosse essa minha gataida...
Acho que a pomba já me conhece, pois ao me ver aproximar ela vem para mais perto da grade, arrepia as penas e emite sons que são propícios dos pombos.
E eu converso com ela. Digo que se pudesse a levaria para casa, que se não fossem meu gato e gatas, que se eu tivesse uma casa grandona e minha de verdade, e desejo que alguém bom que ame e respeite os animais venha buscá-la.
A moça do Pet Shop pesa a ração, já sabe qual meus felinos gostam, e aguarda eu terminar minha conversa com a pombinha branca.
Educadamente, para não revelar seus verdadeiros pensamentos em relação a mim, ela pergunta se sou casada, se tenho filhos, se sou formada, se isso, se aquilo...
Será que não pareço normal?!







Abraço

Estive bem triste esses dias. 
Choveu muito esses dias.
A chuva e o tempo fechado, o céu cinzento e carregado confundiam-se com meus sentimentos. Estavam carregados, cinzentos...
Chovia lá fora e dentro de mim.
Sinto-me como Tântalo, aquele que, desejando muito uma coisa, sempre a ver escapar quando está prestes a alcançá-la.
Fui Tântalo a vida inteira, mas também não quero ser Midas ou Íxion e cansei de ser Sísifo.
Tudo tem que valer a pena se a alma não for pequena, já dizia Fernando Pessoa.
Bom...
Mas a chuva uma hora deixa de cair e cede lugar ao sol. Desanuvia, estia, lá vem o sol.
Minhas gatas percebem minha tristeza e me seguem por toda a parte. Penso que querem comida, água, leite ou querem que eu troque a areia sanitária. Mas já fiz tudo isso e elas continuam a me seguir e a miar.
Sento - me no sofá e uma a uma senta-se ao meu lado e fazem gracinhas que me fazem rir. Levanto-me e vou para a cozinha preparar um bom café. Coloco a água para ferver e escuto um miado dengoso, charmoso, manhoso. Vou ver o que está acontecendo e vejo Branca Maria me chamar com o olhar. Me aproximo  e ela estende o bracinho para me alcançar; me toca com a patinha me pedindo para chegar mais perto. 
Branca Maria fica de pé e envolve seus braços no meu pescoço. É um abraço.
Um abraço de conforto, de aconchego, de bem querer.
Abraço Branca Maria de volta. Faço-lhe carinho, dou-lhe amor e agradeço-lhe pelo abraço vindo em tão boa hora. Deus e o povo lá de cima viram minha agonia e me mandaram um aconchego, um dengo, um chamego, um abraço por Branca Maria.
Uma pessoa muito querida de outro plano sempre canta uma cançãozinha simples quando recebe um abraço bom, forte e verdadeiro, é assim:
"Mas um abraço dado de bom coração, vale mais que uma bença, uma bença, uma benção".
Tenho respeito, curiosidade e fascínio por todas as religiões, culturas e povos. Então, assim como respeito a tudo e a todos, exijo o mesmo respeito de volta. Simples.
Já disse e não me canso de repetir: Ninguém precisa amar os animais como eu amo, mas todos têm a obrigação de respeitá-los.
Meu avô, meu amado avô Paipreto dizia que Deus descia à Terra disfarçado de bicho bruto (animais, na linguagem do meu avô) para ver como as pessoas tratavam Suas Criaturas. 
Se depender de mim, Deus, Você nem precisa se dar ao trabalho de descer à essa Terra de gente tão má, mesquinha, falsa moralista, preconceituosa...Mas tem gente boa também, eu sou uma delas (sem falsa modéstia. se a beleza de coração, alma e caráter transfigurarem-se em beleza exterior, eu seria a criatura mais bela desse mundo de meu Deus).
Mas se as pessoas perfeitas não me veem assim, minha bicharada vê. E o povo lá de cima também, assim como as pessoas boas daqui: Silvia, Azenilda (Amiguinha), Cláudia, Rosi, Cleusa, Pedro, Preta...
E tem gente boa por demais, graças a Deus!
Um abraço cheio de chamego, aconchego, bem querer e bençãos a todos.













terça-feira, 25 de outubro de 2011

Terra nos pés

Era assim que mamãe falava quando estava diante de um problema sem solução aparente.
Mamãe coçava a cabeça, levantava seu poderoso olhar aos céus e dizia suas frases que eu não entendia o significado até então. Para mim eram só palavras e mais palavras da minha mãe faladeira, falante, tagarela.
Mamãe dizia, entre outras: 
"O futuro a Deus Pertence"
"Não cai uma folha de mato sem que Deus não queira". Frase essa também muito usada por meu Paipreto, o pai de mamãe.
"É o sangue que mata o corpo".
"Um dia depois do outro e uma noite no meio".
"Amanhã é outro dia".
"Procuro terra nos pés e não encontro".
É assim que me sinto hoje.







Joelho



Semana passada fui ao neurocirurgião e à Farmácia Alto Custo.
Hoje fui ao ortopedista; inflamação no joelho direito, na perna e pés esquerdos. 
Só poderei tomar um remédio para aliviar a dor e quando voltar recuperada da cirurgia de correção de fístula liquórica farei tratamento mais intensivo.
Tenho dores fortes no joelho, na perna e pé esquerdos. Está difícil caminhar, cada passo pesa muito, é como se tivesse um peso amarrado à minha perna.
Segunda-feira terei duas consultas pré operatórias, pela manhã com a cardiologista, a Drª Vera Lopes Nunes e à tarde com a anestesista, a Drª Celeste. O problema é a localização dos consultórios de ambas e o caótico trânsito de São Paulo. Se chover então...
Transporte público seria uma boa opção, mas o horário de pico é o problema. Excesso de gente empurrando tudo e todos que veem pela frente. Tenho medo de cair, mesmo usando a bengala para me apoiar.
Por enquanto é só. 
Carrego outro peso, mas para esse não tem remédio nem cirurgia.
Sinto-me Atlas.
Mas minha titânica mãe dizia: "Dias melhores virão".


Atlas





segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Educação & Respeito

A semana nem bem começou e já sinto-me tão cansada.
Na verdade, a semana começa no domingo mas acho estranho, pois esse dia foi feito para o churrasco, almoço na casa da mãe, da sogra, da tia...
Então, para mim a semana começa mesmo é na segunda-feira; dia que também são iniciados, ou pelo menos prometidos e tentados, os regimes, o parar de fumar e várias outras promessas sempre interrompidas e nunca cumpridas.
Bom...
Hoje fui à Farmácia Alto Custo buscar meu remédio, Sandostatin LAR. Vou lá todo mês e sempre a mesma reação das pessoas. Me olham como se eu fosse muito estranha, muito diferente ou de outro planeta. E elas? São perfeitas?
Ontem, domingo, fui com minha sobrinha ao hipermercado de nome francês e para variar, a mesma reação das pessoas. Fico pensando e me pergunto: "Sou mesmo tão estranha assim?!". Além da habitual reação desses seres imaculados, me deparei também com a falta de educação dessas pessoas de rostos bonitos e normais. Será?
Há várias vagas de estacionamento que são divididas nas seguintes categorias: Deficiente físico, grávidas e idosos. E todos que estacionarem nesses locais devem colocar no carro, de forma visível, o cartão de autorização emitido pelo Detran, órgão responsável pelo trânsito de São Paulo.
Mas acontece que é difícil encontrar uma vaga de deficiente que já não esteja ocupada por uma pessoa "normal" e mal educada. 
Então por que gastei tanto para fazer os procedimentos de modo legal? Perícia médica com médicos do Detran, aula com carro automática da auto escola, perícia com o médico indicado pela auto escola, prova prática no pátio do Detran. E claro que tudo isso é pago e muito bem pago. Mas adianta alguma coisa no quesito estacionamento em vaga marcada?
Parece que não.
Sempre tem alguém muito saudável que deixa seu carro na vaga que seria minha e de outras pessoas que passaram por tudo o que passei. Temos o direito que nos é garantido por lei. Mas alguém respeita essa bagaça?! E o Detran e o CET? Não veem isso? 
Não, acho que não, mas se eu estacionar irregularmente aí sim, eu serei multada!
Estou no hipermercado aguardando a vaga para estacionar meu possante quando um playboy enfia seu carrão potente na minha frente e age normalmente. Perguntei ao jovem se ele era idoso, deficiente físico ou se estava grávido. Ele me mandou fazer uma coisa que eu não estava preparada para fazer naquele momento. Mas...
Vou ao banco e o carro do gerente está aonde? E ainda por cima com uma corrente fechando o caminho e ao mesmo tempo protegendo o carro. Cá entre nós, um gerente de banco com aquele carrinho safado?! Poderia investir em coisa melhor.
Sei, sei que, segundo Karl Marx  "O valor de um produto não tem nada a ver com suas características físicas". 
Bom, estaciono em frente ao banco e entro e a simpática atendente que tem a árdua função de entregar senhas que nos garantirão uma boa hora em fila, olha para mim e diz:
"Senhora, a senhora não pode estar estacionando na frente do banco. É irregular".
"E estacionar na vaga de deficiente físico é regular?!".
"Mas é o carro do gerente, senhora".
"Exatamente. Se o gerente não tivesse estacionado de forma irregular eu também não teria estacionado de forma irregular!".
Outro absurdo que vejo nas intermináveis filas de banco e de outros locais é o grande número de supostas gestantes com barriguinha tanquinho, cofrinho de fora e bundinha empinadinha. Quando perguntadas se sabem que aquele caixa é preferencial elas dizem que estão gestantes. Tá. E para mim gravidez não é doença, é uma dádiva com a qual não fui agraciada. Mas...Beleza.
Não entendo esse país emergente que não pune rigorosamente as pequenas infrações. É, as pequenas infrações mesmo, pois assim evitaria as grandes infrações.
É gente fingindo que está dormindo só para não dar lugar no busão e no metrô para quem tem direito de usar; é gente estacionando em local proibido; é gente fingindo o que não é só para levar vantagem...Meus Deus!
Que país é esse?
Estamos varrendo o lixo para debaixo do tapete!
As coisas estão mais fáceis hoje que na minha época de infância e adolescência. Mais acessibilidade aos bens de consumo, mais consumismo, mais conforto, mais poluição, mais ganância, mais exibicionismo e menos educação e respeito.
E a estranha sou eu. :D










sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ruas

Gostava de andar pelas ruas do bairro e observar as casas, as pessoas, os carros...
Esperava o entardecer, o sol abaixar para poder caminhar tranquilamente.
Hoje não posso mais me dar ao prazer de caminhar e me encantar com o belo fim de tarde; não posso mais me deliciar com o doce cheiro das flores, da terra, da chuva.
Perdi o olfato e tenho mobilidade reduzida. Várias cirurgias.
Mas...
Antigamente havia mais árvores nas ruas e eu adorava o jasmim que caia no chão e eu pegava para cheirar e enfeitar a casa.
Havia pés de boldo na calçada do vizinho. Sempre que alguém tinha um probleminha no estômago, lá íamos nós "roubar" umas folhinhas de boldo. Tudo pelo bem estomacal daqueles que cometiam exageros contra o próprio corpo. Por que as pessoas se auto destroem?!
Bom...
Havia uma belíssima paineira que forrava o chão com suas belas, delicadas e cheirosas flores cor de rosa. Havia, não há mais. Foi derrubada para dar lugar a uma pequena transportadora e permitir a passagem quase impossível de carretas gingantescas. É o progresso destruidor.
Havia casas de muros baixos e quintais enfeitados com plantas, flores e árvores frutíferas. Hoje há cada vez menos casas e mais prédios. Menos quintais floridos e mais cimento e no lugar das plantas, um lugar para o carro. 
No lugar dos muros baixos há grades altas, lanças, arame farpado, seguranças profissionais, camêras filmando a tudo e a todos, como um Big Brother de George Orwell no livro 1984. Pelo amor de Deus não confundam com aquele lixo anual que passa na TV. Na época da "casa mais vigiada do Brasil",  nem me dou ao trabalho de assistir a programação desse canal.
Hoje há prédios erguidos à pressas para dar lugar a mais uma transportadora. Espaços exíguos para acomodar caminhões altos e enormes. As ruas são invadidas por eles assim como o espaço e a segurança para se andar a pés.
Estacionar o carro na rua é outra dificuldade.
Uma nova realidade das ruas de hoje é a música de gosto duvidoso das pessoas. O volume que tocam as ditas cujas é altíssimo e me pergunto se a pessoa dirigindo o auto não se incomoda com tanto barulho.
É uma situação estranha e paradoxal. Progresso + modernidade = gente mal educada e barulhenta. 
Hoje há uma imensa e crescente falta de educação e desrespeito pelo outro. Somos obrigados a ouvir as músicas horrendas e vulgares que tocam em alto volume.
Somos obrigados a conviver com excesso de carros e caminhões que dominam as ruas.
Somos obrigados a ver árvores e plantas saindo para dar lugar a mais cimento.
Meu bairro era bucólico, verde, simples. Havia chácaras, de onde "roubávamos" umas verdurinhas de vez em quando. Hoje há firmas, indústrias, trânsito, caos!
Só as ruas mais importantes do bairro eram asfaltadas e eu adorava o cheiro de terra molhada pela chuva.
Havia terrenos baldios onde pegávamos flores como copos de leite, dálias; e onde formavam piscinas naturais quando chovia bastante. Havia nessas piscinas muitos girinos e eu os pegava e colocava na caixa d´água extra que havia no quintal. Era uma época de muita falta d´água e era comum as casas terem um depósito extra de água ou mesmo um poço. 
Sim, mamãe ficava louca com minhas experiência biológicas. Me obrigou a tirar os girinos e dar um jeito neles. Eu que nunca tive jeito! Foram girinos, peixes, porquinhos da Índia, gatos, cachorros, tartarugas, pintinhos...E não deixava meus irmãos matarem abelhas e formigas porque elas eram do bem.
Nas noites de verão mamãe sentava-se na calçada e conversa com os vizinhos enquanto observava os meninos jogarem bola. Não nos preocupávamos com assaltos, invasões, sequestros relâmpagos, arrastões. Essas coisas não existiam em alto número com existem hoje. A vida era simples. As pessoas eram simples.
Hoje o bairro, a rua, as pessoas não são mais simples.
Hoje há menos flores, menos crianças brincando na rua, menos vizinhos conversando na calçada enquanto observam e até se divertem com as brincadeiras da molecada.
Hoje não tem mais mamãe nos mandando buscar café para ela e acender um cigarro enquanto ela " só conversava" com a vizinha fofoqueira.
Mamãe dizia: "Não estamos fofocando, só conversando".
Imagina, mãe.


Boldo

Conversa na calçada
Meninos jogando bola
Jasmim

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Professora Dona Ana Letícia

Foi minha professora de Língua Portuguesa na 7ª série da Escola Municipal Coronel Romão Gomes.
Era uma senhora loira, alta, de olhos claros, bonita, rigorosa e muito exigente. Era advogada, assim como a maioria dos professores de Língua Portuguesa de minha época. Costumo dizer que para ser um bom advogado não basta decorar leis, artigos, incisos e toda a linguagem jurídica, o importante mesmo é conhecer o português (não o português da padaria, mas a nossa língua nacional). 
Dona Ana Letícia participou do nosso amigo secreto ou amigo oculto e eu tirei seu nome do grupo de papeizinhos dobrados com os nomes dos participantes da brincadeira de fim de ano.
Fiquei preocupada com o que compraria para ela, pois na minha época de ginásio, hoje ensino fundamental II, os professores eram respeitados, admirados e até temidos. 
Mas antes da data de entrega dos presentes e da revelação dos amigos ocultos, todos nós trocávamos bilhetinhos com a clara intenção de confundir nosso amigo. Para despistar a professora eu fingi ser menino e escolhi o apelido de Bentinho, da obra Dom Casmurro de Machado de Assis.
Dona Ana Letícia acreditou mesmo que era o menino Bentinho e adorou o fato de eu ter lido o livro de Machado de Assis. Até hoje gosto da cena "O Penteado" em que Bentinho penteia os cabelos de Capitu, que por sua vez tinha os olhos de cigana oblíqua. Cigana eu sabia o que era, mas me intrigava os olhos e oblíquos. Por quê? O que Machado de Assis quisera dizer com aquilo?
Bom, ia dizer também que sou da época que chamávamos os professores de "Dona" e "Seu".
Era Dona Ana Letícia, Seu Adelino e por aí vai.
Conclui a 8ª série e tive de mudar de escola para concluir o colegial. 
Mas ao chegar à nova escola estranhei a forma moderna com que os alunos tratavam os professores; os chamavam de você e pelo nome, sem o "Seu" ou o "Dona" na frente do nome do professor. 
Ouvia meus colegas conversarem e dizerem, por exemplo: "Hoje tem aula da Vera Lúcia, de Português....A segunda aula será do Mariano de matemática...".
Mas voltando à 7ª série....
Recebi muitos bilhetinhos de Dona Ana Letícia e os tenho até hoje! Me marcaram muito e quando estou triste, os releio e vejo que a professora já via em mim uma pessoa bacana. 
Leio e penso comigo mesma: "Eu sou uma pessoa legal, tenho bom coração, não sou esse monstro que as pessoas pensam que sou só por causa de minha aparência, para uns, ou por causa de uma infantilidade crônica e desmedida de outros. 
Bom...
Acho que Dona Ana Letícia já deve estar no céu. Ela já era uma senhora quando eu tinha 13 anos e estava na 7ª série. 
E outro professor que também já deve estar no céu é o professor Oswaldo, também de Língua Portuguesa. Tínhamos duas aulas consecutivas com ele - dobradinha - e ele sempre trazia textos para ler para nós. Até hoje lembro e gosto muito do "Pombo Enigmático" de Paulo Mendes Campos, que deixou a noiva esperando agoniada e a explicação que ele deu-lhe ao chegar ao encontro foi que estava uma tarde tão linda que ele resolveu ir caminhando em vez de voar! Lindo!
Bons tempos aqueles de professores queridos, às vezes temidos e principalmente: RESPEITADOS.
Bons tempos aqueles de escolas abertas, sem grades horrendas, sem parecer uma prisão. O belo bosque onde adorava passear nas aulas vagas hoje está cercado de horrendas grades metálicas.
O que fizemos com a Educação?!
Por que não poderia haver professores como a Professora Dona Ana Letícia e o Professor Seu Oswaldo?!
Por que não poderia haver alunos como eu e meus colegas da 7ª série?
Vou reler novamente de novo os bilhetinhos da Dona Ana Letícia para matar a saudade.



           

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Cansaço & Sísifo

Estou fora de combate; como diz minha irmã Rosi.
Muito cansaço, dor de cabeça, dor nos ossos e dificuldade para andar. Acromegalia.
Amanhã terei duas consultas médicas e terei que desbravar o caótico trânsito paulistano para poder ver os doutores. O neurocirurgião pressiona o convênio para poder liberar a cirurgia e eu, honestamente, não tenho pressa em realizá-la. Acho que a menos pior é a Radiocirurgia, pois não é invasiva. É assustador ter quatro parafusos no crânio para segurar o halo (capacete) que irá direcionar os fótons (raios) no tumor, mas mesmo assim prefiro esta àquela.
Separei exames de sangue e de imagem para mandar ao neurocirurgião responsável pela radiocirurgia. Deveria ter ido antes, mas a greve dos Correio realmente "ajudou" muito.
Tive uma semana difícil; muita dor e não apenas física. Acromegalia.
Doencinha danada de ruim. 
Já pensei em mandar fazer essas camisetas com dizeres e seria assim: "Sou acromegálica". Talvez ao ler a mensagem as pessoas fossem pesquisar no Google e se educar um pouco e pensar antes de julgar.
Vou-me. Estou absurdamente cansada. Parece que enchi uma lage, que carreguei um caminhão e coisas assim.
Cirurgias, remédios, esperanças...Acromegalia.
Às vezes sinto-me como Sísifo, mas meu esforço não é inútil.




sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Branca Maria & Alice Maria

São duas gatas brancas, meigas e dengosas. São irmãs e é difícil distinguir quem é quem.
Mas mesmo sendo muito parecidas fisicamente, Branca e Alice têm personalidades diferentes.
Alice é meiga, charmosa, dengosa, lânguida e chorona.
Branca é calada, antissocial, gosta de ficar na dela, mas é mais carente. Gosta de se enfiar em lugares que não cabe mais e que cabia quando era pequenininha, mas deve achar ainda que é filhote. Conheço humanos assim também.
As duas, assim como Aurora Maria e Ébano Panda Massimino da Silva dormem comigo e disputam à patas o melhor lugar na cama para ficar mais perto de mim.
A história de Branca Maria e Alice Maria é a seguinte:
Acabou o Pet Formula de Aurora e fui ao Pet Shop comprar mais. Lá chegando vi uma gaiola com um aviso: "Doa-se gatinhas fêmeas". A dona da loja percebeu meu interesse e disse que foi uma cria de seis gatinhos, quatro machos e as duas fêmeas que ninguém queria só por serem fêmeas. Será que essas pessoas já ouviram falar em médico veterinário, remédios e castração? Eu já.
Bom...
Aproximei-me da gaiola e as duas que estavam encolhidas lá no fundo correram até a grade e miaram desesperadamente. Entendi aquele miado como um pedido de socorro, então disse à dona da loja que levaria as duas. Não seria justo deixar uma irmã para trás.
Branca e Alice exerceram uma boa influência em Aurora, que deixou a mamadeira de lado e começou a comer com as duas novas companheiras.
Tenho um amor incondicional por essas criaturas que dependem de mim e confiam em mim. Sempre digo que ninguém é obrigado a amar os animais como eu amo, mas todo mundo tem a OBRIGAÇÃO de respeitá-los!
Há tanta crueldade contra os bichos, meu Deus. Crueldade praticada pelo bicho Homem, o animal racional.
Bom...
Preciso ir. Aurora Maria, a terrível; Alice Maria, a meiga; Branca Maria, a carente e Ébano, o bolo fofo, peludo, esperto e homem da casa aguardam o leitinho morno antes de dormir.
E tem que ser leite Ninho em pó feito na hora!
É do lixo para o luxo, como diz meu irmão Naldão, o de saúde perfeita.








Aurora Maria

                                                     
Aurora é uma gata mourisca, rajada e que se parece com um tigre moreno.
É terrível, esperta, inteligente, bagunceira e arteira. E linda, principalmente.
Dorme comigo e tem seu próprio edredom velho e puído, mas que ela adora. Aurora não gosta quando eu lavo o edredom; ela puxa do varal até derrubá-lo e deita-se em cima.
Ela persegue os outros gatos, sobe nas minhas costas para subir no muro, no guarda-roupa e onde ela cismar que quer subir. Quando ouve a campainha tocar sai correndo na frente de todo mundo para ver quem é. Cheira o ar, levanto a cauda e mia. Ela vai na frente para garantir minha proteção. Aurora sente-se a dona do pedaço. E é.
Aurora surgiu na minha vida meio por acaso. Foi assim:
Estava na sala dos professores quando chegou minha colega Chris, professora de Português e Inglês e começou a falar sobre um acontecimento terrível que ela presenciara na tarde anterior. Ela saía da escola e viu um grande movimento de alunos da sexta série. Eles tinham nas mãos quatro gatinhos recém-nascidos e colocavam um por um no focinho de uma cachorro da vizinhança. O cachorro puxava os gatinhos com sua pata enorme e os destroçava. Chris ficou horrorizada com aquela cena cruel e desumana perpetrada por crianças de 12 anos! 
Geralmente as crianças gostam de animaizinhos e querem protegê-los, mas não essas criaturas que de criança só tem o nome e a idade.
Chris fala que conseguiu salvar uma gatinha; ela literalmente tomou das mãos da molecada. Ela leva a pequena felina ao veterinário e compra Pet Formula (leite em pó para filhotes) e  uma mamadeira. 
Segundo o veterinário, a gatinha tem de dois a três dias de vida; é fraquinha, mia muito e ainda está com os olhinhos fechados.
Chris já tem quatro gatos e me oferece a filhotinha. Combinamos de ir buscá-la após o término das aulas, às 23horas. 
Sigo Chris e ela me dá a gatinha com seus pertences e as instruções de como preparar a mamadeira.
Chego em casa e preparo o leitinho dela e penso em um nome para chamá-la. Aurora.
Foi o primeiro nome que veio à cabeça. Fujo dos nomes convencionais como: Fofinha, Mimi, Fifi e afins...Tenho certa criatividade para nomes, vide Ébano, Zéfiro, Branca, Clotilde e tantos outros.
Hoje Aurora está com seis meses e é saudável, ágil, brincalhona, curiosa, investigadora, linda e devo confessar, meu xodó.
E desconfio também que Aurora seja anti Corinthiana. Explico. Têm vário ímãs na geladeira mas ela cismou de pegar o imã que é o símbolo do Corinthians! Tem tanta coisa para ela pegar mas ela faz questão de pegar o imã, colocá-lo na boca e correr pela casa até encontrar um local seguro para escondê-lo.
Eu falo sério com ela, dou-lhe broncas mas nada de Aurora revelar onde escondeu o símbolo do Corinthians.
Acho que minha terrível, arteira e linda Aurora é Palmeirense!










quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Pés Acromegálicos

Eu visitava o Blog Maria Mô da minha colega e amiga Claudia Maria e me encantei com as roupas e os sapatos.
Eu adorava sapatos! E qual mulher não adora?
Mas o problema são meus pés acromegálicos e mesmo antes da Acromegalia eu já encontrava dificuldade para encontrar calçados que me servissem. Eu usava o nº39 e depois passou para o nº40, nº41, nº42 e agora estou no nº43.
Já fui a lojas que vendem calçados masculinos e femininos de números grandes, mas o problema, como já falei aqui antes, é a largura dos sapatos e não seu comprimento.
Meus pés cresceram e são e estão inchados; são muito largos e é muito difícil acomodá-los confortavelmente em sapatos ou sandálias. Restam-me apenas duas opções: usar chinelos de dedo do tipo Havaiana (que na minha infância era coisa de pobre e hoje é fashion) e tênis masculinos.
Para trabalhar ou ir a locais comuns os tênis servem bem; sempre compro nas cores escuras e discretas, não gosto de nada chamativo. E nem preciso chamar a atenção, por mais discreta que procure ser, sou sempre motivo de olhares e comentários nem tanto agradáveis. As pessoas perfeitas têm educação imperfeita. Interessante.
Mas...
E por esse motivo, os pés acromegálicos, eu evito ir a festas, eventos, reuniões etc...Não dá para sempre ir com tênis nem com chinelos. É difícil. É chato. É danado de ruim.
Ás vezes penso que devo ter sido muito perfeita e muito cruel em outras vidas e para pagar por meus erros passados vim nessa vida de maneira totalmente oposta ao que fui.
Não sou bela, não sou perfeita e não sou cruel. Minha aparência acromegálica assusta a princípio mas se puderem me conhecer perceberão que sou boa pessoa.
Sou molenga e condescendente para com bichos e crianças. Comigo eles pintam e bordam. Dominam mesmo. Perguntem à minha belíssima, inteligentíssima e espertíssima sobrinha Beatriz. E perguntem à mãe de Beatriz, a minha também bela irmã Rose a forma como trato os animais.  
Mas vivemos na Sociedade da busca frenética pela juventude e beleza eternas. Isso me lembra o livro de Oscar Wilde "O Retrato de Dorian Gray".
A leitura desse livro me incomodou; tanta futilidade, arrogância, maldade, destruição e idolatria pelo belo (externo). E esse livro foi escrito séculos atrás.
É o que sempre digo: Muda-se o mundo, as coisas, a tecnologia, mas o Homem será sempre Homem. O animal i(racional).
Bom... seguirei em frente com meus pés acromegálicos que me levarão a percorrer muitos caminhos ainda nessa vida.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dor de cabeça

A postagem anterior ficou meio estranha, talvez.
Queria falar sobre lembranças, memórias, chuva, cheiros etc...mas acabou ficando meio o samba do afrodescendente como problemas mentais (isso tudo para não dizer o samba do crioulo doido).
Estou com uma dor de cabeça que já dura alguns dias e hoje atingiu altos picos. Estou também perdendo líquor (fístula liquórica) pelo nariz. Isso já aconteceu antes, mas o líquor tinha cor clara como água e o de hoje tem uma coloração amarelada.
Vou ligar para meu médico amanhã e tomara que ele já tenha voltado da viagem. O cara viaja mais que o ex presidente Lula. Pelo amor de Deus!
Pensei em ir ao hospital do bairro, mas chegando lá, serei atendida e medicada. O problema é  a demora absurda para o preparo do remédio: Buscopan na veia com soro. E é sempre a mesma rotina quando vou a esse hospital:fazer ficha, triagem, médico, Buscopan e tchau. Não resolve muito e o correto seria ir ao hospital onde fiz a maioria das cirurgias e onde meu médico trabalha.
Vou esperar até amanhã e até lá vou preparar um Buscopan.

Cheiro, Sabores & Lembranças

Acordei com o som da chuva. Fui até o quintal e apreciei a chuva caindo e molhando as plantas; as gotículas que ficam nas folhas parecem pedrinhas de brilhante.
Observava esse espetáculo da Mãe Natureza acompanhada de meus gatos que me olhavam como se eu fosse maluca. Enquanto observava e apreciava a chuva lembrei-me de alguns causos  e episódios da minha vida antes da Acromegalia.
Eu adorava sentir cheiros, cheirar...Adorava o cheiro de café fresquinho sendo coado; o cheiro do alho e cebola fritos para temperar o feijão. Mamãe gostava quando eu preparava o feijão, dizia que com o meu tempero ficava mais gostoso. Mamãe era ótima cozinheira e para cada tipo de carne ela preparava um tempero diferente para poder combinar com o gosto mais forte ou mais suave do peixe, frango, carne de porco e de vaca. Aliás, dizemos carne de vaca aqui em São Paulo mas em Pernambuco dizemos carne de boi.
Eu acrescentava pimenta do reino e cominho ao alho e cebola fritos. O cheiro era maravilhoso. Às vezes eu abria os potes de café e de temperos só para sentir o cheiro bom e trazer de volta as memórias boas, tristes e engraçadas que marcaram minha infância e juventude. Hoje não tenho mais olfato, perdi a capacidade olfativa após as cirurgias. No começo foi difícil sentir o sabor dos alimentos, mas agora já estou habituada e a minha memória olfativa continua forte.
...
Cheiros, sabores e lembranças.
Minha avó Mãevelha na beira do fogão de lenha preparando os torrões de café que depois seriam socados do pilão. Como ela dizia, o café seria pisado até virar pó. Em Pernambuco temos outro modo de falar. É a marca de oralidade que cada região tem.
Eu prestava atenção em cada detalhe do trabalho da minha avó e ela me recompensava com torrões de café que eu devorava em segundos e pedia mais; mas ela dizia que não poderia me dar mais porque muito café ofende (mais uma marca de oralidade pernambucana).
O cheiro e o sabor do lambedor de tia Anália. Lambedor é um cozido de ervas, folhas, cascas de árvore e açúcar cristal. Depois de cozido tem-se um líquido espesso, esverdeado, doce, gosmento, cheiroso, e até gostoso. O lambedor era usado para tratar vários males que afligiam nossa frágil saúde no nosso forte, seco e belo sertão pernambucano. Além de curar os males, nos dava sustança. Eu observava tia Anália preparar o lambedor e ela colocava um pouco numa caneca e me dava. Eu adorava aquilo.
Já para os adultos era mais recomendada a garrafada. Servia para tudo; de problemas respiratórios a problemas renais, de dores nas juntas e dores de cabeça. Era um santo remédio. A garrafada era feita também com ervas, folhas e cascas de árvore. Colocava-se tudo isso numa garrafa e completava com cachaça de boa qualidade, a Pitú, muito conhecida nossa. Tampava-se bem e enterrada a garrafa por sete dias. Após esse período, desenterrava a garrafa e a garrafada estava pronta para o consumo.
O cheiro da garrafada era fortíssimo e me perguntava como é que a gente grande conseguia beber aquele líquido estranho.
O cheiro do cuscuz, o cheiro do leite fresco, do leite de coco que Mãevelha fazia: raspava o coco, punha um pouco de sal e água quente. Deixava descansar alguns minutos e depois espremia e coava. Na falta do leite de cabra minha avó fazia leite de coco pra mim.
O cheiro dos pães doces que o vendedor trazia numa cesta presa ao bagageiro da bicicleta.
Além do cheiro dos alimentos eu gostava do cheiro das pessoas, das coisas, da terra...
Adorava o cheiro de chuva, a tão bem vinda chuva naquele meu sertão pernambucano.
O cheiro de óleo Johnson nos cabelo de Mãevelha. Ela sempre passava o óleo nos cabelos recém lavados.
O cheiro dos cabelos de mamãe. Cheiro forte, assim como mamãe.
O cheiro do cigarro de palha feito com fumo de corda por papai.
O cheiro do bolo de araruta de meu avô José.
O cheiro leite condensado com abacaxi no pudinho de Natal que papai tanto gostava. Papai também gostava de sôvête  de mio verde (sorvete de milho verde).
São tantas memórias, tantos cheiros, tantas lembranças boas...São tantas emoções.
E as coisas antigas tinham um cheiro especial, melhor, diferente. Os sabores também eram mais intensos. O sabor e o cheiro das mangas maduras e doces, as melancias que depois se transformavam em bonecos esculpidos pelas habilidosas mãos de meu avô Paipreto.
Tem muita história...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Aparência

Somos julgados pela aparência.
Somos agradáveis se somos bonitinhos e causamos certo receio se não somos bonitinhos.
E não somos apenas nós, os seres humanos e animais racionais; a bicharada também sofre com o excesso de falta de beleza.
Por exemplo: Há oito anos peguei na calçada uma cachorrinha magrinha, fraquinha e com as patas traseiras deformadas. Eu estava regando as plantas de mamãe quando vi uma bela moça caminhar pela rua e deixar a cachorrinha na calçada. Chamei a moça e perguntei porque ela fez aquilo e a resposta foi: "Ah, esse cachorrinho é o mais fraquinho de toda a cria, é feio e é aleijado".
Perante motivos são sólidos e sórdidos, concordei com a bela representante feminina da raça humana bonita e perfeita e peguei a cachorrinha. Meu irmão Fubá adora cães e adorou a canina que a princípio recebeu o nome de Clóvis, pois eu achava que era macho. (confesso ter certa dificuldade em saber o que é macho ou fêmea nesse mundo atual e "mudérno").
Verificamos que Clóvis era fêmea e então recebeu o nome de Clotilde.
Clotilde recuperou-se, ficou gordinha e peluda e destruidora de plantas inocentes.
Hoje Clotilde está com oito anos e continua gorduxa, peluda e saudável. Corre com dificuldade, pois as perninhas curtas e atrofiadas não permitem correr longas distâncias por muito tempo. Para mim não importou nem um pouco a "feiúra e a imperfeição" de Clotilde, importou sim o seu agradecimento e o seu apego a mim. O balançar da cauda, o latido e a alegria ao me ver chegando em casa. Isso sim é belo e perfeito.
E eu...
Estou na Farmácia Alto Custo e aguardo minha senha ser chamada. Uma senhora senta-se ao meu lado e puxa conversa. Conta sua história, fala sobre seus netos, sua vida e seus inúmeros problemas de saúde. E eu só ouvindo...
Num dado momento, quando ela havia esgotado sua reserva de queixas e achaques, me pergunta: "Mas porque você está aqui? Que remédio você pega? Você pega remédio pra alguém? Você não precisa tomar remédio, né? Você parece uma pessoa saudável!".
As aparências enganam.